Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Cem anos sem Euclides da Cunha

Por Lilia Diniz em 12/08/2009 na edição 550





Em 15 de agosto de 1909, uma notícia comoveu a
opinião pública. Em uma troca de tiros com o amante de sua esposa, morria
Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, considerado por especialistas
como o grande épico da literatura brasileira. O crime ocupou as manchetes dos
jornais durante semanas e ainda hoje é lembrado como ‘A tragédia da Piedade’,
bairro carioca onde ocorreu. O Observatório da Imprensa de terça-feira
(11/08), excepcionalmente gravado, homenageou o intelectual que


eternizou a
Guerra de Canudos, um momento crucial para a
imprensa brasileira. Como correspondente de O Estado de S.Paulo,
Euclides cobriu a primeira guerra moderna no Brasil, que contou com inovações
como o telégrafo, o trem e o jornal.


O jornalista Alberto Dines entrevistou a professora doutora Walnice Nogueira
Galvão, autora de 11 livros sobre o escritor; o jornalista e escritor Roberto
Pompeu de Toledo, autor de artigos sobre Canudos; o jornalista Daniel Piza, de
O Estado de S.Paulo, que refez a viagem realizada pelo escritor pelo Rio
Purus, na Amazônia, para demarcar as fronteiras entre Brasil e Peru e o
euclidianista José Márcio Lauria. ‘O centenário da morte de Euclides da Cunha
traz de volta o massacre de Canudos, descrito magistralmente em Os
Sertões
, livro que começa como uma série de despachos para O Estado de S.
Paulo
e torna-se um clássico – primeira visão do Brasil profundo. Um ‘novo
jornalismo’ que combina reportagem de campo e ciência’, disse Dines no editorial
que abre o programa.


Um homem obstinado


Republicano convicto, Euclides da Cunha protagonizou em 1888 uma polêmica que
marcou a sua trajetória. Aluno da Escola Militar, no Rio de Janeiro, onde
estudava Engenharia, o jovem cadete defendia o direito de os militares
exprimirem suas opiniões políticas. Impedidos de comparecer a um evento
republicano, os alunos combinam um protesto para o momento da revista da tropa.
Ao sinal, todos deveriam partir seu sabre-baioneta nos joelhos. Mas somente
Euclides cumpriu o prometido. Após tentar em vão quebrar a arma, o cadete a
atira no chão, aos pés do ministro da Guerra.


Para evitar que o cadete fosse transformado em mártir pelo movimento
republicano, Euclides foi poupado do enforcamento previsto no Código Militar
para casos graves de insubordinação. Mas, em seguida, foi desligado do Exército
sob o pretexto de ‘incapacidade física’. O assunto repercutiu na imprensa e no
parlamento, foi tema de colunas em diversos jornais, e rendeu ao jovem um
convite para escrever em A Província de S.Paulo, jornal que defendia a
mudança de regime de governo. Tem início a amizade entre Euclides da Cunha e o
diretor do jornal, Júlio Mesquita, que durou décadas.


Seus artigos – inicialmente publicados sob pseudônimo – pediam uma revolução
política. Após a Proclamação da República, com apoio do ex-professor Benjamin
Constant, então ministro da Guerra, Euclides foi reincorporado ao Exército.
Formou-se Engenheiro Militar em 1892, mas quatro anos depois, pediu reforma.
‘Ele começa a fazer muitas críticas ao que se passa no panorama da República.
Inclusive quanto à corrupção que existe muito no início do novo regime. E,
principalmente, quanto à perda dos ideais republicanos. Você começa a perceber
nas cartas o início de uma decisão, que vai demorar um pouco, de sair do
Exército, por causa disso. Por causa da desilusão com a República’, explicou
Walnice Galvão.


