Segunda-feira, 23 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº983
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 29 E 30/3

Carta Capital

01/04/2008 na edição 479

CINEMA
Rosane Pavam

Juno salve a América, 27/3

‘´Juno` ajuda a matar o tempo que tanto lutamos para ter. Por vezes é engraçado e pode nos fazer chorar numa cena de parto, por exemplo. Sua trilha, feminina e suave, embala o espectador desde a animação de abertura, de um jeito que já começa a inspirar a publicidade brasileira. Há algumas piadas no diálogo, às vezes em torno da possibilidade de um feto ter unhas. Imagino que este filme americano de emoções misturadas seja a escolha perfeita para um sábado de devedês daqui a seis meses.

Enquanto isto, talvez a obra merecesse ser um pouco mais discutida, até de maneira menos complacente, por todos os que entendem que as artes reproduzem modos de ser e pensar. Este filme rendeu um Oscar de roteiro original à escritora Diablo Cody. E não é uma bobagem inocente, como de resto nenhum filme.

O sucesso comercial de ´Juno` aconteceu possivelmente porque o filme ajudou o americano a relaxar sobre o que ele próprio representa. Chega de se sentir excluído das simpatias do mundo! O diretor Jason Reitman veio para dizer que a América vale a pena, não importa a falta de escrúpulos que por vezes rodeie suas ações. Ser pragmático não é crime, se os fins são bons.

O filme gira em torno da menina que engravida de um corredor nerd, não tem coragem de abortar porque a recepcionista da clínica é estúpida e decide, com apoio do pai e da madrasta, doar seu filho a ricos responsáveis. ´Juno` ridiculariza as clínicas de aborto, ainda permitidas na América, em nome do direito da livre escolha da grávida: é melhor que a mulher prossiga uma gravidez, mesmo que não tenha condição de criar seu filho, do que interrompa o erro original em um lugarzinho decadente. Curioso que o filme critique as recepcionistas sem noção e não informe sobre a qualidade dos médicos abortistas que ali trabalham.

Diablo Cody joga para a platéia um ponto de vista intrigante. Se dôo meu bebê (a ´coisa´, segundo Juno) à ambiência da classe média em ascensão, não padeço de um constrangimento moral, antes contribuo para dar à criatura uma boa chance de vida e crescimento, além de favorecer a reprodução desta classe enquanto sigo a vida tocando ao violão uma canção que pode grudar.

Juno tem 16 anos e é bastante prática a respeito da vida que deseja dar para o filho em gestão. O problema não está em Juno, que pensa como quem tem 16. O problema é sua mentalidade infantil se estender a todos dentro do filme. Os pais divertidos, que querem livrá-la do constrangimento da juventude perdida, que jogo fazem? Eles afastam um problema e podem respirar um instante. Este fôlego novo vem ao final do filme, quando o cachorrinho tão desejado pela madrasta é finalmente aceito no lar (uma incongruência, afinal; o bicho tinha o acesso negado por conta dos problemas alérgicos da protagonista, não de sua gravidez).

Mas o que acontecerá a Juno no futuro, sem contar com o que ocorrerá ao ser que gerou? Em nome de pretensa incorreção política, ou com o objetivo de resolver o roteiro e as aflições imediatamente, o filme dá as costas, em primeiro lugar, à necessidade de um adotado de ter acesso a suas origens. Em segundo lugar, desconsidera a discussão dos problemas futuros das mães doadoras.

Mulheres que doam seus filhos sofrem ao relento, conforme sugere dissertação de mestrado publicada há oito anos no Brasil sob o título ´Mães abandonadas: a entrega de um filho em adoção` (editora Cortez). Neste trabalho, a pesquisadora Maria Antonieta Pisano Motta descreve as aflições e sonhos terríveis de várias mães brasileiras que precisaram ou mesmo desejaram doar seus filhos e se viram, com o tempo, arrancadas de algo, uma essência, sem que alguém se compadecesse de seu sofrimento e todos seguramente as marginalizassem.

A inquietação provável e quase certa de um adotado de ter acesso a seus pais biológicos não é uma escolha da mãe, como sugere ´Juno´, antes um direito do filho em busca de compor a própria história. E a mãe que doa também precisa ser compreendida, por constrangedor que isto possa parecer à zelosa sociedade. No Brasil, este acompanhamento social à mãe deveria ser mantido em lei, já que o aborto aqui é crime e esta mulher, caso não veja condições para sustentar seu filho, estará diante da única saída possível ao fazer a adoção.

Diablo Cody, ali nos Estados Unidos, não está muito preocupada com tudo isto, é claro. Em nome da visão politicamente incorreta, quer esnobar um direito assegurado, porque os direitos são todos seus, inclusive o de fazer um bom pé de meia com um texto esperto. Jason Reitman é seu par perfeito dentro do sistema hollywoodiano. Ele traduz em imagens esta liberdade de ação advogada. O filme é mulherista dentro do pior ângulo: ele transforma em vilão um homem de quase quarenta anos que coleciona guitarras Les Paul. Meninas, vamos trancar estas coisas barulhentes em um quarto, como faz a esposa do filme, e depois passear pelo shopping! Estranha maneira de criticar a imaturidade das pessoas.

O tempo passa. Não faz muitos anos, em 1999, o diretor Sam Mendes construía uma janela diferente para os Estados Unidos em ´Beleza Americana´. O filme denunciava a hipocrisia sexual que puniria o voyeur e impediria o acesso dos homens maduros às menores coquetes. De quebra, castigava a mulher bem-sucedida que trabalhava e traía. Quem imaginaria um filme desses nesta era pós-´Sex and the City´? As mulheres casadoiras e bem de vida fazem as regras.

Confesso que gosto mais de Diablo Cody quando ela ironiza seu trabalho como stripper em cidades frias.’

 

Ana Paula Sousa

Os filmes como moeda, 28/3

‘Atividade escorada em incentivo público, o cinema brasileiro vê-se, vira e mexe, metido em discussões sobre a legitimidade de certos modelos de apoio. Nos anos 2000, houve polêmicas, por exemplo, em torno do artigo 3º da Lei do Audiovisual – que permite às majors de Hollywood a aplicação de dinheiro de imposto em produção – e dos concursos destinados a partilhar as verbas das estatais. Pois, agora, uma nova fonte de financiamento deixa o setor de orelhas em pé: os Funcines.

