Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Caminhos da Índia, caminhos do Brasil

Por Lisandro Diego Giraldez em 10/03/2009 na edição 528

Se os meios de comunicação são um reflexo da sociedade ou a sociedade um reflexo dos meios de comunicação é uma questão que já originou diferentes reflexões – que não são o ponto de discussão deste artigo. O que, sim, não podemos negar, é a influência que as distintas telenovelas tiveram (e continuam tendo) no modelo de sociedade brasileira.

Não é de surpreender que dificilmente possamos esperar qualquer mudança profunda no Brasil, uma vez que de segunda a sábado as famílias assistem a telenovelas que mostram distintos enredos estabelecidos por um diretor com pouca ou nenhuma demonstração de interesse em ajudar a transformar o status quo. Atualmente, os personagens das telenovelas estão presentes nos diálogos das pessoas, quase como se fossem ‘um membro a mais da família’.

Até recentemente, era muito difícil vermos um negro em um papel de importância na sociedade. Ou era retratado como um bandido, ou, no melhor dos casos, o empregado da menor qualificação possível que as normas ‘politicamente corretas’ permitissem, claro.

Oportunidade perdida

Logicamente que não devemos pedir que uma novela entretenha, forme, eduque ou tente transmitir melhores modelos de vida social, e muito menos se a sociedade não quer. Será? Talvez possamos começar a discutir sobre o tema, principalmente quando existe uma tendência a transmitir compactamente mensagens homogêneas sobre o porquê de as coisas serem como são, principalmente no que se refere aos diferentes aspectos da vida das pessoas.

A novela Caminho das Índias, que vai ao ar de segunda a sábado no horário nobre da Rede Globo, não é uma exceção. Apresenta as diferenças existentes entre as distintas castas da Índia e a quase impossibilidade de vínculo entre as pessoas que pertencem a estas. Como é quase uma constante, o principal problema do sistema de castas se restringe a questões de amores impossíveis entre uma mulher da casta rica superior (Maya, representada pela atriz Juliana Paes) e o homem da casta inferior (Bahuan, interpretado pelo ator Márcio Garcia ). Fica a dúvida se a autora Glória Perez está tentando fazer uma comparação entre os fatos que se sucedem nas castas indianas e as ‘castas’ brasileiras. Até agora nada parece sinalizar para isso. Pelo contrário, a história leva, em muitos casos, ao espectador ficar chateado com o estilo de vida indiano, ao conhecer os impedimentos nos relacionamentos que se originam no sistema de castas.

Uma das cenas mais chocantes sucedeu no capítulo em que Bahuan procura atendimento médico para um menino vítima de espancamentos (por ter participado de uma passeata, com a mãe, pedindo direitos iguais para todos, sobretudo o direito à educação), mas o atendimento foi negado pelo fato de a criança pertencer a uma casta inferior – a dos Dalits. Se eu não soubesse que os fatos se narravam na Índia, teria a idéia de que a situação ocorrera em um hospital público do Brasil. Aí a grande oportunidade perdida para mostrar que impedimentos ou discriminações sociais não ocorrem somente em um sistema de castas.

Espaços de convívio comum

Em teoria, no Brasil não existe segregação por motivos religiosos, raciais, ou de gênero, existindo, inclusive, infinidade de leis e estatutos de proteção às crianças, aos idosos etc., mas na prática todos sabemos que só são leis de pouca ou nula aplicação. Basta assistirmos, por exemplo, algum que outro telejornal (dificilmente na Rede Globo) para vermos as condições de atendimento nos postos de saúde do país. Talvez se tivéssemos um sistema de castas, saberíamos, de fato, que ‘algo’ tem que mudar, como tentam, há anos, alguns setores indianos.

Tendo a novela momentos que transcorrem na Índia e outros no Brasil, fico com vontade de assistir a uma história comparativa que apresente as ‘castas’ locais. Por acaso, quantos relacionamentos há entre pessoas da classe A/B e os das classes D/E? Infelizmente, muito poucos, até porque não existem (ou quase não existem) espaços de convívio comum entre as distintas fatias da sociedade, a não ser, provavelmente, nos estádios de futebol, onde a paixão por um time pode ser compartilhada sem grandes discrepâncias entre os torcedores de todos os segmentos sociais.

Certezas duvidosas

Desenvolver uma história com eixo baseada no sistema de castas não deixa de ser interessante, mas parece transmitir, subjetivamente, a idéia tão geral de que tudo em todo o mundo acontece do mesmo jeito, consolidando um discurso que, de tão repetido, parece ser inquestionável.

Recentemente, o governador da Bahia, Jaques Warner, em resposta à violência crescente na cidade de Salvador, afirmou, sem ser questionado pelo repórter de uma afiliada da Globo: ‘O mundo sofre uma onda de violência e a Bahia não é alheia a esse fenômeno…’ No entanto, dados da própria Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP) dão conta de que em 2008 houve 2.189 homicídios em Salvador, representando um crescimento de 31,5% em relação a 2007, quando foram registrados 1.665 assassinatos. Portanto, o governador não falou dos índices e das porcentagens concretos. Caso o fizesse, não poderia afirmar o que afirmou. Quando uma mensagem é difundida afirmando certezas bastante duvidosas, sem serem questionadas, o dano que pode causar é pior que o conteúdo ruim.

Se a novela difunde a idéia da quase impossibilidade de vínculo entre pessoas que pertencem a distintas castas ou as dificuldades de uma criança de ser atendida no pronto-socorro e considerando que os personagens são quase ‘um membro a mais da família’, não vai demorar o momento no qual se acredite que a discriminação social, racial, ou a recusa de um médico, é normal no mundo todo. ‘O que fazer se em todo canto é o mesmo? Se até a novela mostra que a Índia é igual?!’

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Químico, doutor em Fisiologia pela Universidad de Buenos Aires, Argentina, pós-doutor em Neurociência pela Universidad Complutense de Madrid, Espanha e Universidade Federal da Bahia; diretor da Agenciencia – Comunicación Científica

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