Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

IMPRENSA EM QUESTãO > VIOLÊNCIA NA MÍDIA

Crime na senzala a casa-grande não vê

Por Luciano Martins Costa em 27/02/2007 na edição 422

Dois casais foram metralhados numa praça pública no bairro de Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, na madrugada de sábado (24/2). Entre as vítimas, uma adolescente de 15 anos, grávida, segundo fontes policiais citadas pela Rede Globo. Eis aí uma valiosa oportunidade para a imprensa estimular uma discussão madura sobre as raízes da violência urbana e induzir os formuladores de políticas públicas a se aproximar de medidas eficientes no combate ao problema que mais atemoriza os brasileiros atualmente.

A notícia inevitavelmente leva a classificação de ‘chacina’ – o nome que os jornalistas dão ao assassinato simultâneo de pessoas, em número mais elevado do que três, quando não envolve cidadãos de classe de renda superior. Se parasse para conhecer melhor os personagens e as circunstâncias da história, a imprensa estaria diante de uma série de indícios sobre a natureza da violência que atemoriza a sociedade brasileira.

Retrato do bairro

Para situar os jovens repórteres que cobrem os fatos policiais pela internet ou por telefone, convém observar que o Itaim Paulista já deixou, há bastante tempo, de ser considerado um bairro extremamente periférico – a periferia da cidade se estendeu muito a leste, e o Itaim Paulista (não confundir com o glamouroso Itaim Bibi) abriga famílias dessa classe média emergente da qual a gente toma conhecimento pelo noticiário econômico.

O bairro cresceu ao longo da antiga estrada São Paulo-Rio e foi local de importantes movimentos sociais por moradia e melhores condições de vida durante os anos 1970 e 1980. Um sacerdote católico, padre Antônio Batista, era um dos líderes desses movimentos que os repórteres da época costumavam procurar para se informar sobre fatos da região. A estrada antiga ainda é a principal via de tráfego e se chama Avenida Marechal Tito.

O bairro tem dois teatros e uma forte tradição de grupos culturais nordestinos. Faltam áreas de lazer e os jovens costumam se encontrar em quiosques ao longo dessa avenida, geralmente nas proximidades das escolas estaduais e municipais, ou nas raras praças, como aquela onde aconteceu a última chacina.

Gosto pelas metáforas

Apesar das circunstâncias de extrema violência e crueldade, o crime não tem vocação para provocar comoção emocional e gerar debates no Congresso Nacional. No entanto, seus elementos criam uma excelente oportunidade para a investigação do sistema que coloca armas poderosas nas mãos de criminosos, sem qualquer sinal de dificuldade.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo costumava ter um mapa com locais de compra e venda de armas, e chegou a constatar que muitos criminosos trocavam seu arsenal entre um assalto e outro, e chegou a fazer registros de botecos, postos de gasolina e outros locais onde acontece esse intercâmbio. A imprensa não tem registrado operações de varredura da polícia nesses locais, ou qualquer movimento organizado das autoridades para dificultar a obtenção de armas.

As vítimas da chacina do Itaim Paulista, segundo as parcas informações divulgadas pela imprensa, não tinham passagem pela polícia. Eram moradores do bairro. Apenas conversavam, sentados em bancos da praça. Para os repórteres de revistas semanais, que gostam de metáforas, convém registrar que o local onde aconteceu o crime se chama Praça Casa-Grande e Senzala.

******

Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/08/2008 Agostinho Tomaselli

    Na última semana de Julho (acho que foi na quinta feira) no horário de 9:00h , na Cultura FM, ouvi uma noticia do Observatório da Imprensa sobre um ranking de aprovações dos Presidentes das Republicas dos países das Américas em pesquisa realizada na Argentina.
    Gostaria de ser informado em que fonte e data foi obtida a noticia para que eu possa acassa-la na íntegra.

    Antecipadamente grato fico,

    atenciosamente,

    Engº Agostinho Tomaselli, neto
    COORDENADOR CERTPROD
    FCAV – DIR CERTIFICAÇÃO
    ++ 55 11 3836 6566 ramal 147
    ++ 55 11 9103 9135 celular
    a.tomaselli@vanzolini.org.br
    tomaselli@bighost.com.br

  2. Comentou em 10/07/2008 Antonio Nelson Lopes Pereira Pereira

    Como faço pra ter acesso off-line aos artigos do site?

