Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Big-Bang: Veja redescobre a qualidade

Por Alberto Dines em 24/06/2008 na edição 491

Ao aproximar-se dos 40 anos de idade, o semanário de notícias da Editora Abril – o mais antigo do gênero no país – resolveu presentear-se e promoveu um benfazejo reencontro consigo mesmo.


A matéria de capa da edição nº 2066 sobre a origem do universo é, entre outras coisas, uma sutil homenagem ao patriarca do jornalismo brasileiro, Hipólito da Costa, também nosso primeiro jornalista científico (e primeiro jornalista econômico e primeiro jornalista político e primeiro crítico da imprensa e primeiro paladino da liberdade de expressão etc., etc; só não foi nosso primeiro jornalista desportivo porque o título deve pertencer a alguém da família de Nelson Rodrigues).


A esmerada investigação do repórter Rafael Corrêa, primorosamente editada e ilustrada pela designer Andréia Caires, resultou num caderno de 55 páginas onde um assunto impenetrável, até então reservado aos cosmólogos, astrofísicos, físicos, filósofos e teólogos torna-se fascinante leitura.


Tudo começa com o acelerador de partículas (LHC) que está sendo instalado em Genebra para ‘brincar de Deus’: fantástica máquina de 12.500 toneladas que deverá custar 8 bilhões de dólares para reproduzir as especialíssimas circunstâncias que se seguiram ao Big Bang e permitiram o início da vida.


A revista informa que o repórter visitou dez instituições científicas nos dois lados do Atlântico, entrevistou 28 cientistas, inclusive brasileiros, e que o trabalho final foi submetido a uma equipe de sete consultores científicos.


Parabéns, o Todo-Poderoso agradece o empenho e aproveita para lembrar uma frase de Samuel Wainer: ‘Deus só ajuda os bons jornalistas’. Em miúdos: um mau jornalista certamente estaria de costas na hora do Big Bang.


Dilema existencial


Todo jornalismo é científico, empirismo só vale para palpites. Tudo é Big Bang, inclusive os sussurros soprados por fontes secretas ou captados em grampos. Tudo o que acontece, transforma.


E o que acontece (fato ou fenômeno) deve ser zelosamente reconstituído, responsavelmente investigado e apresentado seja no vazio cósmico, no Éden, no morro da Providência, em Roraima ou Navarra (onde o jornalismo virou picadinho).


Sem apuração, checagem e contra-checagem só se produz ‘cascata’ ou sacadas tipo ‘boimate’ que a mesma Veja publicou há um quarto de século e pela qual até hoje não pediu desculpas aos leitores.


O aparato empregado para produzir um dossiê de meia centena de páginas é necessariamente maior e mais sofisticado, porém uma matéria de apenas uma página na seção de Cultura deve ser escrita com igual rigor e probidade.


Se o presidente Lula ou a ministra Dilma Rousseff tivessem algo a ver com o Big Bang ou com as experiências que ocorrerão no acelerador de partículas de Genebra, dificilmente teríamos um relato tão isento e didático. Este é o dilema existencial de Veja: para fidelizar o leitorado optou por transformar-se num periódico político, jornalisticamente incorreto. Parcial: da primeira à última página. Ops, erramos: da primeira à penúltima página, já que a última é ocupada por um ensaísta sereno.


Função do jornalismo


O portentoso Big Bang de Veja tem tudo para transformar-se em marco. Mostrou que jornalismo e esmero não são incompatíveis, exibiu um caminho novo para agarrar o leitor: tratando-o como um ser inteligente.


O ressentimento que a revista tem destilado nos últimos tempos infiltrou-se tanto no ânimo de seus admiradores como nos detratores. O ‘estilo Veja de enxovalhar’ transbordou, tornou-se endêmico: está nos comentários de blogueiros delirantes e de críticos de mídia que jamais pisaram numa redação. A eqüidistância ‘científica’ deste material deveria ser adotada como padrão. Dificilmente incomodará os crentes ou agnósticos, criacionistas ou evolucionistas, apocalípticos ou místicos. Fará pensar – esta é a função do jornalismo.


O que distingue o jornalista não é o diploma, é a capacidade de estimular o intelecto da sua audiência. O resto é almanaque ou espetáculo.


***


As soluções visuais adotadas neste Big Bang liquidam as brincadeirinhas gráficas usualmente denominadas ‘infográficos’. Não são acessórios, nem complementos, organizam o relato (na linha do conceito editing by design desenvolvido por Jan White nos bons tempos em que a Editora Abril se preocupava com estas coisas).

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