Sábado, 20 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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ENTRE ASPAS >

China manipula opinião pública

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 03/03/2009 na edição 527

Leia abaixo a seleção de segunda-feira para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 2 de março de 2009


 


MANIPULAÇÃO
Andrew Jacobs,
The New York Times


‘Investigadores voluntários’ são farsa à chinesa


‘Na cela número 9 da cadeia do Condado de Puning, Li Qiaoming e mais seis detentos resolveram brincar de ‘cabra-cega’. Vendado, Li tentou agarrar os outros jogadores, mas acabou estirado no chão com um ferimento mortal na cabeça. Pelo menos esta é a história divulgada pela polícia da Província de Yunnan, onde Li, um camponês de 24 anos, viveu e morreu este mês, depois de ser preso, acusado de desmatamento ilegal.


A reação do público à explicação oficial da morte de Li foi rápida e cínica. Milhares de internautas escreveram que Li havia morrido após ter sido espancado pela polícia. Casos de maus-tratos em prisões não são uma novidade na China. Mas o que ocorreu depois é.


Em vez de suprimir as acusações apagando os e-mails, as autoridades convidaram o público a ajudar a solucionar o caso. Foram sorteados mil voluntários e foi constituída uma comissão de 15 membros que visitaria a cena do crime, colheria as provas e ‘descobriria a verdade’. O resultado foi desencorajador para quem esperava uma investigação completa da polícia. O caso alimenta agora uma discussão aberta sobre a dimensão – e os limites – das tentativas oficiais de manipular a opinião pública.


Wu Hao, um funcionário do Departamento de Propaganda de Yunnan, disse que esperava restaurar a confiança do público em um governo acusado de ser indiferente, e por vezes hostil, às acusações de negligência. ‘A experiência mostra que dúvidas na internet não mudam nem acabam com o tempo’, ele disse. ‘Na verdade, elas devem aumentar. Então, um assunto de opinião pública na internet deve ser resolvido pelos métodos da internet.’


Embora a reação inicial do público tenha sido favorável, as limitações da investigação mudaram rapidamente essa visão. Quando chegou à prisão, a comissão teve acesso à cena do crime, mas não pôde ver as fitas do circuito interno de TV nem o relatório da autópsia. Nem interrogar os carcereiros que estavam em serviço na ocasião.


Também não teve autorização para entrevistar o principal suspeito, Pu Huayong, um preso que, segundo a polícia, não gostou do resultado do jogo.


O relatório oficial informa que ele agrediu Li com socos e pontapés, até que a cabeça dele se chocando contra o batente da porta. Li morreu quatro dias mais tarde.


O cinismo não parou por aí. Após a revelação das identidades dos ‘investigadores voluntários’, os internautas constataram que quase todos os ‘escolhidos aleatoriamente’ eram ou haviam sido funcionários da imprensa estatal. O líder da equipe, Zhai Li, trabalhara como ‘comentarista da internet’, um eufemismo usado para definir quem procura manipular o debate público com postagens favoráveis ao governo.’


 


 


CINEMA
AFP, Efe e AP


Teerã exige desculpas de Hollywood por ‘ofensas’


‘Encorajado pelo discurso de mudança do presidente americano, Barack Obama, o Irã quer que até Hollywood peça perdão ‘por suas ofensas’ ao povo iraniano. A exigência foi feita por Javad Shamqadri, assessor de cultura do presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, que recebeu no fim de semana uma delegação de diretores, atores e produtores de Hollywood, convidados a participar de um seminário com colegas iranianos. ‘Os cineastas iranianos só poderão se reunir com os americanos se eles se desculparem pelos 30 anos de ofensas’, disse Shamqadri. ‘Acreditaremos na política de mudança de Obama quando virmos mudança em Hollywood.’


A exigência chocou a delegação americana, que inclui a atriz Annette Bening, o diretor Frank Pierson, o produtor William Holbe e o presidente da Academia de Cinema dos EUA, Sid Ganis. Segundo Teerã, três filmes projetam uma imagem distorcida do país: 300, de 2007, O Lutador, pelo qual Mickey Rourke concorreu ao Oscar neste ano, e Nunca Sem Minha Filha, dos anos 90.


PROGRAMA NUCLEAR


Duas autoridades americanas deram ontem declarações contraditórias sobre o programa nuclear do Irã ontem. O chefe do Estado-Maior Conjunto, Mike Mullen, disse que os iranianos têm hoje capacidade para construir uma bomba atômica, mas o secretário de Defesa, Robert Gates negou que eles tenham chegado a esse estágio.’


 


 


Ubiratan Brasil


O lado B da guerrilha


‘Ao folhear o roteiro do filme Em Teu Nome…, que o diretor Paulo Nascimento termina de rodar hoje, Chico Buarque de Holanda deixou escapar um comentário irônico: ‘Finalmente um longa que apresente o lado B da guerrilha.’ A brincadeira se justifica – ao narrar a história real do estudante brasileiro João Carlos Bona Garcia, exilado político da década de 1970, o filme não reproduz apenas o lado mítico dos guerrilheiros e sua luta contra o regime militar, mas principalmente traz o retrato de seu cotidiano, de suas prosaicas dificuldades em se adaptar ao exílio. ‘Não temos a pretensão de fazer um julgamento’, comenta Nascimento. ‘Apenas recuperar aquele período sob uma ótica humanista e poética a partir da autocrítica feita por um estudante de engenharia que foi preso e exilado.’


O diretor planejava fazer uma ficção sobre a juventude daquela época, mas, ao descobrir a história de Bona, registrada no livro Não Verás que Um Filho Teu Não Foge à Luta, ficou fascinado. ‘Ele não tinha o mesmo engajamento político de outros colegas; sua trajetória, porém, era muito interessante.’


Nascido no Rio Grande do Sul, Bona ingressou no movimento estudantil aos 17 anos, influenciado pelos ideais comunistas de Fidel Castro e Che Guevara. Depois do golpe militar de 1964, passou a militar no Partido Comunista e foi guerrilheiro da VPR – Vanguarda Popular Revolucionária. Para financiar a revolução, Bona participou de um assalto e foi preso pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Vítima de tortura e agressão, foi exilado para o Chile em 1971 com 70 presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.