  3. Comentou em 18/12/2007 Mitchell Christopher Sombra Evangelista

    Infelizmente a mudança da imprensa após a ditadura se tornou ineficaz.
    Tinhamos ótmios textos, músicas fantásticas e peças teatrais sensacionais e hoje cadernos que não irão servir nem como consulta histórica conforme debate.
    Odiei a ditadura e agora odeio a imprensa comercial e sem criatividade, compre o jornal e ganhe um cd, uma revista e quem sabe até peças íntimas no futuro.

  4. Comentou em 18/12/2007 Mitchell Christopher Sombra Evangelista

    Infelizmente a mudança da imprensa após a ditadura se tornou ineficaz.
    Tinhamos ótmios textos, músicas fantásticas e peças teatrais sensacionais e hoje cadernos que não irão servir nem como consulta histórica conforme debate.
    Odiei a ditadura e agora odeio a imprensa comercial e sem criatividade, compre o jornal e ganhe um cd, uma revista e quem sabe até peças íntimas no futuro.

  5. Comentou em 05/03/2007 Roberto Custodio

    Caro Luciano, dois fatores explicam a quase nenhuma repercussão deste triste fato: as vítimas são da periferia, da imensa e abandonada periferia paulistana, e o crime ocorreu na madrugada de sábado, quando as edições dos jornais do dia, e as do domingo, já estavam ‘fechadas’, repletas de artigos, cartas de leitores e manifestações de opinion makers a respeito do aumento da incidência de crimes de toda a natureza e sobre a ineficácia e a leniência das autoridades.
    Por onde andará o Padre Tonhão, que era a voz dos sofridos da zona Leste nos anos 80?

  6. Comentou em 04/03/2007 Paulo Mora

    Sistema capitalista ? Vamos lá: duas guerras mundiais, escravidão na África, conflitos por petróleo (estão contando ?), colonização da América do Sul, ditaduras militares no Brasil, Chile e Argentina, conflitos étnicos patrocinados na África e Ásia… posso incluir quem não ajuda contra o aquecimento global (ops, mais um capitalista!!!). Não vou nem citar as intervenções militares americanas para não ser chamado de ‘vermelhão’. Paulo, nem todo mundo se assusta com seus panfletos. Em termos de morte, o velho Adam Smith está ganhando de goleada.

  7. Comentou em 02/03/2007 marcio varella

    A sociedade funciona de modo errado, sempre esperando do patrão governo uma solução para seus problemas. Desde a colonização, implantamos um sistema onde prevalece uma elite e logo abaixo dela uma sub-elite chamada de classe média que apóia a elite de cima. A ordem econômica é explorar ao máximo os pobres (a grande maioria), retirando dele todos os seus ganhos por meio de impostos, taxas, loterias, programas imbecis de tv e fazendo com que ele, o pobre, beba cada vez mais álcool, a pior das drogas pois é a que mais mata em todo o mundo e só o Brasil não sabe. Tudo muito parecido com os tempos do império romano. Não mudou nada, só a tecnologia. O modus operandi é o mesmo. O nosso grande professor a partir dos anos 60 do século passado foi os EUA, que conscientizou os povos latinos da necessidade de vingança por crimes cometidos contra eles. Filmes, atitudes de governantes – tudo tem de ser vingado. Vivemos nessa ilusão, achando que após a vingança virá a paz. A paz virá, sim, mas com mudança de comportamento da sociedade, com conscientização, com o fim dos preconceitos. Vamos colocar escolas públicas e lazer nas favelas, transformar as favelas em bairros e cidades decentes, vamos levar o homem de volta para o campo, vamos unificar as polícias, colocar estudantes de direito nas ruas para trabalharem como policiais, vamos liberalizar as drogas hoje ilícitas.

