Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > LEITURAS HEBDOMADÁRIAS

Big-Bang: Veja redescobre a qualidade

Por Alberto Dines em 24/06/2008 na edição 491

Ao aproximar-se dos 40 anos de idade, o semanário de notícias da Editora Abril – o mais antigo do gênero no país – resolveu presentear-se e promoveu um benfazejo reencontro consigo mesmo.


A matéria de capa da edição nº 2066 sobre a origem do universo é, entre outras coisas, uma sutil homenagem ao patriarca do jornalismo brasileiro, Hipólito da Costa, também nosso primeiro jornalista científico (e primeiro jornalista econômico e primeiro jornalista político e primeiro crítico da imprensa e primeiro paladino da liberdade de expressão etc., etc; só não foi nosso primeiro jornalista desportivo porque o título deve pertencer a alguém da família de Nelson Rodrigues).


A esmerada investigação do repórter Rafael Corrêa, primorosamente editada e ilustrada pela designer Andréia Caires, resultou num caderno de 55 páginas onde um assunto impenetrável, até então reservado aos cosmólogos, astrofísicos, físicos, filósofos e teólogos torna-se fascinante leitura.


Tudo começa com o acelerador de partículas (LHC) que está sendo instalado em Genebra para ‘brincar de Deus’: fantástica máquina de 12.500 toneladas que deverá custar 8 bilhões de dólares para reproduzir as especialíssimas circunstâncias que se seguiram ao Big Bang e permitiram o início da vida.


A revista informa que o repórter visitou dez instituições científicas nos dois lados do Atlântico, entrevistou 28 cientistas, inclusive brasileiros, e que o trabalho final foi submetido a uma equipe de sete consultores científicos.


Parabéns, o Todo-Poderoso agradece o empenho e aproveita para lembrar uma frase de Samuel Wainer: ‘Deus só ajuda os bons jornalistas’. Em miúdos: um mau jornalista certamente estaria de costas na hora do Big Bang.


Dilema existencial


Todo jornalismo é científico, empirismo só vale para palpites. Tudo é Big Bang, inclusive os sussurros soprados por fontes secretas ou captados em grampos. Tudo o que acontece, transforma.


E o que acontece (fato ou fenômeno) deve ser zelosamente reconstituído, responsavelmente investigado e apresentado seja no vazio cósmico, no Éden, no morro da Providência, em Roraima ou Navarra (onde o jornalismo virou picadinho).


Sem apuração, checagem e contra-checagem só se produz ‘cascata’ ou sacadas tipo ‘boimate’ que a mesma Veja publicou há um quarto de século e pela qual até hoje não pediu desculpas aos leitores.


O aparato empregado para produzir um dossiê de meia centena de páginas é necessariamente maior e mais sofisticado, porém uma matéria de apenas uma página na seção de Cultura deve ser escrita com igual rigor e probidade.


Se o presidente Lula ou a ministra Dilma Rousseff tivessem algo a ver com o Big Bang ou com as experiências que ocorrerão no acelerador de partículas de Genebra, dificilmente teríamos um relato tão isento e didático. Este é o dilema existencial de Veja: para fidelizar o leitorado optou por transformar-se num periódico político, jornalisticamente incorreto. Parcial: da primeira à última página. Ops, erramos: da primeira à penúltima página, já que a última é ocupada por um ensaísta sereno.


Função do jornalismo


O portentoso Big Bang de Veja tem tudo para transformar-se em marco. Mostrou que jornalismo e esmero não são incompatíveis, exibiu um caminho novo para agarrar o leitor: tratando-o como um ser inteligente.


O ressentimento que a revista tem destilado nos últimos tempos infiltrou-se tanto no ânimo de seus admiradores como nos detratores. O ‘estilo Veja de enxovalhar’ transbordou, tornou-se endêmico: está nos comentários de blogueiros delirantes e de críticos de mídia que jamais pisaram numa redação. A eqüidistância ‘científica’ deste material deveria ser adotada como padrão. Dificilmente incomodará os crentes ou agnósticos, criacionistas ou evolucionistas, apocalípticos ou místicos. Fará pensar – esta é a função do jornalismo.


