Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Censura, um erro fatal

Por Luciano Martins Costa em 03/08/2009 na edição 548

Terminou o recesso parlamentar e tudo que o presidente do Senado José Sarney conseguiu até agora foi aumentar a lista de acusações que pesam sobre sua cabeça. Agora sua permanência no cargo depende apenas das conveniências do PMDB e do jogo maior que se desenha para a disputa eleitoral de 2010.


O alcance das ações pessoais de Sarney ficou reduzido pela quantidade e a gravidade das denúncias, e as mais graves apontam para as atividades de negócios de seu filho Fernando. A ironia é que José Sarney decidiu de última hora disputar a presidência do Senado justamente para tentar barrar as investigações que avançavam na Polícia Federal e no Ministério Público contra esse filho.


Não, leitor atento, não há esperança de que Sarney venha a ter seu mandato cassado. No máximo, o que ele vai sofrer será a contingência de renunciar à presidência do Senado, não sem antes deixar amarrada a indicação de um sucessor que assegure deixar tudo como está.


No universo da política, nada é o que parece. Não se pode confiar nem mesmo nos mais convincentes desempenhos dos atores que desfilam diante das câmeras recitando os mais acalorados pronunciamentos em favor da ética e dos bons costumes na política.


Discursos indignados


Como já se disse neste Observatório, política não tem a ver necessariamente com moral, embora devesse honrar a ética. O que vai definir o destino de Sarney, de fato, é a conveniência de seus pares. E essa questão não foi determinada pelo peso ou o número das acusações, mas por um movimento desastrado de um de seus muitos bons companheiros do poder, o desembargador federal Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal.


Ao determinar a censura prévia do jornal O Estado de S.Paulo, o magistrado sinalizou até onde José Sarney está disposto a ir para defender seu cargo. E no ponto a que chegou, de colocar no lixo um dos fundamentos da ordem constitucional estabelecida pela Constituição de 1988, seus parceiros da política não estão dispostos a pisar.


Afinal, é sob o manto sagrado desse formalismo democrático que sobrevivem todos os vícios da República. Nele se abrigam os interesses dos políticos e da imprensa, que, no final das contas, sempre acabam se acomodando, a despeito de todos os discursos indignados e de todas as manchetes escandalosas.

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