Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Chefe do Guardian prevê anos conturbados

Por Salamander Davoudian e Ben Fenton em 27/06/2011 na edição 648

Andrew Miller, o executivo-chefe do Guardian Media Group (GMG), não é um homem de imprensa. Com experiência em classificados online e bens de consumo de grande saída, ele pode parecer impassível em relação aos remédios necessários para garantir a sobrevivência do jornal The Guardian como “a principal voz liberal do mundo”. Nesta semana, Miller revelou um programa radical de cinco anos para cortar 25 milhões de libras esterlinas (US$ 40 milhões) que prevê cortes “significativos” de empregos no jornal, redução do número de páginas, replanejamentos e uma mudança fundamental para tornar o site guardian.co.uk a prioridade em termos de investimento editorial e financeiro. “Não quero deixar ninguém iludido sobre a situação exata em que nos encontramos”, diz Miller, que foi indicado ao cargo no ano passado. “As mudanças continuarão durante muitos, muitos anos pela frente.”

O GMG é controlado pela Scott Trust, organização sem fins lucrativos que existe para assegurar o futuro financeiro e editorial do Guardian. Pessoas próximas ao grupo dizem que Miller, um escocês de 44 anos, tem tido mais sucesso que seus antecessores em persuadir os editores do Guardian a enfrentarem os problemas pelos quais passam os jornais não especializados. Como a maioria das companhias de mídia, a Guardian News & Media (GNM), divisão central da GMG responsável pelo principal jornal do grupo, tem sido atingida por um declínio sem precedentes na publicidade e a migração dos leitores para a internet.

“Não há planos para fechar jornais em cinco anos”

No ano encerrado em 31 de março, resultados não auditados mostram que a GNM teve um prejuízo de 33 milhões de libras esterlinas, falhando em estancar as perdas operacionais de 41 milhões de libras de um ano antes. As receitas caíram de 221 milhões de libras para 198 milhões de libras em um ano e os classificados de empregos diminuíram em 41 milhões de libras em quatro anos. Diferentemente do Times e do Financial Times, o Guardian não cobra por seu conteúdo online e Miller continua a sustentar que restringir o acesso a sites não funciona. “Ao limitar a audiência, você limita as oportunidades digitais”, diz ele.

A equipe foi comunicada na semana passada de que se nenhuma ação fosse tomada para deter as perdas, a GNM ficaria sem dinheiro em um período de três a cinco anos. “Temos uma reserva de caixa de mais de 200 milhões de libras… Se você considerar a hipótese de um declínio contínuo dos jornais e de um risco relativo à publicidade, esgotaríamos essa pilha de dinheiro”, afirma Miller. Ele diz não esperar que a GNM seja lucrativa, mas acrescenta que o futuro parece desolador “se a velocidade com que reduzirmos as perdas não for rápida o suficiente”.

Nenhuma área do jornal ficará intocada. A edição de The Saturday e de The Observer, a irmã do Guardian aos domingos, será examinada “nos próximos meses”. O número de páginas será reduzido, afirma o executivo. “Há economias que podemos fazer com isso e elas são significativas.” Miller diz não ver nenhum afrouxamento no declínio do negócio impresso. “Não há planos para fechar jornais em cinco anos, mas as condições de mercado podem mudar isso”, afirma.

“Uma oferta de ações é uma opção”

Os dois propulsores de ganhos da GMG são a Emap, uma companhia de mídia especializada em negócios entre empresas, da qual detém 30%, e uma participação de 50,1% na Trader Media, que controla o AutoTrader, principal site automobilístico do Reino Unido. Ambos são joint ventures com a empresa de investimento em participações Apax. Mas a GMG não recebe dividendo de nenhuma dessas fontes, já que o dinheiro tem sido destinado a pagar dívidas. Na Trader Media, a dívida líquida permanece em 650 milhões de libras, enquanto na Emap é de cerca de 550 milhões de libras. “Nenhuma delas vai resolver nossos problemas, a não ser que consigamos reduzir o nível de perdas na Guardian News & Media”, insiste o executivo.

Miller não quis comentar quando a GMG planeja sair da Trader Media, um movimento aguardado para os próximos 18 meses. A TraderMedia foi avaliada por um analista em pouco menos de 2 bilhões de libras. O executivo reconhece que uma oferta pública inicial de ações seria uma possibilidade já que permitiria à Apax manter seu investimento e seria potencialmente mais fácil que a venda a uma outra companhia do setor. “Não existe atualmente nenhum plano para sair [do negócio]… Uma oferta de ações é definitivamente uma opção, considerando a escala dos ativos”, diz. Miller não exclui a possibilidade de vender a GMG Radio, que controla a Smooth Radio, e a GMG Property Services, uma companhia de software.

Ceticismo em relação a cortes

O executivo não quis comentar qual a dimensão da sobreposição de cargos nas empresas. O Guardian emprega 1,5 mil pessoas, incluindo 630 jornalistas. A GNM cortou mais de 300 vagas nos últimos dois anos. Analistas de mídia estão céticos sobre os planos da GNM de dobrar as receitas digitais para 91 milhões de libras até 2016. “Eu simplesmente não vejo de onde virá esse nível de crescimento”, diz um deles.

Miller diz acreditar que o crescimento pode vir de uma combinação de táticas, incluindo um aumento do número de visitantes únicos que, ele espera, eleve a publicidade online, o crescimento nos Estados Unidos, e o investimento em negócios secundários, como sites de encontros. Em relação ao ceticismo de que os cortes de custos e o reforço das receitas digitais sejam suficientes para salvar o Guardian, Miller diz manter-se convicto em proteger a qualidade editorial da publicação. “Sob a minha vigilância, o Guardian não vai se meter em dificuldades”, afirma.

***

[Salamander Davoudian e Ben Fenton são do Financial Times, em Londres]

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