Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > OI NA TV => CASO MARIA RITA

Censura, modos de usar

Por Lilia Diniz em 14/10/2010 na edição 611





O Observatório da Imprensa exibido ao vivo
pela TV Brasil na terça-feira (12/10) discutiu a relação entre colunistas e a
linha editorial dos jornais. Até que ponto a opinião de um colunista pode
contrastar com a do veículo que o abriga? Essa questão atinge a maioria das
empresas jornalísticas e ficou evidente com o desligamento da psicanalista Maria
Rita Kehl de O Estado de S.Paulo. Há nove meses ocupando quinzenalmente
um espaço no caderno ‘C2+Música’, aos sábados, Maria Rita teve a colaboração
cancelada após a publicação da coluna ‘Dois


pesos…’, no
dia anterior ao primeiro turno das eleições. No texto, a psicanalista criticava
as correntes de mensagens na internet que desqualificavam o voto das classes D e
E, beneficiadas com programas de assistência do governo federal implantadas nos
últimos oito anos. Maria Rita, no mesmo artigo, elogiou o jornal por ter
declarado apoio ao candidato a presidente José Serra (PSDB).

O programa abriu espaço para o diretor de Conteúdo do Grupo Estado, Ricardo
Gandour, participar do debate, mas o jornalista declinou do convite. Em nota
publicada na seção de Cartas de O Estado de S.Paulo no domingo (10/10), a
direção do jornal afirmou que não houve ‘censura’, visto que todas as colunas
enviadas pela psicanalista foram publicadas sem cortes ou alterações. Na visão
de Gandour não houve ‘demissão’, uma vez que há um revezamento entre os
colunistas do jornal, que atualmente chegam a 92.


Gandour ponderou que idéia inicial da coluna seria oferecer um espaço para
psicanálise e Maria Rita estaria se desviando do foco. Para Gandour, o que
precipitou a saída de Maria Rita foi o vazamento das conversas em torno do
destino da coluna. Em entrevista ao Terra Magazine, Gandour afirmou que o
período eleitoral contribuiu para uma leitura ‘histérica’ do caso. Apesar de não
ganhar grande repercussão na imprensa tradicional, o assunto levantou polêmica
na internet e foi um dos dez mais comentados da rede de microblogs Twitter (ver
em ‘Fui demitida por um ‘delito’ de opinião’
entrevistas de Maria Rita e Gandour; outras remissões no pé desta página).


Para discutir este assunto, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de
Janeiro a psicanalista Maria Rita Kehl e o professor de Comunicação Muniz Sodré.
Formada pela USP, Maria Rita escreve para jornais, como freelancer, desde
1974. Tem diversos livros publicados em psicanálise, que incluem observações
sobre os fenômenos da cultura. Com seu último livro – O tempo e o cão – A
atualidade das depressões
– ganhou o primeiro lugar do prêmio Jabuti 2010,
na categoria psicanálise. Muniz Sodré é mestre em Sociologia da Informação e
Comunicação pela Université de Paris IV (Paris-Sorbonne) e doutor em Letras. É
professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), preside a
Fundação Biblioteca Nacional e é autor de mais de 30 livros na área de
Comunicação.


Imprensa boa?


Em editorial, Alberto Dines comentou a afirmação feita pelo ministro-chefe da
Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Franklin Martins (em 7/10), de
que ‘a liberdade de imprensa não garante que a imprensa seja boa’. ‘Este binômio
liberdade-qualidade merece uma discussão demorada. Hoje vamos discutir apenas
sua premissa inicial: a imprensa brasileira é livre. É livre? Mas quem se
beneficia desta liberdade – os veículos jornalísticos ou aqueles que neles
escrevem? Esta é uma questão antiga mantida em segredo e até hoje irresolvida’,
disse. Dines ressaltou que além de mediador deste debate, também será uma
testemunha de acusação: ‘No final de fevereiro deste ano o meu artigo semanal
publicado no portal do Último Segundo havia seis anos foi censurado e eu
demitido na mesma hora’, relembrou.


No debate no estúdio, Dines perguntou a Maria Rita se ao escrever a coluna
‘Dois pesos…’ tinha em mente uma possível repercussão negativa no jornal. A
psicanalista afirmou que sabia que poderia enfrentar problemas e explicou que
apesar de ter consciência do momento eleitoral, não tinha calculado que o artigo
seria publicado exatamente na véspera do pleito. ‘O tema, muitas vezes, se impõe
a nós’, argumentou. Maria Rita ressaltou que todas as colunas foram publicadas
integralmente, mas que o argumento de que não houve censura ‘é cínico’. Um dos
problemas mais importantes da imprensa brasileira, na opinião de Dines, é o
autoritarismo que está embutido em um sistema que se acredita livre. Quem não
‘obedece à cartilha, sobra’. ‘Não adianta sermos teoricamente livres’, criticou.


