Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > DER SPIEGEL

Bento 16 e a pedofilia

Por Deonisio da Silva em 30/03/2010 na edição 583

A revista alemã Der Spiegel pediu nada mais nada menos do que a abdicação do papa Bento 16. Motivo: suposta omissão em escabroso caso de pedofilia. O padre americano Lawrence Murphy admitiu que abusou de cerca de 200 crianças surdas da escola St. John´s para surdos no Wisconsin (norte), nos EUA, entre 1950 e 1974.

Arthur Budzinski, hoje com 62 anos, informou ao arcebispo de Milwaukee, William Cousins, e a outras autoridades sobre os fatos em 1974, mas Cousins respondeu com gritos, o que fez com que saísse ‘da reunião chorando’, contou. O então cardeal de Milwaukee, Rembert Weakland, e outro bispo do Wisconsin escreveram ‘diretamente ao então cardeal Joseph Raztinger’, hoje Bento 16, que não respondeu à carta, informou o New York Times.

O teólogo Hans Küng foi duro nas críticas ao sumo pontífice, como duro sempre soube ser nas réplicas às perseguições sofridas quando a cúria investia contra ele em décadas anteriores. Küng é o Leonardo Boff da Alemanha, o Joseph Comblin da Bélgica, o Ernesto Cardenal da Nicarágua, todos padres que se tornaram alvo das inquisições que na cúria romana eram patrocinadas pelo então cardeal Joseph Ratiznger, nome civil do atual papa, que dali comandava a poderosa Congregação para a Doutrina da Fé.

Verbete ‘mulher’ remetia a prostituta

Quando ainda cardeal, por ser tão cioso das defesas da fé, perseguiu tanto o teólogo Leonardo Boff, que levou o papa João Paulo II a condenar e pressionar o frade franciscano de tal modo que ele não teve outro jeito senão abandonar o sacerdócio e a ordem a que pertencia, mesmo com todo o apoio de dom Paulo Evaristo Arns. E João Paulo II fez mais: repreendeu publicamente Ernesto Cardenal durante a visita que fez à Nicarágua, diante de gigantesca multidão que recebeu e vaiou o papa.

Por que a pedofilia não vinha merecendo os cuidados de Bento 16?

A pedofilia é muito antiga, mas é recente na língua portuguesa. Aparece apenas nos finais do século 19, no Novo Diccionario da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo.

Não estranhem o viés deste comentário. Para um homem de Letras, o berço das palavras pode revelar indícios percucientes de problemas que, por sua própria natureza, como é o caso da pedofilia, ensejam uma série de artifícios de ocultamento e de disfarces.

Explico melhor: faz poucos anos que o dicionário Aurélio, um dos mais consultados do Brasil, dava, no verbete ‘mulher’, equivalências de significado que remetiam mais de dez vezes a prostituta. Depois de diversas teses defendidas sobre o assunto (de uma delas fui membro da banca examinadora, na USP), o próprio Aurélio mudou a redação do verbete. Deixei registrada num conto intitulado ‘Mulheres Abandonadas’, no livro Cenas Indecorosas (1976), a minha inconformidade. Em antigas edições do Aurélio, o leitor pode confirmar o que estou afirmando.

Silêncio como recurso de covardia

Por que a pedofilia demorou tanto a entrar para o dicionário? Talvez pela mesma razão invocada pelo autor de nosso primeiro dicionário, o padre Rafael Bluteau, de excluir a palavra ‘caga-lume’ de nossa língua escrita, substituindo-a por ‘vaga-lume’. Houve até um concurso para fabricar palavra substituta. De autoria feminina, ganhou ‘pirilampo’. Mas a dinâmica da língua portuguesa tem suas próprias regras e hoje as três estão nos dicionários, só que pirilampo e caga-lume aplicam-se apenas ao inseto, enquanto vaga-lume designa também o lanterninha dos cinemas. Há como que um trauma cercando a Igreja e as sexualidades, cujo contexto tem como referência solar o celibato imposto a padres e freiras.

Aqueles que em tudo veem conspiração, não têm dúvidas de que há uma campanha da mídia contra a igreja. Outros, que apreciam a Justiça, a conversa clara, o trato justo, a lei igual para todos, veem mais coisas no espantoso rol de denúncias que dão como certa e comprovada a atuação de diversos padres pedófilos, no Brasil e no exterior.

Ao leitor leigo – leitores são leigos, como leigos devem ser os poderes do Estado – está parecendo que Bento 16, ao menos quando cardeal, utilizava os poderes que detinha para punir desafetos, inclusive recorrendo a calúnias, delações, interpretações viciadas de textos etc., mas quando o assunto era pedofilia, sem que ainda se saiba por quê, silenciava.

