Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > ENTREVISTA / SÍLIO BOCCANERA

BBC vs. Blair, guerra sem vencedores

Por Bernardo Mello Franco em 17/02/2004 na edição 264

O relatório final de lorde Hutton sobre o chamado Caso Kelly, apresentado no fim de janeiro, trouxe uma vitória aparente para o primeiro-ministro britânico Tony Blair. Hutton fez críticas graves ao comportamento da BBC, maior rede pública de comunicações do mundo, e absolveu o governo das principais acusações que vinha sofrendo. O desgaste provocou um pedido de desculpas da BBC e as renúncias do presidente Gavyn Davies e de seu diretor-geral, Greg Dyke.

Blair e a BBC vinham se enfrentando desde meados de 2003, quando a rede pôs em dúvida as alegações oficiais para a invasão do Iraque – as famigeradas armas de destruição em massa de Saddam Hussein –, atribuindo a uma fonte dos serviços de espionagem a informação de que o governo haveria ‘esquentado’ (sexed up) documentos confidenciais para justificar a guerra. A fonte era o cientista David Kelly, funcionário do Ministério da Defesa, que desceu ao inferno quando o governo decidiu divulgar seu nome e acusá-lo de divulgar segredos de Estado. Kelly não suportou a pressão e suicidou-se, dias depois de prestar um depoimento tenso e hesitante ao Parlamento.

O jornalista Sílio Boccanera – um dos brasileiros mais experientes em assuntos de política internacional, baseado em Londres desde 1982 –, acompanhou de perto o andamento do inquérito e a reação dos britânicos às conclusões de lorde Hutton. Antes de responder às nossas perguntas, fez um resumo do caso. Em sua opinião, a BBC continua sendo a organização em que se faz o melhor jornalismo eletrônico do mundo. Eis o que escreveu:

‘David Kelly era um cientista, especializado em armas de destruição em massa. Participou de missões da ONU ao Iraque para investigar essa questão. Trabalhava como consultor do Ministério da Defesa britânico e era fonte de alguns jornalistas, mais para background do que para citação nominal. No ano passado, um dos jornalistas que o entrevistou foi David Gilligan, da BBC, que trabalhava para a divisão de rádio da rede pública.

Nota importante: a BBC é pública, mas não é estatal, vive de taxa específica para ela, paga diretamente pelo público, sem envolvimento do governo, que não lhe dá verbas. A exceção é o Serviço Mundial, destinado ao exterior, que tem apoio financeiro do Ministério de Relações Exteriores.

Na matéria controvertida que foi ao ar, David Gilligan disse algumas coisas que enfureceram o governo Blair e acabaram gerando conseqüências monumentais. Seus erros (assumidos posteriormente por ele e pela BBC) foram relativamente pequenos e a tendência geral do que reportou estava correta. Mas os detalhes o prejudicaram.

1) Gilligan deu como fonte ‘uma pessoa dos serviços de espionagem’. Kelly, a fonte, era cientista a serviço do Ministério da Defesa.

2) Gilligan disse que, segundo a fonte, o governo Blair tinha ‘esquentado’ (sexed up) o relatório dos serviços de espionagem sobre as armas do Iraque. O cientista negou depois que tivesse usado essa expressão e Gilligan assumiu que as palavras foram suas, embora Kelly tenha de fato insinuado que o governo exagerou. Dois outros repórteres da BBC entrevistaram Kelly no mesmo período e saíram com as mesmas conclusões, mas fizeram matérias mais cautelosas.

3) Pior no caso de Gilligan foi ele ter dito que o governo não só pôs informações falsas no relatório sobre as armas do Iraque, mas teria feito isso sabendo que eram falsas. Isso é mais sério porque acusa o governo de mentir, enganar povo e Parlamento, para justificar envio de tropas e guerra. Foi nessa hora que o assessor de imprensa de Blair ficou incandescente e saiu batendo boca, exigindo pedido de desculpas do repórter e da BBC.

