Terça-feira, 19 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Contorcionismos de um anacronismo

Por Lúcio Flávio Pinto em 03/03/2009 na edição 527

Por que uma escola de ensino superior, como a Esamaz, patrocina o Rainha das Rainhas do Carnaval Paraense? Porque o Pará ‘tem orgulho de ser o único Estado a ter um evento dessa magnitude’, explicou o diretor de planejamento da instituição privada, Reinaldo Gonçalves. Como a Esamaz, um dos mais de 20 centros universitários particulares instalados em Belém, se preocupa com ‘a valorização da cultura da região’, decidiu passar a patrocinar o ‘evento’.

Se o diretor deixasse de lado o raciocínio forçado e pensasse por outra ótica, ele se perguntaria por que o Pará anda sozinho nessa empreitada. Não estará na posição de vanguarda do atraso? Um concurso de rainhas do carnaval não é um anacronismo, ao qual todas as demais unidades da federação brasileira não se submetem mais? A pergunta só não cabe numa ótica provinciana, delimitada pelo interesse particular do promotor. A história do ‘certamente’ começou há 63 anos, com a Folha do Norte. Treze anos depois passou para O Liberal, onde também se abrigou o responsável pelo fato, o jornalista Ossian Brito. E prossegue até hoje pela inércia da sociedade em relação ao comandante do programa.

Desinteressado por causas mais nobre e usando sua responsabilidade social em proveito próprio ou para propaganda, o grupo Liberal tenta impor o convencimento de terceiros, como o do diretor da Esamaz, com uma cobertura maciça do Rainha das Rainhas (que, naturalmente, pesa no custo do patrocínio, como todas as iniciativas ditas altruísticas ou sociais da corporação de negócios). O concurso do dia 13 recebeu cinco páginas da edição dominical seguinte do jornal O Liberal, com feérica exibição de fotos das candidatas e da fauna acompanhante, sem uma tomada geral do público, que já é pequeno. Ainda assim, quem não acompanhou a exibição foi chamado de bobo da corte pela infeliz peça de propaganda do ‘evento’.

Apesar da importância que lhe é atribuída pela ‘casa’, os patrocinadores, que já somaram cinco, agora são dois: a Esamaz, que cedeu bolsas de estudo dos seus cursos, e a agência de viagens CVC local, que deu crédito para viagens (nenhuma mais à Europa ou aos Estados Unidos, como era de praxe tempos atrás). O automóvel, que era de luxo, caiu de nível: é agora um tipo popular, o Palio. Entregue não por um patrocinador, mas pelo próprio grupo Liberal.

Fita amarela

As contas estariam mais pesadas se o polêmico Hangar Centro de Convenções, uma extensão mal disfarçada do Estado sob a gestão de uma Organização Social, não cedesse gratuitamente suas instalações e respondesse por todos os serviços, pelo segundo ano consecutivo. Sem cobrar os gastos, mas nada de forma risonha e franca, é claro. O maior patrocinador recente, o grupo Y Yamada, desistiu de continuar a embarcar na canoa, com sinais de água no fundo. Recebeu logo um tratamento nada simpático na coluna ‘Repórter 70’ do mesmo domingo, 15, como sinal de que pode recomeçar a campanha que O Liberal desencadeia quando não ouve o som musical das 30 moedas no seu caixa.

Os que podem saem dessa promoção defasada no tempo, única na sua cafonice. Quem não pode, encontra uma desculpa para sua permanência até o dia do choro e da fita amarela, sem o inefável fundo musical dos desfiles das rainhas de miçangas e paetês.

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Impasse

A ORM Cabo, do grupo Maiorana, pediu empréstimo de 10 milhões de reais ao Banco da Amazônia para expandir a rede de cabos subterrâneos de Belém, que serve ao sinal da televisão fechada da Globo. A disposição do banco é conceder o empréstimo, nas melhores condições possíveis. Mas há impasses. A publicação do balanço de Delta Publicidade, uma das empresas do grupo de comunicação, está em atraso. Não só isso: seu patrimônio líquido é negativo, há dívida a descoberto, o endividamento é crescente. Logo, o solicitante não atende às boas normas bancárias.

O que fazer?

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Antijornalismo

A primeira alfinetada de represália ao grupo Y. Yamada foi dada por O Liberal no dia 15. A coluna ‘Repórter 70’ registrou na nota de abertura dessa edição dominical: ‘Um grande grupo do varejo paraense demitiu 200 funcionários neste fim de ano e se prepara, segundo se comenta, para dispensar mais 2.000. Mexeu também no horário de funcionamento das duas lojas: acabou com a abertura durante as 24 horas do dia. Agora, fecha tudo às 23h’.

O jornalismo obrigaria o jornal a dar o nome desse ‘grande grupo do varejo’, a apurar se o comentário sobre as demissões é verdadeiro, a ouvir fontes sobre a questão e a abrir a matéria, que deve ser apresentada no contexto da crise internacional. Ao invés disso, uma nota sibilina, um autêntico recado ao grupo varejista: se não voltar a anunciar no nosso jornal – e como nós queremos – vai ver só.

Os Yamada responderam dois dias depois com um anúncio de meia página, publicado apenas no Diário do Pará, A empresa explicou que o fechamento na madrugada é temporário, para obras de manutenção numa de suas lojas, o Yamada Plaza. E aproveitou para reafirmar que ‘tornou-se o maior e melhor grupo de varejo do Estado do Pará e 5º maior do Brasil justamente por isso, pois sempre teve como maior objetivo’ satisfazer seu cliente. Por esse critério, o esclarecimento devia ter sido prestado independentemente da provocação dos Maiorana.

Na outra vez, os Yamada acabaram cedendo à pressão e voltaram a anunciar nos veículos de comunicação do grupo. Em conseqüência, as críticas sumiram e os elogios voltaram. Qual será o desfecho desse novo round?

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Crase

Uma sugestão ao redator da Borges, a agência que produziu o anúncio da Yamada: estudar melhor a crase. O ‘Comunicado à você’ do título do anúncio não tem crase, que, como bem disse o cronista, não foi feita para humilhar ninguém.

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A sangria desatada

No dia 12, na condição de leitor do jornal, o economista Hélio Mairata mandou um e-mail para o Diário do Pará protestando contra a capa do caderno de polícia da edição desse dia: ‘Vista por mim quando eu tomava meu café da manhã, embrulhou meu estômago’, disse o professor universitário. Com essa, ele se despediu de vez do jornal: ‘Vocês não têm jeito’, disse na mensagem. Se tivesse continuado a ler o Diário, Mairata teria constatado que seu protesto não teve efeito: o jornal continuou a se superar a cada nova edição, mais sangrenta, mais indiferente às violações a artigos do código de ética da profissão.

O que poderá conter a volúpia sensacionalista do jornal, que passou a contrastar com o maior comedimento do seu concorrente, O Liberal? Aparentemente, só se for compelido através da ação civil pública proposta no dia 12 de novembro do ano passado pela Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos, o Movimento República de Emaús e a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos. Mas até hoje os réus, que são o próprio Diário, O Liberal e o seu irmão menor, o Amazônia, sequer foram citados para se defender na ação, por não terem sido encontrados. Todos deverão adotar a tática da protelação. Cabe à justiça impedir que isso ocorra. E a um número maior de cidadãos repetir a iniciativa de Mairata.

O jornal dos Barbalho parece convencido de ter encontrado o caminho das pedras para conquistar o leitor menos instruído e de menor poder aquisitivo. Há certa verdade nessa presunção. Mas o Diário pode estar repetindo os erros do seu grande adversário, que deitou na cama e amanheceu despejado da liderança. O jornal é cada vez menor, com menos notícia, mal cuidado (porque paga mal seus funcionários) e sugere ao leitor que não lhe resta alternativa que não a de continuar fiel à publicação.

O leitor acabará percebendo a desatenção do jornal e dará sua resposta, se a mentalidade atual da direção do Diário não mudar. Ela perde a oportunidade única de consolidar a vantagem que conquistou a duras penas por adotar a má filosofia de que em time que está ganhando não se mexe. É desse tipo de presunção que surgiu a vitória de Pirro.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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