Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

IMPRENSA EM QUESTãO > JORNALÕES & JORNALISMO

Como se fabrica um mito

03/11/2009 na edição 562

No ‘Mais!’ da Folha de S. Paulo de domingo (1/11) duas fotos ilustravam a violência das duas maiores cidades brasileiras (pág. 5). O tema do caderno era o submundo do crime organizado e o editor escolheu uma foto sobre a violência no Rio e outra sobre São Paulo.


A foto tomada no Rio (em 23/10/2009) reproduzia uma cena que poderia ter sido copiada de um filme de ação da HBO: três policiais com armas automáticas correndo e atirando numa rua típica de subúrbio carioca. Já a foto de São Paulo foi tomada depois do estado de sítio imposto pelo PCC à maior cidade brasileira (em 7/8/2006): os escombros de um ônibus ainda fumegante e, em primeiro plano, um vira-latas sentadinho.


No Rio, o flagrante da guerra urbana; em Sampa, a poesia da destruição. Foi artístico o critério que norteou a escolha das fotos, o editor buscava o contraste. Acabou por reproduzir um estereótipo que comanda os impulsos dos porteiros das redações brasileiras.


Sobras e ‘calhaus’


Não há a menor dúvida de que o Rio converteu-se numa praça de guerra. Porém, São Paulo não fica atrás. Enquanto a guerra paulistana se trava na periferia, no Rio esta periferia está encravada no coração da cidade. O dirigente do Afro-Reggae Evandro da Silva foi assassinado no centro da cidade, não muito longe de um dos novos points da boemia carioca.


Seria impossível e deletério tentar montar um quadro comparativo sobre a violência nas duas maiores cidades brasileiras. Além da natureza e organização social diferenciadas, cada uma tem o seu ‘modelo de negócios’ para o crime organizado. Por mais objetivos e afinados que fossem os paradigmas para uma eventual comparação, as estatísticas seriam incapazes de produzir algum tipo de cotejo.


A imagem de violência de cada uma das nossas metrópoles é fabricada por dados objetivos e subjetivos, todos no âmbito da mídia. A Rede Globo está sediada no Rio, seus telejornais obedecem a padrões de qualidade jornalística e, como acontece há pelo menos três décadas, pautam os meios de comunicação de todo o país. Não poderia ser diferente: o Jornal Nacional tem a obrigação de investir pesadamente na cobertura do que acontece na cidade onde é produzido e emitido.


Na mídia impressa, ocorre o contrário: todos os quatro semanários de informação são produzidos em São Paulo e, dos três jornalões de referência nacional, dois estão fincados na Paulicéia. E não apenas em seus nomes: o Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo nasceram e cresceram como jornais vinculados aos interesses regionais no âmbito da política e da economia. Suas coberturas locais e de polícia sempre foram menosprezadas e secundarizadas (a despeito da excelência dos seus profissionais). A burguesia paulista sempre andou de nariz empinado e de olho no próprio umbigo. Como conseqüência, o forte do jornalismo paulista nunca foi o jornalismo de cidade, geralmente transferido às rádios, tradicionalmente competentes e ágeis.


A prova está nos cadernos ditos ‘locais’ – os mais mirrados, os mais descaracterizados e aviltados, onde cabe tudo: a vida da cidade, os desastres (inclusive ocorridos em outras regiões), o noticiário leve (que os marqueteiros acham indispensável para atrair o público jovem e feminino), a meteorologia, as crônicas, os ‘calhaus’ (anúncios da própria empresa) e as sobras dos anúncios classificados. Tudo isso em 8 ou, no máximo, 12 páginas (sendo que a capa é geralmente ocupada por um grande anúncio colorido).


Operação audaciosa


Na Folha o caderno local é obrigado a absorver a página de ‘Saúde’ e uma coisa chamada ‘Folha Corrida’, espécie de pseudo-capa com grandes fotos sobre mundanidades e chamadas que sobraram da verdadeira capa sem ‘agregar valor’ (como diriam os burocratas ou jornalistas de economia): não acrescentam informações, não oferecem contextos e espremem ainda mais a cobertura urbana.


O caderno local do Estadão é bizarro: sofre de esquizofrenia e tem um alter ego. Na edição que circula na cidade onde é impresso chama-se ‘Metrópole’, nas demais regiões chama-se ‘Cidades’. O conteúdo, porém, é exatamente o mesmo e nesta ambigüidade está a prova do descaso da empresa pela cobertura local. Confunde o local do Rio com o local de São Paulo e acaba liquidando a razão de ser do jornalismo: dar ao leitor uma noção correta do que se passa à sua volta.


E onde é noticiada a violência paulistana? Ela existe, está crescendo: no sábado (31/10, pág. C-1), com destaque na primeira página, a Folha anunciou que o crime cresce no estado pelo terceiro trimestre consecutivo. Da quinta-feira (29/10) até o domingo, os dois cadernos ‘locais’ paulistanos deixaram de se concentrar na violência carioca obrigados a noticiar uma blitz da Policia Civil que prendeu 2.191 pessoas, a queda de um avião da FAB na Amazônia e o salvamento de 9 dos 11 passageiros – e porque nesses dias veio à luz a informação sobre o quase-linchamento de uma estudante de turismo que apareceu na faculdade com uma audaciosa minissaia.


