Domingo, 24 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
Menu

IMPRENSA EM QUESTãO > ASSASSINATOS EM SP

Confissão poupou a mídia de uma nova Escola Base

Por Luiz Antonio Magalhães em 21/11/2006 na edição 408

Durou pouco, mas foi escandaloso. Na sexta-feira, o assassinato, em um bairro de classe média alta de São Paulo, de um casal de aposentados – Sebastião e Hilda Tavares – logo chamou atenção da imprensa. Os sites informativos começaram a noticiar o caso, que chocava pela violência praticada – os dois foram mortos a facadas – e pela apressada conclusão do delegado titular do 23º DP de que o filho do casal assassinado, o escrevente Rogério Gonçalves Tavares, seria o principal suspeito de ter cometido o crime.

Rogério havia sido encontrado no local do crime com um ferimento no pescoço e foi levado a um hospital. Ao longo da tarde de sexta-feira, a maior parte dos sites tratou o escrevente como assassino. Nos jornais de sábado, embora a polícia tenha recuado e passado a tratá-lo também como vítima, Rogério Tavares continuou aparecendo nas reportagens como suspeito de assassinar seus próprios pais.

No domingo, porém, o caso foi finalmente solucionado. A Justiça decretou a prisão temporária do desempregado Luiz Eduardo Cirino, 29, que se apresentou à polícia e confessou ter assassinado os aposentados. Vizinho das vítimas, ele disse que entrou na casa para roubar e que matou o casal porque houve reação. Cirino entregou à polícia roupas sujas de sangue, uma máscara e uma faca que teriam sido usadas no crime.

Não há dúvida alguma que o escrevente Rogério Tavares foi horrivelmente prejudicado pela imprensa. O prejuízo só não foi maior porque o assassino foi logo descoberto. Não fosse assim, Rogério passaria a conviver com, no mínimo, a suspeição de ter cometido não um, mas dois assassinatos. Aliás, o tempo em que Rogério permaneceu sob suspeição foi mesmo curto, mas o suficiente para que a residência do casal morto fosse pichada com frases ofensivas e ameaças ao escrevente. Além disto, alguns perfis publicados sobre o escrevente insinuavam que ele poderia ter algum tipo de doença mental.

Ao fim e ao cabo, a verdade é que a mídia comprou a versão apressada de um delegado – exatamente o mesmo roteiro do início do caso da Escola Base. Bastaria um pouco de prudência dos jornalistas e o mal feito ao escrevente teria sido evitado. Afinal, o ‘suspeito’ estava ferido no pescoço, não havia sinais da arma do crime, as marcas de sangue iam até o muro da casa e a polícia havia sido chamada por uma vizinha que reportou ter visto um mascarado fugindo da residência. Rogério Tavares teria que ser realmente um grande ator para matar os pais e simular a coisa toda, ainda mais com a avó presente na cena do crime.

Em certos momentos, como se pode perceber, é melhor pensar com a própria cabeça do que confiar na autoridade. Para o delegado e para a imprensa, a versão de um assassinato duplo perpetrado pelo filho das vítimas certamente tem ‘mais leitura’, isto é, vende mais jornal e rende mais imagens da autoridade no exercício da nobre função. Um latrocínio é um crime bem mais comum e, portanto, menos ‘rentável’.

No episódio da Escola Base, a imprensa inteira foi atrás da versão de um delegado, com exceção do jornal Diário Popular. Lá houve um repórter que desconfiou do que ouviu, pensou com a própria cabeça e reportou a história ao seu editor, que convenceu a Direção de Redação a esquecer o assunto, apesar do apelo comercial que teria em um jornal popular como era o Dipo. Alguém já disse que o jornal merecia, naquele ano, o Prêmio Esso por não ter publicado um único parágrafo sobre o caso…

******

Blog do autor: Entrelinhas

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/11/2006 João Cézar Albuquerque

    Esse é um dos males do País, ora a Justiça muito lenta, ora nossa Imprensa é muito afoita.

  2. Comentou em 23/11/2006 João Cézar Albuquerque

    Esse é um dos males do País, ora a Justiça muito lenta, ora nossa Imprensa é muito afoita.

  3. Comentou em 22/11/2006 Patrícia Valiño

    E eu torço e espero que esse rapaz, filho do casal, recupere-se logo do choque de ter perdido os pais de forma tão estúpida, fotografe os muros de sua casa e contrate um bom advogado… Processar e arrancar dinheiro da imprensa por ela ser irresponsável pode ser um meio de conter a irresponsabilidade. Certamente houveram exageros (já que o autor cita em seu texto que até ‘perfil psicológco de louco’ o rapaz recebeu)…

  4. Comentou em 22/11/2006 João Bahia

    Mais uma da imprensa sanguinária. Aliás, qual será o destaque oferecido à conclusão policial do caso Celso Daniel? Se faz necessária uma legislação mais séria para os crimes da imprensa. A indenização para as vítimas da Escola Base foi ridícula e estimula editores e repórteres inescrupulosos à pratica do mau jornalismo. Uma boa medida seria se todo o faturamento bruto da empresa jornalística, dos dias onde as reportagens difamadoras e caluniosas foram publicadas, ser repassado integralmente à vítima, além das medidas penais cabíveis.

  5. Comentou em 22/11/2006 Ruy Acquaviva

    Será que agora o Sr. Dines, o Sr. MAgnoli e o Sr. Weiss vão insistir que o questionamento sobre a atuação da imprensa é ‘coisa de petista’??? Os graves desvios antidemocráticos da grande imprensa não se restringem à esfera política. Essa é apenas a ‘ponta do iceberg’ de uma questão séria e urgente. A atuação da ‘tropa de choque’ citada prejudica não o partido por eles agredido, mas sim a própria imprensa. Os profissionais da área precisam pensar bem no assunto e refletir se vale a pena tentar tapar o sol com a peneira, atacando os leitores.

  6. Comentou em 21/11/2006 Eduardo Guimarães

    O leitor Paulo Bandarra se opõe a qualquer crítica à mídia porque ela está na berlinda por conta da política, por estar sendo acusada de ter tentado derrubar Lula. Por isso o leitor lê e não entende o que leu. Acabo de ler comentário desse senhor que diz que a mídia não tem culpa pelos ataques de pessoas ao filho do casal assassinado. Apesar de o autor do artigo ter explicado que acusações ao inocente foram feitas aos montes pela imprensa, e que foi isso que gerou os ataques, o homem não consegue entender o que leu. Acha que as pessoas adivinharam que o filho das vítimas foi acusado. Não consegue ler o que está escrito. Lê, mas não assimila. A mídia, senhor Bandarra, foi quem veiculou a acusação ao inocente, gerando a histeria popular que poderia até ter gerado uma nova desgraça. O partidarismo cego, a ânsia de não dar o braço a torcer de jeito nenhum por mais gritante que seja a verdade é um estado mental de insanidade. Contra isso não há remédio. Ainda bem que as eleições mostraram que pessoas como Bandarra são minoria neste país. Uma minoria que vai encolhendo a cada ano. Graças a Deus.

  7. Comentou em 21/11/2006 Alceu Castilho

    o Francisco Bezerra disse tudo, abaixo. Sábias palavras, dele e de Hesse.

  8. Comentou em 21/11/2006 Francisco Bezerra

    Há uma ansiedade justiceira epidêmica em nossa sociedade, decerto consangüínea, mas transmissível e potencializável pelo mosquito da mídia sensacionalista. Cabe a todos evitar a sua propagação. Honras e vidas estão em jogo. Já dizia Hesse que ‘Quanto mais indivíduos houver capazes de contemplar com serenidade e espírito crítico o teatro do mundo, tanto menor será o perigo das grandes catástrofes, a começar pela estupidez da guerra’.

  9. Comentou em 21/11/2006 Francisco Bezerra

    Há uma ansiedade justiceira epidêmica em nossa sociedade, decerto consangüínea, mas transmissível e potencializável pelo mosquito da mídia sensacionalista. Cabe a todos evitar a sua propagação. Honras e vidas estão em jogo. Já dizia Hesse que ‘Quanto mais indivíduos houver capazes de contemplar com serenidade e espírito crítico o teatro do mundo, tanto menor será o perigo das grandes catástrofes, a começar pela estupidez da guerra’.

  10. Comentou em 21/11/2006 Marco Costa Costa

    Esta é a imprensa que merecemos. Primeiro escreve aquilo que um delegado de conduta profissional duvidosa, para depois esconder a arma do crime, ou seja, a caneta assassina, a fim de evitar o enterro da vítima.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem