Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > SERRA NA FOLHA

Como fazer dos limões uma laranjada

Por Celene Araújo em 25/12/2007 na edição 465

Criado para realizar pesquisas de opinião pública e eleitorais com o máximo rigor técnico e agilidade, o Datafolha firmou sólida reputação a partir de 1989, com a volta das eleições diretas, para as quais a própria Folha de S.Paulo teve um papel crucial e digno de constar como capítulo da História do Brasil.

Desviando-se dessa trajetória memorável, os belos limões do Datafolha ajudaram o jornal a fazer uma laranjada no domingo (16/12) para parafrasear uma expressão em voga atualmente.

Como chamada na primeira página, saiu uma relevante e oportuna pesquisa do instituto com um ranking de avaliação de governadores. O resultado mostrou a seguinte classificação e suas respectivas notas e porcentagem de aprovação:

1º – Aécio Neves (PSDB) – Minas Gerais – 7,7

2º – Cid Gomes (PSB) – Ceará – 6,6

3º – José Serra (PSDB) – São Paulo – 6,5

4º – Eduardo Campos (PSB) – Pernambuco – 6,4

5º – Roberto Requião (PMDB) – Paraná – 6,3

6º – Luiz Henrique da Silveira (PMDB) – Santa Catarina – 6,1

7º – Jacques Wagner (PT) – Bahia – 6,0

8º – Sérgio Cabral (PMDB) – Rio de Janeiro – 5,9

9º – José Roberto Arruda (DEM) – Distrito Federal – 5,3

10º – Yeda Crusius (PSDB) – Rio Grande do Sul – 4,2

O ‘foguete’ Serra

Nas páginas internas, o assunto se desdobra ao longo de seis merecidas páginas, com matérias específicas dedicadas a vários dos governadores ranqueados. Veja se um leitor atento da edição de domingo consegue descobrir o que está destoando na série de títulos escolhidos pela Folha para suas matérias internas:

** ‘Aécio sofre poucas resistências para administrar Minas’

** ‘Tucana [Yeda Crusius] se tornou alvo no RS da classe média, do funcionalismo e do Judiciário’

** ‘Aprovação a Serra aumenta 10 pontos percentuais em 7 meses’

** ‘Avaliação positiva de Cabral cai 25%’

** ‘Governo do DF é rejeitado por 30% do eleitorado’

** ‘Só 2 dos 45 deputados do Ceará fazem oposição aberta a Cid Gomes’

** ‘Wagner ainda tem problemas essenciais’

Não precisa ser catedrático em semiótica para se constatar que todas as matérias são críticas aos respectivos governadores que lhes servem de tema, exceto aquela dedicada a José Serra, o governador de São Paulo. Senão, vejamos: Aécio e Cid não têm oposição em seus estados. Yeda Crusius enfrenta o ataque da classe média e dos servidores. Cabral cai, Arruda é rejeitado e Wagner ‘ainda tem problemas essenciais’. Mas José Serra, qual foguete, ‘aumenta 10 pontos percentuais em 7 meses’…

E quem desaprova?

De acordo com o Datafolha, as três maiores notas foram as seguintes: Aécio (7,7), Cid Gomes (6,6) e Serra (6,5). Nas matérias específicas sobre os governadores, o jornal Folha de S.Paulo procura mostrar que Aécio e Cid Gomes só têm um elevado grau de aceitação porque não são fustigados pela oposição no plano regional. De 77 deputados estaduais em Minas, apenas dez fazem oposição a Aécio. De 45 deputados estaduais do Ceará, só dois enfrentam Cid Gomes, mesmo assim para fazer ‘críticas pontuais’ na área de segurança pública. Cid Gomes passeia ‘com um governo quase sem oposição, formado por um leque de aliados que vai do PT ao PSDB’ – e ‘até deputados de partidos excluídos da base aliada, como o DEM, poupam Cid de críticas mais incisivas’.

Por que a Folha não concedeu a Aécio e Cid Gomes o direito de serem bem avaliados pela população por méritos de suas administrações públicas, como fez com José Serra?