A guerra eternizada


Em 1896, logo após a Proclamação da República, explodiu no sertão da Bahia a
Guerra de Canudos. Comandados pelo líder religioso Antônio Conselheiro, beatos,
jagunços e ex-escravos organizaram um movimento messiânico que rejeitava as
mudanças que o novo regime provocara nos poderes da Igreja. Taxado de
‘restaurador do trono’, foi severamente criticado. ‘Euclides começa a se
interessar por Canudos em um artigo que escreve para O Estado de S.Paulo
chamado ‘A nossa Vendéa’’, explicou Roberto Pompeu de Toledo. O texto comparava
o conflito com a Revolução Francesa e afirmava que os ‘revolucionários’ eram
contra o regime republicano. ‘Ele está contaminado por aquele pensamento da
elite brasileira de que ali havia uma trincheira de malfeitores que estavam
conspirando contra o regime’, disse.


A pedido de Euclides, Júlio Mesquita solicitou ao ministro da Guerra que o
escritor participasse da comitiva como adido militar, um privilégio que os
demais correspondentes não desfrutavam. O escritor chegou à Bahia pouco antes do
final do conflito, mas ainda a tempo de presenciar as últimas batalhas. Ao todo,
O Estado de S.Paulo publicou 34 artigos e 57 despachos telegráficos sobre
o conflito. Na sede do arquivo do jornal, Dines leu um trecho do primeiro
telegrama enviado pelo correspondente: ‘‘Afirmam as testemunhas um fato que eu
já previra. Quatro ou seis jagunços faziam estacar, perturbado, um batalhão
inteiro’’.


A Guerra de Canudos é um episódio crucial na imprensa brasileira. ‘É o
primeiro momento em que os jornais mandam enviados especiais para cobrir um
evento que está galvanizando a população. Não é à toa, isso é proporcionado por
um avanço tecnológico que é o telégrafo. O telégrafo chega até Monte Santo e
possibilita que os correspondentes mandem as suas matérias para os seus órgãos.
Mas até então é uma meia dúzia, talvez um pouco mais, de enviados dos jornais,
naturalmente fazendo uma cobertura parecida com aquilo que nos EUA se chama de
embeded, incorporados ao Exército. Muitos deles até faziam parte, tinha
essa duplicidade’, explicou Roberto Pompeu de Toledo.


Toda a cobertura era censurada. O Exército, que instalara o telégrafo,
revisava as reportagens antes de enviar aos órgãos de comunicação. O
correspondente do Jornal do Commercio, Manuel Benício, foi afastado da
função por ser ‘incômodo’, conforme explicou Roberto Pompeu de Toledo. ‘Era uma
cobertura melhor, mais viva, mais corajosa que a de Euclides’, avaliou. ‘É muito
diferente o Euclides jornalista. Até dá a impressão de que ele estava escondendo
a bala, o estoque, a munição dele para o livro. Realmente o livro é uma coisa
esplendorosa, é um grande momento da literatura brasileira’.


Jornalista ou escritor?


Dines questionou se Euclides da Cunha era ‘um jornalista ou um escritor que
escrevia em jornal’. Walnice Galvão explicou que no início do século 20 era
comum que intelectuais e profissionais de diversas áreas – como Direito e
Medicina – escrevessem artigos em jornais. Estas colaborações tornavam o nível
das publicações ‘altíssimo’. Roberto Pompeu de Toledo acrescentou que o conceito
de jornalista era diferente do adotado atualmente.


‘Não existia um profissional tal qual nós o entendemos hoje. Euclides era
muita coisa. Era engenheiro, era militar, geólogo amador, sociólogo amador, ele
era tudo. E, evidentemente, colaborou muito com a imprensa. Aliás, não só
colaborou, ele trabalhou. Ele era redator de O Estado de S.Paulo numa
certa fase da vida dele, às vésperas de ser enviado para Canudos. Então, houve
períodos em que ele parecia um pouco esse jornalista profissional que nós somos
hoje. Agora, eu não diria que a produção dele é uma produção jornalística,
especialmente quando estamos falando de Os Sertões‘, disse Roberto Pompeu
de Toledo.


Daniel Piza avaliou que Euclides da Cunha mescla jornalismo e literatura na
cobertura da Guerra. ‘A gente vê claramente que ele é um escritor, um homem de
letras indo a um local para testemunhar um fato. Ao mesmo tempo ele é um
repórter na essência porque ele chega como alguém que tem que fazer despachos
para um jornal, tem que apurar as informações. E faz esse trabalho muito bem a
tal ponto que ele chega a Canudos com uma carga de preconceitos e de visões
pré-estabelecidas e vai abrindo mão daquilo porque os fatos o obrigam. Então,
nesse aspecto, ele é sim um pioneiro do jornalismo moderno e acho que tem essa
coisa de ser ‘o novo jornalista’ porque o estilo dele não é só o estilo que traz
informações, mas que também te faz se sentir no ambiente com recursos
literários.’


De vilões a heróis


Ao retornar de Canudos, o escritor tem uma outra visão do conflito. Walnice
Galvão explicou que Euclides da Cunha cultiva uma atitude dúbia em relação ao
Conselheiro em Os Sertões. ‘Ele diz, às vezes, que era um homem genial e,
outras vezes, que é um bufão, um louco falando sozinho. Ele tem as duas coisas
misturadas’, contou. ‘Mas ele foi ganho pela admiração que teve pelos
canudenses. Ele foi pra lá e viu que eles lutavam até a morte pela suas
convicções, pelos seus princípios. Ele ficou muito mal. Ele sai dois dias antes
do fim da guerra e fica ruminando aquele livro. Fica cinco anos escrevendo,
estudando, porque aquele livro precisa de muito estudo pra ser escrito. Ele já
escreve com a convicção de que está escrevendo o ‘livro vingador’, que é como
ele chama o livro em diversas ocasiões. E foi uma reviravolta muito penosa’,
avaliou.


O Observatório foi a São José do Rio Pardo, cidade paulista na qual
Euclides da Cunha escreveu parte de Os Sertões e onde hoje descansam seus
restos mortais. Engenheiro de Obras Públicas de São Paulo, Euclides foi
designado para reconstruir uma ponte metálica destruída em uma enchente. ‘Quando
ele chegou, já havia boa parte – especialmente de ‘A Terra’ – em estado de
publicação. Ele retocou, editou, a parte de ‘O Homem’ e ‘A Luta’. O essencial da
presença de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo foi ter dado a fórmula
definitiva ao Os Sertões‘, explicou Márcio Lauria. Dines mostrou aos
telespectadores a cabana de zinco e sarrafos à beira do rio que servia de
escritório durante o período.


‘É um livro da perplexidade do encontro de um Brasil com um outro Brasil. De
um Brasil que o Euclides chama de ‘o Brasil do litoral’, que encontrou o ‘Brasil
do sertão’. Um encontro de um Brasil urbano, conectado com o mundo, com um
Brasil que ficou pra trás, atrasado. E esse choque é exposto como pano de fundo
a uma guerra muito simbólica, muito emblemática, e muito rica em detalhes, nas
suas evoluções, nos seus episódios’, disse Roberto Pompeu de Toledo.


Após o sertão, a selva


Em 1904 Euclides da Cunha se candidatou para uma nova aventura. Por
interferência do Barão do Rio Branco foi escolhido para chefiar a comissão de
demarcação das fronteiras entre Brasil e Peru. Uma viagem de cerca de um ano na
floresta amazônica. ‘Euclides tinha o espírito muito extremista, isso é muito
simpático nele, ele era muito aventuresco, ele não se acomodava em nada, ele
queria outra aventura. Não contente em ter ido à Guerra de Canudos, que não era
pouco, não contente em já ser um homem importantíssimo – membro da Academia
Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, autor
conhecido no Brasil inteiro – ele cismou que queria ir pra Comissão de
Reconhecimento do Alto Purus’, relembrou Walnice Nogueira.


Daniel Piza explicou que durante a longa e atribulada viagem pela Amazônia,
Euclides viu o conflito entre o homem e a natureza. ‘Assim como os sertanejos,
que ele diz que eram ‘fortes’ para resistir ao meio hostil, ele viu mesmo com os
seringueiros, com os caboclos daquela região do Acre que eram ‘fortes’ também
porque eram nômades e tinham que se acostumar a uma natureza bastante adversa.
Em uma tão importante frase quanto ‘o sertanejo é antes de tudo um forte’, ele
definiu da seguinte forma: ‘o seringueiro trabalha para escravizar-se. Então,
ele captou que era um regime de trabalho muito perto da escravidão e disse que
só teria jeito a Amazônia se você começasse mudando as relações trabalhistas’’,
contou.


