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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALISMO ECONÔMICO

Boas matérias fora da rotina

Por Rolf Kuntz em 10/08/2010 na edição 602

Jornais ainda podem fazer diferença. A notícia do vazamento de dados de 12 milhões de inscritos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), publicada pelo Estado de S.Paulo na quarta-feira (4/8), é um típico trabalho de jornal. Outro bom exemplo é a matéria ‘Banco Mundial desaconselha trem-bala para país emergente’, apresentada pela Folha de S.Paulo três dias depois, no sábado (7). Informações desse tipo aparecem ocasionalmente em blogs, mas ainda não são a marca dos meios eletrônicos.

Segundo a Folha, técnicos do Banco Mundial apontam que a China reúne condições para explorar trens de alta velocidade – alta densidade populacional, população em crescimento vegetativo, elevação da renda e saturação de corredores de transporte. O trabalho menciona também, mas sem detalhar, características políticas e econômicas propícias a esse tipo de investimento. Outros casos são examinados e vários pré-requisitos são enumerados. O Brasil atende a poucos, segundo quadro publicado juntamente com o texto.

A matéria fornece pontos de partida para uma discussão pública sobre temas como custo do projeto, preço das passagens, projeção da demanda e saturação de corredores. Segundo estudiosos, informa a reportagem, uma alternativa mais barata, eficiente e economicamente mais viável seria a adoção do trem expresso. Quando se trata de um investimento estimado em R$ 64,7 bilhões, uma revisão da experiência de outros países e um pouco menos de otimismo nas projeções de demanda e um pouco mais de cautela na comparação de alternativas e de custos é com certeza recomendável. Talvez se conclua pela conveniência do projeto. Mas vale a pena um debate mais cuidadoso antes do comprometimento de recursos numa obra tão cara.

Boa notícia

Outra boa história da semana, talvez com menos charme mas muito oportuna, foi manchete do Valor na quarta-feira (4). A reportagem descreve a fase de concentração no setor de frigoríficos e mostra como o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem ajudado grandes grupos, como JBS e Marfrig, a consolidar seu domínio sobre o setor. A matéria fornece bons elementos para a discussão sobre o papel do BNDES – reforçado com recursos do Tesouro – como financiador de grupos empresariais poderosos e com acesso a fontes internacionais de recursos.

A boa notícia da semana veio da área dos preços ao consumidor. A inflação amansou e as bolas de cristal do mercado financeiro e das consultorias passaram a projetar números menores para este ano e para o próximo. As projeções ainda apontam números acima do centro da meta, 4,5%, mas as preocupações com a alta de preços parecem menores. Em julho, a baliza principal do governo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), subiu zero por cento em junho e 0,001% em julho. Foram dois meses de variação praticamente nula. 

 O Banco Central pode ter acertado quando reduziu de 0,75 para 0,50 o aumento de juros, na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Segundo os críticos, pode ter errado antes, quando começou a elevar os juros. Essa discussão dificilmente levará a um consenso. Mas o recuo da inflação, fato importante para os consumidores e também para o governo, vale um bom tratamento da imprensa, até para se avaliar se a acomodação dos preços será duradoura.

O Estado de S.Paulo publicou uma pequena chamada no pé da primeira páginas (‘Com ajuda de alimentos, persiste a inflação zero’) e um material detalhado no caderno de Economia – acompanhado, naturalmente, de alguma especulação sobre como ficarão os juros depois da próxima reunião do Copom. A Folha relacionou a paradeira dos preços com a desaceleração da economia e também tocou nos juros logo na apresentação da matéria. O Globo deu menos importância à boa notícia e destacou previsões sobre o aumento de preços de alimentos e de serviços: deverão, segundo a reportagem, subir neste ano bem mais que a média dos preços ao consumidor.

Penas de confisco

Os problemas da Gol na virada do mês – voos suspensos, atrasos e muita confusão nos aeroportos – foram tratados como assuntos econômicos por alguns jornais e como temas de reportagem geral, por outros. Qualquer das duas decisões é justificável. Só não é justificável deixar passar o excelente material preparado pela organização Contas Abertas sobre os investimentos da Infraero. Até junho, a empresa investiu só 11% das verbas previstas para o ano. Nem todos os jornais publicaram o dado no dia seguinte à divulgação. Transporte aéreo continua sendo um assunto muito quente, não só por causa do problema da Gol, mas por causa dos compromissos oficiais para a realização da Copa e dos Jogos Olímpicos e também, é claro, das necessidades normais dos brasileiros. Num país do tamanho do Brasil, esse tipo de transporte não é luxo.

O material do Estado de S.Paulo sobre as dificuldades de empresas brasileiras na Venezuela também fez diferença. Na sexta-feira (6/8), o jornal informou sobre os problemas de companhias com parcerias de investimento no país – o dinheiro venezuelano não sai – e envolvidas em obras de infraestrutura. Um projeto de lei aprovado em primeiro turno e dependente de uma segunda votação estabelece penas de confisco em casos de atraso na realização de obras. Dadas as condições de financiamento, atrasos são altamente prováveis. O assunto talvez entrasse na agenda do presidente Lula, em seu encontro com o colega venezuelano no fim da semana.

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