O que distingue o jornalista não é o diploma, é a capacidade de estimular o intelecto da sua audiência. O resto é almanaque ou espetáculo.


***


As soluções visuais adotadas neste Big Bang liquidam as brincadeirinhas gráficas usualmente denominadas ‘infográficos’. Não são acessórios, nem complementos, organizam o relato (na linha do conceito editing by design desenvolvido por Jan White nos bons tempos em que a Editora Abril se preocupava com estas coisas).

Todos os comentários

  1. Comentou em 30/06/2008 Avelino de Oliveira

    Caro Dinis
    Faz muito tempo que não leio a Veja, apesar de ter sido assinante, ,mas creio que há coisas nela que dá para se ter crédito, por exemplo, a data, o horóscopo(?????), as receitas. Quanto ao demais, é discutível, não li sobre o Big Bang, não sei a seriedade com que foi trabalhado, fico te devendo essa.
    Saudações

  2. Comentou em 28/06/2008 Ricardo Martini

    Em geral, não envio dois comentários ao mesmo assunto, mas desta vez resolvi abrir uma exceção – um dos bons pontos do OI é conseguir transformar o espaço de comentários em um fórum de debates, que é o que falta em outros veículos. O sr. Meiras afirma que a Veja seleciona comentários, evitando os que sejam negativos à suposta (possivelmente real) visão ideológica da revista. Posso afirmar que não só a Veja faz isso: tentei por vezes comentar no site AgenciaCartaMaior, por exemplo, e nunca tive um comentário aceito. E não por ser um tucano ou alguma ave de plumagens mais conservadoras – apenas fiz críticas a textos que julguei adotarem nitidamente um ponto de vista subserviente ao governo, claramente acrítico. Como um bom exemplo do que falo, há uma entrada no blog de Emir Sader que é praticamente um press release do governo federal: o tom laudatório é claro. O interessante é notar que os únicos anunciantes no site são empresas estatais ou órgãos federais e estaduais de governos do PT…será mera coincidência a falta de críticas à política oficial? De qualquer maneira, tenho a impressão de que uma postura tão chapa branca quanto esta, se adotada pela VEJA no governo FHC, seria duramente criticada por comentaristas ativos como o sr. Meiras.

  3. Comentou em 26/06/2008 Eduardo Panda

    Sinto uma certa tristeza no Dines, toda vez que fala na Veja. Constatando a matéria como bem feita, parece afluir um desejo de que a pubicação voltasse ao que era (se é que algum dia foi realmente). Caro Dines, louvável o seu ‘desejo’ (entre aspas pois se trata de uma ilação minha), mas acho que não ocorrerá. Não com os atuais profissionais que comandam sua linha editorial. Leiam no blog do Azenha a respeito de como os cornéis de mídia (encabeçados pela Globo) sempre se comportaram em relação ao país e seu povo: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/por-que-o-governo-lula-perdeu-a-batalha-da-comunicacao/. No mais, o páis não precisa da Veja, tampouco da Globo ou qualquer outro meio de comunicação que não ajam de forma honesta e precisa na divulgação das informações.

  4. Comentou em 26/06/2008 Eduardo Panda

    Sinto uma certa tristeza no Dines, toda vez que fala na Veja. Constatando a matéria como bem feita, parece afluir um desejo de que a pubicação voltasse ao que era (se é que algum dia foi realmente). Caro Dines, louvável o seu ‘desejo’ (entre aspas pois se trata de uma ilação minha), mas acho que não ocorrerá. Não com os atuais profissionais que comandam sua linha editorial. Leiam no blog do Azenha a respeito de como os cornéis de mídia (encabeçados pela Globo) sempre se comportaram em relação ao país e seu povo: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/por-que-o-governo-lula-perdeu-a-batalha-da-comunicacao/. No mais, o páis não precisa da Veja, tampouco da Globo ou qualquer outro meio de comunicação que não ajam de forma honesta e precisa na divulgação das informações.