‘Ele morou ainda na Argentina, Argélia e França – em Paris, militou no Partido Comunista e ajudou a formar o comitê pela anistia que possibilitou seu retorno ao Brasil em 1979’, completa Nascimento que, se não dispensa tal histórico, utiliza-o apenas em algumas pinceladas. Afinal, desconfortável na sua pele, mas tranquilo em sua mente, Bona não vestiu cicatrizes como estigmas, resistiu à deterioração mental, reorganizou a vida e hoje é juiz da Justiça Militar do Rio Grande do Sul. E contou, acima de tudo, com uma companheira inigualável.


‘Cecília é uma mulher surpreendente: na época, mesmo com tanta efervescência política, ela conseguia se manter à distância, levando a vida com tranquilidade; mas, quando a situação apertava, era a primeira a manter a cabeça no lugar’, descreve a jovem atriz Fernanda Moro, que vive Cecília no filme de Paulo Nascimento. A escolha, segundo o diretor, foi certeira: ‘Fernanda interpreta uma mulher que, embora parecesse desligada da realidade, era a primeira a se adaptar às dificuldades’.


Como a fuga para o Chile, onde acabaram se casando. A cena, cuja filmagem foi presenciada pelo Estado, é divertida – sem o número mínimo de testemunhas exigido pela lei, Bona e amigos saem em busca de alguém até encontrar um varredor de rua. A situação torna-se tão inusitada que, mesmo diante da juíza, todos caem na gargalhada.


‘O filme pretende ressaltar o lado humano desses garotos idealistas, que viveram não apenas momentos épicos mas também cenas patéticas’, observa Leonardo Machado, que vive Bona. Ele se lembra, por exemplo, de quando os guerrilheiros usavam óculos para disfarçar e acabavam não enxergando nada.


Orçado em 3 milhões de reais, Em Teu Nome… teve uma logística complicada, com filmagens, além do Chile, em Porto Alegre, Paris e Casablanca, no Marrocos, uma vez que o governo da Argélia não permitiu cenas rodadas lá. No total, foi um mês de trabalho intensivo: em Paris, a equipe permaneceu seis dias e, em Casablanca, não chegou a ficar 24 horas.


Ainda sem data de estreia, o filme tem 210 cenas que, graças à fotografia de Roberto Laguna, adquirem um tom documental. Para cumprir o prazo, Nascimento ensaiou durante três meses antes das filmagens, permitindo aos atores se ambientarem com a trama. Mais: utilizou estratagemas práticos, como cadeira de rodas para movimentar a câmera em cenas de ação ao invés do tradicional trilho.


Com isso, preservou o lirismo de personagens como a vivida por Sílvia Buarque, que interpreta a amiga ativista desencantada com a luta e com a vida, preferindo entregar-se à morte. ‘Paulo não queria uma mulher dramática, pedindo emoção por meio de pequenos detalhes’, contou a atriz que, contracenando com Nelson Diniz no papel de um professor, filmou uma tocante cena de adeus à vida.


O repórter viajou a convite da produção’


 


 


TELEVISÃO
Etienne Jacintho


Elas adoram CSI NY


‘Gil Grissom (William Petersen) é o detetive mais esperto entre os CSIs e Horatio Caine (David Caruso), o mais canastrão. As mulheres, porém, preferem Mac Taylor (Gary Sinise), o soturno investigador de CSI NY. O primeiro episódio da 5ª temporada da série, no ar dia 5 de fevereiro, foi a atração mais vista entre mulheres com mais de 18 anos na TV paga, no horário de exibição, às 20 horas.


Caine e Grissom, no entanto, não decepcionaram a audiência e as estreias, também em fevereiro, da 7ª temporada de CSI Miami, no dia 4, às 21 horas, e da 9ª temporada de CSI, no dia 2 de fevereiro, às 20 horas, deixaram o AXN na liderança da TV por assinatura, considerando o target do canal: homens e mulheres, de 18 a 49 anos, das classes A e B.


SEGUNDAS-FEIRAS


Com as mudanças de elenco de CSI – que mostrará nesta temporada a saída de Gil Grissom e a chegada do dr. Raymond Langston ( Laurence Fishburne) – e com o início da 5ª temporada de Lost, marcada para o dia 9, as noites de segunda-feira no AXN devem render bons índices de audiência. Lost entrará no ar logo após CSI, às 21 horas.’


 


 


MERCADO
Cleide Silva


Carros ‘sem publicidade’ são sucesso de vendas


‘Sem publicidade e sem os avanços tecnológicos introduzidos nos carros mais novos, modelos lançados há mais – em alguns casos, muito mais – de 10 anos seguem na lista dos mais vendidos no País. São veículos que, no linguajar mercadológico, ‘se vendem sozinhos’. A cinquentona Kombi, da Volkswagen, por exemplo, não aparece na mídia eletrônica há 12 anos. O Chevrolet Classic está fora dos holofotes desde 2002. Já o Fiat Uno até teve direito a uma campanha própria em 2004, quando passou por reestilização. Depois disso, teve apenas uma colher de chá no ano passado, em uma campanha de varejo.


Apesar disso, tanto o Uno quanto o Classic resistem no ranking dos dez mais vendidos do País, enquanto a Kombi é a líder absoluta no segmento de furgões.


Não que as montadoras estejam poupando investimentos em publicidade. Ao contrário. Quatro montadoras (Fiat, Ford, VW e GM) estão na lista dos dez maiores anunciantes do País. No ano passado, todas aumentaram aportes em campanhas. A Fiat investiu R$ 627,7 milhões, 27% a mais que em 2007. A Ford gastou R$ 618,4 milhões , um aumento de 20% e a General Motors, R$ 470,5 milhões, 6% a mais que no ano anterior.


