Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > IMPRENSA PARAENSE

Briga de foice pela liderança

Por Lúcio Flávio Pinto em 06/01/2009 na edição 519


Se a notícia que Romulo Júnior anunciou no fim de ano for verdadeira, pela primeira vez a opinião pública terá a oportunidade de tirar a prova dos nove sobre qual é o jornal que mais vende em Belém, O Liberal ou o Diário do Pará.


Quase três anos depois de praticamente fugir do IVC, O Liberal voltará a ser auditado pelo Instituto Verificador de Circulação, a mais acreditada fonte de informação sobre a tiragem dos jornais brasileiros? A notícia foi dada, de forma telegráfica e um tanto imprecisa, como de hábito, pelo presidente-executivo do grupo de comunicação, Romulo Maiorana Júnior, durante a festa de confraternização de fim de ano da empresa. No seu pronunciamento, ele anunciou: ‘Na mídia impressa os jornais O Liberal e Amazônia posicionam-se – como sempre foram – líderes no mercado, já em janeiro sob aferição do IVC’.


A mensagem, que é intencionalmente vaga, estaria codificada. Nenhum dos dois jornais dos Maioranas é considerado líder do mercado no momento. O Liberal perdeu a primeira posição para o Diário do Pará há pelo menos quatro anos e o Amazônia jamais conseguiu ultrapassar o jornal do deputado federal Jader Barbalho. Mas os Maioranas teriam em seu poder informações, produzidas por encomenda, que indicariam uma queda acentuada da circulação do Diário nos últimos meses.


Com base nesses dados, decidiram voltar a se filiar ao IVC, do qual se desligaram em 4 de maio de 2006 para serem auditados pelo instituto, que começaria o trabalho exatamente no dia seguinte ao da saída. O IVC constatou, em duas auditagens realizadas em 2005, que a informação jurada fornecida pelo editor de O Liberal aumentava artificialmente a tiragem do jornal, de 100% até 140% em relação aos valores reais.


Auditagem escondida


Segundo os levantamentos em poder dos Maiorana, mantidos em segredo, nos últimos tempos O Liberal teria recuperado a posição anterior. Por isso, seria a hora de voltar a contar com o prestígio da marca do IVC, que as agências de publicidade de amplitude nacional exigem para poder fazer a programação regular das verbas da mídia. No entanto, se de fato foi iniciado, o processo de nova filiação do jornal ainda está em curso no instituto, que tem sua sede em São Paulo. O Liberal não voltará a fazer parte dos clientes do IVC apenas porque quer de novo. Antes, terá que se submeter a uma auditagem prévia e atender as exigências feitas pela instituição. O IVC não se manifestará a respeito até que o processo esteja concluído.


Se isso realmente acontecer, pela primeira vez o IVC terá dois jornais afiliados no Pará (em Rondônia e no Amazonas já há dois diários vinculados ao instituto). Quando O Liberal saiu pelas portas dos fundos, no Norte apenas dois jornais se submetiam a esse tipo verificação de circulação. Hoje, são seis jornais diários, incluindo a folha dos Barbalhos. Se O Liberal for readmitido, também surgirá a oportunidade de, finalmente, se poder contar com dados confiáveis para confrontar a circulação dos três competidores diários da imprensa paraense, embora não haja dúvida sobre a posição inferior do Amazônia, o mais novo de todos.


É no mínimo intrigante: até hoje o Diário do Pará não divulgou uma vez sequer o resultado dos seus boletins de tiragem produzidos pelo IVC. Há mais de dois anos o jornal dos Barbalhos se filiou, aproveitando a desonrosa saída de O Liberal, porque a filiação ao IVC dá prestígio. Seu selo aparece no expediente do Diário, mas o jornal não usou uma única vez os dados do boletim do instituto em sua propaganda, como seria de esperar.


A razão é óbvia: a tiragem do jornal ainda não cresceu o suficiente para justificar sua exibição diante da opinião pública. É provável até que tenha diminuído, seguindo a tendência geral da imprensa escrita no mundo. Já O Liberal, que ficou sem esse trunfo por ter enganado o IVC com falsa informação jurada do editor, não pôde se beneficiar dessa desconcertante circunstância. O jornal dos Maiorana também jamais divulgou a auditagem da sua tiragem, que passou a ser feita por Ernest & Young, empresa de conceito, mas sem sombra da credibilidade específica que o IVC tem quando se trata de publicação impressa.