Além do festivo título, encontro na matéria de Serra que ele enfrentou crises com o meio acadêmico e com o acidente nas obras do Metrô, ameaças de greve e manifestações. A Folha me informa que o governador concedeu reajustes para os funcionários na área de segurança, antecipou bônus na Educação e adiantou o décimo terceiro. Apesar dos escândalos de corrupção que enfrentou, não houve ataques do PCC nem rebeliões na Fundação Casa. Melhor: conseguiu redução de 21,76% nos homicídios, vendeu a folha de pagamento para a Nossa Caixa, parcelou a dívida, aumentou o limite de endividamento do Estado, garantiu recursos para investimentos como recuperação de vicinais, faculdades de tecnologia e o Rodoanel. Uau!

O texto esmiúça o levantamento, identificando os melhores desempenhos alcançados de acordo com os extratos sociais definidos pela pesquisa. E quem desaprova o governo Serra, por que o faz?

Neste quesito vale observar que no caso dos governadores mais bem avaliados que Serra não se tem informação sobre nenhum recorte da pesquisa (renda, escolaridade etc.)

Informar o público

Ao interpretar os números do Datafolha, o jornal destilou o preconceito segundo o qual mineiros e cearenses – ao contrário dos paulistas – não conhecem a realidade e, por isso, apóiam Aécio e Cid Gomes. Ou está dizendo que, se houvesse uma oposição vigorosa na Assembléia, o povo certamente deixaria de apoiá-los. Mas, em que pilar da ciência política está assentada a ligação de causa e efeito entre baixa oposição parlamentar e elevada popularidade de um governante? Ou o seu contrário, de elevada oposição e baixa popularidade do governante? Por acaso José Serra também tem boa nota (6,5) e pouco abaixo de Cid Gomes) pelo fato de se beneficiar de uma oposição complacente em São Paulo?

A edição, de seis páginas, é um primor de descumprimento do Manual de Redação no célebre capítulo sobre ‘ouvir o outro lado’. No Ceará, a Folha ouviu o oposicionista Heitor Férrer (PDT) e usou uma declaração do secretário da Fazenda apenas para confirmar a crítica da oposição. Em Minas, todas as fontes ouvidas são de oposição – foram entrevistados a deputada do PT Elisa Costa e um sindicalista. No Rio Grande do Sul a mesma coisa: deu-se voz apenas ao deputado Raul Pont (PT) e ao presidente da Federação Sindical dos Servidores Públicos. Já em São Paulo, sabem quem foi entrevistado da oposição para falar da avaliação positiva de Serra? Ninguém… A matéria é olímpica e não traz entrevistas, fazendo um oba-oba para o governador paulista.

Um dos nomes mais em evidência para disputar o cargo de presidente da República, José Serra é um político de grande capacidade e méritos reconhecidos e respeitados até por seus adversários. Se a Folha escolher o nome dele como seu preferido para a disputa de 2010, essa pode ser uma boa opção eleitoral e um direito do jornal em fazê-lo. A cada eleição, dois expoentes das rotativas no planeta, o New York Times e o Monde, comunicam a seus leitores quais os candidatos da sua preferência, mas procuram evitar que essa escolha política contamine o noticiário. Caso a Folha adote um caminho semelhante, seria pelo menos de bom tom informar isso a seu vasto público. Com transparência, de um limão é possível sempre fazer uma boa limonada.

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Consultora em Comunicação, São Paulo, SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/11/2009 Roberta Donno

    Boa tarde!
    Gostaria de saber como são selecionados as notas que entram na sessão Netbancas.
    Obrigada!

  2. Comentou em 27/07/2009 Maria das graças das graças

    A área de treinamento do Detran no Gama encontra-se em péssimas condições. Estou falando de coisa séria pois além do asfalto estar todo esburacado restam apenas alguns vestígios de faixas para que os alunos possam se guiarem durante os treinos de garagens. O mais escandaloso é que no meio de semana (especificamente na quinta feira) são realizados exames neste lugar e nestas condições às quais me refiro.

  3. Comentou em 10/03/2008 Arlene Brito

    Bom dia. Preciso de uma ajuda. Vou cobrir um evento cuja organização é assinada por duas instituições. Obrigatoriamente tenho que entrevistar representantes das duas? Por favor me ajudem. Aguardo respota, obrigada.

