Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Carta Capital

22/01/2008 na edição 469

MÓBILE
Pedro Alexandre Sanches

Um intelectual na televisão

‘Um jovem casal de bailarinos se alterna em recitar um texto de Paul Éluard, dramatizar os versos de um rock de Raul Seixas, executar passos sofisticados de dança. Trata-se de um programa de televisão. O sergipano Fernando Faro comanda uma das primeiras gravações da remontagem do mítico programa Móbile. Criado por ele na antiga TV Tupi, em 1962, o Móbile transformava em tevê poemas concretistas e fragmentos de O Processo, de Franz Kafka, ou de Ulisses, de James Joyce. E voltará ao ar em 2008, quase 50 anos mais tarde.

O retorno sela um momento feliz para um dos homens de tevê e produtores musicais brasileiros mais atuantes das últimas seis décadas. Numa homenagem ao suposto aniversário de 80 anos (ele jamais confirma a idade), Faro assiste ao lançamento do despretensioso livro Baixo – Homenagem ao Maior Produtor da MPB na Televisão (Fundação Padre Anchieta, 168 págs., R$ 15), ao mesmo tempo que goza de súbita e tardia revalorização.

Após longos anos em que a TV Cultura o restringiu apenas à direção do (também histórico) programa musical Ensaio, Faro foi convidado pelo novo presidente da emissora, Paulo Markun, a ocupar o cargo de diretor do núcleo de música. No novo posto, ele enfrenta carga horária intensa e se espalha pela faixa das 21 horas, com um padrão de programas que há décadas desapareceu quase completamente das grades das redes ditas comerciais.

Além do longevo Ensaio (em cartaz na Cultura há 18 anos), às quintas, estão no ar o programa dos músicos ‘de raiz’ Rolando Boldrin (terças) e Inezita Barroso (sábados) e o novo Mosaicos (sextas), que focaliza ícones musicais de várias gerações. Faro ainda faz certo mistério sobre a usina de novos projetos que planeja ativar em breve, além do Móbile. ‘Tem um programa de choro, um de roda de samba’, sinaliza. Menciona Gig, um projeto sobre bandas novas a ser feito em parceria com João Marcelo Bôscoli, filho de Elis Regina, uma das artistas de quem foi mais próximo. ‘Que mais eu ia fazer?’, despista. ‘Ia, não. Vou fazer.’

‘Não’ é a resposta concisa à pergunta sobre se aprecia as homenagens que tem recebido pelos 80 anos. Diz que é confusão demais, em referência ao tributo televisado que recebeu da Cultura, no ano passado. ‘Legal’ é como classifica o livro Baixo (é o apelido que recebeu de outro pioneiro da tevê nacional, Cassiano Gabus Mendes, e que reverteu passando a chamar de ‘baixo’ ou ‘baixa’ toda e qualquer pessoa que encontre). Mas faz ressalva crítica, de quem sempre preferiu estar nos bastidores: ‘É muito sobre mim mesmo’.

O volume não pode ser chamado de biografia, pois é breve e centra em fotos históricas e um texto elucidativo curto de Jefferson Del Rios. Na metade final, Faro faz comentários ligeiros sobre nomes como Aracy de Almeida, Adoniran Barbosa, Cauby Peixoto, João Gilberto, Baden Powell, Ney Matogrosso, Chico Science, Racionais MC’s e Maria Rita.

Parte substancial do livro é ocupada por depoimentos sobre Faro assinados por Oscar Niemeyer, Mino Carta, Chico Buarque, Gilberto Gil, Juca de Oliveira, Hermínio Bello de Carvalho, Homero Ferreira e outros. Esse segmento rende flagrantes documentais preciosos, como no depoimento de Martinho da Vila: ‘Ele sempre dizia, ‘baixo, o show tem de começar bem e tem de terminar bem. No meio, se der, a gente faz alguma coisa. Agora, tem de pensar no início e no fim. Esse é o segredo de um grande espetáculo’.

A menção à fala do amigo suscita enxurrada de recordações, como é de seu feitio. Diz que Martinho inicialmente resistiu à concepção do show Tendinha, que começava com uma galinha viva no palco e terminava com um prato de frango ensopado dividido entre a banda. ‘Me recuso a pegar um cantor, levar para o palco e deixar lá. Isso não conduz a nada’, diz.

