Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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ENTRE ASPAS >

Casos mal-contados, verdades seletivas

Por Tulio Muniz em 28/09/2010 na edição 609



‘A imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido, que falasse. Seria mais simples, seria mais fácil. O que não dá é para as pessoas ficarem vendendo uma neutralidade disfarçada. Muitas vezes fica explícita no comportamento que eles têm candidato e gostariam que o candidato fosse outro. Tiveram assim em outros momentos. Acho que seria mais lógico, mais explícito. Mas, eles preferem fingir que não têm lado e fazem críticas a todas as pessoas que criticam determinados comportamentos e determinadas matérias. (…) Eu duvido que exista um país na face da Terra com mais liberdade de comunicação do que neste país, da parte do governo. Agora, a verdade é que nós temos nove ou dez famílias que dominam toda a comunicação desse país. A verdade é essa. A verdade é que você viaja pelo Brasil e você tem duas ou três famílias que são donas dos canais de televisão. E os mesmos são donos das rádios e os mesmos são donos dos jornais’ (Presidente Lula, na Folha Online, 23-09-2010)


Admito que hesitei em publicar este artigo no OI antes 3 de outubro por considerar eventuais insinuações de tentar influir, negativa ou positivamente, por este ou aquele candidato que aparecem neste texto (ainda que como sujeitos ocultos). Mas a atuação da ‘grande mídia’ como partido requer combate. Omitirei alguns nomes e localidades. Pois foram muitos os personagens reais arrolados num exemplo que narro a seguir. Episódio já distante, mas pertinente, de como a mídia seleciona suas ‘verdades’.


Início de 2003, num estado do Nordeste, o Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar uma denúncia de um falso engenheiro civil, um suposto escândalo de desvio de verbas públicas, falsificação de documentos, remessa ilegal de divisas ao exterior e compra de votos para as eleições de 2002, que envolveria autoridades então no governo. O falso engenheiro dizia trabalhar para a empresa de parentes de um ex-governador. O ‘engenheiro’ prestou depoimento à Polícia Federal, após ter sido detido numa blitz da Polícia Rodoviária Federal, em Tocantins, porque portava documentos falsos e R$ 29.600 em espécie.


Uma história sem seguimento


O ‘engenheiro’ pediu para ser levado à PF porque sua vida ‘correria perigo’. Na delegacia da PF, disse que o dinheiro que portava ‘tinha origem ilícita’. Seriam restos de uma verba que lhe fora entregue pelas empresas que pertenceriam a pessoas ligadas a políticos. Segundo o ‘engenheiro’, as empresas executariam obras superfaturadas em alguns estados do Norte e Nordeste, sem licitação, e à época teria sido desviado um montante de R$ 6,8 milhões. O ‘engenheiro’ contou à PF que uma estatal intermediaria o desvio das obras de reservatórios d´água. A diretoria ficaria com 20% e o restante seria depositado em uma conta indicada previamente. Boa parte do dinheiro desviado financiaria campanhas eleitorais de vários candidatos.


O ‘engenheiro’ chegou a dizer que ele e outros engenheiros (esses provavelmente reais) da empresa participavam diretamente da compra de votos para candidatos a deputado, ao Senado e governador no primeiro e segundo turnos. Cada engenheiro teria recebido R$ 620 mil. O ‘engenheiro’ declarou que sozinho comprou 4.800 votos num único município. Acrescentou ainda que os documentos falsos que portava foram forjados dentro de empresa ligada a parentes de políticos, que teria acesso direto a computadores da Receita Federal. Deu detalhes de nomes, endereços e escritórios em cujos computadores estariam arquivos comprobatórios da sua versão.


Minutos depois do depoimento do ‘engenheiro’, a PF pediu à Justiça Federal que emitisse um mandado de busca e apreensão nas empresas citadas. No pedido, o delegado argumentou que ‘o princípio de oportunidade não pode ser deixado de lado’ e alertou que havia ‘o risco das provas desaparecerem’. Segundo o pedido da PF, as declarações do ‘engenheiro’ apontavam para ‘documentos referentes ao caixa 2’. Mesmo lembrando que as acusações envolviam falsificação de documentos públicos federais (CPF e registro profissional de engenheiro) e recursos do Banco Mundial e da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), a PF não obteve autorização da Justiça.