  4. Comentou em 30/12/2007 Rogério Ferraz Alencar

    3. Campanhas do PT, além de atacar adversários, eram propositivas. Se o PT atacava os outros, imagine o que Lula e o PT sofreram de ataque. Como sofrem até hoje, principalmente de apartidários e independentes. Valerioduto, correios (?), aloprados, sanguessugas são invenções tucanas. Acusam o PT de continuar o valerioduto, mas os sanguessugas são criação legitimamente tucana, da época de José Serra, “tão criticado” por Max Suel. A história dos aloprados, no que foi apurado, revela criação de demos-tucanos. A maior parte dos dólares rastreados saiu de uma casa de câmbio do 2º suplente do ex-senador Jorge Bornhausen; outra parte foi achada na pousada de um ex-vereador demo, no interior de Minas; uma diretora de diretório tucano, também do interior de Minas, forjou uma história para comprometer Hamilton Lacerda; o avião que transportou o dinheiro para São Paulo era de um filiado ao PSDB. 4. Não há nenhum coronel, nordestino ou não, no governo de Lula. Agora, nos governos de Fernando Henrique havia Jorge Bornhausen e ACM, além de Marco Maciel, que era vice-presidente. 5. Não sei a quais critérios lulo-petistas Max Suel se refere, para definir esquerda e direita. Não vejo problemas em petistas ocuparem cargos bem remunerados no “Sistema S”. Max Suel acha que são cargos privativos de demos-tucanos? O pai dele podia não ser de direita, mas Max Suel é. É demo-tucano indisfarçável.

  5. Comentou em 29/12/2007 Paulo Oliveira

    Prezado Evandro (de Morais , Belo Horizonte-MG – Bombeiro Militar Enviado em 29/12/2007 às 2:27:53 AM), você sabia que o prefeito Pimentel, do PT, tem um elevado grau de avaliação positiva por parte da população de Belo Horizonte? E o Lula é outro que sempre aparece muito bem nas pesquisas em Minas Gerais? Outro dia saiu uma pesquisa da Fiemg e Vox Populi mostrando que o Aécio e o Lula estão muito bem na foto com os mineiros. Será que o Pimentel e o Lula ‘controlam’ o jornal Estado de Minas, conforme você está acusando’? A julgar pelo seu comentário, só pode ser, né… O Pimentel e o Lula têm ‘acesso irrestrito’ ao jornal Estado de Minas e mandam demitir os jornalistas que escrevem criticando a Prefeitura e o Governo Federal. Só assim é possível explicar por que Pimentel e Lula têm tanto apoio em Minas Gerais…

  6. Comentou em 28/12/2007 Max Suel

    O Sr. ATRFB Rogério acha que quem não é petista, lulo petista e escravo ideológico da esquerda só pode ser ‘serrista’, tucano, escravo ideológico da direita; engano do Sr. ATRFB; existe gente independente no mundo. Posso muito bem criticar o PT e os petistas, como critico também os tucanos e a porção fisiológica do DEM. Sempre penso que a oposição errou feio em 2005, quando o pres Lula estava no ‘corner’ , nas cordas, e precisando apenas de um empurrão institucional (empichamento) para ser legitimamente afastado; mas não, a oposição ficou com medo da CUT, UNE, MST entre outros, e achou que o pres sangraria até a eleição de 2006. Erraram feio e continuam errando. Falta no Brasil uma oposição real, legal, legítima, que represente os muitos milhões de brasileiros que estudam , trabalham, acreditam na honestidade, na ética. A estes, falta uma oposição séria que os represente; que mostre as mazelas do lulo-petismo, seu aparelhamento do Estado, suas corrupções, roubos, a boçalização total da sociedade, o horror, a mentira se fazendo de verdade. Independência, Sr. ATRFB, amor à liberdade de pensamento, amor à verdade; não à mentira lulo-petista, não à escravidão ideológica. Para mim não há nenhum problema em criticar FHC ou Serra ou Alckmin, não tenho rabo preso com o tucanismo, como os petistas têm com o lulo-petismo.