Outra ponderação do jornal refutada por Maria Rita foi a do revezamento entre
os colunistas, uma vez que ela fazia parte do time havia apenas nove meses.
Maria Rita disse não concordar com a argumentação de que o espaço da sua coluna
devesse ser restrito à psicanálise. ‘Eu havia dito para a pessoa que me convidou
que eu não escreveria sobre psicanálise, mas que sendo psicanalista o meu olhar
sobre as coisas é analítico e eu acho que a psicanálise vale nesse ponto. Não é
para falar de pai-mãe-filho, comportamento, mas é o olhar’. Maria Rita contou
que a primeira reação quando soube que o jornal avaliava se interromperia a
publicação da coluna foi de tristeza e de culpa. ‘Eu só me toquei do absurdo
quando uma hora depois me liga um dos meus irmãos e diz: ‘Você foi demitida do
Estadão?’ Eu disse: ‘Ainda não, mas como é que você sabe?’ Ele disse:
‘Abre o Twitter’. Quando eu vi a quantidade de gente protestando, eu me toquei.
E era gente muito jovem’, lembrou.


Reação histérica


Muniz Sodré disse que há uma certa ignorância, não só dos editores dos
maiores jornais como também do público, sobre o que é a psicanálise. ‘Se acha
que a psicanálise está restrita ao objeto interno, ao interior do sujeito, e não
seja uma observação metódica da vida social a partir de um certo ângulo, de um
certo enfoque’, avaliou. Muniz se disse espantado com o fato de a demissão da
psicanalista ter sido apontada como uma ‘surpresa’. Na visão de Muniz, quem vive
a rotina de um jornal sabe que isso ‘ocorre o tempo inteiro’ e não costuma
desencadear reações públicas.


Dines levou para a discussão a avaliação da direção de O Estado de
S.Paulo
de que a reação ao desligamento da psicanalista tenha sido
‘histérica’. Muniz Sodré destacou que a histeria é uma doença da representação.
‘Do ponto de vista da ética do jornal, a doença da representação foi a censura.
Portanto, histérica foi a censura’, criticou. ‘Chamar de histeria a manifestação
de quem se indignou porque gostava da coluna, ou às vezes nem gostava, mas achou
que não era justo [o comportamento do jornal], é uma desqualificação utilizando
um nome atribuído a uma forma de neurose que é uma forma de sofrimento psíquico.
A coisa mais comum do mundo é um homem chamar de histérica uma forma de
insatisfação de uma mulher’, sublinhou Maria Rita.


Para Muniz, é preciso observar qual o contexto em que as empresas
jornalísticas estão inseridas no momento em que decisões como o desligamento da
psicanalista são tomadas. ‘Eu queria lançar uma hipótese de que a estrutura
econômico-gerencial das empresas jornalísticas é anacrônica. Não são empresas
plenamente capitalistas, são empresas patrimonialistas, o que é diferente. No
patrimonialismo existe o capital, mas ele é tratado como assunto de família.
Isso é típico do patrimonialismo, onde o sujeito é a família em sentido amplo’,
disse. O que deveria ser gerido com a lógica do capital, como uma mercadoria, é
tratado como um assunto de investimento ‘libidinal’ do grupo.


A quem interessa a opinião do leitor


Este arcaísmo, dentro da sociedade brasileira, remete a uma lógica da
‘casa-grande’ que ainda está no espaço público. ‘Na verdade, pode ser o dono, o
chefe da família ou do grupo; ele gere o seu negócio, a sua corporação de mídia
ou de imprensa, com um discurso fora do lugar, que é o da liberdade’, afirmou
Muniz. Como conseqüência desta situação, a empresa que deveria estar no século
21 é gerida como a casa-grande. ‘O pessoal dando ordens no centro da sala, a
senzala ali, e o jornalista continua sendo tratado como sujeito da senzala. Tem
sempre um patrão, um dono, lá dentro que manda de acordo com seus caprichos, com
raras exceções.’


Maria Rita chamou a atenção para o fato de a direção do jornal dizer que
optou pelo desligamento a partir do momento que em a conversa entre as duas
partes vazou para a internet e, assim, desencadeou manifestações quando o
assunto ainda estava em debate. A psicanalista estranha a posição do jornal de
‘não se interessar’ pelo o que os leitores pensam, uma vez que uma parte deles
foi contra o seu desligamento. ‘Há um grupo cuja opinião interessa – de novo,
dois pesos – e pode ter milhares de leitores que não interessam. Uma
manifestação de descontentamento é histeria. Gente louca, desequilibrada, a fim
de fazer barulho. Eu acho isso de um desprezo pela opinião pública… Como é que
um jornal pode ter este desprezo pela opinião pública?’, perguntou.


Observado a partir do ângulo da liberdade, na avaliação de Muniz Sodré o
espaço público tem retrocedido. ‘Antes, havia temas que eram censurados, mas que
hoje entraram em uma camisa-de-força. Você pode falar no espaço público de
diferenças sexuais, de minorias sexuais, mas do ponto de vista de idéia nova ou
de idéia contraditória sobre um tema, o espaço público é refratário. Primeiro,
por achar que não se pode entender publicamente. Depois, por achar que o assunto
não vende, no caso das editoras, e por achar que não interessa efetivamente’,
disse.