Se a Lei do Audiovisual, criada em 1993 para ressuscitar o cinema afundado por Collor, acoplou ao cenário a figura do diretor de marketing, incumbido de decidir que filmes mereciam patrocínio, os Funcines moldam outro personagem de terno e gravata, o investidor financeiro.

O novo mecanismo, como o nome anuncia, é um fundo dedicado ao audiovisual. O primeiro deles, operado pelo Banco do Brasil, nasceu em 2004. Mas só agora o sistema vingou de fato. Neste momento, quatro Funcines estão cadastrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) com um patrimônio total de 32,6 milhões de reais.

O mais polpudo e antigo em operação é gerido pela Rio Bravo, companhia criada por Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central. O RB Cinema 1 injetou dinheiro em filmes como O Maior Amor do Mundo (2006), Querô (2007), O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2007) e Desafinados, ainda inédito. Outros virão.

A despeito de serem geridos por investidores privados, os fundos são tema público por uma simples razão: podem se beneficiar de um incentivo fiscal que permite dedução de 100% do Imposto de Renda devido pelas empresas. Quando nasceram, o teto de dedução ficava na casa dos 60% e, provavelmente por isso, pouquíssimo interesse despertaram.

´O incentivo é meu argumento de venda´, afirma Gustavo Catão, analista da Rio Bravo. O que ele diz aos possíveis cotistas? ´Em vez de pagar o imposto, você coloca o dinheiro num Funcine e eu posso retorná-lo para você.` Na definição do próprio analista, ´é um argumento irresistível´.

Não é demais lembrar que imposto que deixa de ser pago é, em tese, dinheiro público. Como 20% dos fundos podem ser investidos em títulos e, enquanto os filmes não são feitos, todo valor fica aplicado, há quem questione o rumo das operações. ´Mesmo que o filme seja um fracasso de bilheteria, o investidor vai ganhar. Os investidores que não põem dinheiro próprio têm rentabilidade garantida´, pontua o cineasta André Klotzel, integrante da diretoria da Associação Paulista de Cineastas (Apaci).

O presidente da entidade, Ícaro Martins, vai além. ´Do jeito que está, o mecanismo tem todas as condições para se tornar um esquema de lavagem dinheiro. Ele deixa brechas para achaques e atrai todo tipo de aventureiros do mercado de capitais. Se nada for feito, os Funcines podem virar o grande escândalo do cinema brasileiro´, alerta.

O temor se estende para outros produtores e cineastas, que, em público, preferem não meter a mão nessa cumbuca. O presidente da Agência Nacional de Cinema (Ancine), Manoel Rangel, por sua vez, aplaca os ruídos da possível polêmica.

Questionado sobre a legitimidade de se colocar dinheiro 100% incentivado na roda financeira, ele joga sobre a mesa, como contra-argumento, todos os incentivos fiscais. ´Me parece uma pergunta capciosa. O dinheiro não tem como destino o mercado financeiro, ele tem obrigação de ser investido em filmes´, frisa. ´Não há diferença de legitimidade em relação ao artigo 1º da Lei do Audiovisual. Quem questiona o Funcine deveria questionar a Lei do Audiovisual. Ambos usam dinheiro público. Um fica na mão de um investidor. Outro, na de um produtor.` Talvez esteja aí o nó da questão.

Se no artigo 1º o interesse dos investidores passava pelo possível ganho de imagem da marca, no Funcine a idéia é ganhar dinheiro a partir de dinheiro. Mas a Lei do Audiovisual, prorrogada até 2010 – o prazo inicial era 2003 –, nunca conseguiu criar a cultura do investimento sem incentivos. Por que os Funcines conseguiriam?

´Nos Funcines, a lógica é outra. Os recursos são administrados por gestores que buscam rentabilidade e, ao mesmo tempo, seguem parâmetros de política pública´, diz Rangel. Para quem teme que os fundos roubem patrocinadores do produtor independente, Rangel assegura: ´Não é o que tem ocorrido. Os dados demonstram que os Funcines se desenvolvem paralelamente e têm atraído novos investidores´.

Mas, por enquanto, boa parte do dinheiro veio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Só para 2008 o banco prevê um investimento mínimo de 25 milhões de reais em Funcines. Luciane Gorgulho, chefe do Departamento da Cultura da instituição pondera que, em 2007, apenas um terço do dinheiro dos fundos usou o mecanismo de dedução fiscal e anota que os editais de financiamento continuam.

´O BNDES tem uma carteira de investimentos em fundos de 1 bilhão de reais. Os Funcines são um investimento pioneiro, que sinaliza para o mercado uma oportunidade de negócio. O objetivo é fazer o cinema se desenvolver como setor econômico´, explica Gorgulho. ´Também não pretendemos investir em todo e qualquer Funcine, mas naqueles que contribuem para os gargalos da indústria, como a distribuição.`

Foi esse o caso do fundo Lacan-Downtown, destinado à distribuição de filmes brasileiros. Hoje, têm poder de fogo nas salas de cinema basicamente os filmes distribuídos por majors, como Columbia e Warner. Esse Funcine, visto como uma nova alternativa para colocar os títulos nas telas, recebeu 8 milhões de reais do BNDES e captou 4,6 milhões com dez empresas, todas estreantes no setor audiovisual.

´A captação direta, feita pelos produtores, desestimulou as empresas a investir, até porque, se colocasse 500 mil reais num projeto, o patrocinador desaparecia no meio de vários outros´, avalia Bruno Wainer, distribuidor e idealizador desse Funcine. Para reforçar a idéia de que o novo investimento não se dá por razões institucionais e sim financeiras, ele informa que, dos dez investidores, oito declaram não querer retorno de imagem.

´Minha responsabilidade é oferecer o maior retorno aos investidores. Estou buscando o melhor negócio possível. Existe um erro qualquer no cinema brasileiro que faz com que se produza sem responsabilidade de retorno´, prossegue Wainer. Em 2007, foram lançados 82 títulos nacionais. Desses, 49% fizeram até 10 mil espectadores e 32% ficaram na faixa entre 10 mil e 100 mil ingressos.