  7. Comentou em 27/12/2007 Rogério Ferraz Alencar

    ‘Vou ser a primeira voz discordante, pois não sou petista, nem lulo-petista, nem escravo ideológico da esquerda.’ Max Suel só diz o que não é, mas não diz o que é. Mas, embora ele tenha vergonha de explicitar o que é (vergonha plenamente justificável, aliás), o que ele escreve não deixa dúvidas: ele é tucano, serro-tucano, escravo ideológico da direita.

  8. Comentou em 27/12/2007 Marcelo Farias

    E quem disse que adianta denunciar a Folha? Todos sabem que ela é parcial, paulista e tucana, entretanto, continuará no topo porque brasileiro é, via de regra, leniente e muito pouco crítico. Há anos que a imprensa nacional, registre-se, perdeu o rumo e se transformou em um ninho de leva-e-traz.

    Das universidades de hoje saem profissionais muito pouco sintonizados com a realidade, muito pouco preparados para entender o jogo da informação. Quando descobrem, já estão velhos e sem motivação para seguir numa profissão que remunera seus profissionais à mesma proporção da qualidade deles.

    Nesses tempos de internet, quem se prende a uma só fonte de informação (ou melhor, aos medalhões da informação, seus jornais e blogues) está jogando tempo e inteligência fora. Vai, portanto, viver de reclamações como essa da Celene, cheia de uma novidade antiga e desbotada.

  9. Comentou em 26/12/2007 Marcelo Dezonne

    A Folha de S.Paulo, assim como a Veja, O Globo, Zero Hora… e todos os grandes jornais e revistas seguem a lógica empresarial de seus donos. A liberdade que defendem é a de que se escreve e diga tudo… o que seus patrões e anunciantes desejarem. A leitura de um jornalão ou revistas do tipo Veja, deve ser sempre acompanhada de um espírito crítico e de dúvida em relação ao que se encontra. Jamais, por exemplo, eles darão cobertura isenta a mudança de um plano diretor de uma cidade, se este desagradar as grandes construtoras, suas anunciantes.

  10. Comentou em 26/12/2007 Eduardo Oliveira

    São matérias como esta que a sociedade crítica vêm demonstrando um certo golpismo da Mídia e da Direita Brasileira. Onde se vê claramente os lanços de afinidade ideologica nas redações dos oligarquias da imprensa, muitos jornalistas independentes resmunga entre um canto e outro das redações, mas ficam intimidados com a degola de seu emprego. Fato esse conhecido por alguns da empresa Globo…

  11. Comentou em 26/12/2007 Eduardo Oliveira

    São matérias como esta que a sociedade crítica vêm demonstrando um certo golpismo da Mídia e da Direita Brasileira. Onde se vê claramente os lanços de afinidade ideologica nas redações dos oligarquias da imprensa, muitos jornalistas independentes resmunga entre um canto e outro das redações, mas ficam intimidados com a degola de seu emprego. Fato esse conhecido por alguns da empresa Globo…

  12. Comentou em 26/12/2007 Letícia Ramos

    A Folha de S. Paulo sempre foi claramente a favor do PSDB. Nota-se isso em suas coberturas póliticas, na maioria das vezes trazendo preferencialmente em destaque matérias com índices favoráveis a políticos tucanos. Seu próprio ombudsman já afirmou isso. Ouvi dizer que a imprensa americana é mais clara em dizer sua posição a qual partido ou político aprova em época de eleições, mas que aqui no Brasil esse costume ainsa é mais tímido. É mais fácil para os jornais tendenciarem matérias a seu ver, do que tomar uma posição mais corajosa em apoiar seus favoritos, dizendo abertamente à população. Creio de que está mais do que na hora de se amadurecer a exemplo dos americanos, e começar um novo hábito, plural, de responsabilidade e respeito àquele que merece a informação, o cidadão.

  13. Comentou em 26/12/2007 Letícia Ramos

    A Folha de S. Paulo sempre foi claramente a favor do PSDB. Nota-se isso em suas coberturas póliticas, na maioria das vezes trazendo preferencialmente em destaque matérias com índices favoráveis a políticos tucanos. Seu próprio ombudsman já afirmou isso. Ouvi dizer que a imprensa americana é mais clara em dizer sua posição a qual partido ou político aprova em época de eleições, mas que aqui no Brasil esse costume ainsa é mais tímido. É mais fácil para os jornais tendenciarem matérias a seu ver, do que tomar uma posição mais corajosa em apoiar seus favoritos, dizendo abertamente à população. Creio de que está mais do que na hora de se amadurecer a exemplo dos americanos, e começar um novo hábito, plural, de responsabilidade e respeito àquele que merece a informação, o cidadão.