  8. Comentou em 02/03/2007 marcio varella

    A sociedade funciona de modo errado, sempre esperando do patrão governo uma solução para seus problemas. Desde a colonização, implantamos um sistema onde prevalece uma elite e logo abaixo dela uma sub-elite chamada de classe média que apóia a elite de cima. A ordem econômica é explorar ao máximo os pobres (a grande maioria), retirando dele todos os seus ganhos por meio de impostos, taxas, loterias, programas imbecis de tv e fazendo com que ele, o pobre, beba cada vez mais álcool, a pior das drogas pois é a que mais mata em todo o mundo e só o Brasil não sabe. Tudo muito parecido com os tempos do império romano. Não mudou nada, só a tecnologia. O modus operandi é o mesmo. O nosso grande professor a partir dos anos 60 do século passado foi os EUA, que conscientizou os povos latinos da necessidade de vingança por crimes cometidos contra eles. Filmes, atitudes de governantes – tudo tem de ser vingado. Vivemos nessa ilusão, achando que após a vingança virá a paz. A paz virá, sim, mas com mudança de comportamento da sociedade, com conscientização, com o fim dos preconceitos. Vamos colocar escolas públicas e lazer nas favelas, transformar as favelas em bairros e cidades decentes, vamos levar o homem de volta para o campo, vamos unificar as polícias, colocar estudantes de direito nas ruas para trabalharem como policiais, vamos liberalizar as drogas hoje ilícitas.

  9. Comentou em 02/03/2007 Apolonio Silva

    Caro Fábio, desculpe-me pelo LAM e também por tê-lo chamado de Flávio…houve dois equívocos…na pressa saiu tudo trocado. Permita-me divergir de sua posição. Eu a compreendo, concordo em parte, mas acho que o argumento de que a única solução, o único e suficiente meio para reduzir a violência, é primeiro corrigir os problemas sociais vergonhosos que assolam o país. Isto é falacioso. Caso releia um texto seu verá que pobreza não é sinônimo de violência (e é com tristeza que vejo que muita gente que se julga de esquerda pense assim: a postura é um registro e uma isca de nossa hipocrisia, falta de solidariedade e fraternidade humana. Algo assim, ‘brasileiro só é solidário sob um 38…’). O grau de desinformação só não é maior do que as paixões que o tema suscita – infelizmente. Uma análise honesta das ações nos últimos (no mínimo) 15 anos revela que esse ‘approach’ – este que o senhor defende – é O que vem sendo posto em prática no país. Isto se verifica pelo perfil político das decisões na CCJ, pela ênfase em questões de DH nos diversos escalões do governo em vários estados – ‘approach’ que não pode ser posto como exclusivo ‘ônus’ do petismo (ainda que o ‘mainstream’ ‘intelectual’ do partido corrobore entusiasticamente com a linha). O fato é que estamos colhendo os frutos dessa política – que são horrorosos. Algo precisa ser feito. Não é hora de imobilismo. Divirjo do senhor.

  10. Comentou em 28/02/2007 Marconi C. Brasil

    Que espetáculo!!! Explorar a dor – real – de mães e parentes, em busca de audiência! Aparece até em novela… Um grande espetáculo! Na platéia do circo, uns palhaços: como se fosse tudo uma questão de ‘esquerda/direita’… Retifico: ‘palhaços’ somos nós, a depender da ‘pauta’ que a mídia (comercial) impõe, no sentido que ela pretende impor. Somos ‘palhaços’ pois ainda acreditamos que AUDIÊNCIA e BOM SENSO sejam sinônimos. Nesse circo, o coelho que sai é sempre branco e fofinho!!!…. Que espetáculo!!!