Os investidores, de modo geral, parecem querer tirar do cinema um lucro que, fora de Hollywood, ele muitas vezes não dá. Paulo Bylik, sócio da Rio Bravo, diz que aplica em cinema como em ossos de titânio e software de telefonia. Até por isso, trata como periférico o incentivo fiscal – a despeito de tê-lo usado. ´Essa é uma muleta sobre a qual o cinema brasileiro se apóia e que não leva a lugar nenhum. Para quem quer produzir um filme de sucesso, a conta do Imposto de Renda é subsidiária.` Será?

Todos sabem que, por ora, sem incentivo fiscal, a produção – às vezes negócio, outras tantas vezes cultura – definharia. Num País em que 90% dos municípios não têm sala de cinema e a tevê aberta não compra filmes nacionais, raros são os títulos que se pagam. O próprio RB Cinema 1 só teve retorno financeiro com O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias.

Não à toa, as dificuldades de se conciliar interesses entre cineastas e homens de finanças começam a surgir. Os produtores de filmes menores nem procuraram nem foram procurados por Funcines. ´Tudo o que conseguimos foi captado pela Paula Lavigne´, diz Giba Assis Brasil, da Casa de Cinema de Porto Alegre, produtora dos filmes de Jorge Furtado. ´Esse é um negócio que funciona onde tem dinheiro. Não temos acesso a essas negociações.`

Mesmo Luiz Carlos Barreto, o mais famoso produtor brasileiro e um dos articuladores dos Funcines, tem tido dificuldades de negociação. ´Os Funcines são uma fonte fundamental de financiamento, mas algumas propostas são inaceitáveis. Eles querem, por exemplo, prioridade no resgate da receita dos filmes´, relata.

À necessidade de regulamentação, a Ancine responde com uma consulta pública. A partir das manifestações do setor, deve ser publicada uma nova instrução normativa para definir alguns parâmetros dos futuros contratos. É o cinema-negócio estreando.’

 

TELEVISÃO
Marcio Alemão

A ditadura do coentro, 28/3

‘Bill Granger é um chef australiano que tem um programa no Discovery Travel & Living. Tem um programa e tem alguns restaurantes na Austrália. E tem livros publicados.

E adora coentro.

Pelo menos foi o que entendi após assistir ao seu programa na segunda-feira passada.

O programa apresenta o clássico problema da dublagem, que transforma todos os participantes de qualquer programa em tolos abobalhados. Para piorar, além do bobalhão dublado, temos o áudio original ao fundo. Não sei dizer se isso é exigência do artista. Talvez seja. Provavelmente, ele sabe que o transformam em um palerma quando da dublagem e por isso exige que sua voz original não desapareça. Os de boa vontade vão perceber que Bill não é tão abobalhado e péssimo ator quanto seu dublador.

De volta ao coentro, o chef nos brindava com uma receita de bolinhos de milho que ele adora comer no café da manhã. Muito milho verde, farinha, ovos, alguns outros poucos ingredientes que não me recordo com precisão. E um punhado de coentro.

Você, amigo(a) ou leitor(a) que cultiva algum interesse pela cozinha, sabe que o coentro é um verdadeiro Átila. Se não for usado com ciência e parcimônia, tem um poder devastador. Pois o punhado de coentro que Bill colocou em seus bolinhos matinais daria para preparar 78 moquecas.

E imagine essa quantidade moída, triturada, liquefeita. A essa massa mole, muito semelhante à de uma panqueca, ele ainda acrescenta mais grãos de milho e frita em boa quantidade de óleo, às colheradas.

Um tipo de coentro diferente? Pode ser isso. Acredito que só pode ser isso, porque fica muito difícil imaginar aquele hectare de erva ajudando qualquer prato a ganhar sabor.

O próprio chef, mais adiante, preparando outro prato, nos mostrou o manjericão asiático e outra espécie de hortelã também das bandas do Sol Nascente, deixando sempre claro que eram ervas únicas e distintas das que conhecemos.

Depois do que vi, decidi que vou pesquisar mais profundamente o assunto, e reportarei os resultados.

Na maioria desses programas que contemplam e reverenciam as exóticas cozinhas do planeta, o coentro reina e mostra sua onipresença em panelas e woks. Coentro e dezenas de outras ervas perfumadas e pimentas igualmente variadas. Confesso minha enorme admiração pelos muitos apresentadores desses programas, alguns chefs, inclusive, que, depois de provarem qualquer coisa que tenha aquela quantidade de ervas e pimentas, sempre conseguem identificar vários e sutis sabores. E amam perdidamente aqueles sabores.

De volta à tese, as ervas só podem ser outras.

E, de volta ao Bill, ele nos conta que gosta muito de viajar para o Oriente, onde encontra muita inspiração.

Faço neste momento uma pergunta: por que ninguém mais nesse mundo da culinária de tevê se entusiasma e se inspira nas cozinhas italiana, francesa, portuguesa e espanhola? Por que nenhum desses jovens vai atrás do tomate perfeito e do molho de tomate perfeito?

Sei que o Jamie Oliver decidiu, depois de anos, passar uma temporada na Itália. Nem preciso dizer que em pouquíssimo tempo já sabia muito mais que qualquer chef italiano e qualquer nonna.

Tenho essa curiosidade. A farinha para fazer uma pasta pode ter dezenas de procedências, diferentes moagens, e isso modifica a pasta, o macarrão. Mas ninguém quer falar sobre isso. Rechear alheiras, chourizos, boudins, tudo isso também é muito exótico, mas preferem o coentro, o gengibre, o molho de soja, o coco e a pimenta.

Ainda não sabemos nada sobre as tradicionais cozinhas. Mostrou-se muito pouco, mas parece que isso não dá audiência. Se não virmos um belo maço de coentro sendo jogado em uma panela com os demais clássicos já citados, mudamos de canal.

Também vamos considerar a possibilidade de os novos chefs que viram estrelas na tevê contarem com melhores agentes que os chefs italianos e franceses. Esses dois últimos são raros de se ver.

E por quê?