  14. Comentou em 24/12/2007 alfredo sternheim

    Perfeita a tua análise, Celene. É por essas e outras que os grandes jornais estão cada vez mais desacreditados, perdendo leitores cuja inteligência menosprezam. Como você observa, partidarismo é legítimo desde que assumido e de uma maneira que não contamine os noticiários, a democrática distribuição de espaço para informações e matérias. Pena que, em SP. os dois maiores jornais (principalmente O Estado) tenham compremtido a imparcialidade almejada. Há outros exemplos gritantes dessa blindagem a Serra, dessa diferença de tratamentos dos fatos: o caso da adolescente presa no Pará e os acidentes e as falhas da segurança pública no estado de SP (os episódios de Bauru e do lutador Gracie). Por essas e outras que deixei de assinar e comprar jornais de SP. Mais uma vez, parabéns Celene

  15. Comentou em 29/01/2005 Paulo Bandarra

    Mais uma vez volta a baila na mídia o Sudário de Turim. Volta e meia o assunto retorna para tentar provar o que é demonstrado falso, que é verdadeiro. Kusnetshov questionou os resultados do teste de carbono 14 com uma tese: um incêndio em 1532, que atingiu o Sudário, teria alterado a composição do carbono do tecido, provocando um rejuvenescimento do pano e, portanto, uma datação errada. Quando o mesmo sumiu e o seu instituto não foi descoberto, por ser inexistente, aparece outra explicação agora. Não existe mais interferência do incêndio impossibilitando o teste. Pode-se usar o mesmo sim, só com uma imprecisão conveniente de 1800 anos para cair na época desejável aos adeptos do improvável.
    Jornalistas não perdem tempo mais estudando o assunto e fornecendo uma crítica sobre as informações. Não questionam porque, de uma hora para outra, proponentes da falsidade do teste, agora passam a defender o mesmo. Ou porque só este tecido forneceu uma inútil datação de 1800 anos de intervalo.

    Mas independente do carbono 14, a própria obra é flagrantemente fabricada. O artigo do Professor Hernán Toro, Engenheiro Eletrônico, na edição de estréia da Revista Pensar [remissão abaixo], nos dá uma dimensão de quando a mente quer acreditar no impossível, consegue usar todo os meios tortuosos para isto. Até mesmo usar a ciência para validar uma fraude que a fé deseja que seja realidade. Aquilo que deveria ter evidenciado a burla, a foto de Secondo Pía, passa a ser uma prova de “milagre”. A foto do negativo da película mostra não uma imagem de uma pessoa na mortalha, mas uma imagem ipses líteres: a representação fotográfica dela. E o que devia ter selado o destino do embuste medieval, passou a ser usada pesquisa científica para tentar provar que o que não é, é!

    A possibilidade de se pintar o Sudário é afirmado, como prova de autenticidade, de ser impossível. Mas na verdade a possibilidade de uma mortalha apresentar um efeito fotográfico que é praticamente impossível. Se ela fosse uma peça manchada e com deformidades, seria mais verossímil do que sendo uma peça perfeita (tirando os vários erros anatômicos).

    O Sudário de Oviedo apresenta manchas muito mais verossímeis de quem tentou imitar uma mortalha, ou de alguém que foi amortalhado e usado após para este fim, do que o de Turim. O sangue que entra em contato com o tecido sofre uma ação de capilaridade, como lembra o Prof Toro, e se expande tendendo a forma circular. Nenhum efeito parecido é encontrado no de Turim. Apesar de médicos forenses validarem a suposta crucificação da imagem pelo punho, nenhum explica porque o sangue e os líquidos corpóreos não se comportaram como tais. Assim como a falta outros resultados em mortalhas na qual se constatou igual fenômeno fotográfico pelo sangue.
    É mister observar que este Sudário de Oviedo estaria colocado por baixo do de Turim, mas não deixou o de Turim com uma impregnação menor nesta área, como seria de esperar, onde houvesse dois panos.

