Domingo, 17 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Coragem feminina e liberdade de imprensa

30/10/2006 na edição 405

Em sua coluna de domingo [29/10/06], a ombudsman do Washington Post revelou que a história de três jornalistas que foram homenageadas na semana passada em Nova York e Washington por sua coragem foi, para ela, inspiradora, sensível e uma lembrança potente que uma imprensa livre é inimiga daqueles que querem controlar e intimidar.


As reclamações que Deborah Howell recebe diariamente dos leitores são baseadas na suposição de que os jornalistas do Post podem escrever livremente e desafiar qualquer autoridade, e que os editorialistas podem abraçar qualquer causa ou candidato. Isto, observa ela, não é verdadeiro em muitas partes do mundo. Há jornalistas em diversos países enfrentando ameaças, sendo presos, seqüestrados, torturados e assassinados por seu trabalho. ‘A liberdade que temos nos EUA é um luxo. E não valorizamos isto’, opina Deborah. Tal fato ficou claro para ela quando ouviu o discurso das três mulheres homenageadas no Prêmio Coragem no Jornalismo, patrocinado pela International Women’s Media Foundation, instituição da qual a ombudsman é membro do conselho.


Exemplos de determinação


No evento, foi realizado um momento de silêncio em homenagem à vencedora de 2002, Anna Politkovskaya, jornalista russa assassinada no dia 7/10. Ela era crítica do presidente Vladimir Putin e da guerra do seu governo contra a Chechênia.


A jornalista chinesa Gao Yu foi vencedora do prêmio em 1995, mas só agora teve permissão para deixar o país para recebê-lo. Ela foi condenada à prisão duas vezes e ficou seis anos presa por ‘vazar segredos de Estado’ porque divulgou realidades econômicas na China que o governo não queria que fossem reveladas.


Para Deborah, o momento mais dramático da cerimônia foi quando a apresentadora libanesa May Chidiac subiu de muleta no palco. May ficou gravemente ferida e perdeu uma mão e uma perna quando uma bomba explodiu no banco de seu carro, em setembro de 2005. A apresentadora acredita ter sido atacada por suas críticas ao envolvimento da Síria no Líbano. ‘Sim, perdi minha mão esquerda. Sim, perdi minha perna esquerda. Tenho queimaduras. Vivi nove meses em hospitais. Fiz 26 cirurgias. Mas, acima de tudo, dei a meu país uma mão para lutar e uma perna para chutar todos os inimigos, que não são poucos’, disse ela, que voltou a trabalhar em julho.


O país mais perigoso para jornalistas trabalharem atualmente é o Iraque: 86 repórteres já foram mortos, mais que os 63 da Guerra do Vietnã, ou os 69 da Segunda Guerra Mundial. Uma das homenageadas da noite foi a americana Jill Carroll, que foi para o Iraque como freelancer do Christian Science Monitor. No dia 7/1, Jill foi seqüestrada perto do escritório de um político sunita que iria entrevistar. Homens armados cercaram seu carro, mataram seu intérprete e a fizeram refém por 82 dias.


Liberdade de imprensa


Estas mulheres e Elena Poniatowska, do México, que venceu o prêmio pelo ‘conjunto da obra’, estiveram na mente de Deborah por toda a semana passada quando ela lia as reclamações dos leitores. A mais crítica delas, revela, foi sobre um artigo no qual a jornalista Yvonne Ridley, que ficou detida no Afeganistão em 2002 por ter entrado no país sem permissão do grupo extremista islâmico Talibã, conta como se converteu ao islamismo. ‘A senhora Ridley é na realidade uma radical defensora do terrorismo’, escreveu Kevin G. Rupy, afirmando que Yvonne defendeu os terroristas do massacre da escola de Beslan, em 2004, e do massacre no teatro de Moscou, em 2002. Para ele e outros leitores, as posições de Yvonne deveriam ter sido identificadas em sua apresentação no jornal.


Susan Glasser, editora do caderno no qual saiu o artigo de Yvonne, discorda. ‘Identificamos Yvonne Ridley da mesma maneira que identificaríamos qualquer um no caderno. Não especificamos os pontos de vistas de nossos escritores. Isto cabe aos leitores’, esclareceu. ‘Acredito que sua opinião sobre o tema em questão foi válida, e que ela é bem qualificada para escrever sobre homens ocidentais e sua hipocrisia em relação às mulheres islâmicas’.


Deborah não conhecia bem Yvonne e concorda que uma melhor identificação da jornalista teria ajudado aos leitores a colocar seus comentários dentro de um contexto mais aprofundado. ‘Mas o que mais me afetou foi a editora ter publicado seu artigo. Isto não teria acontecido em muitos países’, observa.

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