Em outro trecho notável do livro, Faro remete a seus ‘fantasmas’ e relembra, emocionado, a morte precoce do pai jogador de futebol, em Laranjeiras (SE): ‘Num domingo, num jogo, bateu cabeça contra cabeça com outro jogador. Foi para casa andando e morreu horas depois da batida’, conta.

Mais tarde, migrante em São Paulo, cursou Direito (sem terminar), foi repórter, editor e diretor de jornal, rádio e tevê (nos anos 70, foi ele quem levou Vladimir Herzog à Cultura), trabalhou em publicidade e tornou-se produtor musical de shows e discos de João Gilberto, Elis Regina, Chico Buarque, Paulinho da Viola e Milton Nascimento.

É dono de um ritmo interno peculiar, que nunca cede às pressas do interlocutor. Ele explica o Móbile, à sua maneira e com um leve sorriso plantado no rosto sempre plácido: ‘É um programa tipo clipe, que não tem começo nem fim. Você assiste, tá valendo’.

A explicação cifrada remete ao modo como dirige o Ensaio (e dirigia o precursor MPB Especial), entre vazios, escuridões, planos fechados em detalhes do corpo, ausência da voz e da imagem do entrevistador (ele).

No decorrer das últimas quatro décadas, entrevistou ali a maioria avassaladora dos nomes mais atuantes da música, sem se permitir preconceitos de idade ou gênero musical. Os Racionais MC’s do arisco Mano Brown estiveram no palco nu do Ensaio, mas ele cita João Gilberto, Roberto Carlos e Rita Lee como exceções que nunca cederam aos convites. Diz que conheceu Mano Brown levado por Rappin’ Hood, na periferia paulistana, e encontrou o rapper de terno e gravata, recém-chegado de um batizado.

É homem de papel crucial na conservação e revalidação da memória da música nacional, mas confessa que também já ajudou a destruí-la, como fez em 1968, quando fazia com Caetano Veloso e Gilberto Gil um dos programas-manifestos da tropicália, o Divino, Maravilhoso. ‘Veio o Exército atrás deles, cheguei ao Cesar Camargo Mariano e falei: ‘Temos de dar um fim nisso, porque os caras podem usar contra os meninos. Apaguei, burro que fui’.

Em 2008, na gravação do novo Móbile, orienta a bailarina Ana Catarina Vieira a pronunciar o texto de Éluard sobre a liberdade em voz baixa, quase sussurrante. ‘Aceitei a sugestão do Markun (de refazer o mítico programa dos anos 60) e perguntei: ‘Você quer mais popular ou mais erudito?’ Ele disse: ‘Meio erudito’. Estou fazendo’, diz, satisfeito de nadar contra a corrente.

O modo como conheceu os bailarinos Ana Catarina e Ângelo Madureira é revelador da personalidade (e da curiosidade) de Faro. Ele havia ido ao show da (pouco conhecida) cantora Jane Lago, enganou-se, entrou no teatro ao lado, ficou. Conheceu e se entrosou com a dupla, que ganharia o Prêmio APCA (da Associação Paulista de Críticos de Arte) de dança contemporânea, no fim de 2007.

Evoca mais princípios norteadores do Móbile, o de ontem e o de hoje: ‘Me grilava que as pessoas estavam juntas no camarim, depois se encontravam em frente à câmera e diziam ‘que bom que você está aqui’. Não pode, fica falso demais’.

Lembra a participação do poeta concretista Décio Pignatari no velho Móbile. ‘Eu disse: ‘Baixo, você está no ar, faz alguma coisa’. Ele ficou aturdido, começou a fazer aviãozinho de papel, falou do eco. O que valeu, para mim, foi esse pedaço de aturdimento, de ele querer fugir. Era informação pura, sem ruídos, entende?’

E arremata, ao criticar o modo como a tevê lida com a música em 2008: ‘Como dizia Gertrude Stein, uma rosa (interrompe-se)… Uma música é uma música é uma música. Uma música não é uma música, é um indício de um contexto’. Silenciosamente, Faro tem personificado, ele próprio, a música, o indício e o contexto.’