    Outra anomalia inverossímil é que a imagem fotográfica se formou na parte de tecido colocada sobre o cadáver impressionada pelo seu peso apenas, enquanto a parte de trás, com o peso da vítima, está por demais indefinida. Não se define a nuca, as omoplatas, as nádegas. Nem os líquidos dos ferimentos múltiplos se fizeram presentes nesta parte, quando obrigatoriamente deveria ter impregnado pela ação da gravidade e da capilaridade das fibras. Em nenhum local se evidência um borrão deixado pelo corpo ao ser colocado e ajeitado sobre a mortalha, como se o mesmo apenas desceu sobre o pano e não foi retirado. Assim como em nenhum local houve a esperada transfixação do sangue nos tecidos, sendo a impressão apenas levemente superficial, como ocorreria com uma tinta. A colocação do tecido, mesmo feito por quatro pessoas esticando a mortalha sobre o mesmo sem deixar uma ruga, não formaria a imagem como apresentada, pois a mesma deveria ser deformada na medida que entrasse em contato com as laterais do mesmo, como mencionado pelo Professor Toro. A recuperação do efeito em três dimensões só é possível pela imagem ser fotográfica e não uma real representação de uma face amortalhada com a devida deformação curva.

    A representação forense mostra uma visão mais atual de um suposto Jesus de Nazaré, pela representação dos povos da região ao contrário da visão medieval de um Cristo europeu, como o do sudário, na qual os cabelos lisos estão na horizontal e não caídos para trás, como seria de se esperar.

    A alegação de que a imagem se formou com o suor e sangue de Cristo, provocado pelo sofrimento, não parece razoável. O suor misturado com sangue, mais o sangue propriamente dito e a linfa que escaparia dos coágulos deveriam se comportar como líquidos. Afirma-se que seria uma grande honraria que os seus seguidores, pescadores humildes, fizeram ao comprar uma enorme peça de linho que na época sairia caríssima. Mas não se entende que não tenham banhado o mesmo antes de colocá-lo na mortalha tão cara. E se não fizeram, deveriam as manchas ser mais pronunciadas do que uma tênue imagem fotográfica.

    Outra fantasia sugerida é de que a imagem teria se formado por irradiação de algum tipo, emanada do corpo, deformaria a imagem ainda mais, pois a irradiação seria feita em todas as direções e não só na forma de raios concentrados numa película de impressão. Assim, os lados que caem sobre o cadáver seriam muito mais impregnados e a imagem mais difusa do que se este estivesse só com o milagroso suor.

    Ao cobrir a cabeça com o sudário, o mesmo estranhamente não acompanha o formato da cabeça, mas forma duas imagens separadas com a das costas. É interessante, por que parece que os pés do morto não foram totalmente cobertos. No entanto, a água usada no incêndio se comportou como um líquido e provocou uma mancha ao deslocar a tinta.

    Outra anomalia anatômica é a desproporcionalidade da cabeça com o corpo, mostrando uma face muito pequena para a altura do mesmo. Ao contrário do mencionado pelo Professor Toro, dos braços muito maiores do que o corpo para se encaixar sobre o genital para cobri-lo.

    Mais uma incoerência. Se o sangue seco marcou o pano, como a moeda, colocada depois da morte, teria suado e sangrado? Deveria aparecer como um espaço não tingido e não como uma moeda. Ou a moeda também ressuscitou e impregnou o pano com radiação?

    É atribuída a presença de terra em alguns pontos da imagem. Mas não é relatada a presença de terra no tecido na parte que entrava em contato com o chão.

    Talvez o verdadeiro Sudário esteja bem guardado, pois este passou a sofrer uma série de ataques do destino em três incêndios em 700 anos, mostrando que é mais seguro ficar escondido do que aos cuidados de fiéis.

    Las anomalías ignoradas del ‘sudario’ de Turín
    Hernán Toro
    http://www.pensar.org/2004-01-turin.html

    GALILEU
    O Santo Sudário
    Roberto Takata (*)
    http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/ofjor/ofc201099.htm

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