A Volkswagen foi a montadora com maior crescimento, de quase 40% ante 2007, com investimento de R$ 487,5 milhões, segundo dados do Ibope/Monitor. As campanhas, porém, são voltadas a modelos novos, que precisam de um empurrão no mercado, ou a versões sofisticadas, que transmitem o desejo de consumo.


Aos 25 anos, o Uno é o terceiro modelo mais vendido no mercado brasileiro. No ano passado foram 141,8 mil unidades, atrás do Gol (285,9 mil) e do Palio (197,2 mil). Sem aparecer na mídia há cinco anos, quando recebeu pequenas modificações estéticas, o carro mais barato da Fiat só voltou à TV na metade do ano passado, em uma campanha de varejo que mostrava também outros carros.


Entre os mais de 400 modelos de automóveis à venda no País, apenas seis ultrapassam a marca de 100 mil unidades ao ano. O Classic, versão sedã do Corsa antigo, está nesse grupo, com vendas de 103,8 mil unidades em 2008. O carro da General Motors não é foco de uma campanha publicitária há sete anos.


‘O produto é o testemunho’, afirma o presidente da GM do Brasil, Jaime Ardila, ao comentar o desempenho do sedã de 13 anos. Na primeira metade de fevereiro, Uno e Classic mantiveram-se na terceira e na sexta posição no ranking dos mais vendidos com, respectivamente, 6,7 mil e 3,1 mil unidades.


Na avaliação do diretor da consultoria ADK, Paulo Roberto Garbossa, modelos já enraizados no mercado, considerados práticos e com bom custo/benefício, ‘não precisam de propaganda’. A não ser quando passam por mudanças estéticas ou de motorização, quando as empresas aproveitam o mote para mostrar que não sairão de linha tão cedo.


Por estarem no mercado há um longo tempo, os investimentos em desenvolvimento, ferramental e lançamento desses veículos já foram amortizados e as vendas são lucrativas. Seus preços em relação aos concorrentes diretos são muito vantajosos.


O principal exemplo de longevidade sem mídia é a Kombi, que este ano completa 52 anos no Brasil. A perua/furgão, que segue sem concorrente direto, está há muitos anos longe dos holofotes da mídia. ‘A última vez foi em 1997, quando lançamos uma versão com porta corrediça’, lembra Marcelo Olival, gerente de propaganda e marketing da Volkswagen.


A Kombi vende em média 2.340 unidades ao mês, mais que o dobro do volume do Hyundai HR, o segundo furgão mais vendido no País, com média mensal de 1.052 unidades em 2008. No ano todo, foram vendidas 28,1 mil unidades da Kombi e 12,6 mil da concorrente.


Segundo Olival, o principal público da Kombi são os microempresários, frotistas e órgãos do governo. ‘É um público em que normalmente não precisamos trabalhar a questão da propaganda.’’


 


 


MARKETING
Marili Ribeiro


Empresas investem em cultura para ter ganho de imagem


‘Em tempos de crise econômica, quando os cortes de investimentos entram em cena, o dinheiro aplicado em ações de marketing cultural deveria resistir. A principal razão para isso, segundo o americano Arthur Cohen, sócio da LaPlaca Cohen, empresa especializada em ações de marketing cultural, está na sensação de estabilidade e continuidade que esse tipo de marketing consegue passar para uma marca, num momento em que todos correm, por conta das incertezas, atrás de segurança.


Cohen esteve no Brasil há algumas semanas para falar sobre o tema em evento patrocinado pela Luxury Marketing Council (LMC), da qual faz parte a agência de propaganda JWT, onde se deu o encontro para convidados. ‘A crise deixa as pessoas inseguras e, nesses momentos, a audiência fica presa a valores essenciais. Aumentam visitas a museus, centros culturais e espetáculos ‘, disse ele, tomando como base recente pesquisa feita nos Estados Unidos.


A pesquisa abrangeu um universo de mil pessoas, que responderam sobre como a crise econômica afeta o consumo cultural. Do total de entrevistados, 88% disseram que pretendem visitar mais museus e outros espaços culturais. Esse dado em si, na opinião de Cohen, configura uma ótima perspectiva para as marcas investirem no setor. Ele cita como exemplo os grandes grupos que mantêm parcerias em projetos de arte e são reconhecidos por isso, como é o caso da multinacional Unilever com a galeria Tate Modern, em Londres, ou então as ações da Louis Vuitton, ao convidar artistas plásticos para desenhar suas bolsas, malas e acessórios.


LONGO PRAZO


Conhecedor do discurso de Cohen, o diretor de marketing do Bradesco, Luca Cavalcanti, diz que investimentos em marketing cultural realmente funcionam, desde que respeitem um planejamento de longo prazo. ‘Não aprovo o oportunismo de quem embarca nessas ações por puro modismo’, diz. Quase a metade dos R$ 500 milhões investido anualmente em marketing pelo Bradesco é dedicada a eventos. São mais de 800 deles, entre festas regionais, comunitárias e nacionais, como o carnaval.


‘Estamos agora no ar com uma campanha publicitária em que, aproveitando o posicionamento de ?banco completo? que assumimos, mostramos um conjunto de ações que apoiamos’, conta. O comercial reuniu em uma única arena manifestações culturais do País como o Boi do Festival de Parintins, as dançarinas das quadrilhas de São João, as rainhas da Festa da Uva, o músico de taikô do Festival do Japão e o maestro Roberto Minczuck, que rege a Orquestra Sinfônica Brasileira.’No Bradesco, temos um comitê com profissionais de áreas específicas para avaliar as propostas que recebemos – e avaliamos cada oferta com a seriedade que ela merece.’


Para o diretor de marketing do banco HSBC no Brasil, Marcello Velloso, a estratégia de associar marcas a projetos culturais em tempos de crise faz todo o sentido. É uma ação que traz retorno a longo prazo. ‘É um investimento que não deve se restringir a um período’, diz. ‘O reconhecimento global da marca HSBC se deve muito à continuidade e à consistência de seus constantes projetos em marketing cultural.’


