Terça-feira, 22 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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Colaboração jornalística na cobertura da corrupção globalizada

Por Nilagia McCoy em 01/08/2015 na edição 861

Sistemas financeiros, as atividades das grandes empresas multinacionais e os círculos do crime conseguem atravessar fronteiras e têm influência em múltiplos países. Numa época de orçamentos apertados, o que podem fazer os veículos jornalísticos para garantir que os amplos efeitos desses sistemas e entidades internacionais tenham uma cobertura adequada? Começando com o WikiLeaks e dissecando as revelações sobre a Agência de Segurança Nacional [National Security Agency-NSA] divulgadas por Edward Snowden, os jornalistas vêm tendo um papel pioneiro em novos projetos voltados para reportagens de matérias complexas que transcendem interesses paroquiais e audiências.

Um trabalho sobre mídia, política e políticas públicas publicado em 2015 pelo Centro Shorenstein, da Faculdade Kennedy, de Harvard – “Anatomia de uma investigação global: jornalismo colaborativo, orientado por dados e sem fronteiras” – explora a crescente necessidade e o impacto das colaborações entre os veículos jornalísticos. William E. Buzenberg, o autor e ex-diretor-executivo do Centro para Integridade Pública, argumenta que colaborações de grande abrangência e com bons conhecimentos de tecnologia podem proporcionar uma passagem vital e econômica para investigações internacionais. Buzenberg aproveita o sucesso e as táticas do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), uma organização que alavanca a computação em nuvem e o talento de jornalistas em mais de 65 países para produzir reportagens investigativas.

O estudo documenta a elaboração das reportagens, pelo ICIJ, sobre contrabando de tabaco e sonegação de impostos por grandes empresas, assim como seu maior projeto até esta data, o Swiss Leaks, que revelou o envolvimento do banco HSBC em inúmeras atividades ilegais, inclusive a lavagem de dinheiro para cartéis de droga e comerciantes de diamantes obtidos em locais de guerra e a transferência de fundos para o Irã. O nível e o impacto da investigação do Swiss Leaks foi maciço: 65 organizações jornalísticas boicotaram as informações que tinham vazado de correntistas do HSBC em mais de 200 países e a publicação da reportagem levou a mudanças na legislação em 52 países.

A publicação conjunta é poderosa

Buzenberg descreve os aspectos técnicos e culturais que tornaram possíveis as reportagens do ICIJ, proporcionando manobras práticas para os veículos jornalísticos que procurassem replicar num modelo de colaboração em grande escala. Algumas de suas recomendações incluem:

– Estabelecer um núcleo editorial que prepare a pauta e sirva de eixo de comunicação;

– Compartilhar conjuntos de dados para incentivar os jornalistas a se aproximarem para ter acesso a algo que de outra forma não teriam;

– Usar duas plataformas para se comunicar. O ICIJ usou plataformas codificadas para (1) ver e fazer o download de informações: e (2) comunicações internas entre o núcleo editorial e os participantes;

– Manter a colaboração econômica. O núcleo editorial precisa de fundos para contratar uma pequena equipe para gerenciar os dados e o website central e ainda cobrir os custos dos softwares, dos provedores de internet e despesas legais – mas cada repórter que seja colaborador deveria contar com apoio financeiro das organizações jornalísticas participantes.

– Realizar pelo menos uma reunião cara a cara para construir confiança entre os repórteres participantes;

– Distribuir o trabalho de checagem de dados. O ICIJ aprendeu esta lição depois de anos tentando editar e checar as informações do material de todos os membros do ICIJ. As informações compartilhadas devem ser organizadas e checadas de maneira centralizada e os membros participantes têm que ser examinados, mas cada organização jornalística deve ser responsável por sua reportagem, pela edição, pela checagem e pela revisão para que a colaboração prossiga de modo adequado.

A publicação conjunta é poderosa. A escolha de uma data específica não é fácil, mas a divulgação coordenada de reportagens em dúzias de países por todo o mundo pode expandir o impacto da reportagem em qualquer país.

“As organizações jornalísticas norte-americanas poderiam colaborar muito mais com outras organizações jornalísticas, inclusive suas concorrentes em matérias locais, regionais ou nacionais, ou em matérias investigativas”, conclui Buzenberg. “Estão ocorrendo muito mais colaborações, mas na maioria dos casos são pequenas e muitas vezes consideradas incômodas. No entanto, seria possível um avanço investigativo muito mais profundo se várias redações se decidissem a unir forças. A atitude do tipo “nós sabemos o que é melhor”, ou “pode deixar que nós mesmos o fazemos” é uma noção cada vez mais antiquada na era digital, quando cidadãos bem informados e colegas de outras organizações jornalísticas poderiam ser trazidas a participar de um processo jornalístico eficaz e de maneiras novas, para se tornar parte de um enérgico esforço investigativo colaborativo.”

***

Nilagia McCoy é jornalista do Journalist’s Resources , um projeto da Harvard Kennedy School

 

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