Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > OPERAÇÃO CAIXA DE PANDORA

Cobertura do CB tem sujeito oculto

Por Chico Sant´Anna em 01/12/2009 na edição 566

Desde os primeiros anos do ensino fundamental, os estudantes aprendem que as orações poderão ter sujeito oculto. A oração com sujeito oculto é aquela em que o sujeito da ação não está explícito e sua identificação só é possível graças à pessoa do verbo.

Também é nos primeiros anos do ensino de Jornalismo que o futuro profissional aprende que o sujeito do fato é elemento fundamental da redação jornalística para a devida compreensão dos acontecimentos pelos consumidores de informação. É na faculdade que se aprende a famosa pirâmide invertida, pela qual o repórter deve responder a seis perguntas básicas ainda nas primeiras linhas do seu texto. Quem?, O quê?, Quando?, Onde?, Como? e Por quê?

Na cobertura do recente escândalo de corrupção verificado no âmbito do governo do Distrito Federal, apelidado pela imprensa de ‘mensalão do DEM’, pelo qual o governador do Distrito Federal e pessoas bem próximas a ele são suspeitas de desviar R$ 60 milhões, o Correio Braziliense, principal diário da Capital Federal – com uma tiragem estimada em mais de 200 mil exemplares – parece ter preferido seguir as normas das escolas fundamentais do que as rotinas jornalísticas. No escândalo da Caixa de Pandora, Arruda virou sujeito oculto.

Nome só aparece na 33ª linha

As denúncias, sob apuração da Polícia Federal, Ministério Público Federal e Superior Tribunal de Justiça, apontam para José Roberto Arruda, único governador de estado dos Democratas, como líder de um esquema de corrupção que coletava dinheiro junto às empresas fornecedoras do governo do Distrito Federal (GDF) para ser repartido entre membros da base aliada na Câmara Distrital.

A documentação divulgada pela justiça seria inequívoca: o acórdão do STJ afirma que Arruda teria sido gravado por um auxiliar quinta coluna orientando sobre como fazer a partilha das propinas arrecadadas. Entretanto, nas páginas do Correio Braziliense de sábado (28/11), Arruda vira sujeito oculto e o leitor do jornal fica sem saber exatamente o que aconteceu. Na chamada de capa, o Correio estampa: ‘GDF e Distritais são alvo de investigação’.

Com esta manchete, o Correio não só esconde quem supostamente seria o comandante do esquema de corrupção, bem como os beneficiários, como também dilui a responsabilidade por toda a estrutura do GDF e do parlamento local de Brasília. O governo do Distrito Federal possui dezenas de secretarias e 174 mil servidores. Por sua vez, a Câmara Distrital possui 24 parlamentares. Estariam todos eles envolvidos e sob suspeição policial? Quem lê a chamada de capa do Correio subentende que sim, que todo mundo está envolvido no ‘mensalão do DEM’, quando na verdade as investigações alcançam dez pessoas: Arruda, seu assessor de imprensa, seu chefe de gabinete, o chefe do gabinete civil, os secretários de educação e de relações institucionais (este, responsável pela delação) e quatro parlamentares distritais.

O assunto volta a ser tema na capa e em mais duas páginas internas do caderno ‘Cidades’. Quatro repórteres foram escalados para fazer a cobertura. O nome do governador Arruda só aparece na 33ª linha, na segunda coluna do texto. Diz o texto: ‘Durval gravou, em 21 de outubro deste ano, uma conversa com o governador José Roberto Arruda, sobre o destino de R$ 400 mil em poder do então secretário.’

Autor de ação moralizadora

O texto se recusa a informar que o governador é o alvo central da operação Caixa de Pandora comandada pelo Ministério Público Federal com autorização do Superior Tribunal de Justiça. Entretanto, o foco das investigações, segundo o Correio, são pessoas jurídicas e não físicas. Pela ordem: a Câmara Distrital, o governo do Distrito Federal e o Tribunal de Contas do DF, quando na verdade o alvo dos 29 mandatos de busca e apreensão são as dez pessoas citadas anteriormente.