Velloso conta que os recursos do projeto musical que o banco mantém nas casas de show HSBC Brasil, em São Paulo, e HSBC Arena, no Rio, devem ser 10% maiores do que os do ano passado. Já estão programados para o primeiro semestre dois shows dos guitarristas e blueseiros Buddy Guy e Robert Cray. No ano passado, o banco fez apenas dois espetáculos internacionais – com a jazzista Diane Krall e o cantor Seal. ‘A nossa preocupação é associar a imagem do banco a valores que traduzam sofisticação e exclusividade’, diz. ‘Não caberia, por exemplo, associar a nossa imagem a estilos de apelo popular.’’


 


 


 


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 2 de março de 2009


 


CULTURA


Júlio Medaglia e Paulo Pélico


Um golpe na classe artística (pelas costas)


‘COMO se sabe, a atual crise econômica vem vitimando impiedosamente empresas em todo o mundo, das maiores organizações às mais modestas. Imagine, nessa situação, como está a vida do produtor cultural, esse idealista que sai à rua com um projeto teatral, editorial ou musical debaixo do braço em busca de patrocínio -aliás, o primeiro a ser cortado ao se vislumbrar a mais tênue ou a mais longínqua nuvem negra no universo mercadológico.


Apesar do tido como baixo ‘valor de mercado’ de nossa produção intelectual, o presidente Lula, ao mesmo tempo em que disponibiliza R$ 250 bilhões em pacotões anticrise com socorro financeiro a bancos, desoneração fiscal às exportações, estímulos à indústria automobilística etc., penaliza a classe artística ao sancionar a lei complementar nº 128/2008, também subscrita pelos ministros Guido Mantega e Miguel Jorge. A nova lei trocou sutilmente as atividades culturais de lugar (do anexo 4º para o 5º). Assim sendo, a faixa das alíquotas incidentes sobre pequenas empresas produtoras de cultura foi substituída por outra cujas alíquotas chegam a quase triplicar os impostos do setor.


Com o excessivo peso dos impostos, os microempresários da cultura haviam recebido com alívio a notícia do projeto de lei do Simples Nacional, uma nova modalidade de tributação que prometia uma redução de até 40% na carga tributária, estabelecendo os impostos ao redor de 9%. Milhares de microempresas culturais -após fazerem essa opção contábil, assumirem compromissos e pautarem suas atividades em razão dessa nova realidade- se viram subitamente presas numa armadilha, com uma carga tributária de até 27,9%.


Isso coloca as microempresas da cultura numa faixa de semelhante à de uma média ou à de uma grande empresa. E o mais espantoso desse fato é que essas mudanças ocorreram sem a menor transparência e sem debate nem comunicados prévios aos atingidos pela alteração. Os artistas e produtores tomaram conhecimento do assunto no início deste ano, já diante do fato consumado. Não sabemos como classificar a atitude do presidente e dos congressistas, se de esperteza ou de má-fé.


O caso é que a lei foi aprovada às pressas no dia 19 de dezembro, uma sexta-feira, último dia do calendário legislativo, de forma quase secreta, a ponto de tributaristas próximos ao governo e que participaram da elaboração do projeto do Supersimples desconhecerem a existência da matéria. Era proposital a aprovação na antevéspera do Natal e com as tramitações envolvidas em segredo. Como se sabe, no caso dos impostos, qualquer lei que altere suas regras, quando aprovada, só entra em vigor no ano seguinte. Trata-se não só de uma proteção do contribuinte diante da volúpia arrecadadora do erário mas também de um direito constitucional, presente na legislação tributária de todos os países. Se o projeto tivesse sido exposto publicamente, certamente teria provocado reações, debates e envolveria algum tempo. Assim, se aprovado fosse, só entraria em vigor em 2010.


Pelo visto, a Fazenda tinha pressa, optando pelo silêncio, pela malícia, por um artifício legislativo sub-reptício para presentear, qual macabro papai-noel, a in-telligentsia brasileira com um rombo em seus já minguados recursos de produção cultural. Claro está que tal carga de impostos é desproporcional à atividade de produção cultural, o que empurrará grande parte do setor para a informalidade. Dificultará também a geração de empregos na área, enquanto as proporções dessa nova arrecadação em nada contribuirão para o crescimento do país.


Ao contrário, dificultarão e diminuirão as possibilidades de captação de recursos para os microempresários culturais, sonhadores de um Brasil mais culto e civilizado. Aliás, os métodos utilizados pelo Ministério da Fazenda revelam nítidos vestígios medievais, época na qual os aumentos de impostos eram comunicados sem escrúpulos aos aldeões, intimidados que eram pelos ruídos das patas dos cavalos da guarda montada do senhor feudal.


Precisamos reagir, com todos os meios de que dispõem os operadores e os produtores culturais, de forma que a sociedade venha a tomar conhecimento desse descalabro. Como se isso não bastasse, o governo federal acaba de bloquear 78% do orçamento do Ministério da Cultura para este ano. Gostaríamos de saber o que querem dizer esses fatos. Filmes semelhantes já vimos em outros países e épocas. Como se sabe, eles não fizeram sucesso ao longo da história…


JÚLIO MEDAGLIA , regente sinfônico formado pela Escola Superior de Música da Universidade de Freiburg (Alemanha), foi diretor dos Teatros Municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo, do Centro Cultural São Paulo e da Universidade Livre de Música. É autor do arranjo original da música ‘Tropicália’, que deu origem ao movimento.


PAULO PÉLICO , 52, é autor e produtor teatral.’


 


 


LENTES DA POSTERIDADE
Maria Rita Kehl


Qual preço você pagaria?


‘UMA RECENTE polêmica com o crítico Marcelo Coelho acerca do pessimismo me fez prestar atenção nos textos do colunista Luiz Felipe Pondé. Na réplica a Coelho, Pondé reivindicou para si o pessimismo de Franz Kafka -o que me pareceu um tanto desmedido. Na segunda-feira passada (23/2), a crônica ‘O quarto’ me levou a pensar novamente sobre o pessimismo e o paradigma ético que ele encerra.