4) Surgiu então o erro da BBC como instituição (que foi assumido depois): ignorou as queixas do assessor de imprensa e, sem investigar direito o que Gilligan tinha feito, tomou a defesa dele. Até porque, como disse depois o diretor demitido, o assessor reclamava sem parar, todo dia, sobre o que se dizia do governo.

5) O governo, via Ministério da Defesa e assessoria do primeiro-ministro, saiu atrás da tal fonte do repórter e acabou descobrindo que era David Kelly. O cientista foi avisado de que não devia ter dado entrevista sem permissão.

Diante da polêmica, uma comissão parlamentar (ainda não estamos falando do juiz Hutton) resolveu discutir o assunto e convocou todas as partes. Gilligan depôs, seus chefes na BBC também, além de Blair, mais o assessor de imprensa do Blair (Alistair Campbell), mais Kelly. No depoimento, Kelly se saiu mal, nervoso e hesitante. Dias depois, ele se suicidou.

Descartadas as teorias conspiratórias habituais, sobra pouca dúvida de que tenha sido suicídio mesmo. Embora Kelly não tenha deixado nada escrito, acredita-se que ele se sentiu tão pressionado pelos eventos que não agüentou mesmo e cortou os pulsos.

Surgiu então a necessidade de se investigar os eventos que tinham cercado a morte de Kelly. O governo convocou o juiz Hutton, aposentado, que passou meses ouvindo gente até apresentar o relatório final em janeiro. Para surpresa de muita gente que ouviu os depoimentos (o público tinha acesso) ou leu sobre eles na imprensa, o juiz exonerou por completo o governo Blair e culpou a BBC por todos os erros. Perderam o emprego: o presidente, o diretor-geral e o repórter da rede. Ninguém do lado do governo foi punido ou advertido.

A parcialidade do relatório Hutton surpreendeu tanto a opinião pública que, segundo as sondagens, os britânicos em maioria tomaram o lado da BBC. Outras pesquisas indicam que a confiança em Blair hoje caiu muito. Em 7/2/04, o jornal The Independent publicou que 54% dos britânicos achavam que Blair mentiu sobre as armas no Iraque e 51% pediam a renúncia imediata dele.

A seguir, sua entrevista:

***

A autonomia da BBC está ameaçada?

Sílio Boccanera – Todos os governos britânicos tentam exercer pressão sobre a BBC, que resiste há 80 anos. A pressão é maior em períodos de guerra, quando os governos de plantão tentam obter cobertura ‘patriótica’ (ao estilo da Fox News americana, presumo), mas a BBC resiste. Testemunhei isso na época da Guerra das Malvinas, quando Margaret Thatcher se enfurecia ao ver que os locutores e repórteres da BBC não diziam ‘nós’, e sim ‘os britânicos’.

Mas desta vez a ofensiva pode fazer parte de um plano para desmoralizar e privatizar a rede?

SB – Não acredito que isso faça parte dos planos de Blair ou de qualquer setor do Partido Trabalhista. Mesmo entre os conservadores, poucos ousam ir tão longe em mexer numa fórmula sui generis que dá certo há tanto tempo e não depende das pressões de mercado e audiência – leia-se anunciantes – para criar seus programas e fazer seu jornalismo. Existem, sim, alguns defensores da privatização da BBC, e o mais influente deles é Rupert Murdoch, que ataca ferozmente a organização em seus jornais [The Times e The Sun, entre outros]. Outro era Conrad Black, ex-dono do Daily Telegraph, mas este acaba de ser deposto pelos acionistas porque roubava demais.

A revista The Economist chegou a afirmar em editorial que a linha editorial da BBC era viesada (‘biased’)…

SB – Economist, como outras publicações e entidades conservadoras, acha que a BBC é esquerdista demais. Como eles caem pela direita, não surpreende acharem que a BBC cai para a esquerda. Se você me permite uma opinião pessoal, é simplesmente a organização onde se faz o melhor jornalismo eletrônico do mundo.

******

Estudante de Jornalismo da ECO-UFRJ, editor da revista de cultura Reator (www.reator.org)

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