Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

IMPRENSA EM QUESTãO > CIÊNCIA & FÉ

Crenças, descrenças em jogo

Por Gabriel Perissé em 12/02/2008 na edição 472

No final do mês de janeiro, a ministra Marina Silva foi devidamente ‘enquadrada’ pela mídia. O seu erro foi ter manifestado com clareza uma posição religiosa, defendendo que se ensine nas escolas públicas o chamado criacionismo ao lado do evolucionismo. O contexto foi o 3º Simpósio sobre Criacionismo e Mídia, promovido pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, em que falou sobre a relação entre fé cristã e defesa do meio ambiente (ver palestra).

Na revista Época (edição n° 506), por exemplo, o articulista Thomas Traumann diz que a ministra cometeu ‘uma perigosa confusão entre fé e ciência’.

Hélio Schwartsman escreve um texto na Folha Online com título bombástico, ‘Ciência sob ataque’. Escandaliza-se com as ‘investidas criacionistas’, consideradas por ele meras tolices.

No site O Eco, ligado às questões da conservação da natureza, Marcos Sá Corrêa refere-se no seu artigo ao ‘perigo do criacionismo’ e ironiza a preocupação da ministra com ‘um urgente debate do século 19’.

Criacionistas de coração

A Folha de S.Paulo, num editorial do dia 20 de janeiro, foi enfática e propõe que se repudie sem contemplações a sugestão da ministra:

‘Sob uma aparência de equanimidade, a tese faz parte de uma investida anticientífica que, com firmeza, cumpre repudiar. Pode-se, é claro, sustentar que a fé pessoal é compatível com o espírito científico; que religião e ciência não se opõem.

Talvez não se oponham, mas certamente não se misturam. E é isto o que o criacionismo tenta fazer, sem base comprovada, e com um aparato de falácias que um estudante médio, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, não tem condições de identificar. Que a religião fique onde está, e não se faça de ciência: eis uma exigência, afinal modesta, mas inegociável, da modernidade’ (‘Criacionismo, não‘).

A reação contrária à ‘ministra criacionista’ possui um pressuposto: seria absurdo ensinar na escola pública, em pé de igualdade com a teoria darwinista, que Deus criou o mundo a partir do nada. Aquela teoria, por sua vez, é vista como científica (sinônimo de ‘irrefutável’?), de índole materialista, a salvo de misticismos, que elimina por princípio e sem perdão qualquer possibilidade de um Deus criador.

Por outro lado, há setores da mídia desejosas de libertar as massas da religião, particularmente da mentalidade judaico-cristã. Em 2004, a própria revista Época encomendou uma pesquisa ao Ibope sobre o tema e deparou com resultados que lhe pareceram preocupantes: 54% dos brasileiros acreditam que o ser humano se desenvolveu, sim, ao longo de milhões de anos, mas que essa evolução foi dirigida por Deus; 75% concordam com a idéia de se ensinar nas escolas a tese de Deus criador em lugar de uma teoria da evolução baseada no ateísmo. E, cá entre nós, se formos pesquisar a opinião de outros ministros e do próprio presidente Lula, talvez descubramos que muitos deles, por acreditarem em Deus (e por desconhecerem o que significa a fundo o evolucionismo), são criacionistas de coração, como tantos brasileiros…

Aborto e fé religiosa

Seria interessante que os criacionistas radicais e os darwinistas intolerantes repensassem suas crenças. Estará a escola apta a nos ajudar nessa tarefa? Com o apoio da mídia, talvez?

De uma parte, devemos tomar consciência da relatividade das teorias científicas. A incerteza científica é uma conquista humana. Questiona as crenças, as superstições, os tabus, mas também admite sua própria permanente auto-correção. De outra parte, é saudável que os crentes, para se protegerem do fanatismo, ouçam os argumentos da ciência.

Já no século 19, um famoso pregador protestante, o norte-americano Henry Beecher, admitia a perspectiva evolucionista, sem contudo aderir ao ateísmo de inspiração darwinista. Entre os católicos, obviamente acreditar em Deus criador é também questão fechada, mas pelo menos dois papas fizeram declarações que valeria a pena levar em consideração. Pio 12, em 1950, reconheceu que a evolução do corpo humano, tal como especulam os cientistas, é compatível com a fé cristã (encíclica Humani generis) e João Paulo 2º, em 1985, reiterou essa idéia, numa palestra organizada pela Universidade de Munique: ‘Não há motivos para se criar obstáculos entre uma fé retamente compreendida na criação e um ensinamento, corretamente entendido, do evolucionismo. A evolução, com efeito, pressupõe a criação, e a criação, no contexto da evolução, apresenta-se como um acontecimento que se estende no tempo – como uma criação contínua.’

Embora interessante, a polêmica entre criacionistas e evolucionistas, tão presente na América do Norte, perde para outra, se pensarmos na realidade brasileira. A Igreja católica no Brasil pouco se pronuncia sobre o evolucionismo. A sua maior preocupação tem sido combater a prática e a legalização do aborto. No Estado de S.Paulo (09/02), o cardeal D. Odilo Scherer comenta o tema da Campanha da Fraternidade recentemente lançada pela CNBB, ‘Fraternidade e defesa da vida’. E não como simples questão religiosa:

‘A questão do aborto não deve ser imediatamente ligada a posições de fé religiosa ou a embates ideológicos, pois envolve o mais elementar direito humano, que vale para não-crentes e para crentes em Deus, da mesma forma: o direito à vida. […] Proteger, defender e promover a vida humana é tarefa primordial do Estado; sobretudo a vida indefesa e frágil, como a dos seres humanos ainda não nascidos, das crianças, dos idosos, dos pobres, dos doentes ou das pessoas com deficiência.’

Cabe-nos agora ouvir as crenças de outro ministro, o da Saúde, José Gomes Temporão, e acompanhar as reações da mídia e na mídia.

******

Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/02/2008 Marcos Antonio Santos

    Antes você deveria se informar melhor sobre o assunto. Uma pessoa fechada a novas idéias e centrada em seu dogmatismo é, me desculpe a franqueza, não muito inteligente. Não há nada que impeça você de conseguir bons livros e entender como funciona as coisas. Os evolucionistas tem sim como provar suas afirmações: estão aí os fósseis para isso. O fato de você acreditar ou não não muda em nada as coisas, o ser humano continuará em contínua evolução, assim como todas as outras espécies também evoluíram de formas mais primitivas, goste você ou não acredite ou não. Os fatos científicos independem da crença de alguém para existir, se você disser que não acredita que micróbios causem infecção eles continuarão existindo e causando infecções. E é melhor mesmo que você fique com seus absurdos porque como disse Galileu;’Epur si muove’!

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem