Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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IMPRENSA EM QUESTãO > CRISE COM A BOLÍVIA

Cenas de histeria na grande mídia

Por Renato Gianuca em 09/05/2006 na edição 337

A decisão soberana do governo boliviano ao nacionalizar seus recursos naturais provocou alguns fenômenos curiosos e interessantes junto à grande mídia corporativa brasileira. De repente, os principais jornalões de São Paulo, Rio e Porto Alegre revelam uma inusitada e inesperada tendência ‘nacionalista’. Em manchetes, matérias e colunas, condenam duramente o governo boliviano. E exigem do governo brasileiro medidas duríssimas ‘para resgatar a soberania nacional’, supostamente agredida pelos atos do presidente Evo Morales.

A mídia corporativa – afinal! – ‘redescobre’ a América Latina: sucedem-se matérias e artigos tentando explicar o que alguns já estão chamando de ‘a guerra do gás’. E todo este esforço midiático, é claro, atinge em cheio o atual momento pré-eleitoral brasileiro. O pré-candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, já discursa em tom ‘nacionalista’. Segundo o jornalista Laerte Braga, em matéria postada na quinta-feira (4/5) no grupo de discussão Nuestra América, Alckmin quer garantir o ‘brazilian way of life’, um subproduto do ‘american way of life’. Diz Braga, em seu artigo:

‘É a primeira vez, desde o início da crise política que pega o governo Lula, que o presidente corre riscos reais de não alcançar a reeleição. A situação com a Bolívia é o ingrediente necessário à direita para viabilizar o sonho de voltar a ter o controle da chave do cofre’.

Será mesmo tudo isso? Ou Braga extrapola em sua análise?

O que é real, de fato, é apenas isso: um ato normal, de um governo soberano, leva subitamente a grande mídia brasileira e latino-americana a ataques de histeria. Segundo a jornalista Elaine Tavares, no site da OLA, ‘se Evo Morales nacionaliza empresas estratégicas para o desenvolvimento da Bolívia, vira um `louco populista´’.

Integração continental

Em entrevista à rádio CBN, o economista Nildo Ouriques diz que, do ponto de vista fiscal, a racionalidade da decisão boliviana é ‘impecável’. E acrescenta: ‘Os preços do petróleo e seus derivados estão lá no alto. É justo que um Estado soberano redefina suas metas em funções das necessidades do país’. Ouriques deixa claro: a histeria que se ouve nas rádios e nas TVs é ‘totalmente desprovida de análise. É ideologia pura’, disse.

E, neste ponto específico, vale ler o artigo do insuspeito colunista Clóvis Rossi (Folha de S.Paulo, 3/5/2006):

‘O credo liberal não mandava criar transnacionais tupiniquins para competir no mercado global? A Petrobrás investiu. E trouxe ao Brasil gás a um preço bastante interessante: dois dólares o milhão de metros cúbicos. O que, na Califórnia, por exemplo, custa de US$ 12 a US$ 15 – ou de seis a sete vezes mais’.

Em seu artigo, Rossi fala, ironicamente, de cumprimento de contrato. E aí destaca o ‘contrato’ entre o candidato Evo Morales e seus eleitores. O atual presidente boliviano prometeu, na campanha, nacionalizar os recursos minerais (gás e petróleo). ‘O eleitorado `comprou´ a promessa e lhe deu a vitória. Evo está agora fazendo apenas o que prometeu’, acrescenta o veterano jornalista da Folha.

Do Rio de Janeiro, o jornalista Paulo Prada escreve reportagem (04.05.2006) para o site do International Herald Tribune, de Paris. Ele descreve a barragem de críticas ao presidente Lula pela ‘resposta fraca’ às medidas do governo boliviano. E relata: homens de negócio, políticos de oposição e a maioria dos grandes consumidores de gás natural dizem que Lula foi apanhado de surpresa pela decisão boliviana. Um desses críticos é o antigo embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa, hoje trabalhando em consultoria empresarial em São Paulo: ‘Por causa de sua ideologia, o presidente Lula não estava preparado para defender os interesses comerciais do Brasil’.

+A matéria do mítico jornal parisiense conclui afirmando que o presidente brasileiro defendeu os direitos do ‘povo sofredor’ da Bolívia, a nação mais pobre da América do Sul, e garantiu que irá, sim, proteger os interesses do Brasil ao mesmo tempo em que respeitará as leis bolivianas.