Falatório da rede


Para Muniz, as redes sociais representam atualmente apenas o ‘falatório’. Em
episódios pontuais, as novas mídias são eficazes, como na mobilização durante a
campanha para a Lei da Ficha Limpa e em questões ambientais. Formam multidões,
mas são pontuais e não têm continuidade. Muniz acredita que este pode ser um
momento de nascimento dessas mídias e por isso, naturalmente, passe pelo caos,
pela anarquia e por um sentimento de inutilidade. Maria Rita ponderou que há na
internet redes de discussão importantes e consistentes, não só ‘falatório’.


Dines comentou que a ‘censura’ não é exclusiva do caso de Maria Rita e
relembrou a pouca cobertura que a imprensa dedicou à concordata firmada entre o
governo brasileiro e a Santa Sé, em 2008. Assinado durante uma visita do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Vaticano, o tratado confere formato
jurídico às relações entre o Executivo Brasileiro e a igreja católica e tem
pontos polêmicos, como o ensino religioso nas escolas públicas, com presença
facultativa, e a possibilidade da anulação do casamento civil no caso o
matrimônio religioso ser desfeito. Apesar de ser uma ameaça ao princípio de
Estado laico, o assunto foi tratado com pouco destaque.


De acordo com Dines, este caso mostra que ‘a censura é cogitável, não é uma
coisa tão horrorosa’. Na época da assinatura do tratado, a imprensa não explicou
qual era o teor dos documentos. ‘Não tinha notícia, tinha fotos sociais,
mundanas, do papa Bento 16 recebendo a cúpula do governo brasileiro’, lembrou. O
assunto só ganhou espaço na mídia meses depois, quando o tratado internacional
entre os dois Estados começou a tramitar no Congresso Nacional. ‘Houve um
acordo. O governo pediu que a imprensa presente ao encontro não noticiasse que
tinha sido assinada uma concordata, um convênio com o Vaticano’, disse Dines.
Para ele, a censura é considerada ‘uma coisa tão feijão com arroz’ que foi
possível um acordo como este entre o governo e a mídia.


***


Fator sistêmico


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 567,
exibido em 12/10/2010


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


Numa avaliação que já se tornou clássica (embora feita há apenas duas
semanas), o jornalista Franklin Martins disse que a imprensa brasileira é livre,
mas não é boa. Este binômio liberdade-qualidade merece uma discussão demorada.
Hoje vamos discutir apenas sua premissa inicial: a imprensa brasileira é
livre.


É livre? Mas quem se beneficia desta liberdade – os veículos jornalísticos ou
aqueles que neles escrevem? Esta é uma questão antiga mantida em segredo e até
hoje irresolvida. Por força das circunstâncias fortuitas, esta liberdade foi
questionada dias depois quando a psicanalista Maria Rita Kehl, que colaborava
havia oito meses no ‘Caderno 2’ do Estado de S.Paulo, foi afastada do
quadro de articulistas por causa de um artigo que publicou no seu espaço
semanal.


O caso não repercutiu na mídia impressa, exceto no semanário
CartaCapital, e mereceu uma nota na seção de cartas do Estadão.
Mas teve amplo destaque no ciberespaço, principalmente no portal Terra. Este
silêncio constrangido exemplifica o que afirmamos há mais de uma década: se a
mídia olha para o lado quando devia tratar dela própria, suas escolhas tornam-se
suspeitas.


Este Observatório não poderia ignorar o episódio. A psicanalista Maria
Rita Kehl prontamente aceitou nosso convite e participa dos nossos estúdios no
Rio de Janeiro.


Ao jornalista Ricardo Gandour, diretor de conteúdo do Grupo Estado, foram
oferecidas várias alternativas: participar ao vivo dos estúdios em São Paulo ou
gravar um depoimento que seria transmitido na íntegra sem cortes. Infelizmente,
este que é o diretor de jornal mais acessível e o mais assíduo neste
Observatório, declinou. Apresentaremos a sua argumentação extraída da
entrevista que concedeu ao jornalista Bob Fernandes, editor-chefe do Terra
Magazine.


A psicanalista Maria Rita Kehl formou-se na USP em 1980, mas escreve em
jornais desde 1974. É autora de vários livros sobre psicanálise e cultura. Com o
seu último livro ganhou o prêmio Jabuti deste ano na categoria psicanálise. Aqui
no estúdio está também o jornalista e professor Muniz Sodré, mestre em
sociologia da informação e da comunicação pela universidade de Paris-IV e doutor
em Letras.


Além de apresentador e mediador, hoje sou também testemunha, testemunha de
acusação. No final de fevereiro deste ano o meu artigo semanal publicado no
portal do Último Segundo havia seis anos foi censurado e eu demitido na
mesma hora. O portal do Último Segundo pertence a uma operadora de
telefonia privada, mas segue uma linha política oposta à do Estadão. Este
tipo de violência não é episódico. É sistêmico e está embutido insidiosamente na
liberdade da nossa imprensa, qualquer que seja o seu matiz político.


 


Leia também


‘Fui demitida por um ‘delito’ de opinião’ – Bob
Fernandes


A última coluna da psicanalista – Luciano Martins
Costa


Imprensa livre. Imprensa boa? – Alberto Dines


Os bastidores de uma demissão – Conceição Lemes

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