Talvez porque não gostem de coentro.’

 

Fabio Kadow

O cartel Globo, 28/3

‘Apesar dos baixos índices de audiência registrados em alguns jogos de 2007, a Globo nem pensa em perder os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. A concorrência aberta pelo Clube dos 13 para as temporadas de 2009 até 2011 não teve nenhuma surpresa. Várias emissoras nem apresentaram propostas e a Record, que era uma ameaça real, desistiu na última hora, por não concordar com a cláusula que dá a preferência de renovação à atual detentora.

Quem parece concordar com a Record é o próprio governo federal. Segundo notícia da Folha de S.Paulo, a Secretaria de Direito Econômico produziu um extenso relatório sobre o assunto e o tribunal do Cade, ligado ao Ministério da Justiça, decidiu instaurar um inquérito para investigar os contratos realizados nos últimos anos. O fim das cláusulas de exclusividade e de preferência, que permitem à tevê cobrir propostas eventualmente maiores de concorrentes, são os pontos principais do relatório.

Enquanto isso, a Globo continua mandando no jogo. Em abril, serão anunciados pelo Clube dos 13 os valores para o novo contrato e a emissora informou que a proposta é tentadora (ainda mais para os falidos clubes). Para não ficar sem o produto Corinthians, pela primeira vez o canal pretende transmitir jogos da Segunda Divisão e 22 partidas do time paulista serão exibidas. Como costumam dizer os comentaristas esportivos, trata-se de uma partida de um time só.’

 

DOCUMENTÁRIO
Márcia Pinheiro

Olhar clarividente, 28/3

‘Ao se enfrentar com o mundo real, esse economista sente-se, para surpresa sua, extremamente frustrado. A desorientação será bem maior ainda, entretanto, se o economista for convocado para trabalhar no setor público. Neste caso, perceberá em pouco tempo que, se tudo o que aprendeu não é totalmente inútil, quase tudo que é realmente útil ele deixou de aprender.

Celso Furtado, 1961

Há documentários cujo mérito é ser não-cinema, ou quase cinema, diante da grandiosidade dos fatos ou dos personagens retratados. É o caso de O Longo Amanhecer, dirigido por José Mariani, sobre a vida de Celso Furtado, com estréia marcada para a sexta-feira 4 de abril. O economista é o entrevistado principal do filme, iniciado quatro meses antes de morrer, aos 84 anos, em 2004. Entremeados, estão depoimentos de discípulos, como Maria da Conceição Tavares, João Manuel Cardoso de Melo, Antonio Barros de Castro e Francisco de Oliveira.

A cinebiografia obedece à ordem cronológica da vida de Furtado. Nada de truques, flash-backs ou mistérios. Tampouco são apresentadas imagens chocantes, que poderiam ter sido usadas de modo oportunista pelo diretor, uma vez que a bandeira do economista sempre foi o reconhecimento de que o Brasil é subdesenvolvido. Não há eufemismos, como ´emergente´. A partir da constatação de que essa é a cara do País, miserável, desigual e fadado a ser satélite do Hemisfério Norte, Furtado costurou sua história acadêmica e política.

A escolha das poucas imagens é feita de maneira cautelosa. Colhedores de cana em campos nordestinos, a imensidão dos horizontes de Brasília, as conversas com os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. A câmera inevitavelmente capta o semblante atento de um homem que sabia ouvir e, sobretudo, defender uma idéia clara de como fazer o Brasil deslanchar. Habilidoso politicamente, jamais titubeou em seus princípios.

A família aparece apenas na forma de fotografias antigas, outro indício de que a idéia de Mariani, também documentarista da vida do cientista Cesar Lattes, passa ao largo de explorações romantizadas do retratado. O cineasta não se perde em tentações fáceis. O resultado é a história do mais importante economista brasileiro do século XX, que, desde a década de 50, comprou ferozmente, ao lado dos desenvolvimentistas, a briga intelectual contra os monetaristas. Autor, relembre-se, de uma obra que revolucionou o pensamento econômico nativo, Formação Econômica do Brasil, de 1957.

Logo na primeira cena, destacam-se seus olhos mansos e perdidos no futuro. Confessa ter pensado em escrever ficção, lá em Pombal, na Paraíba, onde nasceu. Mas desistiu. Preferiu ´captar o essencial da realidade por meio da análise´. O Brasil só ganhou com a escolha, descrita de forma serena. Serenidade que dura pouco: ´Quem manda neste país?´, provoca o economista na seqüência. ´A taxa de juro fantasia que nos sangra´, responde sem titubear. Ele sabia do que falava, também porque, à maneira euclidiana, os nordestinos são, sobretudo, fortes.

O economista sempre combateu as elites, que condenaram a Região Nordeste a ser pobre e analfabeta. A partir de 1949, abraçou a causa da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), sob a batuta do ex-presidente do Banco Central argentino Raúl Prebisch. No livro A Fantasia Organizada, Furtado relata que indagou por que Prebisch voltou à universidade depois da sua passagem pelo BC. Resposta: ´Quando deixei o Banco Central, fiquei sem meio de vida. Eu havia sido muitos anos diretor-presidente do BC, conhecia a carteira de todos os bancos. Quando me demitiram, muitos grandes bancos me ofereceram altas posições, mas como podia colocar os meus conhecimentos a serviço de um se conhecia os segredos de todos?`

Como esse mestre, Furtado nunca cedeu às tentações do setor privado. Alguém consegue ter uma referência contemporânea apenas levemente parecida com esta? Difícil. Foi um homem público por excelência, que acreditava na política como instrumento da transformação e não trampolim para o mundo empresarial-financeiro. Formulou uma teoria que visava à revolucionária prática de romper o círculo vicioso da pobreza, com doses fortes de keynesianismo. Um basta à dominação do Primeiro Mundo.

Desligou-se da Cepal, em 1958, e assumiu uma diretoria do então BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico). O Nordeste sofreu, naquele ano, uma das piores secas do século, que deixou meio milhão de cidadãos sem teto. JK o nomeou interventor no Grupo de Trabalho do Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), gênese do que viria a ser a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Em 1960, foi nomeado seu secretário-executivo.