Ao evocar o julgamento da ex-guarda da SS no filme ‘O Leitor’, o colunista convida seus próprios leitores a se colocarem na pele da personagem de Kate Winslet quando pergunta aos juízes: ‘No meu lugar, o que você faria?’. O crime em questão não era o de ter se alistado na Gestapo ‘por precisar de emprego’, mas o de ter trancafiado 300 prisioneiras judias dentro de uma igreja em chamas para impedi-las de fugir. ‘Meu dever era manter a ordem’, responde a personagem. No lugar dela, o que você faria?


A questão é tão fundamental quanto irrespondível. Hoje, seríamos todos resistentes; seríamos todos heróis. É fácil julgar fatos passados através das lentes já estabelecidas pela posteridade, sobretudo quando os vencedores estão indiscutivelmente do lado, digamos, do bem. Mas se você estivesse lá, no olho do furacão, sem entender direito o que se passava, o que teria feito? Do lado das vítimas (para neutralizar um pouco a questão), quantas famílias judias tiveram oportunidade de deixar a Alemanha e não o fizeram, incapazes de imaginar a que ponto o mal que as ameaçava poderia chegar?


Mas houve um momento em que se tornou impossível ignorar a radicalidade da política de extermínio de Hitler. Então, a opção pela neutralidade deixou de existir. Cada cidadão não-judeu que optasse pelo conforto moral de pensar ‘isso não é comigo’ sabia ser coautor dos assassinatos de seus concidadãos. Para entender isso é preciso, como escreveu Susan Sontag em seu livro ‘Ao Mesmo Tempo’ (Companhia das Letras, 2008), ‘se transportar mentalmente para um tempo em que a maioria das pessoas aceitava que o curso da vida delas seria determinado mais pela história do que pela psicologia, mais pelas crises públicas do que pelas particulares’.


Façamos de conta que esse tempo passou; que hoje as grandes questões éticas podem e devem ser decididas a partir dos parâmetros exclusivos da vida privada. A isso nos convida Pondé, ao descrever a vida de uma inocente família alemã que escondia judeus num quarto da casa. Para apelar aos valores que nos são mais caros hoje, Pondé descreve o drama familiar aos olhos da criança da casa, que não entende porque o pai a estaria submetendo ao desconforto, ao perigo, ao mau cheiro que exalava do misterioso quartinho fechado. Pondé cita uma pesquisa em que adultos que passaram por situações parecidas na infância afirmaram ter imaginado que seus pais não os amavam, pois, se os amassem, não os teriam colocado em risco por causa de estranhos.


A resposta demonstra até que ponto a vida se privatizou e a família tornou-se o único valor indiscutível aos olhos da maioria. Quando os filhos se tornam o único ideal de seus pais, estes não têm nada a lhes transmitir. A não ser, talvez, um ‘sejam felizes’. A qualquer preço? Avancemos um pouco mais na perspectiva da criança: como viveria mais tarde o adulto cujos pais enviaram vizinhos e conhecidos para a câmara de gás por amor a ele? Como suportaria gozar a vida após isso? Quanto cinismo seria preciso mobilizar para seguir vivendo indiferente às consequências dessa escolha?


Se só se pode julgar a história pela lente da história, sabemos hoje que a indiferença pelo destino dos não-familiares e a escolha de cuidar da própria vida -ignorando a dos outros- têm um nome: cumplicidade criminosa. Foi essa pretensa neutralidade, ao preço de uma brutal desidentificação com a condição humana, que instalou na Alemanha o que Hanna Arendt chamou de ‘banalidade do mal’. O pessimismo de Kafka advém de não querer ignorar do que as pessoas são capazes; do que a indiferença subserviente é capaz. Nada a ver com o suposto pessimista que não crê em nada para se manter mais ou menos de acordo com tudo. Esse é o mal do século 20 (e 21), que Walter Benjamin batizou de fatalismo melancólico.


Ninguém escolhe a época em que lhe coube viver. Cada uma delas tem um preço. No caso do Holocausto, os inocentes que sobreviveram para um dia se queixarem ‘meu pai não me amava porque protegeu estranhos’ devem saber que, naquelas condições extremas, pagaram um preço baixo.


MARIA RITA KEHL , 57, psicanalista e ensaísta, é autora, entre outras obras, de ‘Ressentimento’ (2004).’


 


 


NA SAPUCAÍ
Painel do Leitor


Lula e Marisa


‘‘Dizem que, diferentemente do homens, as mulheres nunca são amigas de fato. Além disso, quando resolvem escrever sobre outras mulheres, são excessivamente deselegantes. É o caso da dona Barbara Gancia, ao criticar a primeira-dama ‘descabelada e suada’ no Carnaval (‘O legado de dona Marisa Letícia’ Cotidiano, 27/2), e dona Danuza Leão, na sua já cansativa campanha contra Lula, dizendo que ninguém deu a mínima para o presidente (‘Lula na avenida’, Cotidiano, 1º/ 3). Ora, as pessoas vão ao Sambódromo para ver as escolas de samba ou o presidente da República? Chama a atenção a forma de se referir à ministra da Casa Civil: ‘a jovem Dilma’, tentando ironizar a plástica feita pela ministra. Quem sabe suas ideias ferinas não mereçam uma plástica?’


MARA CHAGAS (São Paulo, SP)


‘A respeito da coluna de Danuza Leão, foi bom ela ter lembrado que o ex-presidente Itamar Franco foi, à época, saudado no Carnaval carioca, mas, neste Carnaval, o Lula foi ignorado na avenida. Para mim, Itamar Franco foi o melhor presidente das últimas décadas, pois no governo dele é que o Brasil efetivamente começou a corrigir seu rumo. Itamar foi o único presidente da República recente que não mudou seus ideais quando ocupou o poder. Infelizmente, há muitos formadores de opinião que querem nos fazer acreditar que, ironicamente, Itamar só chamou atenção porque tinha topete.’


PAULO ARY DIAS RIBEIRO (Santos, SP)’


 


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


As diferenças e os juros


‘Sob o enunciado ‘Broken Brics?’, tijolos quebrados, o site Market Watch destaca entrevista do ‘estrategista’ da empresa de investimento Lord Abbett, para quem os Brics não são mais um grupo integrado, na crise. A Rússia perdeu diversificação e está ‘a maior bagunça’; e a Índia perdeu credibilidade com o escândalo Satyam. Ao Brasil, elogios pela diversificação das exportações e pelo plano que montou para enfrentar ‘a pressão’ com estímulos ao mercado interno. O ‘Financial Times’, num especial sobre problemas de financiamento dos emergentes, ilustrado por foto de manifestação em São Paulo (acima), avalia que por aqui se trata de ‘Déjà vu, mas com uma diferença’, as reservas de US$ 200 bilhões. No topo das buscas de Brasil no Google News, o presidente do Banco Central chamou entrevista para dizer a mesma coisa. Em destaque também nas buscas, por outro lado, a previsão da Reuters para a semana na América Latina: os dados da produção industrial no Brasil vão mostrar novo ‘mergulho’ e levar a cortes de juro na Colômbia, no Chile etc. Quem sabe até no Brasil, dia 11.


ATENTADO?


A explosão na Polícia Federal de Manaus, na sexta, foi a manchete do ‘Jornal Nacional’, no sábado, falando em ‘cilindro misterioso’. Daí aos despachos de agências como Associated Press, falando em ‘cilindro suspeito’. A expressão ‘atentado’ só foi surgir na estatal Agência Brasil, ontem, com a PF que ‘não sabe se foi atentado ou acidente’, afinal, o episódio com a ‘bomba d’água’.


O PROTETOR


A BBC postou longo perfil e entrevista, inclusive audiocast, com o padre Edilberto Sena, radialista em Santarém e ‘o mais ardente protetor da Amazônia’. Ele votou, mas hoje questiona Lula. ‘As questões sociais têm sido apenas uma gota no oceano’, em seu governo.


AINDA OS BOXEADORES


Na Globo, chamando para a entrevista desde o ‘JN’, sábado, ‘Erislandy Lara desfaz o mistério: Afinal, o governo entregou os lutadores para Cuba contra a vontade deles?’. E do boxeador cubano, no ‘Esporte Espetacular’: ‘Nós quisemos voltar para Cuba. Não foi pelo governo brasileiro nem por ninguém’. Lara teria falado com Lula: ‘Ele me tratou bem, me ofereceu tudo o que podia fazer. Ele perguntou se eu queria ficar no Brasil, eu disse que não, que queria voltar para Cuba’.


O FIM DO FACTÓIDE


Para o blog de Luis Nassif no iG, a entrevista de Lara marca ‘o fim do factóide dos pugilistas’ cuja sobrevida na própria Globo se deve ao ‘jornalismo enviesado’.


EM QUAL ACREDITAR?


No destaque do blog de Reinaldo Azevedo na Veja.com, ‘é o contrário do que ele afirmou’ em reportagem do jornal ‘O Estado de S. Paulo’. ‘Em qual Lara acreditar?’


CAVALOS BRASILEIROS


O ‘USA Today’ postou o texto ‘Brasil: onde nascem os cavalos de Tróia bancários’, sobre os programas que, ao entrar no computador, abrem portas a eventuais invasões. Diz que ‘os mais modernos, os maiores ‘trojan horses’ saem invariavalmente’ daqui. Décadas de hiper-inflação levaram o sistema de transações financeiras a se ‘despir’ e aceleraram a dependência das operações on-line.


O VELHO RUPERT


Michael Wolff, biógrafo de Rupert Murdoch, dono de ‘Wall Street Journal’, Fox News etc., avalia no ‘Ad Age’ ‘a pior semana’ do empresário sob fogo do ‘New York Times’ por priorizar investimento em jornais e por uma charge supostamente racista no ‘New York Post’. Wolff ironiza, sobre a reação à charge, que não se pode ‘demonizar o demônio’ e que Murdoch ‘realmente gosta’ de Obama. Sobre investir em jornais, Murdoch ‘faz o que quer, ainda que possa parecer maluco’. E saúda a volta do ‘velho Rupert arrisca-tudo, um-negócio-por-minuto’.’


 


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Drauzio Varella faz série sobre transplantes


‘Depois de tratar de tabagismo, envelhecimento e fecundidade, entre outros temas, Drauzio Varella volta ao ‘Fantástico’, domingo, com uma série que irá mostrar o drama de quem aguarda transplante de coração, pulmão, fígado e rim.


Será a décima série de Varella na Globo. Levou um ano para ser produzida e exigiu viagens para China, EUA e Espanha. Varella também tentou o Irã (onde as pessoas vendem seus órgãos para o Estado), mas não teve autorização.


‘Temos no Brasil uma fila de 50 mil pessoas esperando transplante. A maior parte morre na fila’, diz Varella, também escritor e colunista da Folha. O médico considera a política brasileira de transplantes, em que o serviço é público, avançada. O problema é que ‘política para pobre não funciona’, faltam órgãos e transplantes exigem procedimentos que podem inviabilizá-los se não seguidos à risca. ‘A série vai mostrar os pontos em que [o processo] não dá certo’.


Na China, segundo Varella, a situação é pior: 10% da população têm hepatite B e são potenciais candidatos a transplantes, mas o serviço não é gratuito. A Espanha, por outro lado, tem o melhor sistema de captação.


Em São Paulo, a série irá acompanhar duas pessoas que estão na fila do transplante. ‘São histórias muito dolorosas’, avisa. Varella espera que a série faça aumentar as doações e os transplantes de órgãos.


CULTO HIGH-TECH 1


R.R. Soares, o pastor que ocupa uma hora da faixa nobre da Band, comprou do Grupo Abril o canal 30 de São Paulo. Esse canal é do tipo ‘TVA’ -criado para distribuir TV paga. Hoje, sem TV paga, pode transmitir até 11 horas em sinal aberto. A compra ainda não foi oficializada porque a Anatel discute se dará nova destinação aos TVAs.