Esta é a mesma posição do presidente argentino, revelada após o término da reunião de cúpula em Puerto Iguazú (4/5), no vizinho país. Em curta entrevista à Telam, a agência de notícias oficial da Argentina, o presidente Néstor Kirchner garantiu, ao lado dos presidentes Lula, Morales e Chávez, que o envio de gás natural não será suspenso de forma alguma. Quanto ao preço do produto, será negociado ‘com critério e racionalidade, para ajudar o consumo’. Sobre a decisão boliviana de nacionalizar seus recursos naturais, disse Kirchner: ‘Respeitamos as decisões que cada país possa tomar. E isso também é válido para a Bolívia’.

Junto ao presidente argentino, o presidente Lula insistiu na tese que agora lhe vale duras críticas da oposição: o encontro serviu para consolidar a posição dos quatro mandatários de buscar a integração do continente. ‘Queremos dizer ao mundo que somos adultos e responsáveis. Queremos dar uma chance à América do Sul, com uma economia fortalecida’, afirmou Lula, segundo a jornalista Dora Kramer, em matéria para a Agência Estado.

Ciclos implacáveis

A grande mídia gaúcha, afinal, também ‘redescobre’ a América Latina: a RBS, principal grupo de comunicação do estado, enviou um repórter à Bolívia. De lá, na quinta-feira (4/5) à tarde, ele falou à Rádio Gaúcha desde Puerto Suarez, cidade fronteiriça, onde empresários bolivianos buscam apoio popular à permanência de uma usina brasileira, banida do país de Evo Morales por problemas ambientais. É provável, e até bom mesmo, que a pauta da RBS vá além da fronteira. Até porque o empreendimento siderúrgico do empresário Eike Batista deverá migrar para a cidade de Corumbá (MS) conforme noticia no Globo o colunista Ancelmo Góis.

O jornal O Sul, por sua vez, publica colunas dos principais jornais brasileiros num caderno especial e diário de oito páginas. Nos últimos dias, sobre a crise boliviana, sucederam-se neste caderno dezenas de manifestações dos ‘formadores de opinião’ da Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Jornal de Brasília, O Globo e Jornal do Brasil. Em sua maioria, todos contra Morales e, por tabela, contra Lula.

O caderno também publica colunas de dois ou três jornalistas gaúchos, um dos quais revela que o gesto nacionalista de Morales ganhou o apoio do governador do Paraná, Roberto Requião. Outro colunista gaúcho, mais agressivo, intitulou assim sua coluna do dia de quarta-feira (3/5): ‘O Brasil se põe de joelhos diante da republiqueta boliviana’.

Será mesmo tudo isso? E quais interesses contrariados estão por trás deste súbito ‘despertar nacionalista’ da grande mídia brasileira para os problemas da América Latina? (Ver ‘A grande mídia exclui a América Latina‘, neste Observatório).

‘Calma no Brasil’, pede a coluna ‘Coisas da Política’, de Mauro Santayana (Jornal do Brasil, 3/5). E prossegue:

‘No caso do gás boliviano, há circunstâncias que devem moderar a posição de Morales. Se o Brasil for forçado a deixar de o comprar, a quem os bolivianos o venderão? Tendo em vista essas circunstâncias geopolíticas, o Brasil deve manter-se tranqüilo. Não pode exigir, nem ceder, de forma açodada, como cedeu o governo Fernando Henrique Cardoso, ao negociar a parceria sobre o gasoduto. Quando concordou que pagaríamos pelo combustível, quer o usássemos ou não’.

Santayana, depois de citar o historiador britânico Arnold Toynbee (1889-1975) – ‘o nacionalismo continua a ser a ideologia do século 21, como fora a do século 20’ –, expõe os variados conflitos políticos, econômicos e ambientais na América do Sul que estão merecendo, agora, ampla cobertura da mídia corporativa. E conclui:

‘Em Washington, os estrategistas, que não devem estar longe do que ocorre, podem sorrir. Aos poucos, e para benefício provisório – e não definitivo – do Império, o mundo vai voltando ao natural’.

Será, mesmo, mestre Santayana?

O que fica de todo esse episódio é a hipocrisia e o cinismo da grande mídia, jogando a ‘carta’ de um pretenso nacionalismo, mas comprometida com interesses empresariais que vão muito além das nossas fronteiras. Se os estrategistas que hoje manipulam a tecnoarrogância imperial sorriem e se mostram satisfeitos, eles estão apenas relembrando conquistas de outros tempos antigos e passados: dividir para conquistar foi o lema dos romanos. A eles, sucederam-se outros impérios. Mas os ciclos são implacáveis: todos impérios, após atingir o apogeu, terminaram e passaram às páginas da História. O império atual também deverá passar. Quando? Fica a questão à imaginação do leitor.

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Jornalista, integrante da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul

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