Até a criação do órgão, como descreve Furtado no documentário, havia apenas um vago e eleitoreiro projeto ´hidráulico` para a região, e nisso ele não esconde a ironia, como se água, por si só, gerasse empregos e renda. Furtado sorri e volta a perder os olhos no horizonte, ao mencionar a Sudene, um dos seus grandes legados. ´Não queria ser confundido com esquerdistas´, diz em coté piadista, o idealizador da Teoria do Subdesenvolvimento.

´Um homem com horizonte moral´, diz Conceição Tavares. ´Um reformista´, nas palavras de João Manuel. ´O economista que melhor personifica a herança keynesiana´, afirma Antonio Barros de Castro. Os elogios e o reconhecimento da obra de Furtado permeiam todas as entrevistas. Não são excessivos. O economista escreveu 40 livros, traduzidos em 11 línguas.

Esquerdista ou não, teve os direitos políticos cassados por dez anos com o golpe, em 1964, e subseqüente ditadura militar. Não sem razão para as mentes persecutórias da época. Furtado soube captar e preservar o melhor das idéias de Getúlio Vargas, aliou-se a JK, apesar de divergir sobre a política para o capital estrangeiro do ex-presidente, e esteve ao lado de Jango, de quem foi ministro do Planejamento.

Exilou-se no Chile, nos Estados Unidos e na França, onde foi um intelectual respeitado no ambiente acadêmico. Voltou ao Brasil em 1979. Não parou de interferir no debate econômico e político. Aceitou ser ministro da Cultura no governo Sarney. Continuou a escrever, mesmo que soubesse, segundo relato de Conceição Tavares, que o futuro imaginado, desenhado e tão cuidadosamente sonhado estava cada vez mais distante. Muito além do que os olhos clarividentes de Furtado sempre tentaram perscrutar.

Inaugurado em 2005, o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, procura manter vivos o pensamento e o espírito do economista. No site www.celsofurtado.org.br, há toda a história do pensador, suas obras, palestras e atividades do centro. Em terras onde proliferam MBAs que nem sequer conhecem a história de seu País e imaginam comandar o mundo atrás de mesas de operação de instituições financeiras, nada mais oportuno do que um mergulho na vida de um homem que não escondia uma qualidade rara e imprescindível no setor público: ser nacionalista. Um termo que os neoliberais quiseram tirar do dicionário, mas ainda não conseguiram.’

 

Camila Alam

Stones, o filme, 28/3

‘A junção de dois grandes nomes anunciados no cartaz chama a atenção para o projeto grandioso. Não é para me nos. Dirigido por Martin Scorsese, The Rolling Stones – Shine a Light é um documentário-show, com estréia mundial na sexta-feira 4 de abril. O longa-metragem foi filmado em 2006, durante a turnê A Bigger Band, a mesma que reuniu mais de 1 milhão de pessoas na praia de Copacabana, no Rio. Mas o registro de Scorsese aconteceu em clima mais íntimo, no Beacon Theatre, em Nova York, espaço pequeno forrado por câmeras e luzes que quase ´derreteram` os Stones.

As divergências de opinião, no estilo ´quem manda mais´, aparecem logo no início do filme, quando há uma pequena e divertida disputa de poder entre banda e diretor. Os Stones, de propósito ou não, insistem em não divulgar as músicas que tocarão ao longo da noite. Scorsese fica nervoso, pois precisa organizar a complexa filmagem. O set list só chega às suas mãos minutos antes de o show começar.

Quando as luzes se acendem e os primeiros acordes de Jumping Jack Flash soam, somos transportados a uma outra atmosfera. As poltronas do cinema parecem pequenas para tamanho impacto. É como se estivéssemos, de fato, frente a frente com os músicos. Não é difícil imaginar cabeças e pés de espectadores balançando ao ritmo de hits como Just My Imagination, As Tears Go By, I´m Free e (I can´t get no) Satisfaction.

Rotular os Stones como a maior banda de rock de todos os tempos ainda causa controvérsias. Mas é impossível negar sua importância como um ícone musical que atravessou mais de quatro gerações e, até hoje, lota estádios, teatros e, provavelmente agora, os cinemas. Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts, todos na faixa dos 60 anos e com uma energia impressionante, são a personificação do rock` n´roll way of life. Se no passado ficaram conhecidos por ser atrevidos, viciados e provocadores, hoje estão mais para pais e avós centrados, que não perderam o prazer na música e na irreverência.

Entre dezenas de canções, Scorsese inseriu trechos de antigas entrevistas, fazendo um panorama da carreira dos músicos britânicos. Em uma das passagens, um repórter pergunta ao jovem Jagger se ele se vê cantando aos 60 anos. A resposta vem fácil: ´Certamente´. O show documentado traz as participações de Christina Aguilera, escolha um tanto duvidosa, Jack White, talentoso guitarrista e vocalista das bandas White Stripes e Raconteurs, e Buddy Guy, numa performance emocionante da clássica Champagne and Reefer, de Muddy Waters. Scorsese, que já filmou a história de Bob Dylan e dirigiu uma monumental série sobre blues, parece encontrar na realidade da música um refúgio para a dureza de suas ficções.’

 

TECNOLOGIA
André Siqueira

A ofensiva da Apple no Brasil, 28/3

‘A Apple ensaia uma ofensiva no mercado brasileiro, aguardada há tempos pelos aficionados por iPods, Macbooks e iMacs, entre outros produtos que levam a marca americana da maçã. Foram inaugurados, no fim de março, os dois primeiros pontos-de-venda avalizados pela empresa no Brasil, ambos vinculados a grandes redes do varejo de eletroeletrônicos: Fnac e Fast Shop.

O modelo adotado pela rede francesa é o da Apple Shop, uma revenda que replica, em menor escala, o visual das famosas Apple Store americanas. A primeira delas foi erguida no interior da loja da Fnac no Barra Shopping, no Rio, com 80 metros quadrados. Segundo o diretor-comercial da rede no Brasil, Benjamin Dubost, desde matérias-primas como fios e painéis até a equipe de montagem das instalações vieram da Califórnia, onde está sediada a empresa americana.