Chamariz e armadilha


Uma característica comum aos dois jornais é manipular ou sonegar informações ao público. Na edição dominical de 7 de dezembro, por exemplo, O Liberal anunciou, na capa, que saía com 306 páginas em 12 cadernos e cinco revistas. Como 148 páginas eram em formato tablóide, o número correto, convertendo a meia página do tablóide ao formato standard, era de 232 páginas. O Diário do Pará desse mesmo domingo dizia estar com 224 páginas, mas, convertidas as 96 páginas tablóides, sua dimensão correta era de 176 páginas. E essa é a regra de todas as edições, sendo que nelas O Liberal sempre dá a informação (ainda que errada) sobre o número de páginas, informação que só aparece na capa do Diário dominical. Essa omissão se explica pelo fato de que, feito o desconto dos tablóides (em média, mais numerosos no Diário, que só tem menos tablóides aos domingos), O Liberal soma mais páginas do que o seu concorrente.


Em matéria de anúncios classificados, a supremacia de O Liberal, que era absoluta, só se mantém aos domingos. Durante a semana há um equilíbrio entre os dois jornais, com ligeira vantagem do Diário. Não quer dizer que o jornal dos Maioranas já tenha uma receita de anúncios populares superior à da folha dos Maioranas, mas que o mercado se equilibrou bastante, com tendência favorável ao Diário. Aí está uma das razões para O Liberal seguir – e superar – a cobertura escandalosa dos fatos policiais restabelecida pelo Diário. Os dois jornais disputam o leitor das camadas de menor capacidade aquisitiva, mas que passaram a ter efetivo poder de compra. E a enxurrada de sangue impresso é o chamariz e a armadilha. A ética é deixada de lado nessa corrida de interesses exclusivamente comerciais.


Investimento compulsório


A festa de congraçamento do grupo Liberal foi a mais exuberante das já realizadas. Desta vez, os publicitários também foram convidados, juntando-se aos funcionários da corporação para proporcionar o número redondo de duas mil pessoas presentes ao encontro. A intenção era exibir grandeza e transmitir poder, renovando a debilitada imagem do império de comunicações. Romulo Maiorana Júnior foi hiperbólico na contabilização das realizações e no anúncio dos projetos.


Embora já com atraso em relação à grandeza demográfica de Belém, que é a 10ª maior cidade do país, a TV Liberal promete adotar no próximo mês a tecnologia digital, que possibilita melhor definição de som e imagem, além da interatividade do telespectador. Para participar da nova era, a emissora contará com 17 câmeras digitais, cinco ilhas de edição também digitais, e uma unidade móvel equipada para transmitir sinal para satélite. Dentre os demais equipamentos de última geração em televisão HD, uma grande atração será um helicóptero para transmissões online em tempo real.


A área de rádios foi quase totalmente incorporada pela Rede Globo, que emprestará seu selo e prestígio (em troca de engolir parte considerável da propaganda local), da CBN, à Liberal AM e FM, reduzidas a retransmissoras, com as ‘janelas’ de programação própria em formato expandido a partir do modelo da televisão.


Um marco, realmente. Não por iniciativa própria do grupo Liberal, mas por imposição da Globo, empenhada em recuperar espaço perdido e em avançar sobre o campo dos concorrentes, com ênfase na Rede Record. Depois de relutar em fazer os investimentos, sem os quais suas emissoras estavam sendo sucateadas, os Maiorana tiveram que ceder, sob pena de perder a parceria da matriz, que tem feito sucessivas intervenções na emissora local. A dúvida que resta dessa expansão é: quem a financia? Em matéria de liquidez, o grupo Liberal não anda bem. Mas parece que não apenas recebeu recursos, como conta com sólidas promessas para avançar. Quais? De quem?


O casco e a ferradura


Tudo indica que as duas maiores redes de supermercados e de lojas de departamento do Pará fizeram suas opções políticas. A revista de vendas natalinas de Y. Yamada, com 64 páginas, saiu apenas no Diário do Pará, dos Barbalhos. A revista de natal do Magazan, do grupo Líder, com exatamente a metade do tamanho (32 páginas), circulou encartada apenas em O Liberal, dos Maioranas.


A reaproximação entre os grupos Yamada e Liberal foi interrompida quando a empresa dos Maiorana levou a protesto um título vencido do anunciante sem uma tentativa de entendimento prévio. O atraso pode ter sido conseqüência de mero esquecimento. As estocadas de O Liberal sobre Fernando Yamada, a propósito da sucessão no Sebrae, também podem ter feito o grupo voltar à política anterior, de só destinar uma cota mínima de anúncios ao jornal, que foi desbancado da liderança do segmento pelo Diário. Apenas a programação para a TV Liberal foi mantida na íntegra. Nem podia ser de outra forma, em virtude da liderança da matriz, a TV Globo.


Já o grupo Líder dá prioridade aos veículos das Organizações Romulo Maiorana, talvez por causa de um dos seus sócios, João Augusto, que assina coluna semanal em O Liberal, e conseguiu o apoio da Associação Comercial para a premiação anual das ORM.


A linha editorial dos dois principais grupos de comunicação do Estado sofre a interferência dessa bipolaridade comercial.

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