A tragédia pessoal que abalou o país


Ao retornar da expedição, Euclides encontra sua mulher, D. Saninha, grávida.
Há alguns meses, ela mantinha uma relação extraconjugal com o jovem cadete
Dilermando de Assis. ‘O casamento era um desastre. Há inúmeras testemunhas e
todo mundo sabia que aquele casamento não tinha dado certo, era da mais absoluta
incompatibilidade’, contou Walnice Galvão.


‘D. Saninha jurava que ia romper com o Dilermando e que aquilo não iria
adiante, mas ela não conseguia. Era uma paixão, realmente, de parte a parte. Até
que então, um dia, não se sabe direito a circunstância, mas sabe-se que ela
pegou os filhos, menos o mais velho, que já estava na Escola Militar, e foi
embora. Fugiu de casa e foi para casa do Dilermando, no bairro da Piedade’,
relembrou.


No chuvoso domingo no qual ocorreu a tragédia, Euclides invadiu a casa de
Dilermando com revólver em punho. Assim que o cadete surgiu na sala, atirou
contra ele, mas o Dilermando era campeão de tiro. Apesar de atingido, reagiu e
matou o escritor com dois disparos. A notícia correu a cidade e estampou as
manchetes dos jornais. Enquanto a imprensa paulista mantinha discrição, a
carioca explorava o crime. ‘No Rio, os jornais se divertiram com o que houve’,
disse Walnice.


Dois anos depois, o cadete foi julgado e absolvido por legítima defesa. ‘O
Brasil inteiro queria que ele fosse guilhotinado, mas não conseguiram. Eu
publiquei os Autos do processo, não tinha jeito de dizer que não era legítima
defesa porque era. Alguém invade a sua casa dando tiro, você se defende. Houve
apelação para o Supremo e ele ganhou outra vez’, disse a professora.
Imediatamente após sair da cadeia, casa-se com D. Saninha.


Um século depois, a história sem ponto final


‘De vez em quando, alguém ressuscitava a história. Faziam entrevista com o
Dilermando e ele falava mais do que devia porque tinha muita culpa em cima dele.
Há uma frase, que é de um dos jornalistas da época, não se sabe se o jornalista
inventou ou se foi o Dilermando que disse: ‘eu cometi o crime de matar um Deus’.
Passou o resto da vida execrado, apesar de ter sido absolvido duas vezes’,
enfatizou Walnice Galvão.


Sete anos após o crime, uma nova tragédia abalou a família. O filho preferido
de Euclides, estimulado pela família a buscar vingança pela morte do pai, morre
em uma troca de tiros com Dilermando de Assis. ‘Uma família destroçada pela
sucessão de assassinatos e vinganças onde não há vilões e todos são vítimas. Mas
a força de suas palavras foi maior. O escritor ficou eternizado como um dos
maiores nomes da cultura nacional. E sua grande obra, Os Sertões, gerou
um formidável acervo: dezenas de reportagens, livros, trabalhos acadêmicos,
curtas e longas-metragens e até uma mini-série de tv. Esta é uma história cujo
desfecho ainda não foi escrito’, disse Dines.


***


O maior épico da nossa história


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na
TV nº 515, exibido em 11/08/2009


Ele escreveu o maior épico da nossa literatura e foi o protagonista de uma
das mais sangrentas tragédias passionais ocorridas no Brasil.


O centenário da morte de Euclides da Cunha traz de volta o massacre de
Canudos, descrito magistralmente em Os Sertões, livro que começa como uma
série de despachos para o Estado de S.Paulo e torna-se um clássico –
primeira visão do Brasil profundo. Um novo jornalismo que combina reportagem de
campo e ciência.


Os Sertões e Euclides da Cunha compõem um grande painel da vida e do
jornalismo brasileiro. E este Observatório da Imprensa não poderia
esquecê-los.

******

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