 

KAKÁ
CartaCapital

Repercussão planetária

‘Se Phileas Fogg, o excêntrico cavalheiro inglês criado por Júlio Verne, deu a volta ao mundo em 80 dias para ganhar uma aposta com os amigos do Reform Club, a reportagem de capa em que CartaCapital informou a respeito do pedido do promotor Marcelo Mendroni de interrogar Kaká sobre suas relações com a Igreja Renascer em Cristo deu a mesma volta em menos de uma semana. Milagres da internet e de uma informação cada vez mais globalizada, mas decerto também pelo fato de que a ‘infame matéria’, conforme a definição da assessoria de imprensa da Renascer, trazia à luz fatos de interesse público. Diga-se que a mesma assessoria, quando os cônjuges Hernandes foram presos nos EUA, atribuiu a culpa ao demônio, travestido, obviamente, de agente do FBI.

Quanto ao interesse público da reportagem de CartaCapital, concordou, por exemplo, a Associated Press, sem deixar de sublinhar, como a revista, que Kaká de nada é acusado e o papel que lhe cabe é apenas o de testemunha. Nos EUA, a notícia também apareceu na Sports Illustrated e no canal de tevê Fox Sports, que colocou em seu portal uma página destinada a comentários capazes de desencadear um debate não somente sobre o fato em si, mas também sobre a relação entre esporte e religião.

Na Grã-Bretanha, foi The Guardian o jornal que trouxe a informação, na França cuidou disso o Le Monde, enquanto on-line a história foi contada pelo site 20minutes.fr. Na Espanha, foi analisada tanto por Marca, o diário esportivo de maior tiragem, quanto por El Mundo Deportivo. Na Itália, La Gazzetta dello Sport abriu um fórum sobre o assunto e a notícia também apareceu no Corriere dello Sport-Stadio, TuttoSport, Corriere della Sera, Il Messaggero e na agência Ansa. Na América Latina, melhor rapidez e reflexo foi revelada pela ESPN, mas a informação também apareceu em inúmeros diários.

Até na China a reportagem encontrou ecos, depois que a agência Xinhua fez dela larga divulgação. Não faltaram repercussões no Azerbaijão, graças à agência Trend News, e na Malásia, por obra do Malaysia Star. Enquanto isso, o France Football prepara uma reportagem de uma página para a próxima terça 22.

A repercussão internacional que também no Brasil desencadeou os mass media a ponto de levar Bárbara Gancia, âncora de Parabólica, programa esportivo da BandSports, a dedicar espaço ao assunto, pode ser explicada com extrema facilidade. Primeiro, porque CartaCapital não fugiu à obrigação de respeitar a verdade factual. Segundo, porque Kaká é figura pública de fama mundial. Por isso, a reportagem deu a volta ao mundo, não em 80 dias, mas em uma semana.’

 

MACBOOK AIR
Felipe Marra Mendonça

Sai outro coelho da cartola de Steve Jobs

‘Mais um ano, mais uma Macworld. A feira anual de tecnologia tem como ponto principal a apresentação de Steve Jobs, CEO da Apple. Em 2007, o evento foi marcado pelo lançamento do iPhone, que revolucionou a indústria de celulares. Os aparelhos mostrados na terça-feira 15 talvez não tenham o mesmo impacto do celular da Apple, mas demonstram que a empresa californiana não perdeu o principal atrativo aos consumidores: a ousadia.

O MacBook Air fica desde já como candidato ao principal lançamento da área de tecnologia em 2008. É o notebook mais fino da história, tanto que Jobs o retirou de um envelope para demonstrar a espessura. O modelo segue as linhas gerais traçadas por Jony Ive, inglês responsável pelo design da empresa, mas fica evidente o trabalho que os engenheiros tiveram para fazer caber um computador ‘inteiro’ dentro do chassi. ‘Conseguimos produzir um Mac aqui dentro’, disse o executivo.

O desafio principal foi reduzir as dimensões da chamada ‘placa-mãe’ e do chip Intel. Parte da apresentação foi feita por Paul Otellini, CEO da fabricante de chips, que mostrou diminuição de 50% no tamanho do processador. Mais espaço foi conseguido com a decisão de não incorporar um drive óptico interno. O MacBook Air não pode ler ou gravar CDs e DVDs. Existe um drive externo para isso, vendido em separado.

Uma olhada rápida pelo chassi do computador mostra poucas portas para a conexão de acessórios, a justificar o codinome Air. Não há sequer uma porta para uma conexão de rede com fio. O computador pode fazer conexões sem fio ou Bluetooth. Uma vantagem da falta de portas é o design limpo e liso. De outro lado, o notebook não permite a troca de baterias rapidamente pelo usuário. Quando ficarem desgastadas, é preciso enviar o computador para a Apple, que as troca remotamente, sem cobrar mão-de-obra ou custos de envio. Pode até ser um serviço honesto, mas é uma reclamação que também foi feita em relação ao iPhone, pois é complicado ter de ficar sem o próprio computador, quando enviado ao ‘conserto’.

