Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > GASOLINODUTO E OUTROS DUTOS

Como agarrar o leitor mesmo num feriadão

Por Alberto Dines em 24/04/2006 na edição 378

Os semanários saíram um dia antes, magros, mais chochos do que habitualmente. Jornalões de domingo, mornos, cheirando a gaveta. O segundo feriadão de uma série de três (22-23/4) prometia a mesma embromação – quilos de papel colorido perfeitamente descartáveis.


O Globo preferiu brindar o leitor fiel com três ‘bombas’ na primeira página. Todas, fruto de investigação. Reportagens clássicas, nenhum vazamento, fita, dossiê secreto ou declaração.


A manchete vai certamente animar o noticiário da semana: ‘Gasto de deputados com gasolina daria para 6 idas à Lua’. Só no ano passado foram 41 milhões reais, o equivalente a 20,5 milhões litros de combustível. O campeão, Francisco Rodrigues (PFL-RR) recebeu 60 mil reais neste ano.


A dupla de repórteres (José Casado e Maria Lima) gastou sola de sapato no Rio e em Brasília e encheu duas páginas e meia. Se Aldo Rabelo, presidente da Câmara, não se deixar levar pelo corporativismo, podemos ter quebra de decoro e cassações não por causa do complicadíssimo valerioduto, mas pelo gasolinoduto facilmente perceptível pelo mais comum dos cidadãos.


A denúncia contra o novo trambique eleitoral de Anthony Garotinho desta vez com os doadores para a sua pré-campanha para a presidência, ocupou página e meia. Irrespondível e grave. Pode tornar inelegível o ex-governador fluminense (trabalho de Maiá Menezes e Pereira Júnior). Basta que a imprensa saia do ponto-morto em que se encontra e resolva mexer-se.


Jornalismo vivo


A terceira investigação, também destacada na primeira página deste domingão excepcional, retoma com novas provas o enriquecimento ilícito do presidente da Assembléia Legislativa fluminense, Jorge Picciani, e mais 10 parlamentares suspeitos de crimes contra a ordem financeira. O assunto provavelmente ficará restrito ao próprio Globo já que seus concorrentes diretos (O Dia e o Jornal do Brasil), não gostam de se indispor com os políticos locais (duas páginas e meia, assinadas por Antônio Werneck e Dimmi Amora).


Vigilância efetiva, é isto que o leitor espera dos jornais que compra. O debate – em geral hermético – sobre as reformas política e eleitoral, só chegará à sociedade se a imprensa transformar os abusos em fatos reais, palpáveis. Como estes investigados pelo Globo. O mensalão ficou obscuro demais para o leitor médio e só poderá ser reavivado se a imprensa encontrar outros elos perdidos no vasto território da corrupção política.


Enquanto os consultores discutem fórmulas mágicas para reverter o declínio dos jornais, um grupo de profissionais vai à rua e mostra que o jornalismo está mais vivo do que nunca.


[Texto fechado às 19h10 de 24/4]


***


Em tempo — Malgrado o erro de artimétrica admitido pelo jornal – o gasto com combustível pelos deputados federais daria para fazer 431 viagens à Lua, e não 6 –, a tripla denúncia do Globo ganhou a mídia. A Folha de S.Paulo (terça, 25/4) seguiu a pista das revelações sobre Garotinho e descobriu que uma das empresas doadoras é de propriedade de um assaltante. A farra da gasolina vai pegar fogo. Entrou na pauta da imprensa. [10h07 de 25/5]

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