  11. Comentou em 27/02/2007 Marcelo del Questor

    Num procedimento totalmente dissimulado, sinistro e desumano, imprensa e a grande maioria desses abastados ‘senhores’ eles consideram que a morte de um pobre, mesmo sendo violenta, atroz, nada mais é do que higienização. Vejo pessoas dizendo que opiniões como a minha são mero esquerdismo, Que não suportamos ver o ‘sucesso’ desses tão competentes senhores. Hum! Sucesso herdado. Oportunidades cedidas e não conquistadas. Mas se eu sou pobre, é porque sou incompetente. E se morro trucidado, seja por monstros em Brasília, ou por deformados dentro de uma faculdade de medicina, porque sou melhor aluno mas sou pobre,isto não deve ser considerado ou noticiado pela nossa nobre imprensa. Comentários como esse são aviltantes. E quem são os assassinos que mataram o índio ou o estudante de medicina pobre mas bom aluno? Quem é que ataca pessoas com cachorros nos bares da zona nobre de São Paulo? Quem são esses tão admirados ‘bad boys’? O que a imprensa e esses distintos membros da sociedade, que vivem as custas das benesses de políticos corruptos ou de pais herdeiros que deformados socialmente, geram esses jovens tão deformados quanto consideram violência, é aquela cometida contra os membros de sua ‘esfera’ social. Quando é pobre que morre violentamente, são fatos cometidos por animais. Para esses, vítima tem cor de pele certa, endereço nobre e boa conta bancária.

  12. Comentou em 27/02/2007 Marcelo del Questor

    Num procedimento totalmente dissimulado, sinistro e desumano, imprensa e a grande maioria desses abastados ‘senhores’ eles consideram que a morte de um pobre, mesmo sendo violenta, atroz, nada mais é do que higienização. Vejo pessoas dizendo que opiniões como a minha são mero esquerdismo, Que não suportamos ver o ‘sucesso’ desses tão competentes senhores. Hum! Sucesso herdado. Oportunidades cedidas e não conquistadas. Mas se eu sou pobre, é porque sou incompetente. E se morro trucidado, seja por monstros em Brasília, ou por deformados dentro de uma faculdade de medicina, porque sou melhor aluno mas sou pobre,isto não deve ser considerado ou noticiado pela nossa nobre imprensa. Comentários como esse são aviltantes. E quem são os assassinos que mataram o índio ou o estudante de medicina pobre mas bom aluno? Quem é que ataca pessoas com cachorros nos bares da zona nobre de São Paulo? Quem são esses tão admirados ‘bad boys’? O que a imprensa e esses distintos membros da sociedade, que vivem as custas das benesses de políticos corruptos ou de pais herdeiros que deformados socialmente, geram esses jovens tão deformados quanto consideram violência, é aquela cometida contra os membros de sua ‘esfera’ social. Quando é pobre que morre violentamente, são fatos cometidos por animais. Para esses, vítima tem cor de pele certa, endereço nobre e boa conta bancária.

  13. Comentou em 27/02/2007 Silas Leite da Silva

    A Casa-Grande sabe que os crimes da Senzala jamais ficam restritos a áreas ou grupos, vindo a atingir a sociedade como um todo.
    Nessa verdadeira guerra civil que o Brasil vive é raro ver ou ler qualquer análise minimamente consistente que permita um entendimento real da situação. Diagnósticos são muitos, mas sua divulgação não implica, infelizmente, o estabelecimento de ações por parte das autoridades públicas. A imprensa se mostra mais preocupada em explorar casos ‘emblemáticos’, como se uma morte fosse mais significativa que tantas outras.
    Aqui no DF sucessivos governos populistas trouxeram milhares de migrantes com promessas de emprego e vida melhor….a população aumentou muito mais que os empregos e a infra-estrutura. O mesmo governo populista que prometeu ‘tolerância zero’ possibilitou o enorme aumento da violência e da pobreza. Espero que algum dia a imprensa estabeleça a verdade dos fatos, mas sei que isso não ocorrerá. A imprensa brasileira desconhece o que é a sociedade, e menos ainda o que é Nação.

  14. Comentou em 27/02/2007 Felipe Guerra

    BRILHANTE MATÉRIA!!! Faz algum tempo que venho comentando à respeito deste assunto aqui no OI. Aqui, trata-se de apenas uma chacina, quando nos últimos dois meses aconteceram duas na Z/N com um saldo de 9 mortos e mais uma recente (não sei ao certo o número de mortos).
    Quando os filhos das classes mais altas são atingidos pela violência, há esse estardalhaço por parte da mídia…mas é assim mesmo, a gente defende os interesses que nos são inerentes. Depois vem algum sujeito fazer comentário de cunho autoritário e conservador.
    Quando acordarem e enchergarem que, resolvendo o problema da violência, ou pelo menos se inconformando, de todos, seja pobre, rico ou milionário, talvez as coisas começem a entrar no eixo.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem