Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Candidatas, imprensa e a causa feminina

Por Ligia Martins de Almeida em 15/06/2010 na edição 594

O que a imprensa tem mostrado, embora não discuta o assunto, é que o fato de haver duas mulheres disputando a presidência da República não choca mais ninguém, como sonhavam as feministas no começo do movimento que lutava por direitos iguais. Inegavelmente esta é uma área em que o feminismo pode se considerar vitorioso. Mas será que Dilma Rousseff e Marina Silva refletem a real situação da grande maioria das mulheres brasileiras?

Até outubro, as mulheres estarão em destaque no noticiário político. Semana passada, por exemplo, Dilma dominou as páginas de jornais graças à convenção do PT e ao lançamento ‘oficial’ de sua candidatura. Matéria de página inteira do Estado de S.Paulo de domingo (13/6), com direito a fotos da infância até os dias de hoje, contou a história da candidatura num tom que dispensa matéria semelhante caso ela venha a se tornar presidente. Em mais meia página, a candidata oficial aparece novamente, cercada de balões e políticos, na matéria que diz:

‘De olho no voto feminino, fatia do eleitorado em que a ex-ministra precisa ampliar os índices de intenção de voto, o PT organizou um ato político colorido para ser uma `celebração à mulher´. No material de campanha estão estampados os dizeres `Pátria Mulher, Pátria Mãe´'(O Estado de S. Paulo, 13/6/2010).

As duas são divorciadas, mães e chefes de família. Dilma, 62 anos, viveu o auge do movimento de libertação da mulher e, embora nunca se tenha declarado feminista, é um bom exemplo das feministas da sua juventude. Criada em escola católica e tradicional de Minas Gerais, abandonou o projeto familiar para as meninas de sua geração (casar, ter filhos, ser feliz e conformada para sempre) para entrar na universidade e na luta armada. Depois da prisão, concluiu o curso universitário e fez carreira política, que teve seu auge como ministra (e ministra forte) do governo Lula. Agora, por escolha pessoal do presidente, tenta ser a sucessora.

Um acidente de percurso

Marina da Silva, 52 anos, enfrentou outro tipo de luta. Menina pobre nos seringais da Amazônia, se alfabetizou depois de adulta, cursou universidade e começou a carreira política como vereadora (a mais votada de Rio Branco AC, em 1988), depois deputada federal e senadora. Foi ministra do Meio Ambiente do mesmo governo Lula e saiu – do governo e do partido do presidente – por discordar da política ambientalista. Isso depois de ganhar projeção internacional com o prêmio Champions of the Earth de 2007, da ONU, concedido a outras seis personalidades do mundo.

Enquanto Dilma tenta conquistar o eleitorado feminino (Lula quer que ela seja conhecida como a ‘mãe do PAC’), Marina procura ampliar seu leque para além do estigma de candidata verde: faz questão de dizer que é a primeira mulher negra e pobre a disputar o cargo.

As duas representam, sem dúvida, uma vitória das mulheres. Mas, o que os jornais não discutem – mas deveriam – é o que elas representam para 50% do eleitorado brasileiro, as mulheres. O fato de elas serem mulheres parece ser apenas um acidente de percurso. São pessoas competentes na política que, por mérito ou manobras, chegaram à disputa. Mas será que a presença delas significa um aumento no número de mulheres disputando os cargos à Câmara dos Deputados e ao Senado da República?

O significado para as mulheres

Uma pesquisa feita pelo Tribunal Superior Eleitoral revela:

‘Nas eleições de 2006, enquanto uma mulher foi eleita para cada grupo de 545.898 brasileiras, a proporção diminui para os homens: um foi eleito para cada grupo de 63.168. A proporção de representantes femininas em relação aos eleitos é cerca de nove vezes menor. A constatação resulta de levantamento feito pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Por outro lado, tendo em conta o total de eleitores no país, para cada 372.886 eleitoras, houve uma candidata eleita. Já no caso masculino, um candidato elegeu-se para cada grupo de 41.881 eleitores.

Seria melhor que a imprensa, em vez repetir o tedioso noticiário sobre as atividades, manobras e discursos dos candidatos – já que é preciso falar de todos para não haver acusações de favorecimento – procurasse mostrar o que a presença de Dilma e Marina realmente significam para as mulheres. Enquanto as deputadas e senadoras forem minoria no Congresso, leis que realmente interessam às mulheres (saúde, educação de filhos, igualdade salarial etc., etc.) continuarão engavetadas. Por mais feministas e dedicadas às causas femininas que sejam os governantes, homens ou mulheres.

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