CULTO HIGH-TECH 2


O canal de Soares está sendo sintonizado por quem já tem receptor de TV digital aberta na Grande São Paulo.


CULTO HIGH-TECH 3


O canal 30 não figura na lista oficial de canais digitais de SP. Mas, como canais TVA são juridicamente telecomunicação, e não radiodifusão, eles podem tanto transmitir em sistema analógico como em digital.


PACOTÃO


O SBT começa nesta semana a anunciar em chamadas o seu pacote de filmes para este ano. Entre os títulos estão ‘Superman Returns’, ‘300’ (com Rodrigo Santoro), ‘Harry Potter e a Ordem da Fênix’, ‘Happy Feet – O Pinguim’, ‘A Conquista da Honra’ e ‘O Labirinto do Fauno’, entre outros.


PONTAPÉ


A Globo vai mesmo produzir uma temporada de ‘Aline’, série inspirada nas tiras publicadas na Folha por Adão Iturrusgarai. Na semana passada, a equipe envolvida na confecção de um piloto exibido no final do ano passado recebeu de Manoel Martins, diretor-geral de entretenimento, a ordem para desenvolver dez episódios. ‘Aline’ terá figurinos de estilistas badalados e nomes como Amy Winehouse na trilha.’


 


 


Fernanda Ezabella


‘The Listener’ traz médico telepata


‘Parece um samba do crioulo doido, e ainda por cima fora de época, o novo seriado que a Fox estreia hoje, com estardalhaço, em 180 países, entre eles Argentina, Reino Unido, Itália, México, Japão e Coreia. Mistura de ‘Medium’ com ‘Third Watch’ e outros similares, o novo ‘The Listener’ segue um paramédico com habilidade de ler a mente das pessoas.


E, aparentemente, ainda há outras ‘influências’, como ‘Heroes’ e ‘CSI’, nas palavras do próprio elenco: ‘Além dos elementos sobrenaturais e de ter um super-herói como figura central, a série tem elementos de investigação criminal, histórias de detetives e coisas de comédia’, disse o ator Ennis Esmer, que faz o amigo do personagem principal, numa entrevista por telefone com alguns jornalistas da América Latina.


O seriado terá 13 episódios de uma hora e é estrelado por Craig Olejnik, que faz o papel de Toby Logan, 25. Com seu amigo, percorre Toronto tentando ajudar as pessoas com problemas. Há ainda uma detetive durona e uma médica do setor de emergência.


Como a Fox não liberou a série aos jornalistas antes da entrevista, fica por conta da imaginação tamanha mistureba. A vinheta do programa resume o espírito: ‘The Listener’, o silêncio diz tudo’.


THE LISTENER


Quando: estreia hoje, às 21h


Onde: Fox


Classificação: livre’


 


 


LIVRO
Mônica Bergamo


Barba branca


‘Por 46 anos, os brasileiros se acostumaram a ouvir, no Natal, o jingle ‘Varig, Varig, Varig’, que dizia que Papai Noel voava a jato pelo céu. Pois seu criador, o músico e compositor Caetano Zamma, vai virar livro. Sua trajetória profissional de 50 anos será contada por Wladir Dupont num livro editado pela Escola Superior de Propaganda & Marketing, com design de Ana Whitaker.’


 


 


INTERNET
Leticia de Castro


Vida digital


‘Eles conseguem mobilizar centenas de pessoas para as mais bizarras performances em locais emblemáticos de Nova York.


Em janeiro, levaram cerca de 1.200 pessoas para os metrôs da cidade. Detalhe: sem as calças. No ano passado, organizaram um ‘espelho humano’ reunindo gêmeos, com roupas idênticas, frente a frente em um vagão do metrô. Em 2003, atraíram 200 pessoas para a estação de trem Grand Central, para passarem cinco minutos ‘congeladas’, sem se mover.


Esses feitos são de autoria do grupo Improv Everywhere (improveverywhere.com), que, desde 2001, reúne comediantes, designers e nerds em geral interessados em se divertir promovendo ‘cenas de caos e alegria em lugares públicos’.


A arma de que eles dispõem para divulgar as ações e atrair curiosos para elas se restringe à internet. Os participantes são acionados por e-mail, MSN ou fóruns de discussão no Facebook e no MySpace.


Na próxima semana, Chad Nicholson, 30, fotógrafo oficial e integrante do grupo, estará em São Paulo para falar da experiência do grupo. Ele participa do You Pix, série de palestras e bate-papos, com entrada gratuita, sobre iniciativas bem-sucedidas na web (veja programação ao lado).


Além da palestra, o evento promoverá uma ação similar a uma intervenção do grupo em Nova York, o MP3 Experiment, em que os participantes ligam seus aparelhos e ouvem a mesma música, no mesmo horário.


‘Nosso trabalho começa na internet. Desde a definição do tema e do local da ação até a data e o número de participantes que queremos atingir. É tudo discutido por e-mails, MSN ou chat on-line’, diz Nicholson.


Eles só se encontram pessoalmente cerca de uma hora antes do evento, para acertar os últimos detalhes, checar o movimento no local e decidir onde colocar a câmera fotográfica para registrar.


‘Para mim, a ideia principal é fazer as pessoas sorrirem.


Evento discute, na próxima semana, fazer as pessoas sorrirem. Em segundo lugar, quero torná-las mais observadoras, fazer com que olhem à sua volta’, defende Chad.


Quem se lembra das ‘flash mobs’, que causaram frisson entre os moderninhos de várias capitais (inclusive São Paulo), nos idos de 2003 pode notar que qualquer semelhança não é mera coincidência. As duas ações têm a mesma ideia central: reunir, por meio da internet, um grande número de pessoas em algum lugar público de grande visibilidade, por um curto período de tempo.


