Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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ENTRE ASPAS >

Como nos tornamos maus jornalistas

Por José Paulo Lanyi em 15/07/2008 na edição 494

‘Se eu divulgar e acusar minhas imperfeições, alguém aprenderá a evitá-las’ Michel de Montaigne (1533- 1592)

As recentes iniciativas de pesquisa e conservação da memória da televisão brasileira, por meio de livros e até da abertura de um museu em São Paulo, são elogiáveis mas insuficientes para dar conta de todas as nuanças históricas.

Nesse sentido, a crítica e a autocrítica, intra e extra muros, não seriam apenas recomendáveis, mas necessárias no processo reflexivo honesto sobre os relatos ou qualquer outro objeto de análise.

Este artigo é uma tentativa autocrítica. Por isso, seguirei, de agora em diante, em primeira pessoa.

O bom jornalismo

Dois depoimentos meus foram publicados no livro Rede Manchete- Aconteceu Virou História, de Elmo Francfort (2008, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

Um deles (p. 100) é o seguinte:

‘Certo dia recebi a denúncia de que o ex-presidente do PMDB da Praia Grande Edmundo Berçot Jr., condenado a 14 anos de prisão por homicídio, estava circulando pela cidade, com a anuência de policiais e carcereiros da delegacia-sede de Praia Grande. Inconformado com a perda do direito de explorar um cartório que durante anos ficou nas mãos de sua família, Berçot viajou para assassinar, em Socorro (interior de São Paulo), o empresário que o venceu na concorrência. Ele foi e matou o oficial de cartório José Pimentel Camargo, na frente da família da vítima.

Na apuração, concluí que a denúncia era correta: o condenado zanzava mesmo pela cidade. Fizemos uma campana e registramos duas imagens marcantes que foram veiculadas numa sexta-feira, primeiro no Mar em Manchete, depois no Jornal da Manchete, apresentado pelo Ronaldo Rosas: a primeira mostrava Berçot em um boteco, ao lado da delegacia, abraçado de costas a um carcereiro muito gordo conhecido como ‘Tim Maia’; na segunda, o condenado voltava do bar para a delegacia, sozinho, passos lentos, com um embrulho nas mãos. Assim que ele entrou pela porta principal, o zoom buscou a inscrição da delegacia, que ficou enorme na telinha.

Assim que a reportagem foi exibida no jornal local, recebemos um telefonema de ameaça. Foi, de fato, um escândalo na Baixada. Caíram o delegado e o diretor do presídio, carcereiros foram afastados. Em 24 de março de 1996, um domingo, o Jornal da Tarde publicou uma nota em que relatava, com fidelidade, todo o trabalho que fizemos e as ameaças que recebemos…’

O mau jornalismo

Cito este trecho como exemplo de bom jornalismo da nossa equipe. Um cidadão condenado por homicídio, com sentença transitada em julgado (ou seja, a defesa do réu não poderia mais recorrer), deveria estar preso, mas andava pelas ruas, impune, por ação e por omissão de agentes públicos que também cometiam ilegalidades.

Explicar a conveniência social da produção de uma reportagem sobre esses abusos me parece desnecessário.

O trecho a seguir (p. 102), contudo, é uma amostra de mau jornalismo. Refere-se ao meu trabalho como repórter-produtor do programa Na Rota do Crime, um dos líderes de audiência da Rede Manchete. Diz o pesquisador Francfort:

‘O repórter José Paulo Lanyi, que havia se transferido da afiliada TV Mar, no litoral paulista, para a Rede Manchete de São Paulo nesse período, conta detalhes do que viveu durante o programa: ‘Nesse programa, era como se cobríssemos uma guerra, perdemos a conta dos tiroteios que todas as equipes presenciaram, de todos os perigos dessas operações.’ Essas aventuras urbanas de José Paulo Lanyi na Manchete acabaram três meses depois, num acidente, em 25 de agosto de 1996, quando o carro em que estavam acompanhando um Tático Móvel da Polícia Militar bateu de frente com um Fiat 147 vermelho…’

Direito individual e direito à informação

Por que é um exemplo do que não se deveria fazer? Primeiro, porque eu concorri para a usurpação dos direitos constitucionais dos cidadãos. Embora a prática de ostentar o rosto de suspeitos presos pela polícia seja corriqueira, nos jornais, nas revistas, na internet e na televisão, ainda nos dias de hoje trata-se de uma violação desses direitos, conforme o artigo 5º da Constituição Federal, inciso X (‘são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação’).

Pode-se argumentar, em sentido contrário: ‘Ora, mas se o suspeito concede a entrevista, autoriza ‘automaticamente’ a divulgação.’ Sem dúvida, respondo eu. Mas e os que não quiseram falar comigo, esses dos quais veiculamos a imagem sem o seu consentimento expresso…?

Pode-se dizer, ainda, que o direito à informação é uma garantia constitucional. É pouco. A doutrina e a jurisprudência convergem em relação à prevalência do direito individual sobre o direito coletivo à informação.

‘Ricos sabem se defender’

Atitudes como a que descrevi também podem gerar condenações por danos morais (na esfera cível) ou por constrangimento (na criminal) – caso haja o entendimento de que o suspeito tenha sido coagido a ceder a sua imagem ou a dar entrevistas contra a sua vontade.

Há outros aspectos, à margem das considerações legais. Um programa de TV como o Na Rota do Crime era produzido nas ruas. Muitas vezes eu entrava na casa dos suspeitos, devidamente autorizado por eles, a pedido da polícia. Pergunto eu: por que será que, ao menos sob o meu testemunho, nunca conseguimos entrar na residência de uma família de classe média alta, por exemplo? Por que será que o pobre autorizava e o rico não nos deixava entrar? Respondo, pela observação e pela experiência: porque os pobres têm medo da polícia e dos repórteres, e os ricos conhecem os seus direitos e, mais do que isso, sabem como se defender dos excessos, com um ou outro telefonema.

Os guardiães da democracia

Em meu favor, digo que tudo o que fiz foi apenas por reflexo de uma cultura jornalística que não só permite como incentiva, determina e defende publicamente o vale-tudo, sob o pretexto de informar e de combater os males da sociedade.

Hoje, 12 anos mais velho e ainda mais exigente comigo mesmo e com o meu meio, rechaço essa ‘desindividualização’ e a aceitação passiva de que – parafraseando uma antiga sentença sobre os supostos interesses conjugados dos Estados Unidos e do Brasil – ‘o que é bom para a empresa é bom para mim’.

É irônico pensar que, ainda que bem-intencionados, submetamo-nos a fazer o contrário do que se costuma esperar de um bom jornalista: conter, pela divulgação e pela crítica, os abusos cometidos pelo poder público.

Deveríamos ser os guardiães da democracia. Tornamo-nos cúmplices daqueles que a ameaçam.

******

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