Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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Crime na senzala a casa-grande não vê

Por Luciano Martins Costa em 27/02/2007 na edição 422

Dois casais foram metralhados numa praça pública no bairro de Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, na madrugada de sábado (24/2). Entre as vítimas, uma adolescente de 15 anos, grávida, segundo fontes policiais citadas pela Rede Globo. Eis aí uma valiosa oportunidade para a imprensa estimular uma discussão madura sobre as raízes da violência urbana e induzir os formuladores de políticas públicas a se aproximar de medidas eficientes no combate ao problema que mais atemoriza os brasileiros atualmente.

A notícia inevitavelmente leva a classificação de ‘chacina’ – o nome que os jornalistas dão ao assassinato simultâneo de pessoas, em número mais elevado do que três, quando não envolve cidadãos de classe de renda superior. Se parasse para conhecer melhor os personagens e as circunstâncias da história, a imprensa estaria diante de uma série de indícios sobre a natureza da violência que atemoriza a sociedade brasileira.

Retrato do bairro

Para situar os jovens repórteres que cobrem os fatos policiais pela internet ou por telefone, convém observar que o Itaim Paulista já deixou, há bastante tempo, de ser considerado um bairro extremamente periférico – a periferia da cidade se estendeu muito a leste, e o Itaim Paulista (não confundir com o glamouroso Itaim Bibi) abriga famílias dessa classe média emergente da qual a gente toma conhecimento pelo noticiário econômico.

O bairro cresceu ao longo da antiga estrada São Paulo-Rio e foi local de importantes movimentos sociais por moradia e melhores condições de vida durante os anos 1970 e 1980. Um sacerdote católico, padre Antônio Batista, era um dos líderes desses movimentos que os repórteres da época costumavam procurar para se informar sobre fatos da região. A estrada antiga ainda é a principal via de tráfego e se chama Avenida Marechal Tito.

O bairro tem dois teatros e uma forte tradição de grupos culturais nordestinos. Faltam áreas de lazer e os jovens costumam se encontrar em quiosques ao longo dessa avenida, geralmente nas proximidades das escolas estaduais e municipais, ou nas raras praças, como aquela onde aconteceu a última chacina.

Gosto pelas metáforas

Apesar das circunstâncias de extrema violência e crueldade, o crime não tem vocação para provocar comoção emocional e gerar debates no Congresso Nacional. No entanto, seus elementos criam uma excelente oportunidade para a investigação do sistema que coloca armas poderosas nas mãos de criminosos, sem qualquer sinal de dificuldade.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo costumava ter um mapa com locais de compra e venda de armas, e chegou a constatar que muitos criminosos trocavam seu arsenal entre um assalto e outro, e chegou a fazer registros de botecos, postos de gasolina e outros locais onde acontece esse intercâmbio. A imprensa não tem registrado operações de varredura da polícia nesses locais, ou qualquer movimento organizado das autoridades para dificultar a obtenção de armas.

As vítimas da chacina do Itaim Paulista, segundo as parcas informações divulgadas pela imprensa, não tinham passagem pela polícia. Eram moradores do bairro. Apenas conversavam, sentados em bancos da praça. Para os repórteres de revistas semanais, que gostam de metáforas, convém registrar que o local onde aconteceu o crime se chama Praça Casa-Grande e Senzala.

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