Os integrantes do Improv Everywhere, no entanto, rejeitam a comparação. ‘As flash mobs ficaram datadas. Era divertido aparecer em algum lugar e ir embora, mas nós gostamos de ter uma razão para aparecer. Por exemplo, na Grand Central Station, as pessoas gostaram porque nós fizemos algo inesperado, que era ‘congelar’. Nas flash mobs as pessoas simplesmente aparecem e desaparecem de repente de um lugar’, diz Nicholson.


Assim, os integrantes do grupo definem-se sobretudo como pranksters, pessoas que realizam atos incomuns ou até ridículos por pura diversão.


Em sua passagem por São Paulo, Nicholson ainda não planejou nenhuma grande missão. Mas, se alguém se habilitar, ele garante que participa.


Vida noturna


Além de Chad Nicholson, outro destaque do evento é o fotógrafo norte-americano Merlin Bronques, que registra a sempre efervescente vida noturna de Nova York e joga todas as fotos em seu blog, www.lastnightsparty.com.


De festas badaladas com direito a Madonna na pista de dança a inferninhos com garotas seminuas, Bronques e sua câmera estão onde a noite ferver. A atração pelas personagens e eventos mais extravagantes da cidade, bem como a linguagem sexy das fotos se tornou marca registrada de Bronques e inspirou outros fotógrafos a seguirem seus passos, usando a web para divulgar seu trabalho.’


 


 


EXPOSIÇÃO
The New York Times


Na França, publicidade fala ao coração


‘PARIS – O comercial em preto e branco de 1968 ainda é famoso na França: um jovem de pijama senta-se na cama, gritando ‘Boursin!’ repetidas vezes, e corre para sua cozinha para devorar o queijo.


Recentemente os parisienses têm se reunido numa galeria do Musée des Arts Décoratifs para assistir àquele anúncio de tempos passados, juntamente com muitos outros feitos na França desde o final dos anos 1960. A mostra ‘40 Anos de Anúncios na TV’ inclui dezenas de comerciais sexies de lingerie Dim, dirigidos por William Klein, Luc Besson, Tony Scott e Hal Hartley, entre outros.


A exposição acontece num momento curioso, quando vários grandes anunciantes na TV acabam de ter seus comerciais tirados do ar subitamente. Ostensivamente para melhorar a programação, o presidente Nicolas Sarkozy proibiu a veiculação de comerciais em quatro grandes canais de TV no horário nobre noturno. A medida será estendida a duas outras emissoras.


Isso ainda deixa os franceses com dezenas de canais nos quais podem ver, por exemplo, a extravagância digital criada por Bruno Aveillan para o perfume XS da Paco Rabanne, na qual um casal nu copula languidamente em pleno ar.


A atitude libertária dominante na França também explica o anúncio de serviço público sobre a Aids -uma animação alegre mostrando sexo gay explícito que se desenrola ao som da canção ‘Sugar Baby Love’.


Está claro que os comerciais franceses revelam a cultura francesa, tanto quanto a literatura ou a música. Fortes em sensualidade, estilo e poesia, são notavelmente fracos em matéria de informações e quase alérgicos aos detalhes nus e crus do comércio. Na França, é proibido denegrir seus concorrentes num anúncio de televisão ou (salvo em casos excepcionais) recomendar aos espectadores que liguem para um número determinado para comprar um produto. As táticas de venda direta, que constituem a norma nos EUA, não são aceitáveis na França.


‘É porque sempre tivemos uma relação nada saudável com o dinheiro’, explicou Jacques Séguéla, executivo criativo da segunda maior agência de publicidade do país, a Havas. ‘Para nós, dinheiro implica em corrupção. E como nos consideramos os inventores da liberdade -não importa que isso não seja verdade-, ainda vemos a publicidade como uma espécie de manipulação. Isso explica por que a publicidade na TV começou tão tarde neste país -basicamente, porque a oposição de esquerda a via como algo que corrompe a alma.’


É verdade que a França demorou a começar a veicular comerciais na TV. Anos depois de EUA, Reino Unido, Itália e outros países estarem convertendo em uma nova forma de arte os spots de 30 segundos de propaganda de detergentes e pastas de dentes, a França ainda proibia a veiculação de anúncios privados. Foi apenas em 1968, passando por cima da oposição forte das empresas de jornais e da esquerda política, que o governo finalmente autorizou a veiculação de dois minutos diários de comerciais numa única emissora de televisão (naquela época, todas as emissoras francesas eram públicas).


Foi sem dúvida em parte para aproveitar a histórica ambivalência francesa em relação aos comerciais de TV que Sarkozy reverteu a política dos últimos 40 anos e proibiu a veiculação de anúncios nas emissoras públicas francesas no horário noturno. A iniciativa foi um grande golpe de relações públicas para o presidente.


Isso não significa que os franceses não gostem de comerciais.


A década de 1980 foi a era de ouro da publicidade francesa, disse Amélie Gastaut, curadora da exposição no Musée des Arts Décoratifs. Diretores como Jean-Paul Goude, Gérard Pirès e Étienne Chatiliez fizeram anúncios elegantes e inteligentes para a Peugeot, os jeans Cooper e a fabricante francesa de calçados de baixo preço Eram. Sucedeu-se a eles uma geração criada à base de animação digital, que foi quem introduziu a era atual de efeitos fantasmagóricos e sofisticados.


Séguéla disse que os comerciais americanos vão da cabeça à carteira; os britânicos, da cabeça para o coração; e os franceses, do coração para a cabeça. Isso explica por que, num clássico comercial francês da emissora paga Canal Plus, um homem descreve um filme sobre pinguins imperadores na Antártida a uma mulher que visualiza centenas de Napoleões deslizando pelo gelo.


‘Enfatizamos o sexo e o humor inteligente em nossos anúncios porque essa é nossa cultura’, disse Stéphane Martin, diretor do sindicato francês de publicidade na TV. ‘A publicidade dá a seu público uma visão idealizada. E é assim (com sexo e humor inteligente) que gostamos de pensar que somos.’ ‘


 


 


 


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