Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

IMPRENSA EM QUESTãO > FALHA DA FOLHA

Censura nos olhos dos outros não arde

Por Andrea Baulé em 12/10/2010 na edição 611

Teve vida curta o blog Falha de S.Paulo, criado pelos jornalistas Lino e Mário Ito Bocchini que foi ao ar no mês de setembro passado. Lino e Mário resolveram criar um blog que satirizava o jornal Folha de S.Paulo, apontando as incoerências na sua cobertura das eleições. A empreitada durou apenas três semanas. O blog fazia crítica usando principalmente fotomontagens de capas do jornal, ou mostrando artigos e fotos sobre os quais fazia comentários. Os autores consideravam (eles e muitos outros) desigual o tratamento dado pelo jornal aos candidatos e seus respectivos partidos.

Em um dos comentários era mostrada uma foto de um artigo de rodapé sobre o pedido do tucano Beto Richa (PSDB-PR) ao TRE paranaense que impediu a divulgação de pesquisas eleitorais naquele estado. A legenda dizia: ‘Fosse o PT, o (não) destaque seria o mesmo, claro’, fazendo alusão ao local onde a notícia tinha sido publicada.

Hoje, opiniões são para o mundo

Depois de três semanas de vida, o blog foi retirado do ar. A Folha de S.Paulo entrou com um pedido na Justiça e obteve uma liminar concedida pelo juiz Núncio Theophilo Neto, da 29ª Vara Cível de São Paulo, que determinava a retirada imediata do site Falha de São Paulo do ar, sob pena de multa de 1.000,00 reais por dia caso a ordem não fosse cumprida. A alegação é a de ‘uso indevido da marca’. Segundo a advogada do jornal, ‘a Folha, como qualquer outra empresa, deve preservar a sua marca’. E afirmou ainda: ‘Geralmente, nestes casos, o juiz aplica uma multa de 100 mil reais por dia.’

Quando começou o processo eleitoral deste ano, um dos assuntos mais discutidos era a Lei Eleitoral 9.504, que previa a aplicação de multas de 100 mil reais a programas que usassem ‘trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido político ou coligação’. Censura esta que o STF, em 2 de setembro, revogou por seis votos a três. A ‘coincidência’ entre o valor da multa a que se refere a advogada e o valor da multa cobrada pela Lei eleitoral dá ao caso um estranho toque de humor. Seria a Folha um jornal travestido de candidato ou um candidato travestido de jornal?

O internet mudou a maneira como a informação circula no mundo. Antes, os jornais, revistas e emissoras de radio e TV eram os únicos detentores da palavra. O máximo que o leitor podia fazer era escrever uma cartinha para o editor e dizer o quanto este ou aquele artigo – este ou aquele programa – o tinha desagradado, mas essa atitude não tinha grandes repercussões. Hoje, com os blogs, vlogs e as redes sociais, todos os que queiram e tenham acesso à internet podem colocar suas opiniões para o mundo – e isto deveria incluir criticar jornais, revistas e programas de rádio TV.

Jornal atingiu seu objetivo

A Folha criou uma celeuma em torno de um blog que tinha 1.000 visitas por dia, escrito por dois jornalistas com o objetivo de fazer valer as próprias opiniões sobre o jornal. No dia em que os jornalistas receberam a liminar obrigando a retirada do blog do ar, resolveram explicar aos seus leitores o que havia acontecido e, de repente, passaram de 1.000 visitas para 40.000 visitas diárias. Ou seja, o pequeno blog tomou um vulto que vai ecoar por muito tempo na ficha corrida da Folha.

A pergunta que fica é: o que causava mais dano à ‘marca’ do jornal? Um blog com 1.000 visitas por dia ou a notícia de uma ‘censura’ judicial promovida pela Folha de S.Paulo, com a desculpa de ‘uso indevido da marca’? Basta uma busca no Google ou no Twitter para ter uma ideia da dimensão que o caso tomou.

Na blogosfera e nos comentários no Twitter já se criou um movimento com o nome ‘censura eu, folha’, que propõe que os posts do site que já está fora do ar sejam replicados em vários servidores, tornando impossível a ‘caça’ ao ‘uso indevido da marca’. Um Tumblr– serviço de blogagem que mescla características das plataformas de blogs e de microblogging como o Twitter – foi criado e está no ar com imagens dos posts do site e um domínio com o nome já registrado http://falhadesaopaulo.com.br/, com o aviso expresso de que ‘falha’ e ‘folha’ não são sinônimos.

Para quem queria proteger a marca, parece que a Folha conseguiu atingir seu objetivo…

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