Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Blogs surfaram no tsunami

Por Carlos Castilho em 04/01/2005 na edição 310

Os blogs deram um show de sensibilidade e rapidez na transmissão de informações sobre as vítimas e sobreviventes do maremoto na Ásia. Num cenário de destruição generalizada, ficaram nítidas as limitações da imprensa convencional diante da mobilidade dos repórteres-cidadãos.

Mais do que as dificuldades logísticas para cobrir um drama de proporções bíblicas, o fracasso dos grandes meios de comunicação ficou evidente quanto mais nítido revelou-se o curto circuito generalizado na articulação dos neurônios dos editores-chefes, com algumas poucas e honrosas exceções.

Quase todos os jornais e noticiários demoraram muito para perceber o alcance e as conseqüências do tsunami que atingiu 10 países asiáticos no domingo, 26 de dezembro, porque foram traídos pela rotina e não conseguiram descobrir que se tratava de uma tragédia muito maior do que as que freqüentam, periodicamente, as primeiras páginas da imprensa mundial.

A rotina da maioria das redações é avaliar as tragédias em função da macabra contagem de mortos e feridos. As prioridades editoriais são fixadas em função da contabilidade dos necrotérios. Quanto maior o número de dígitos, maior a intensidade e a duração da cobertura.

Este procedimento, consolidado pela sucessão quase matemática de tragédias, anestesiou a maioria dos editores de pauta e, quando surgiu algo fora do normal, criaram-se as condições para um desastre informativo.

Carga emotiva

Os jornais brasileiros atualizaram a contagem de cadáveres diariamente durante mais de uma semana, seguindo uma tendência mundial, com raras exceções como a BBC e o jornal The Guardian, ambos ingleses.

As debilidades flagrantes de cobertura jornalística ficaram ainda mais evidentes quando comparadas com a forma pela qual os sobreviventes, testemunhas, parentes e ativistas passaram a lidar com a tragédia. Os relatos de pessoas comuns, recolhidos por sites com o criado pelo jornal inglês The Guardian (http://www.guardian.co.uk/tsunami/story/
0,15671,1380838,00.html
), conseguiram mostrar o drama dos sobreviventes com uma intensidade sem paralelo entre as reportagens de enviados especiais, muitos deles calejados por outras tragédias.

Em matéria de narrativa, os jornalistas amadores ganharam longe dos profissionais, segundo o testemunho de respeitados críticos da mídia norte-americana, como J.D. Lassica (http://www.newmediamusings.com), que foi um dos primeiros a comparar a performance da grande imprensa e dos blogs na cobertura do maremoto.

Os blogs mostraram toda a carga emotiva que faltou no relato dos correspondentes de grandes jornais, sem cair na pieguice ou na exploração da dor alheia. A rotina de trabalho da maioria dos repórteres simplesmente impediu que eles deixassem a sua sensibilidade aparecer numa situação crítica, que escapou de todos os parâmetros conhecidos em matéria de desastres naturais.

Visão objetiva

O técnico indiano em comunicações Dilip d’Souza (http://www.blogger.com/profile/4337847) foi um dos primeiros a enviar notícias da zona devastada, usando o seu telefone celular para mandar ‘torpedos’ contando como os sobreviventes procuravam ajudar-se uns aos outros (http://desimediabitch.blogspot.com). As mensagens via celular foram o único recurso que funcionou na maioria das áreas atingidas pelas ondas gigantes, depois que a falta generalizada de energia elétrica emudeceu os telefones e derrubou as conexões pela internet.

O blog The South-East Asia Earthquake and Tsunami, mais conhecido pela sigla SEA-EAT (http://tsunamihelp.blogspot.com) também quebrou paradigmas quando passou a destacar a ajuda aos sobreviventes, enquanto a opinião pública mundial ainda procurava entender o que acontecera em 10 países do sudeste asiático. O SEA-EAT passou a ser uma espécie de ponto de encontro dos blogueiros independentes da região e uma referência para as organizações internacionais de ajuda humanitária.

As informações divulgadas pelos repórteres amadores permitiram uma visão mais objetiva das necessidades reais de cada região, pois os governos tradicionalmente inflam estatísticas de mortos e desabrigados para impressionar doadores e buscar uma fatia maior da ajuda financeira e material das organizações estrangeiras.

A página Cyberjournalist (http://www.cyberjournalist.net/news/001804.php), patrocinada pelo American Press Institute, listou quase 20 blogs de jornalistas autônomos, profissionais e amadores, com informações colhidas diretamente das áreas atingidas.

Autoria compartilhada

O verdadeiro papel dos jornalistas amadores como Dilip d’Souza ainda está por ser contado, porque a maioria estava mais preocupada em ajudar do que em contar sua experiência. Os repórteres-cidadãos passaram por sua pior prova desde o surgimento do fenômeno blog – e suas notas e reportagens foram melhores e mais quentes do que as dos jornalistas profissionais.

O jornalão indiano The Times of Índia (http://timesofindia.indiatimes.com/articleshow/974504.cms) reconheceu explicitamente que os blogueiros foram mais rápidos e mais eficientes do que os profissionais de mídia. E a Associação de Jornalistas do Sudeste da Ásia (http://www.saja.org/tsunami.html) pôs de lado a polêmica sobre quem pode ou não exercer a profissão, colocando quase que apenas blogs na lista de endereços fundamentais para obter informações sobre vítimas e sobreviventes do maremoto.

A grande imprensa perdeu em agilidade e profundidade até nos quesitos informação de background e pesquisa. A Wikipedia, uma enciclopédia escrita por colaboradores independentes e anônimos, produziu em cinco dias uma sucessão de verbetes (http://en.wikipedia.org/wiki/2004_Indian_Ocean_earthquake) sobre a tragédia reunindo material inédito até mesmo na imprensa.

Para os especialistas do Instituto Poynter (http://www.poynter.org), uma respeitada instituição de pesquisas sobre jornalismo nos Estados Unidos, a Wikipedia fez a mais completa reportagem sobre o maremoto usando principalmente contribuições de gente comum, jornalistas amadores, cientistas, professores e uns poucos jornalistas profissionais. Para quem deseja estudar como a informação é produzida fora das redações, o caso da enciclopédia gratuita e produzida em sistema de autoria compartilhada, onde todo mundo corrige todo mundo, é um prato cheio.

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Jornalista e pesquisador de mídia eletrônica; e-mail (ccastilho@gmail.com)

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