Outro anúncio importante foi a criação do serviço de aluguel de filmes dentro do iTunes, loja virtual de música e vídeo da empresa. A maioria dos títulos será disponibilizada em alta definição, um incentivo para consumidores que tenham comprado tevês de tela grande. Os lançamentos têm preço de 3,99 dólares por aluguel e os filmes no catálogo, 2,99 dólares. As versões em alta definição custam 1 dólar a mais. Todos os principais estúdios terão seus filmes no serviço, como 20th Century Fox, Paramount, Warner, Universal, MGM e Sony Pictures.

‘O aluguel de filmes pelo iTunes traz instantaneamente excelentes títulos de todos os estúdios diretamente para o iPod, o iPhone, a tevê ou o computador. Não será preciso ir até a locadora ou esperar pela chegada dos DVDs via postal’, disse Jobs. O filme alugado pode ser visto em até 30 dias a partir da data em que foi baixado. Desde que iniciado, estará disponível por 24 horas.

O serviço pode fazer para os filmes o mesmo que ocorreu com a música digital. Retirar da equação o meio físico, como o CD ou o DVD, e permitir a entrega mais rápida para o consumidor a um preço menor.’

 

JORNALISTAS LITERÁRIOS
José Onofre

Em busca da literatura perdida

‘Jornalismo literário é nome, no Brasil, do new journalism, expressão cunhada pelos norte-americanos. Tanto um como outro pretendem a mesma coisa: utilizar recursos técnicos da literatura para acondicionar melhor as informações recebidas. Esse tipo de jornalismo começou a ser praticado na década de 60 e foi então apresentado como novidade.

No decorrer de todo o século XIX, jornalistas andaram a cobrir guerras ou expedições por toda parte. E valiam-se dos mais variados cursos – entre os quais, mentiras – para tornar os textos mais interessantes para o leitor.

Agora, no Brasil, sai o livro Jornalistas Literários – narrativas de vida real por novos autores brasileiros (Summus, 320 págs., R$ 53,90), organizado por Sergio Vilas Boas. São trabalhos dos alunos do curso de pós-graduação de Jornalismo Literário. As reportagens e perfis não parecem ter precisado muito dos recursos literários. O perfil do jornalista Marcos Faerman se destaca fácil: tem a melhor história e a melhor organização, apesar de alguns tropeços sentimentais.’

 

FOTOGRAFIA
Camil Alam

Estética destinada a provocar

‘Toda celebridade ou modelo que se preze não tem o currículo completo antes de passar pelas lentes de David LaChapelle. O fotógrafo americano conhecido por criar imagens surreais e provocativas já clicou dezenas de famosos, de Angelina Jolie a Marilyn Manson, de Pamela Anderson a Alexander McQueen, nas mais diferentes situações.

Algumas dessas imagens chegam ao País na mostra Heaven to Hell: Belezas e Desastres, em cartaz a partir da quarta-feira 23 no Museu Brasileiro da Escultura, em São Paulo. Consumismo, beleza, sexo e religião são temas presentes em retratos marcados pela postura crítica, e quase sempre bem-humorada, do fotógrafo.

Afeito a polêmicas, ele transforma a Santa Ceia em uma festa de rappers ou coloca lindas mulheres em paisagens decadentes. Chico Lowndes, responsável por trazer a mostra ao Brasil, observa que as obras são um retrato da sociedade atual e, ao mesmo tempo, buscam escapar da realidade hipócrita que as alimenta. Para ele, ‘salta aos olhos uma contraposição entre o testemunho de um mundo real e a criação de um mundo fantástico e absurdo’.

Na exposição, é possível também conhecer os trabalhos audiovisuais do fotógrafo. O documentário Rize (2005), sobre uma dança de rua de Los Angeles, e diversos videoclipes dirigidos por ele serão exibidos no auditório do museu. É interessante assistir aos clipes depois de ver as fotos. A estética das imagens paradas de LaChapelle pode ser facilmente reconhecida nos vídeos – seja no exagero de Rich Girl, da cantora americana Gwen Stefani, seja na depressão de Natural Blues, de Moby.’

 

 

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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