Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > OPERAÇÃO CAIXA DE PANDORA

CB e o ‘silêncio dos culpados’

Por Dijaci David de Oliveira em 01/12/2009 na edição 566

Na última sexta-feira (27/11), um evento político decisivo ocorreu no Distrito Federal. Como em outros acontecimentos deste porte, esperava-se uma cobertura ostensiva dos meios de comunicação. O evento contou com ingredientes já amplamente reconhecidos dos grandes escândalos políticos tais como corrupção, escutas ambientais, demissão de vários secretários de estado de uma só vez, entre outros. Todavia, o fato recaía sobre um governante bem avaliado, que foi eleito depois de ter sido amplamente votado como deputado ao reconhecer seus erros passados (violação do painel do Senado por ocasião da cassação do ex-senador Luiz Estevão) e pedir uma nova oportunidade aos eleitores.

Como um dos mais importantes órgãos noticiosos da capital da República, o Correio Braziliense teria não só a competência, mas também a obrigação moral e ética, de realizar uma ampla e bem estruturada cobertura (ou será pedir muito?). Entretanto, quem acompanhou os fatos pelo portal do Correioweb e pelo jornal impresso presenciou um evidente e incômodo viés ao se omitir e silenciar. Obviamente, não se cobra aqui que ele devesse denunciar sem provas, mas questionar de forma responsável, como faria qualquer órgão noticioso.

Diante da evidência dos fatos, o Correio Braziliense, no entanto, tem se comportado muito mais como advogado do governador do que como crítico. Para tanto tem feito o que pode para, em primeiro lugar, desqualificar o acusador. Em um segundo momento, omitir e distanciar o quanto puder o nome do governador José Roberto Arruda dos eventos que envolvem a crise política.

Atacar o denunciante para inocentar o culpado

Assim, tanto em sua página na internet quanto no jornal impresso, o objetivo do Correio tem sido se concentrar em desqualificar o delegado Durval Barbosa. Na edição impressa de sábado (28/11), uma página inteira do caderno ‘Cidades’ foi dedicada a construir um perfil do acusador. Só no primeiro parágrafo, os jornalistas o classificaram como ‘homem bomba’, ‘pessoa de temperamento explosivo’, ‘com personalidade para cometer loucuras’, ‘vínculo com o governo Roriz’, ‘responsável por contratos sem licitação’ e ‘vínculo criminoso’. E depois, na sequência, ainda continuaram: o denunciante possui ’12 ações penais’, ‘5 ações de responsabilidade civil’, ‘2 ações populares’, ‘6 ações de improbidade administrativas’, ’13 ações civis públicas’, ‘escutas ilegais’, ‘chantagem contra deputados’ e ‘lavagem de dinheiro’.

Enfim, ao que deixam transparecer, os jornalistas falam de uma ampla ficha policial e criminosa que disponibilizaram aos leitores menos de 24 horas após o anúncio das acusações contra o governo Arruda. Mas o que significa todo esse esforço em desqualificar o acusado? Como em todo processo, atacar o denunciante tem sido uma forma de inocentar o culpado. Assim é que se inocenta o estuprador e se culpa a vítima pela sua roupa decotada. Desta mesma forma, palavras vindas de uma pessoa com ampla ficha suja, não têm nenhuma validade, ainda que se tenham provas.

O que está por trás do silêncio?

Mas onde entra o governador José Roberto Arruda? Não entra. Essa é a segunda estratégia do Correio Braziliense. Quanto menos falar no nome dele, mais chance tem de sair como inocente. Esta parece ser a grande preocupação do Correio. A edição de domingo (28/11) sequer ganha destaque, ainda mais quando se sabe que este evento representa uma das mais graves crises políticas vividas pelo governo do Distrito Federal. Mesmo que o governador esteja no centro das operações de buscas e apreensões, ele é citado apenas como quem demitiu corruptos e afastou suspeitos. Para o Correio, os vídeos e as gravações em que aparece o governador não têm importância, não possuem relevância que motivem uma investigação mais circunstanciada.

Diante da postura do Correio, deveríamos nos perguntar o que está por trás tal silêncio. Respeito à ampla defesa? Além de não ser uma prática do Correio, pode-se muito bem realizar uma ampla cobertura sem culpar por antecipação. Enfim, resta saber, e isto o Correio sequer se preocupou em perguntar, por que um delegado com ampla ficha suja fazia parte do núcleo duro do governador José Roberto Arruda. Essa, pelo jeito, é apenas uma das muitas notícias que o Correio omite para os seus leitores.

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Professor de Sociologia na Universidade Federal de Goiás (UFG)

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