No Shopping Iguatemi, em São Paulo, a loja A2YOU (trocadilho em inglês para ´Apple para você´) será aberta com o título de Apple Premium Reseller, ou seja, uma espécie de revendedor preferencial. Administrada pela rede Fast Shop, a unidade também promete uma ampla gama de produtos com promoções e descontos.

As duas lojas contarão com vendedores especializados em equipamentos da Apple e vão permitir que o cliente experimente os aparelhos que deseja comprar ou simplesmente conhecer melhor. ´Não vamos vender gigabytes, mas o manuseio dos produtos da Apple e a maneira certa de conectá-los a outros dispositivos´, afirma Dubost, da Fnac.

A grande expectativa dos applemaníacos é que a marca finalmente desperte para o potencial do mercado brasileiro, quinto maior do mundo na venda de PCs e hoje dominado por máquinas equipadas com o sistema operacional Windows, da concorrente Microsoft. A decisão da Fnac de abrir a Apple Shop está diretamente relacionada ao aumento da demanda pelos computadores da marca, que subiu 40% desde o ano passado. ´Com a parceria, esperamos dobrar as vendas dos produtos da Apple´, diz Dubost.

Oficialmente, a Apple Brasil não se pronuncia sobre a possibilidade de abrir no País uma Apple Store, a loja oficial da marca, embora as experiências com a Fnac e a Fast Shop possam servir para medir a popularidade local da empresa. Outra estratégia da fabricante para ganhar mercado foi a recente redução nos preços dos produtos mais populares. O custo de uma versão de entrada do computador iMac baixou de 4.999 reais para 3.999 reais. Outro exemplo é o do tocador de música digital iPod Nano de 4 GB, que era vendido por 669 reais e agora está disponível por 549 reais.’

 

PAULO HENRIQUE AMORIM
Mino Carta

O silêncio e a calúnia, 28/3

‘Pergunto aos leitores: em qual país democrático e civilizado a saída de um jornalista do peso de Paulo Henrique Amorim de um portal da importância do iG seria ignorada pelo resto da mídia? Na imprensa, a notícia só mereceu uma lacônica nota na Folha de S.Paulo, no vídeo o registro pela TV Senado de um discurso do senador Inácio Arruda, do PCdoB do Ceará, a lamentar o episódio e solidarizar-se com Amorim.

E o episódio não somente é muito grave, mas também altamente representativo da prepotência dos senhores, acobertados pelos seus sabujos midiáticos. O espetáculo da tartufaria não é surpreendente. Não cabe espanto, sequer um leve assomo de perplexidade. Tudo normal, na Terra brasilis, tão distante, tadinha, da contemporaneidade do mundo. Porque não há país democrático e civilizado onde o abrupto afastamento de um profissional tão honrado e competente quanto Amorim não teria repercussão na mídia, imediata e profunda.

Não faltaria a busca das razões que levaram o iG a agir de forma tão violenta, ao tirar Conversa Afiada do ar sem aviso prévio, ao lacrar o computador do jornalista e enxotar o pessoal da equipe da sede do portal. Bastaria este comportamento para justificar a repulsa da categoria em peso e a investigação dos interesses envolvidos, necessariamente graúdos.

Pelo contrário, ouviu-se clangoroso silêncio, quase a insinuar que, se a mídia não o noticia, o fato não aconteceu. Que diria Hannah Arendt ao verificar que no Brasil há cada vez menos ´homens dispostos a dizer o que acontece e que acontece porque é´, de sorte a garantir ´a sobrevivência humana´?

Pois o fato se deu, e não se exigem esforços mentais einsteinianos para entender que os donos do iG (Brasil Telecom, Fundos e Daniel Dantas) decidiram abandonar Amorim ao seu destino. Não é difícil também enxergar como pano de fundo o projeto de fundir Brasil Telecom com Oi, a ser executado com o apoio do BNDES, e portanto do governo federal, a configurar mais um clássico do capitalismo sem risco de marca tipicamente brasileira.

Ocorre-me comparar o mutismo atual diante de um fato tão chocante com a indignação midiática que, recentemente, submergiu a campanha de ações movidas em juízo por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus contra a jornalista Elvira Lobato, da Folha de S.Paulo, autora de reportagem sobre o êxito empresarial da Iurd. Não está claro até o momento se o Altíssimo acudiu o bispo Macedo e seus prosélitos, mas é certo que, se o fez, ou o fizer, terá de enfrentar a ira da mídia nativa.

Foi um coro de manifestações a favor da liberdade de expressão ameaçada, um rosário de editoriais candentes, de colunas vitriólicas, de comunicados de entidades representativas da categoria. A saber, Fenaj, ABI, ANJ, Abraji, sem contar a associação dos correspondentes estrangeiros (OPC). Ah, sim, a famosa liberdade de imprensa. A mídia verde-amarela não hesita em defendê-la, quando lhe convém. Permito-me concluir que, no caso de Paulo Henrique Amorim, não lhe convém.

Recordo episódio similar que me diz respeito. A minha saída de Veja em fevereiro de 1976. Vai às livrarias na segunda 31, lançado em Curitiba, um livro de memórias de Karlos Rischbieter, presidente da Caixa Econômica Federal no começo do governo do ditador de plantão Ernesto Geisel, depois transferido para a presidência do Banco do Brasil e enfim ministro da Fazenda de outro plantonista, João Batista Figueiredo. Ficou por um ano, saiu contestando as políticas que a ditadura pretendia levar adiante.

Escreve Rischbieter em um dos capítulos:

´No começo de 1975 deu entrada na Caixa um pedido de financiamento do Grupo Abril. O pedido era de um financiamento que equivalia a 50 milhões de dólares, para consolidação de várias dívidas, em grande parte em moeda estrangeira. O pedido foi analisado pelo pessoal competente, recebeu parecer positivo e foi aprovado pela diretoria. Mas faltava a aprovação do Governo. E Armando Falcão, ministro da Justiça e guardião dos ´valores revolucionários` vetou o financiamento com o argumento de que a Veja, carro-chefe das publicações do grupo, e que tinha como diretor Mino Carta, era sistematicamente antigoverno. Em seu livro autobiográfico, O Castelo de Âmbar, Mino conta com detalhes o episódio que culminou com sua saída do Grupo Abril. Eu tentei, no meio da discussão, convencer o general Golbery a assumir o controle da situação e convencer o presidente a vetar o veto do ministro da Justiça. Mas foi em vão. O empréstimo só foi aprovado quando Mino Carta deixou a Veja no começo de 1976´.