  5. Comentou em 24/06/2008 Ivo Aldo Auerbach

    Revista Veja? Existe isso? Por que será que todo mundo fala nela? E não é que me deu uma vontade louca de fazer uma ironia? E tomei emprestada a frase do Sr. Silvério Cardoso Corrêa de MG: “Dá até vontade de ler a matéria. Há anos não compro essa revista”! (rs)

  6. Comentou em 24/06/2008 Ivo Aldo Auerbach

    Revista Veja? Existe isso? Por que será que todo mundo fala nela? E não é que me deu uma vontade louca de fazer uma ironia? E tomei emprestada a frase do Sr. Silvério Cardoso Corrêa de MG: “Dá até vontade de ler a matéria. Há anos não compro essa revista”! (rs)

  7. Comentou em 24/06/2008 Sidney Pereira

    “Veja” redescobrindo a qualidade? Falta muito, mas muito mesmo… Enquanto supostos jornalistas como Mainardi, “colunistas” (quais as funções destes?) como Reinaldo Azevedo nos agridem pela falta de classe, pela expressão chula e desprovida de razão, claramente partidária e política, essa tal redescoberta da qualidade só foi vista aqui…. E por falar nisto, talvez a “redescoberta” possa chegar neste observatório. Mas uma real, de preferência…

  8. Comentou em 19/04/2005 Paulo Bandarra

    Existem coisas que ofendem o bom senso. A CIA usou a imprensa para criar no povo americano a idéia de que Saddam possuía armas de destruição em massa e que era uma ameaça aos mesmos. Caiu em desmoralização por ter mentindo por questões de estado. Está sendo reestruturado para parecer que é algo novo.

    O arcebispo de Boston Bernard Law, durante 40 anos, acobertou denúncias contra 70 padres acusados de abusos sexuais contra crianças. Deixa a sua congregação pior do que se houvesse agido com a sua obrigação em prol da verdade, deixando toda a instituição comprometida e sua credibilidade comprometida até o seu fim. O que mais escondia o mesmo?

    Laudos de tortura sobre o regime militar sempre forma visto com descrença pela possibilidade de ser feito pressão sobre o perito para ocultar sinais de tortura e de assassinatos por agentes do governo.

    Agora, no programa Fantástico, soubemos que a imprensa foi mais uma vez usada pelos médicos que atenderam o falecido Tancredo Neves, para aplicarem mentiras ao público. O médico possui a garantia ética de não ser obrigado a soltar boletim sobre a saúde de seus pacientes, sejam eles de que status seja. Mas usar a imprensa para difundir falsos boletins e desinformação por um motivo inacreditável, é deveras preocupante para a classe médica como um todo. Falsificar laudos médicos para inventar doenças que o paciente não possui é uma vergonha.

    Quando um repórter pode ter certeza que um médico está falando a verdade e está sabendo o que diz? Vinte anos depois os colegas que se atrapalharam na condução do caso vem a público revelar que além de não saber o que ocorria com o paciente, ainda usaram da mentira por motivos menos justificáveis ainda. Um suposto golpe de estado nunca cogitado pela mídia, visto que o Presidente José Sarney já havia assumido o cargo no dia seguinte, e a agonia de Tancredo se arrastava junto como a manutenção de mentira em cima de mentira.

    Depois desta absurda conduta que ofende a imprensa e a classe médica, quem vai acreditar em boletins médicos que podem estar escondendo “Razões de Estado”, interesses pessoais ou imperícia?

    Mesmo que estivesse ameaçada a posse do Presidente Sarney não poderiam os médicos ter jogado fora à palavra de uma classe por interpretações subjetivas e de resultados piores ainda. Ditaduras vão, mas a profissão milenar permanece!

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