Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Bem-vindos à história da imprensa brasileira

Por Alberto Dines em 19/04/2011 na edição 638

Apesar do ligeiro atraso vale a pena uma festinha. Para uma nação que passou 308 anos em silêncio, rigorosamente censurada (ao contrário da grande maioria dos vizinhos), e foi impedida de comemorar os 200 de fundação da sua imprensa, um adiamento de dois anos não chega a ser catastrófico.

Para 2008 os logotipos já estavam preparados, 200 e 2008 se integravam visualmente com facilidade. Paciência, agora, dá para brincar com 200+2. De qualquer forma, o nosso jornalismo começa a escapar da clandestinidade para reencontrar-se com a sua história.

Quem tomou a iniciativa foi o então presidente Lula, em 5 de julho de 2010, quando por meio da Lei 12.283 atribuiu a Hipólito da Costa o título de Herói da Pátria – o primeiro. Seu mensário, o Correio Braziliense, foi o primeiro periódico a circular livremente sem interferência de qualquer controle nos dois lados do Atlântico e foi decisivo para nossa emancipação.

No final do ano passado a Editora Abril e a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) lançaram solenemente um curso de pós-graduação em Jornalismo: uma das 14 disciplinas chama-se ‘História do Jornalismo’ com 15 horas/aula, dois terços delas dedicado à imprensa brasileira. Também aqui, Hipólito da Costa ocupou o papel de patrono e figura central. Não poderia ser diferente.

Condição minimalista

Não menos importante, porque ganhou exposição pública, é a iniciativa do Valor Econômico iniciada em 1º de abril: uma série quinzenal denominada ‘Jornais em Pauta’ de autoria do experimentado jornalista e atento historiador Matías M. Molina (autor de ‘Os melhores jornais do mundo’, Editora Globo, 2007).

O foco da série são os jornais do passado, o primeiro ensaio foi dedicado a uma curiosidade bibliográfica alemã (opúsculo não-periódico sobre o Brasil recém descoberto). O segundo focaliza a controvertida e fascinante figura de Luiz Augusto May, o criador de A Malagueta, um dos protagonistas do clássico da historiadora Isabel Lustosa, Insultos Impressos (Companhia das Letras, 2000).

Hipólito da Costa por enquanto só apareceu de passagem como autor de uma recomendação em favor de May. Certamente reaparecerá, não faltarão oportunidades. De qualquer forma convém registrar que as razões que produziram o formidável atraso brasileiro para ingressar na Era Gutenberg – as mesmas que em última análise produziram o embargo noticioso decretado em 2008 – permanecem engavetadas, fora da pauta.

As qualificações do Valor Econômico e do autor da série faziam supor uma reconciliação, ou pelo menos um reencontro da grande imprensa com a verdade histórica.

Estamos diante de uma instituição que abre mão de sua identidade para submeter-se à condição minimalista de corporação. Coloca-se, com isso, num inconfortável paradoxo: pretende ser uma fonte credível e insuspeita para o registro da nossa evolução política, mas não se importa com a suspeição como fonte para a sua própria história.

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