Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

IMPRENSA EM QUESTãO > ARQUIVOS SECRETOS

Clichês contra a inteligência

Por Angelo de Souza em 22/03/2005 na edição 321

Quem lê o noticiário construído a partir de supostos documentos ‘secretos’ pode ser levado a crer que a colaboração entre jornalistas e arapongas é natural e cada vez mais freqüente. O fato é que as semelhanças entre o jornalismo e a atividade de inteligência são maiores do que as diferenças, para incômodo de profissionais das duas espécies.

As cicatrizes deixadas pelas ditaduras do século passado fazem com que gerações de jornalistas vejam o trabalho na área de informações, no mínimo, com desconfiança. O outro lado, com má-vontade para compreender as legítimas razões e motivações dos operários da notícia, é recíproco.

Muitos repórteres crêem que os serviços de informações são ambientes sombrios onde se interroga sob tortura e se montam dossiês sobre a vida privada dos inimigos do rei. Já os tais arapongas se consideram vítimas da imprensa, que ignora a natureza da atividade de inteligência e os ridiculariza por esporte.

Alheios ao mecanismo de produção da notícia, uns acham que o negócio do jornalista é o mesmo do dono do jornal: vender manchete. Outros, sem saber exatamente o que acontece nos tais porões (ou sabendo, e calando a respeito), comportam-se como os cães de Lázaro de que nos fala Cláudio Júlio Tognolli em artigo neste Observatório [ver remissão abaixo].

Mal na foto

A atividade de inteligência – de caráter estratégico, destinada a subsidiar decisões no âmbito policial, militar, de estado ou empresarial, presente em todos os países e, de modo mais ou menos sistemático, em todos os níveis da vida social – só produz migalhas quando convém a algum interesse, que nem sempre é facilmente identificável.

Isso poderia explicar, por exemplo, a freqüência com que são citados ‘documentos secretos’ da CIA ou do Pentágono nas agências de notícias internacionais, sobre assuntos os mais variados… Ou tais conhecimentos deixaram de ser secretos, por desvio ético do araponga americano, ou trata-se de peças de propaganda, à qual o jornalista serve de modo que nunca deve ser inocente.

O mesmo ocorre no Brasil do famigerado SNI, cujos papéis classificados dormem um sono sobressaltado nos arquivos, enquanto sua sucessora, a Abin, tem comparecido regularmente ao noticiário. Mal na foto, em momentos críticos da negociação do plano de carreira dos arapongas; nem tanto, ou tanto faz, quando o foco não está em quem grampeou o que, e sim em quem foi grampeado.

Visões do poder

É óbvio que jornalistas e ‘espiões’ disputam o mesmo prato de batatas: informação. O mais precisa, objetiva e útil possível, do ponto de vista de seu cliente. Que pode ser um tomador de decisões, como o presidente da República, no caso da inteligência de Estado, enquanto para nós, jornalistas, é ou deveria ser o público.

Deveria ser porque, assim como a atividade de inteligência sofre pressões para servir a regimes e mandatários de ocasião, também o jornalismo reflete contingências de mercado, político-financeiras, e até de subjetividades como as que nos levam a escrever prioritariamente para fontes e coleguinhas.

Mais: o jornalismo só tem função se ajuda as pessoas comuns a tomar decisões, a governar suas vidas. É – deve ser – inteligência não para um cliente exclusivo, mas para um público numeroso, heterogêneo e contraditório.

A turma do porão acha que jornalista tem poder porque pode destruir reputações. Na verdade, seu poder está em ser útil a sua imensa clientela, o que lhe confere as responsabilidades e, eventualmente, a projeção de figura pública. No seu canto escuro, ao pé do trono dos poderosos, o araponga cultiva a discrição, o anonimato e, freqüentemente, a frustração de perceber que seu trabalho muitas vezes não consegue alterar os acontecimentos. Algumas boas reportagens o conseguem.