O noticiário é rico em fotos, oito ao todo, mas todas no caderno ‘Cidades’ e nenhuma na capa do jornal. Arruda também não aparece em nenhuma delas. Nem mesmo numa foto de arquivo. Talvez o Correio Braziliense não tivesse nenhuma no departamento fotográfico. Mas o arquivo fotográfico foi pródigo em localizar uma foto datada de 09/01/2003, na qual aparecem lado a lado o ex-governador Joaquim Roriz, desafeto de Arruda, e Durval Barbosa, secretário de Relações Institucionais do governador do Democratas e responsável pelas denúncias e gravações secretas. Na legenda da foto, que ocupa quase que um quarto de página, o Correio alerta aos leitores que Barbosa atuou como presidente da Companhia de Desenvolvimento do Planalto na gestão Roriz e que nesta condição foi condenado por improbidade.

Nas páginas do Correio Braziliense, o governador Arruda só vai deixar de ser sujeito oculto numa matéria onde ele aparece como autor de uma ação moralizadora, ao determinar o afastamento dos integrantes do primeiro escalão de seu governo citados no suposto esquema de pagamento de propinas.

A ‘rádio corredor’

É bastante curiosa esta técnica de cobertura do Correio Braziliense que subtrai o sujeito da ação, deixando-o oculto, e torna difuso o envolvimento dos suspeitos. Que paradigmas jornalísticos devem nortear tal técnica profissional, quando sabemos que o CB tem por hábito fazer denúncias bem explícitas contra o governo federal e o Congresso Nacional? A forte presença publicitária do GDF nas páginas do Correio teria algum efeito anestesiante?

A chamada ‘rádio corredor’ da imprensa brasiliense alerta que haveria um acordo entre o GDF e o principal jornal da capital para que não se fale mal do governador. É difícil dizer se a ‘rádio corredor’ está bem informada – possivelmente, não –, mas o comportamento editorial do jornal, que almeja ser um referencial da imprensa nacional, no principal escândalo político-policial dos últimos anos na cidade deixa a desejar. O Correio parece não respeitar o famoso contrato entre imprensa e leitor que o obriga a trazer a verdade e toda a verdade sobre os fatos. Tudo que o ele deixou de escrever foi fartamente divulgado pela imprensa local e nacional e até pelos portais de assessoria de imprensa da justiça. A postura do CB revela que o seu leitor deve ligar seu desconfiômetro ao lê-lo, pois no mínimo ele estará correndo o risco de não estar recebendo a totalidade dos fatos, quiçá de estar sendo deliberadamente enganado.

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Jornalista e doutor em Ciências da Informação e da Comunicação pela Universidade de Rennes 1, França

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/01/2010 Franco Brasil

    A não-cobertura do Correio Braziliense do Mensalão do DF é um acinte e um anti-jornalismo total. O que está praticando, de fato, é o acobertamento dos fatos, cujas reportagens sequer mencionam os nomes do Arruda e do Paulo Otávio, governador e vice, respectivamente.
    No início do Governo Cristóvam Buarque – 1994/1998 – foram descobertas algumas marmitas com alimentos ‘quentinhas’, na UnB, que teriam sido distribúídas pelo governo da época, para estudantes em greve, salvo engano.
    Ao contrário de agora, o Correio Braziliense criou um clima de caça às bruxas, querendo tornar o assunto em escândalo nacional. Felizmente o povo não caiu no conto.
    Concluindo, o velho CB continua o mesmo jornal Chapa Branca, nada mudando desde os velhos e saudosos tempos (para eles, imagino) dos governos militares.
    PS: Em razão disso, cancelei minha assinatura daquele periódico.