E o silêncio, que é de prata, em certas situações, é intolerável quando recurso de covardia ou manipulação que vitima inocentes, como foi o caso.

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Escritor, professor da Universidade Estácio de Sá e doutor em Letras pela USP; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e De onde vêm as palavras

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/05/2010 Mateus Modesto

    Rodrigo, Deus existe. Acorda! Acreditar que isso é mitologia é um erro. E ser funcionário público ou biólogo não quer dizer nada. É só analisar o preconceito de seu comentário.

    Deus não observa status de uma profissão nem escolaridade dos homens. Ele olha para o nosso coração. ‘Invoque o Senhor enquanto é tempo’.

  2. Comentou em 09/05/2010 Mateus Modesto

    Rodrigo, Deus existe. Acorda! Acreditar que isso é mitologia é um erro. E ser funcionário público ou biólogo não quer dizer nada. É só analisar o preconceito de seu comentário.

    Deus não observa status de uma profissão nem escolaridade dos homens. Ele olha para o nosso coração. ‘Invoque o Senhor enquanto é tempo’.

  3. Comentou em 07/04/2010 linhadireta.tv Medina Jazzadi

    Papa é acusado de esconder ? casos de pedofilia? ,ele é? Cúmplice dos crimes cadeia em? todos, e?? no Bode Velho ,hoje novo video com Medina Jazzadi ele fale sem medo do papa diz derrete o ouro do vaticano para as vitimas da pedofilia, o cara e bravo. e vai pegar nope mesmo

  4. Comentou em 05/04/2010 Rodrigo Dias

    O livro ‘Eunucos pelo Reino de Deus’ conta um pouco da história do ódio da Igreja pelo sexo. E quem acha que ‘pedofilia’ era comum na Grécia e Roma antigas devia conhecer o Amazonas. O problema com esse termo (pedofilia) é que parece que a criança precisa ser ‘poupada’ do sexo, como se o sexo fosse algo sujo e ruim. Ou seja, o próprio preconceito criado por certas religiões é que sustenta que o sexo entre adultos e crianças/jovens seja algo imoral. Talvez seja por isso que temos tantas pessoas sexualmente frustradas, pois a TV, as revistas e outdoors jorram sexualidade a todo momento, mas fora delas o assunto é tabu. Será que nossa sociedade consegue ficar ainda mais incoerente do que isso?

  5. Comentou em 30/03/2010 Roberto Ribeiro

    O termo ‘pedofilia erótica’ (paedophilia erotica em Latim) foi cunhado no século XIX por Richard von Krafft-Ebing (1840 – 1902), como o autor poderia ter pesquisado na Wikipedia ou no Google. Logo, não poderia ter entrado no português antes disso. E se o autor tivesse consultado alguma obra de divulgação científica sobre história da sexualidade, por mais primária que fosse, verificaria que a pedofilia surge apenas no fim do século XVIII. Se o autor tiver a pachorra de ler o conhecidíssimo História Social da Criança e da família de Philippe Ariès (que se encontra em qualquer biblioteca universitária decente, traduzido há mais de 20 anos) entenderá porque. Aconselho a leitura do agradável ‘História da Vida Privada’, para que o autor entenda que os conceitos e os hábitos, até mesmo as taras, mudam de geração em geração. Se o autor gostar de romances, leia ‘As Ligações Perigosas’ e verá que Valmont, o grande tarado do livro, acha desagradável a idéia de seduzir uma moça de 15 anos, não por moralismo, mas pq na época os interesses eram outros.

  6. Comentou em 30/03/2010 Roberto Ribeiro

    O termo ‘pedofilia erótica’ (paedophilia erotica em Latim) foi cunhado no século XIX por Richard von Krafft-Ebing (1840 – 1902), como o autor poderia ter pesquisado na Wikipedia ou no Google. Logo, não poderia ter entrado no português antes disso. E se o autor tivesse consultado alguma obra de divulgação científica sobre história da sexualidade, por mais primária que fosse, verificaria que a pedofilia surge apenas no fim do século XVIII. Se o autor tiver a pachorra de ler o conhecidíssimo História Social da Criança e da família de Philippe Ariès (que se encontra em qualquer biblioteca universitária decente, traduzido há mais de 20 anos) entenderá porque. Aconselho a leitura do agradável ‘História da Vida Privada’, para que o autor entenda que os conceitos e os hábitos, até mesmo as taras, mudam de geração em geração. Se o autor gostar de romances, leia ‘As Ligações Perigosas’ e verá que Valmont, o grande tarado do livro, acha desagradável a idéia de seduzir uma moça de 15 anos, não por moralismo, mas pq na época os interesses eram outros.

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