Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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CPI também é ‘cultura’

Por José Aloise Bahia em 16/08/2005 na edição 342

Na esteira das várias CPIs que inundam Brasília, um mar de citações e declamações. E o mais interessante neste show armado, televisionado e regurgitado é que o povo já percebe que os políticos estão transformando os trabalhos de investigação num tremendo palanque eleitoral. O jornal Estado de Minas de domingo (7/8), em matéria de Lívia Stábile, estampou com ironia o vale-tudo orquestrado para chamar a atenção do eleitorado.

Nem Napoleão Bonaparte escapou das citações. O deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA), durante o depoimento de Sílvio Pereira, citou Bonaparte: ‘Na subida, é difícil parar; na descida, é impossível’. O deputado Asdrúbal Bentes (PMDB-BA), no depoimento da Sra. Renilda Santiago de Souza, relembrou o dramaturgo Nelson Rodrigues: ‘Claro! Isto é o óbvio ululante’. Na matéria do Estado de Minas, observamos uma reflexão lúcida feita pelo economista, professor e cientista político Bruno Reis (UFMG). Ele assinala: ‘Em alguns casos, as citações são de ordem pessoal e espontânea, como quando Jefferson Peres lembrou do fado. Outras vezes, parece falso, como a analogia banal que o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) fez entre o depoimento de José Dirceu e o poema José, de Drummond. As citações são o preço que pagamos pela transmissão ao vivo’.

Os senadores e deputados esbanjam erudição. No caso do deputado José Dirceu (PT-SP), foi menos erudição e mais lamento em relação às denuncias que estão nas suas costas. Ele se lembrou da banda de rock Legião Urbana: ‘É como diz aquela música… Que país é este?’. Haja Nervos de Aço para agüentar tamanha verborréia. Aliás, Nervos de Aço foi o samba-canção de Lupicínio Rodrigues invocado por Roberto Jefferson (PTB-RJ) para justificar o hematoma em seu olho esquerdo. Antes, Jefferson revelou-se religioso da maior estirpe ao citar a Bíblia: ‘Lendo Mateus, eu vi lá escrito: ‘Não temais aquele que pode matar o corpo, temei o que pode matar a sua alma e o seu espírito’’.

Pizza do Banestado

Até agora participam das citações: a filósofa Hannah Arendt, o escritor Erico Verissimo, o músico Renato Russo, o destemido Napoleão Bonaparte, o poético Carlos Drummond de Andrade, o estadista Getúlio Vargas, o compositor alemão Carl Orff, a Bíblia, o cantor e compositor Lupicínio Rodrigues, o fado português, o pensador romano Cícero, o padre Zezinho, John Lennon, Raul Seixas e por aí vai… Desconfio que esta lista vai aumentar com o andar dos trabalhos.

CPI também é cultura. O eleitorado acompanha com os olhos grudados na TV. E a imprensa também embarca na onda. Pois nesse vale-tudo mais jornais e revistas são vendidos. Mais denúncias aparecerão, alimentarão o tempo. Prorroga-se a cobertura, tudo transformado num imenso palanque eleitoral. Todos querem é ver o circo pegar fogo.

‘O espetáculo não pode parar…’, lembrou muito bem um senhor que freqüenta um bar daqui do bairro onde moro. Tomando a sua cachaça lá estava ele rindo à-toa, dizendo a todos: ‘Esse deputado aí que citou a Bíblia eu não voto nele não’. Em meio às gargalhadas, ao sair do bar, a última coisa que eu escutei foi a frase que ouvira ali mesmo, anos atrás: ‘Só espero que tudo isso não termine em pizza’. A CPI da época era a do Banestado.

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Jornalista e escritor de Belo Horizonte, autor de Pavios Curtos (anomelivros, 2004)

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