A vantagem do analista

O jornalista investigativo, de que é excelente modelo o Rubens Valente citado pelo professor Tognolli em seu texto, amarga por vezes alguma das muitas formas de censura, ou a falta de respostas para perguntas como ‘Estou seguro dos dados que obtive?’, ‘Meu trabalho poderá ser contestado?’, ‘O que vou escrever ajuda mais do que prejudica as pessoas?’ Perguntas que o próprio Rubens, em entrevista a Luiz Maklouf Carvalho (http://prof.reporter.sites.uol.com.br/rubensvalente.html), diz fazer a si mesmo continuamente, com humildade e alto senso de profissionalismo.

(A propósito, que perguntas se fazem os espias de empresas, exércitos e ONGs? Os assessores legislativos, os fiscais da Receita Federal, os investigadores do Ministério Público, os olheiros de futebol…? Algum jornalista já procurou saber?)

Por lidar com prazos geralmente mais longos do que os do fechamento de um diário, pela obrigação de aprofundar e se possível esgotar um tema, indo além das espumas flutuantes, das intrigas palacianas e das cortinas de fumaça e, sobretudo, por estar dispensado de ‘vender’ a notícia no título ou no primeiro parágrafo, uma vez que é o cliente quem demanda o conhecimento –, o trabalho do analista de informações pode às vezes estar em vantagem em relação ao do jornalista. Apesar de consistirem essencialmente no mesmo: coletar dados, verificar sua veracidade, relacioná-los entre si de modo a extrair conclusões pertinentes, redigir com clareza e concisão.

Profissão: servir

Esse é o reino onde circulam, entre o idealismo e o ceticismo, súditos de uma mesma coroa, que podem ser – um ou outro – leais ao rei ou à plebe rude, de modo explícito ou dissimulado.

Por causa das diferenças ou das semelhanças entre jornalistas e arapongas, estes acabam demonizados por aqueles, que não resistem a apimentar seus textos com uso de estereótipos (clichês) extraídos de filmes e romances baratos. Ao mesmo tempo, sonegam ao público uma compreensão mais exata sobre o que fazem os profissionais de inteligência, e os próprios jornalistas.

Bom seria que leitores e espectadores por si mesmos julgassem e pudessem decidir acerca dessas atividades e dos que as desenvolvem desde os tempos do gado bíblico [‘Enviou-os, pois, Moisés a espiar a terra de Canaã; e disse-lhes: Subi por aqui para o lado do sul, e subi à montanha. E vede que terra é, e o povo que nela habita; se é forte ou fraco; se pouco ou muito. E como é a terra em que habita, se boa ou má; e quais são as cidades em que eles habitam; se em arraiais, ou em fortalezas. Também como é a terra, se fértil ou estéril; se nela há árvores, ou não; e esforçai-vos, e tomai do fruto da terra.’ Números, capítulo 13, versículos 17 a 20]. Afinal, em muitos casos trata-se de funcionários públicos que, como os enfermeiros do SUS, os professores da rede pública e os guardas de trânsito, devem servir para alguma coisa.

O lodo e a fofoca

Cabe lembrar as palavras do próprio escritor Tognolli quando entrevistado (www.paremasmaquinas.com.br/entre016.htm) na época do lançamento de seu obrigatório A sociedade dos chavões: ‘O clichê leva ao pensamento-clichê e à atitude-clichê, aquilo que Lacan chama de significantes sem significado. Quem pensa por clichê tem respostas prontas, ortodoxas, e não penetra fundo nas questões.’

O curioso nisso tudo é que jornalistas acabam por colaborar com analistas, mais do que o contrário. Para decepção de alguns coleguinhas, o ‘serviço sujo’ dos arapongas tem muito pouco de espionagem – é primordialmente baseado em fontes abertas, e não em parafernália eletrônica ou segredos arrancados a fórceps.

O lodo, a fofoca, os vieses na informação primária processada pelos analistas, a persuasão adulatória por meias verdades, de que nos fala o articulista Tognolli, estão nos jornais. Mais do que gostamos de admitir.

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Jornalista

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