  2. Comentou em 08/12/2009 josé aprigio nogueira cesarino

    O articulista só comete um erro: não acredito que o Correio ainda almeje ser referência nacional. E já tem muito tempo que não tem a menor condição de sê-lo, principalmente no que se refere à cobertura política. Não é à toa que aqui em casa, como em muitos outros lares, as assinaturas vêm sendo canceladas. A cobertura do caso Arruda é deplorável. Envergonha qq jornalista sério deste país e lá mesmo tem vários. Mas o patrão…

  3. Comentou em 08/12/2009 josé aprigio nogueira cesarino

    O articulista só comete um erro: não acredito que o Correio ainda almeje ser referência nacional. E já tem muito tempo que não tem a menor condição de sê-lo, principalmente no que se refere à cobertura política. Não é à toa que aqui em casa, como em muitos outros lares, as assinaturas vêm sendo canceladas. A cobertura do caso Arruda é deplorável. Envergonha qq jornalista sério deste país e lá mesmo tem vários. Mas o patrão…

  4. Comentou em 05/12/2009 Natalia de Paula

    Não quero aqui defender o C.B. Mas me parece óbvio que absolutamente todas os jornais de grande circulação têm interesses e para tanto omitem fatos de relevância. Com relação a esse escândalo – e lamento profundamente a cobertuda dada pelo maior jornal de Brasília – o Correio está agindo de forma vergonhosa. Mas e os outros tantos? O problema está na cobertura de Brasília ou na cobertura nacional? Repórteres da maior Rede de Comunicação do Brasil recebem propinas para não veicularem fatos importantes. A questão aqui não é a abordagem dada pelo Correio Braziliense, é a corrupção existente no jornalismo brasileiro como um todo. Isso inclui blog, TVs, jornais. Esse episódio é um exemplo, dentre os vários acontecimentos que ocorrem diariamente e os jornais, comprados, se omitem ou se pronunciam parcialmente.

  5. Comentou em 26/02/2007 Anonimo Anonimo

    Continuação…

    Quem sabe o Galvão ajuda a igreja brasileira a curar os padres gays aidéticos, os celibatários enrustidos, os padres pedófilos, as freiras lésbicas? Quem sabe o Galvão não se transforma num santo justiceiro, e dos céus, dê uma forcinha para colocar definitivamente na cadeia os padres estupradores que só são denunciados e quase nunca condenados? E sobre isso lhes pergunto: QUEM AQUI CONHECE UM SÓ CASO DE UM PADRE ESTUPRADOR QUE TENHA SIDO CONDENADO NO BRASIL E QUE PERMANEÇA PRESO POR LONGOS ANOS? O máximo que acontece é o burburinho do calor da revolta logo no início das denúncias, e depois tudo se esquece.

    Não vai demorar nós vamos ver um brasileiro bem malandro ‘testemunhando’ aparições do Galvão em pleno Corcovado, ou, quiçá, em plena Av. Paulista, a fim de ganhar uns trocados com imagens, ‘bênçãs’, patuás, fitinhas, camisetas, bonés, livros, novenas, etc. Vai ser uma festa a nova histeria nacional! Aguardem!

    Um santo brasileiro?! E tinha que ser paulista?! Ah, isso me faz rir demais!!!

    A.

  6. Comentou em 26/02/2007 Anonimo Anonimo

    Continuação…

    Quem sabe o Galvão ajuda a igreja brasileira a curar os padres gays aidéticos, os celibatários enrustidos, os padres pedófilos, as freiras lésbicas? Quem sabe o Galvão não se transforma num santo justiceiro, e dos céus, dê uma forcinha para colocar definitivamente na cadeia os padres estupradores que só são denunciados e quase nunca condenados? E sobre isso lhes pergunto: QUEM AQUI CONHECE UM SÓ CASO DE UM PADRE ESTUPRADOR QUE TENHA SIDO CONDENADO NO BRASIL E QUE PERMANEÇA PRESO POR LONGOS ANOS? O máximo que acontece é o burburinho do calor da revolta logo no início das denúncias, e depois tudo se esquece.

    Não vai demorar nós vamos ver um brasileiro bem malandro ‘testemunhando’ aparições do Galvão em pleno Corcovado, ou, quiçá, em plena Av. Paulista, a fim de ganhar uns trocados com imagens, ‘bênçãs’, patuás, fitinhas, camisetas, bonés, livros, novenas, etc. Vai ser uma festa a nova histeria nacional! Aguardem!

    Um santo brasileiro?! E tinha que ser paulista?! Ah, isso me faz rir demais!!!

    A.

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