Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Confusão na lavoura

Por Luciano Martins Costa em 10/03/2009 na edição 528

É manchete ou no mínimo reportagem destacada na primeira página dos jornais de terça-feira (10/3) a ofensiva de movimentos pela reforma agrária, genericamente chamados pela imprensa de ‘sem-terra’. Os pontos principais do noticiário são as invasões a fazendas, usinas de álcool e edifícios públicos em sete estados e no Distrito Federal.


Outro destaque é o bloqueio de bens da Associação Nacional de Cooperação Agrícola, entidade ligada ao MST, que teria desviado quase 4 milhões de reais do Programa Brasil Alfabetizado para outras atividades.


A imprensa brasileira ainda faz muita confusão na identificação das entidades envolvidas na questão rural. O MST é uma entidade criada em 1979 com a consolidação dos núcleos da Comissão Pastoral da Terra, durante um período de muita violência provocada pelo processo desordenado de ocupação de terras, especialmente na Amazônia. Tem raízes também nas ligas camponesas da década de 1960, mas não possui orientação socialista ou comunista.


O MST é uma organização tipicamente capitalista, que luta pela posse privada da terra em mãos de quem produz.


O ponto central dos conflitos é a excessiva concentração das terras produtivas. No Brasil, metade das terras agriculturáveis está nas mãos de apenas 1% dos proprietários. Trata-se do segundo maior índice de concentração fundiária do mundo.


Compreensão obscurecida


As invasões que aparecem no noticiário de terça-feira foram promovidas pela Via Campesina, organização que surgiu muito recentemente, tem liderança ligada a partidos de esquerda e apresenta um ideário oposto ao do MST. Trata-se de uma entre mais de 60 entidades que atuam de forma fragmentada em conflitos regionais.


A Via Campesina se consolidou dentro do Fórum Social Mundial e se destaca pelas ações mais agressivas e pela forte presença de estudantes universitários e militantes urbanos misturados a agricultores sem-terra.


A reportagem do Estado de S.Paulo sobre as invasões iniciadas domingo (8/3), em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, é a mais esclarecedora. A matéria mostra como as militantes se produziram para o evento, com lenços coloridos cobrindo os rostos, vestidas com roupas de qualidade e exibindo chapéus de palha novinhos em folha. É o lado fashion de um movimento complexo.


Ao abordá-lo superficialmente, a imprensa em geral impede que a sociedade entenda a verdadeira natureza do problema agrário brasileiro.


Concorrência social


Apesar de retratar superficialmente as características das militantes envolvidas nas invasões da Via Campesina, a reportagem do Estadão ajuda a esclarecer como a questão fundiária se mistura a outros problemas sociais brasileiros.


A ausência de autênticas agricultoras sem-terra nas ações que marcaram o Dia Internacional da Mulher, segundo o jornal, revela a dificuldade que os movimentos pela reforma agrária têm tido para arregimentar moradores de bairros pobres das cidades, que formam boa parte das populações dos assentamentos.


A reportagem afirma que os benefícios oferecidos pelo Bolsa Família e outros programas sociais vêm reduzindo essa mobilização de famílias que migraram da zona rural para a periferia das regiões urbanas.

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