Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Crítica diária

Por Mário Magalhães em 11/03/2008 na edição 476

6/3/08

Volta da Guerra Fria

Equador, Colômbia e Venezuela são os países onde se concentra a crise sul-americana desencadeada com a invasão colombiana ao território equatoriano para atacar –e matar– integrantes das Farc.

O ‘Globo’ enviou repórter a Bogotá.

O ‘Estado’, a Quito e à fronteira entre Colômbia e Venezuela, do lado colombiano.

A Folha investiu mais. Conta com enviados a Caracas e Bogotá; à fronteira de Venezuela e Colômbia (pelo lado venezuelano); e ao Equador, nas proximidades da fronteira com a Colômbia, na área em que se instalava o acampamento bombardeado.

A superioridade da cobertura da Folha não se deve apenas ao investimento maior, mas ao tom mais plural e menos partidário, que também se expressa pela saudável divergência de opinião do amplo leque de colunistas e articulistas do jornal.

Na sua boa coluna de hoje, Eliane Cantanhêde se refere à ‘Guerra Fria extemporânea e levemente ridícula da América Latina’.

Tomo a liberdade de acrescentar: no jornalismo das Américas, o tom de Guerra Fria não é levemente ridículo, e sim absolutamente ridículo.

Manchete

Pelo tom unilateral, a manchete da Folha parece a menos feliz entre os três jornais mais influentes do país.

Folha: ‘OEA evita condenação direta à Colômbia’.

‘Globo’: ‘Acordo na OEA reduz tensão entre Colômbia e vizinhos’.

‘Estado’: ‘Sob pressão dos vizinhos, Equador e Colômbia selam acordo na OEA’.

A informação da Folha não está errada, foi isso mesmo que ocorreu.

De certo modo, porém, a Colômbia foi condenada, basta ler a resolução para constatar.

A notícia principal do dia era a diminuição da temperatura, com as ameaças de guerra substituídas por mais diplomacia. A manchete da Folha não deu conta desse fato.

Primeira página

O jornal fez bem em destacar a sua equipe de enviados especiais na primeira página (não entendi por que faltou, na chamada sobre o embate democrata nos EUA, o nome do enviado ao Texas).

O bloco superior da capa, contudo, se enfraqueceu com uma fotografia que nada tem a ver com o conflito sul-americano. As chamas que destruíram a cadeia de Franca não provocaram feridos.

Por mais espetacular que fosse a imagem, o alto da primeira página merecia uma fotografia sobre o assunto que ocupou boa parte dela.

Foi o contrário

O texto ‘Guerra Fria e Quente’ (pág. A2) afirma que Lula ‘não deu as caras para tirar fotos ao lado do equatoriano’.

A pág. A15, porém, imprimiu fotografia de Correa com o colega brasileiro.

Na TV, os dois presidentes apareceram posando, com Lula dando um tapinha na mão do convidado.

Folha versus Folha

Em quem confiar: na enviada especial da Folha ao Equador ou em agências internacionais?

Diz o texto ‘Sobreviventes do ataque podem ser processadas’ (pág. A16), assinado pela Redação, com agências: ‘Elas [três mulheres] são as únicas sobreviventes do bombardeio’.

(Havia uma recomendação formal para empregar ‘único’ apenas em referência a um. Se são três, não são únicas. Ainda vale a norma?)

De Angostura (Equador), a repórter da Folha conta: ‘Para os equatorianos, o local era de treinamento e, na hora do ataque, vários outros guerrilheiros fugiram nas imensidões à frente’.

Conforme as agências, uma certeza.

Pelo relato de Flávia Marreiro, uma hipótese diferente, restando a dúvida.

A opção da repórter foi melhor.

Segundo, não primeiro

A reportagem ‘OEA apóia Equador, mas poupa Colômbia’ (pág. A14) transforma Raúl Reyes em principal líder das Farc, ao citá-lo entre vírgulas como ‘o dirigente’.

Mesmo com Reyes vivo, o principal dirigente da organização era Marulanda.

Isolamento

Parece haver erro de foco na cobertura da Folha em Bogotá. As declarações de Uribe, as versões governamentais, a abordagem do jornalismo colombiano –tudo isso pode ser escrito com base nas agências e nos sites dos jornais.

A questão central na Colômbia, creio, é contar o estado de ânimo dos habitantes locais, o que só foi feito residualmente no material que a Folha publicou até agora.

Uma década atrás, eu apurava uma matéria em Letícia, cidade colombiana na fronteira seca com o Brasil. Indaguei a um professor sobre as Farc, e ele respondeu: ‘Onde há injustiça há guerrilha’.

Era uma inequívoca manifestação de simpatia.

Hoje seria mais difícil encontrar quem dissesse isso. Há enorme rejeição às Farc na Colômbia, das mais radicais agremiações de direita às mais radicais de esquerda. A esmagadora maioria do povo colombiano, dos mais ricos aos mais pobres, odeia as Farc.

Não surpreende –como simpatizar com um grupo que, para ficar em um exemplo, seqüestra bebês, como os militares argentinos faziam na última ditadura?

Esse componente, a rejeição às Farc e o possível apoio popular a um ataque como o recente, é um aspecto fundamental para entender a decisão de Uribe de fazer o que fez.

‘Escalada armamentista’

Há meses o jornalismo brasileiro, inclusive a Folha, vem falando sobre a ‘escalada armamentista’ da Venezuela.

Ao conhecer os efetivos e equipamentos militares dos países agora em choque, surpreendi-me: a Colômbia é disparado o país mais bem armado.

E a tal escalada de Chávez?

A propósito, a correlação de forças não pode ser subestimada ao noticiar bravatas sobre uma possível guerra: Equador e Venezuela não têm força para um confronto bélico com a Colômbia, ainda mais considerando a aliança (ou submissão) do governo deste país com o dos EUA.

Excelência jornalística

É brilhante o artigo ‘Guerra, direto e a política da lei’ (pág. A16).

A Folha deveria considerar a introdução de coluna fixa de opinião e análise em Mundo.

Inflação

O texto ‘Restrição de gasolina leva a greve na divisa’ (pág. A17) afirma que a gasolina no varejo da Venezuela é uma das mais baratas do mundo. Dá o preço: R$ 7 –um roubo.

O correto não seria R$ 0,07?

Dez batalhões

A reportagem ‘Chávez agora diz querer ‘paz verdadeira’’ (pág. A17) afirma que ‘não é possível informar quantos militares foram deslocados para a área’ da fronteira com a Colômbia.

Sugiro que se apure qual é o contingente máximo em um batalhão nas FFAA venezuelanas e se faça uma estimativa das tropas mobilizadas.

Se não houver um padrão, é possível pelo menos informar quantos homens e mulheres essa tropa representaria, por exemplo, no Brasil.

Por fim: por que o ‘agora’ do título? Antes Chávez dizia não querer a paz? Se for isso, seria preciso explicar.

Sumiram 30 pontos

Há erro na nota ‘Texas, a missão’ (pág. A18) na edição Nacional. Afirma-se que Hillary Clinton liderava a disputa em assembléias no Estado por 26% a 44%.

O correto é a senadora com 56%, como saiu na edição São Paulo, corrigida.

O peixe de Hillary

A Folha não tem elementos, não entrou na cabeça da candidata, para afirmar, como fez em título na primeira página, que ‘Hillary volta a se ver como favorita diante de Obama’.

Como diz a boa reportagem ‘Hillary se posiciona como a favorita e sugere chapa dupla’ (pág. A18), a candidata ‘passou o dia de ontem tentando se reposicionar como a favorita do Partido Democrata e a com mais chance de ser eleita’.

Não sei se a ex-primeira-dama algum dia deixou de se ver como a favorita ou, caso tenha deixado, se agora mudou de idéia. O que há são movimentos, imagens que ela, como todo candidato, tenta emplacar.

Na capa da Folha, emplacou.

Convite à reflexão

Abertura da coluna de Kenneth Maxwell: ‘Uma das coisas mais estranhas sobre o jornalismo brasileiro é o fato de que continue a conferir credibilidade àquilo que os jornais dos Estados Unidos, especialmente o New York Times, têm a dizer sobre o país’.

A leitura do artigo convida à reflexão sobre submissão cultural e jornalística.

Partidarismo

Manchete do ‘El País’ da quarta-feira, sobre o debate da véspera, na reta final da campanha eleitoral espanhola: ‘Zapatero combate com propostas a mensagem catastrofista de Rajoy’.

DEM, o pauteiro

O que mais chama atenção no erro de atribuir ao ministro Orlando Silva (Erramos de hoje) ação que não corresponde à verdade é o fato de a Folha ter se baseado em uma informação, sobre dados do Siafi, transmitida ao jornal pelo DEM.

O DEM é adversário do PC do B e vice-versa.

Já a Folha não deve ser adversária de agremiação alguma, e sim fiscal jornalística de todas elas, com o espírito crítico preconizado por seu projeto editorial.

Vezes mil

O texto ‘Prefeito petista é cassado em Ribeirão Bonito’ (pág. A12) fala em contrato de ‘R$ 3.990 mil’.

Se o valor era de 3,99 milhões, assim deveria ser descrito.

Mas parece alto para um contrato com jornal. O ‘mil’ não está sobrando? É o que pareceu a um leitor.

Jornal escrito em inglês

A nota ‘Sem guerra’ (pág. A12) fala em ‘think tanks’, sem traduzir.

Ontem um leitor indagou, ao ler a mesma expressão no jornal, igualmente sem tradução: o que é isso?

Os leitores não são obrigados a saber.

Notícia atrasada

Título de hoje: ‘Assembléia de Alagoas arquiva processo contra 11 deputados’ (pág. A12).

A decisão ocorreu na terça-feira.

Estava ontem nos jornais impressos.

A Folha só deu hoje. O jornal havia publicado o mais importante furo do caso, o grampo em que um ex-deputado pedia sua parte no butim, ‘dinheiro roubado’.

Ciclotímica, a Folha vacila até nas coberturas em que tem a dianteira.

Em campanha

A página aberta com a reportagem ‘Juiz católico adia decisão sobre embrião’ (pág. A20) é equilibrada, concede espaço para a manifestação dos dois lados.

Já a página seguinte, ‘‘Não há pessoa humana embrionária’’ (pág. A21) é um massacre, um relato unilateral sem contraditório e divergência, a não ser quando a manifestação contrária serve de escada para novo massacre dos defensores da pesquisa com células-tronco embrionárias.

Essa postura é absolutamente estranha ao projeto editorial da Folha.

A história de Natasha

Na terça-feira retrasada, ao contar a história da menina Natasha, a Folha informou: ‘A pasta diz ainda que ‘uma equipe da secretaria irá à escola para analisar as necessidades da aluna e, se preciso, enviará equipe para atendê-la exclusivamente, já que neste mês houve concurso para contratação de 20 mil novos funcionários’’.

Hoje o jornal informa (‘Médica será titular da Secretaria da Pessoa com Deficiência’, pág. C3) que melhoraram as condições de estudo da menina.

Mas que não há funcionários especializados para cuidar dela. Pelo que entendi, sua mãe terá de continuar indo à escola para dar à filha as condições de estudo que são responsabilidade do Estado.

Logo, o Estado de São Paulo descumpriu a promessa.

Só que isso não está escrito, com todas as letras, na Folha.

O Estado disse que faria uma coisa e fez outra.

A nossa guerra

Enquanto a Folha saiu com fotos de faixas pela paz e de bandeiras brancas (esta imagem só na edição Nacional), o ‘Globo’ deu na primeira página o flagrante de um traficante armado no complexo do Alemão, perto do local a ser visitado por Lula.

Vale a pena ver de novo

Título de reportagem (isso mesmo, reportagem, não artigo de opinião) da Folha no último dia 19: ‘Real absorve o favoritismo de líderes’.

Linha-fina: ‘No mata-mata da Copa dos Campeões, clube espanhol é caso raro de primeiro no Nacional e mais cotado no duelo continental’.

Era a apresentação dos jogos entre Real Madrid e Roma pelas oitavas-de-final da competição européia.

Ontem a Roma eliminou o clube espanhol.

Como evitar constrangimentos dessa natureza? Com a velha receita: preferindo informar, em vez de palpitar.

Faltou dizer

Nas 14 linhas da nota ‘Pede para sair’ (pág. E2), informa-se sobre o novo projeto do cineasta José Padilha.

Não se esclareceu se será um documentário ou um filme de ficção.

A Folha lê a Folha?

Manchete do sábado: ‘Salário mínimo vai para R$ 415’.

Linha-fina: Alta, de 9,2%, vale a partir de hoje […]’.

Ainda ontem, nos indicadores de Dinheiro, o valor do salário mínimo em março permanecia em R$ 380.

Um por todos

Título de ontem: ‘Cineasta Spike Lee é júri em festival de filmes na internet’ (pág. F7).

O texto informa que Spike Lee ‘é júri honorário’.

Creio que ele é jurado. Júri é designação para o coletivo.

Uma leitora reparou e pediu correção.

A demora nas correções

É natural que eu, volta e meia, reflita sobre meus comentários. Às vezes acho que fui leniente com alguns tropeços, noutras que peguei pesado.

Ao ler a seção Erramos de ontem, reafirmei a convicção de que, ao abordar o problema do atraso nas correções, se há equívoco de minha parte, é não ser mais incisivo.

Exagero?

Saiu uma correção de erro publicado em 22 de fevereiro: 12 dias para corrigir.

Outro erro saiu na edição de 15 de fevereiro: 19 dias por um Erramos.

Pior, um é 4 de fevereiro: a retificação esperou 30 dias.

Houve ainda um de 2 de fevereiro: 32 dias!

Tudo isso no Erramos de ontem.

Reafirmo: não basta corrigir, é preciso corrigir logo.

É um direito dos leitores.

Contribuições ao Erramos

Erramos saiu hoje com uma única nota.

Esta crítica é uma contribuição para que amanhã o jornal reconheça mais amplamente seus enganos.

Esclarecimento

Peço desculpas à Redação pelo reiterado envio repetido desta crítica a certos e-mails, às vezes até mais de duas vezes por edição.

Não têm faltado apelos do ombudsman, até agora sem sucesso, para a área técnica do jornal resolver o problema.

04/3/08

Forfait

A fim de pôr em dia o atendimento aos leitores, esta crítica não circulará hoje e amanhã.

03/3/08

Consumidores e consumidores

A pág. A7 do domingo foi ocupada integralmente por um anúncio do modelo VERACRUZ, da Hyundai.

No alto, reproduziu-se texto do site da CNN, em inglês, informando que a garantia do automóvel é de dez anos (aparentemente, nos EUA).

Já no Brasil, lê-se abaixo, a garantia é de cinco anos!

Por que a diferença de tratamento?

Há ‘consumidores’ e ‘consumidores’ ou as condições das estradas brasileiras têm impacto até na redução de cinco anos na garantia de um carro?

Isso acontece com outros modelos e fabricantes/montadoras?

Eis uma pauta de interesse dos proprietários de carros, parcela expressiva dos leitores da Folha.

Notícia oculta 1

A primeira página da edição da sexta-feira não trouxe as marcantes declarações do presidente da República: ‘Seria tão bom se o Poder Judiciário metesse o nariz apenas nas coisas deles, o Legislativo apenas nas coisas deles, e o Executivo apenas nas coisas deles’.

A frase de Lula não foi citada no título frio ‘Lula ironiza oposição por ir ao STF contra a política social’ (pág. A6), apenas na linha-fina.

A reportagem saiu em alto de página, mas não mereceu edição em seis colunas, e sim em duas.

As aspas estavam pelo meio do texto.

Depois, o fato rendeu suítes, editorial, colunas de opinião, primeira página de sábado.

Independentemente do que se pense sobre o discurso de Lula, tratava-se de informação relevante, que merecia presença na capa, talvez como manchete.

Notícia oculta 2

A primeira página da Folha no domingo ignorou as mortes provocadas por ataques de Israel a Gaza.

O ‘New York Times’ deu chamada.

Bem como o ‘Le Monde’.