In illo tempore colegas de profissão também silenciaram, com exceção do jornal do sindicato paulista. Em compensação, alguns insinuavam, quando não afirmavam, que eu prestava serviço ao chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, quem sabe em troca de vantagens financeiras. Tempos depois, em 1979, Figueiredo no poder, um célebre jornalista escreveu um texto na Folha de S.Paulo intitulado ´De João a Mino, os donos do poder´. João Figueiredo, está claro. Apresentava-se ali a seguinte tese: ´Lá na outra ponta do bonapartismo, em versão microscópica e virulenta, está o jornalista Mino Carta, mini-representante do mandonismo local, que apoderou-se da abertura política concebida e instrumentada pelo general Golbery do Couto e Silva, seu amigo e aparente protetor, para pontificar sobre o que é certo ou errado´.

Vinte anos depois, em 1999, outro jornalista de larga nomeada escreveu um livro para recuperar o tempo perdido e disse que eu fui demitido da Veja. Nada disso, esta é a versão do patrão. Eu me demiti, para não ter de levar as moedas da Editora Abril, e não seriam trinta dinheiros. Mas, desde a eleição de Lula em 2002, há quem sustente, periódica e inexoravelmente, que CartaCapital está a serviço do governo. Eis aí, inúmeros jornalistas nativos não conseguem imaginar um colega digno que não se porte igual a eles.’

 

INTERNET
Felipe Marra Mendonça

O que a China fará com a internet?, 28/3

‘Um exemplo da liberdade oferecida pela internet e do cerceamento que enfrenta em regimes totalitários foi escancarado pelos protestos ocorridos no Tibete, iniciados em 10 de março. Marcados pela violência e pela reação brutal do Exército do Povo, os movimentos aconteceram no 49º aniversário da insurreição tibetana de 1959. As informações iniciais obtidas pela mídia ocidental eram esparsas e a magnitude dos problemas só foi compreendida quando surgiram os primeiros vídeos dos conflitos, a maioria de baixa qualidade, filmados com celulares e disseminados pela web.

O governo chinês criou uma lei específica para sites que distribuem vídeos, como o YouTube, em janeiro deste ano. Todos deveriam obter uma licença para operar e não poderiam mostrar vídeos que pudessem ´inspirar temores, conter pornografia, atos violentos, colocar a segurança nacional em perigo ou envolver segredos de Estado´. A lei também ditava que todos deveriam ser controlados por empresas estatais, mas essa seção foi retirada após reclamações.

Pouco antes dos distúrbios no Tibete, os sites não haviam se preocupado em obter a licença necessária, mas na quinta-feira 20 o governo decidiu punir 32 deles por infrações, fechar mais 25 por não terem permissão para operar, e outros cinco devem ser investigados por violações variadas.

O Partido Comunista Chinês esclarece que tais punições não têm qualquer relação com os protestos no Tibete, mas o histórico das censuras mostra o contrário. Os canais de tevê estrangeiros, principalmente os de notícias, sofrem um atraso de 5 a 10 segundos, para que o governo central possa vetar qualquer notícia danosa à imagem do país. Durante esse tempo, o telespectador chinês vê simplesmente uma tela negra, como se o editor tivesse se esquecido de colocar uma história no ar.

Da mesma maneira, todos os sites relacionados ou de propriedade do grupo religioso Falun Gong foram bloqueados. Têm acesso controlado sites noticiosos, como a BBC ou a Voz da América, que falam da brutalidade por parte das forças policiais, dos protestos da Praça da Paz Celestial de 1989, da liberdade de expressão ou de movimentos democráticos, assim como blogs ou enciclopédias que permitam a edição por parte de seus usuários, como o Wikipedia. Também há obstáculos a sites hospedados em Taiwan. Mesmo antes dos protestos, era restrito o acesso aos que mencionassem o dalai-lama ou o governo do Tibete no exílio.

Mesmo que o governo chinês consiga controlar na internet a distribuição de vídeos dos distúrbios, a proximidade das Olimpíadas deixa as autoridades com um abacaxi cibernético nas mãos. Os vários turistas que devem invadir Pequim vão acessar a internet, esperando encontrar o que normalmente consultam em casa. Espera-se que o governo chinês libere o acesso total à web, mesmo que temporariamente. Nesse intervalo, é provável que a população chinesa também possa visitar os mesmos sites. Fechar essa fronteira, depois de aberta, será difícil.’

 

FRANÇA
Gianni Carta

Carla nota 8, Sarko 4, 28/3

‘As imagens da chegada de Nicolas Sarkozy e senhora em Londres lembraram anacrônicos contos de fadas: carruagens puxadas por cavalos brancos, valetes, um banquete no castelo de Windsor com seis copos para cada conviva, toda uma série de etiquetas reais. Temiam-se, como sempre, as costumeiras gafes de Sarko, o qual diante do papa Bento XVI conferiu as mensagens SMS no seu celular. Ele faria coisa parecida com a sisuda Elizabeth II?

Menos preocupante seria o comportamento de Carla Bruni-Sarkozy, ex-modelo e cantora de 40 anos. Filha de abastados industriais turinenses, desde pequena tem sido habitué de palácios na sua península natal, e, ao contrário de seu novo marido, é fluente na língua de Shakespeare.

Claro, não ajudou o fato de a chegada do casal francês ao reinado ter coincidido com a publicação na capa de tablóides britânicos de uma foto de Carla nua, batida em 1993, e que será leiloada pela Christie´s em 10 de abril em Nova York. O Sun explicou aos milhões de leitores que a primeira-dama da França estava cobrindo her modesty com as mãos; já no Daily Mail uma faixa onde se lê censuré cobre os seios. Carla também não apreciou as listas de seus ex-amantes compiladas pelos tablóides, entre eles Mick Jagger, Eric Clapton e Donald Trump, mas vai fazer o quê?