Somente um mês depois da prisão do ‘engenheiro’, o caso chegou ao Ministério Público Federal no estado foco das denúncias. Dois anos depois, em 2005, o único indiciado foi o próprio falso engenheiro, pois não havia nenhuma prova das denúncias a não ser seu depoimento. O ‘engenheiro’ foi indiciado criminalmente por usar uma carteira falsa do Crea. O processo corre na Justiça Federal, onde teria havido sessão no último 14 de setembro de 2010 para ouvir testemunhas de acusação, e não menciona nenhum dos fatos originalmente narrados pelo réu. Aliás, em 2008, o ‘engenheiro’ foi preso no Mato Grosso por se passar por médico, no que também não tem formação. Enfim, a história, à época, tinha todos os detalhes narrados por quem depois se demonstrou um versátil falso-autodidata e, sem provas, não teve seguimento como crime eleitoral.


Falsários são tratados como testemunhas fidedignas


Reitero: todas as afirmações acima foram extraídas do depoimento do falso engenheiro, de documentos da PF e da Justiça, ao qual tive acesso. Redigi então um texto de teor parecido com este, jamais publicado. Creio que toda a imprensa nacional teve conhecimento do caso à época, e nenhuma linha foi publicada com os detalhes (fantasiosos ou não) do falso engenheiro. Tampouco manchetes garrafais saíram na impressa regional ou nacional. Aliás, com raras e resumidas abordagens (caso da IstoÉ), nenhum outro veículo de comunicação deu atenção ao caso.


Se aqui omito nomes envolvidos é porque hoje, anos depois, a história soa improvável e rocambolesca, do tipo dessas que vemos nalguns diários e hebdomadários que andam a circular por aí. A pauta caiu, personagens acusados tomaram rumos diversos na política e a vida seguiu.


Por outro lado, durante o processo eleitoral de 2006, Humberto Costa (então candidato ao governo de Pernambuco) e Wellington Dias (governador do Piauí, então candidato a reeleição) foram envolvidos e massacrados, sem provas, no caso ‘sanguessuga’ (Costa, aliás, foi destroçado a ponto de inviabilizar uma candidatura competitiva). No Ceará, a mesma denúncia respingou no então candidato a deputado federal José Airton, que acabou eleito e é candidato a reeleição. Em 2002, Airton, candidato do PT ao governo cearense que por pouco não derrotou o candidato da situação (Lúcio Alcântara, então no PSDB, ganhou ou no segundo turno por apenas 0,8% de vantagem), já sofrera um bombardeio de acusações de outra ordem (infundadas, diga-se) e não foi poupado pela imprensa, como foram os ‘acusados’ pelo falso engenheiro.


Tenho cá minhas dúvidas se denúncias como as do ‘engenheiro’ teriam ficado na surdina caso fossem contra as candidaturas de Costa, Dias e Airton, em 2002 e 2006, ou contra Cid Gomes, Dilma Rousseff, Zeca do PT em 2010… Atualmente, tem mais sucesso e crédito o enrolado empresário Rubnei Quícoli e os ex-torturadores, na Folha, e as várias ‘fontes’ de Veja, com reputação tão ou mais questionável quanto a de um engenheiro com vocação para medicina. Em 2010, falsários são tratados como testemunhas fidedignas, cujas declarações tem repercussão nas diversas mídias regionais, que raramente questionam a ‘grande mídia’.


Mídia sem ética


Eis o óbvio e preocupante: subsiste a velha mídia golpista, transmutada em neofascista (ver artigo meu neste ObservatórioA mídia neofascista‘). A ‘grande mídia’ forja verdades seletivas e imaginárias que se pretendem ‘mais reais do que o real’ (Castoriadis). Adota o mutismo, quando as eleições tem resultado que lhe agrada. Caso o processo eleitoral se anuncie contrário aos seus interesses, rufem-se os tambores da moral e da ‘verdade’.


Assistimos a reificação da postura adotada em 1964 pela mídia (golpista, é necessário lembrar sempre, pois estamos longe da dignidade argentina que puniu todos os setores envolvidos com a ditadura). Em 2006, a mídia neofascista lançou ofensiva aberta contra Lula no segundo turno, e em 2010 se constrange até para anunciar Lula, o filho do Brasil como filme candidato a indicado a concorrer ao Oscar.


Urge uma nova regulamentação, discutida em âmbito governamental e civil (como fizeram e fazem a Conferência Nacional de Comunicação e o Fórum Social Mundial, por exemplo), visando a democratizar o acesso a todos os meios de comunicação e a preservação do jornalismo brasileiro, este importante intercessor entre os vícios do poder institucional e os múltiplos e transversais anseios sociais e democráticos.


Novas normas são necessárias, não para coibir opinião, e sim, os excessos desse tipo de mídia antijornalística e sem ética. Oxalá estejamos a presenciar o seu ocaso.

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Jornalista, historiador e doutorando em Pós-Colonialismo e Cidadania Global na Universidade de Coimbra, Portugal

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