O crime organizado paulistano, isto é, o PCC, só deu o ar de sua graça uma única vez (na Folha, quinta-feira, 29). Neste intervalo não houve chacinas, não houve confrontos entre gangues, não houve assassinatos nem arrastões em condomínios.


O crime organizado paulistano não tem vez na mídia paulistana. No assalto ao carro-forte em Amparo (SP) também foi usada uma metralhadora pesada e, como operação, foi muito mais audaciosa porque minuciosamente planejada, ao contrário do ataque ao helicóptero da PM no Morro dos Macacos, obra do acaso e/ou fatalidade (ver, neste Observatório, ‘Os senhores da guerra e do crime‘). Mereceu uma cobertura insignificante. O helicóptero abatido no Rio, no entanto, continua ocupando parte do espaço ‘local’ dos competidores paulistanos.


***


O Globo é o único jornalão de referência nacional editado no Rio, também o único que tem nas veias o DNA de vespertino. Esta ascendência e pedigree dão ao jornal uma energia que não se encontra nos jornalões paulistanos. Tem inúmeros defeitos de organização e apresentação, mas a sua trepidação traz consigo o empenho em enxergar o confronto com o narcoterrorismo como uma questão além-Rio, de segurança nacional.

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/11/2009 Ibsen Marques

    Na minha opinião, o que diferencia a cobertura dO Globo para a FSP e o OESP está no exigência do seu leitor, quero dizer, como no Rio, por uma questão geográfica, as elites e a classe média são muito afetadas pela criminalidade nas favelas (obviamente não estou negando que o mando do crime esteja na Zona Sul e nas próprias elites) as notícias sobre o crime têm que ser mais bem mastigadas, ao contrário de São Paulo, onde a violência ainda se concentra com mais força nas periferias, apesar do atual avanço sobre os condomínios das classes A e B. Aliás, é justamente por conta desse avanço, como se pode observar nos comentários do Dines e de alguns leitores que a questão da péssima cobertura sobre a violência em SP começa a preocupar os observadores da mídia. Infelizmente é preciso que os graúdos se sintam prejudicados e acuados para que a mídia comece a tratar de um assunto de tamanha gravidade.

  2. Comentou em 03/11/2009 Dante Caleffi

    O PIG, uma forma sintética de classificar ,no que se transformou a mídia nacional,age hoje, com premeditada orquestração. São Paulo é de há muito, a capital de insuperável violência e arbítrio policial,contudo sempre protegida pela censura de seus editores. O ‘Salve Geral’, de 2006, como era impossível ignorá-lo dada suas dimensões ‘colombianas’,procurou-se transferir para débito da campanha presidencial de Lula.Os contínuos arrastões em prédios e condominios de casas,a indústria dos sequestros,a corrupção de suas polícia, o enfrentamento civil nas favelas , a indiferença de sua quatrocentã elite,para quem segurança era assunto de serviçais e para tanto bastava uma polícia rigorosa e uma justiça aliada,mostraram , como uma imprensa conivente e mercenária ,consegue ocultar os índices de crescimento de violência em quase 200% .

  3. Comentou em 21/03/2009 Jan Stru iving

    Ola, gostaria de colocar no Observatório um arquivo que relata sobre grampos nos e-mail no Brasil. O assunto já foi encaminhado ao MPF e outros Órgãos. Em breve vai estourar na mídia.

    O esquema revela com conseguem bloquear e-mails para ex. Transparência Brasil, Cláudio Humberto, Direto da Redação e milhares de outros inclusive Policia Civil, Justiça etc.

    Está em http://www.ab us ando.info/den uncias/cen sura.pdf (tire os espaços). Mas POR FAVOR troque o DNS da sua maquina para algum de fora do Brasil, exemplo o opendns.com. ou veja no internetprotegida.org.br Todos no Brasil estão grampeados inclusive a do UOL, Brasil Telecom, Speedy etc. Eles vão saber na hora que você acessou o site. E ainda podem vasculhar para quem voce anda mandando e-mails.

    Só para emergência use o 41 32 83 50 64 / 99 03 10 89 de preferência use http://www.bitwiseim.com pegue o free não o trial, coloque um ID seu e a senha segue no seu e-mail Até a Policia Federal usa porque é encriptado. Converse com janstruiving1 ou nmps

    Caso queira encaminhar para alguém use o cen sura1.pdf (tire o espaço) (de rename se quizer) que está com a senha “semcensura” para evitar que seja rastreado pelo conteúdo e bloqueado nos provedores.

    Se quizer tirar as logos da Abusando nao tem problema . Prefiro assinar como Abusando Ja estou com 7acoes pessoa fisica por difamacao e continuam embolsando 7 milhoes por mês.

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