De qualquer forma, já descendo pelas escadas do avião a ex-modelo provocou grande comoção: seu sobretudo cinza denotou neutralidade, apesar da marca Dior. O cinto negro, e apertado em volta do sobretudo, revelou seu bom gosto. O colarinho com lapelas arredondadas, e o chapéu pillbox remetiam a Jackie Kennedy na sua visita com o marido, John, a Londres, em 1962. Obviamente, Carla quis fazer uma aparição ´retro´.

Imogen Fox, jornalista de moda do diário Guardian, disse que única gafe de Carla foi ter levado uma pequena bolsa preta clássica, no mesmo estilo adotado pela rainha. Algo como uma convidada a um casamento aparecer de vestido branco. Imogen argumentou, ainda, que Carla parecia vestida um pouco como Jackie O., um pouco como uma colegial. Para outra colega, Carla lembrava uma aeromoça dos anos 50. E por que não?

Ao saudar a rainha, Carla fez um curtsey, uma ligeira genuflexão, impecável, e bastante apreciada pelo consorte da rainha octogenária, o duque de Edimburgo. Vale sublinhar que o curtsey é ato de suma importância no reinado, e cabe a todos os súditos executá-lo com a devida naturalidade e elegância, caso se deparem com Elizabeth em algum encontro público.

Vestido como se fosse participar de um funeral, Sarko não cometeu gafes, pelo menos reportadas. Como chefe de Estado, não lhe coube fazer curtsey, e sim apertar a mão da chefe do Estado britânico. Antoine Guiral, do diário francês Libération, percebeu, contudo, que ao avistar a rainha Sarko manifestou um seu conhecido tique nervoso, um movimento circular dos ombros.

E quando se sentou com a rainha na carruagem pareceu demasiado falante: reza a etiqueta, é a rainha quem inicia conversas e, quando julga necessário, muda de assunto. Felizmente para Sarko, a rainha domina o francês. No entanto, ele quis provar algum conhecimento de inglês num momento que pressentiu perigo para a rainha. E alertou-a: ´Be carrefullll´. A rainha sabe lidar com arroubos patéticos, e nem sequer olhou para o presidente.

No discurso para as duas câmaras parlamentares, Sarko falou sobre a crise econômica mundial, meio ambiente, energia nuclear, reforma das Nações Unidas, e ofereceu aumentar o contingente militar francês no Afeganistão. Sugeriu uma expansão do G-8, que inclua países como o Brasil, a China e a Índia. Ao contrário de seus antecessores, Sarko quer criar um novo eixo entre o Reino Unido e a França. Em outras palavras, a dupla França e Alemanha não deve ser o motor da Europa, mesmo porque Sarko e a chanceler Angela Merkel não se entendem bem.

O discurso foi aplaudido, mas um colunista achou o presidente demasiado elogioso, e sentiu-se ´debaixo de uma torrente de chantilly borrifado por uma enorme mangueira´. Sarko também tentou explicar, em Westminster, suas reformas econômicas, mas enquanto isso seus ministros em Paris discutiam as revisadas previsões econômicas para este ano. Ao invés do previsto crescimento de 2,25%, o PIB crescerá apenas 1,7%, e, assim, a promessa de Sarko de dar maior poder aquisitivo ao povo por meio de uma redução dos impostos e de outros programas de ajuda fiscal vão para os ares.

Já o déficit público, previsto em 2,3% para 2008, bordejará os 3%, ou seja, o limite para países da União Européia. Como disse o primeiro-secretário do Partido Socialista, François Hollande, o governo Sarkozy tem três opções: ´Ou estoura a dívida, ou aplica um plano de rigor, ou aumenta os impostos. Resultado: teremos as três opções´.

A conjuntura ganha ainda maior turbulência quando se acrescentam alguns fatos bastante preocupantes. O pior da crise econômica, com origem nos Estados Unidos, ainda está por vir, segundo Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu. Em julho, a França, que deveria dar bom exemplo aos outros países europeus, assume a presidência rotativa da UE. Finalmente, Sarkozy e sua conservadora União por um Movimento Popular (UMP) acabam de levar uma tunda da esquerda em eleições municipais. Segundo recente pesquisa, o impopular Sarko conta com a aprovação de apenas 37% do povo.

Apesar de tudo ´fazia tempo que não se falava tanto dela mundo afora´, argumentou o barbeiro Marc, um dos 300 mil franceses que emigraram, nos últimos anos, para o Reino Unido para escapulir da crise gálica. E de fato, essa repentina popularidade da França deve-se ao estilo bling-bling de um presidente impulsivo que nos dez primeiros meses de mandato correu o mundo, ora sendo fotografado ao lado de líderes de renome, ora com seus óculos Ray-Ban e Rolex à vista, em iates e aviões privados.

A razão do ´sucesso` de Sarko é sua atribulada vida amorosa. Abandonado no Palácio do Élysée pela sua segunda mulher, Cécilia Ciganez-Albéniz, de 50 anos, Sarko, de 53, casou-se às pressas em fevereiro, com Carla Bruni. Por sua vez, Cécilia casou-se pela terceira vez neste domingo, em Nova York, com o organizador de eventos marroquino Richard Attias, de 48 anos, o mesmo com o qual traiu Sarko, em 2005.

Foram três dias de celebrações, que incluíram uma festa na villa, em Connecticut, de Attias, outra para 150 pessoas no lendário bar com pista de dança Rainbow Room, no topo do Rockefeller Center, em Nova York, e uma ida ao musical Mamma Mia!, com música cafona do grupo Abba. A semanal francesa Paris Match declinou cobrir o conúbio porque, em 2005, estampou na capa uma foto de Cécilia (então casada com Sarko) e Attias abraçados, a Big Apple atrás. Seu diretor foi despedido, e o novo dá grande cobertura para Sarko.

Consta que Cécilia, como várias celebridades, está atrás de paparazzi. Quanto a Sarkozy, ele usou a viagem a Londres para criar a imagem de estadista menos preocupado com sua vida privada, esta uma das razões de sua falta de popularidade. Mas com a desaceleração econômica, e o aumento da dívida pública como ele aumentará o poder aquisitivo dos franceses? Greves à vista.’

 

 

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