Idem o ‘El País’ (‘Israel mata mulheres e crianças em sua ofensiva contra Gaza’).

O ‘Estado’ foi de manchete: ‘Ataque israelense faz 61 mortos em Gaza’.

Incrível que a Folha tenha ignorado a notícia na capa. Sábado e segunda-feira, dias seguintes a ataques mais ‘brandos’, com menos mortos, as operações militares estiveram na página mais nobre do jornal.

Notícia oculta 3

Foi correta a decisão de dar título na primeira página dominical para o feito do governo colombiano: ‘‘Número 2’ das Farc é morto durante ataque aéreo na selva’.

Um erro foi, creio, dar menos destaque à novidade que às chamadas ‘Escolhido de Putin deve ser eleito na Rússia’ e ‘Obama muda estratégia para ser conhecido’.

A questão não é importância, mas temperatura: há muito que se esperava a vitória do candidato de Putin, depois confirmada. E a boa reportagem sobre Barack Obama não tinha a emergência do anúncio da morte, aqui na América Latina, de Raúl Reyes.

Outro problema: o título escondeu uma informação chave, o comandante das Farc foi morto em território equatoriano. Mesmo que os aviões colombianos não tivessem invadido o território vizinho, seus soldados lá entraram para resgatar o cadáver do guerrilheiro.

Essa era uma questão central, que constava da reportagem interna. A informação cabia no espaço escolhido, mas foi preterida.

O ator oculto

A reportagem ‘Colômbia anuncia morte de nº 2 das Farc’ (pág. A23 de domingo) informa: ‘Reyes foi localizado e morto logo depois que o serviço de inteligência militar [da Colômbia] interceptou uma comunicação telefônica, provavelmente por meio de um telefone por satélite’.

Antes havia um alerta sobre a versão: ‘sempre de acordo com o governo colombiano’.

Hoje se lê que o presidente do Equador afirmou que os militantes das Farc foram localizados na selva ‘seguramente com a colaboração de potências estrangeiras’.

Ou seja, dos EUA.

Senti falta hoje de mais informações sobre a presença militar dos Estados Unidos na Colômbia e da manifestação do governo americano sobre a crise (ela parece ter ficado para o começo da semana).

Boa notícia

É uma boa notícia o lançamento, anunciado ontem pela Folha, do projeto ‘Círculo de Leitores’.

Toda iniciativa do jornal para ouvir os seus leitores e considerar os seus anseios é bem-vinda.

Boa sorte à nova empreitada.

Correspondente estrangeiro

Outra boa notícia aos leitores: o jornal volta a ter correspondente em Pequim.

Saiu no sábado a primeira reportagem de Raul Juste Lores no novo posto.

Faça o que eu digo

Ficou boa a reportagem ‘Congresso investiga União, mas esconde os seus gastos’ (pág. A9 do sábado).

Lugar-comum

Outro risco do lugar-comum é encontrá-lo, igualzinho, na concorrência.

Título da Folha no sábado (pág. A29): ‘Sob pressão, STF prepara voto sobre embriões’.

Do ‘Estado’, no mesmo dia: ‘Sob pressão, STF julga pesquisas com embriões’.

Hoje, na Folha, tem mais (pág. A14): ‘Sob pressão, Israel segue atacando Gaza’.

Haja pressão.

Edição

Título de coluna em Esporte na quinta-feira: ‘Onde os fracos não têm vez’.

Título de coluna em Esporte no sábado: ‘Onde os fracos não têm vez’.

Um leitor criticou a coincidência.

Primeiro caderno

O primeiro caderno dominical da Folha teve uma das edições mais fortes dos últimos meses.

Fugindo das intrigas brasilienses, Brasil publicou boas reportagens sobre verbas do Ministério do Esporte destinadas a ONGs dirigidas pelo PC do B; verbas do Trabalho para entidades que mantêm relação com o PDT; verbas do PAC para as ‘Jaderlândias’ no Pará; e o impacto da ‘crise florestal’ na economia de Tailândia (PA).

(Senti mais uma vez falta de reportagens sobre São Paulo, Estado onde a Folha é editada.)

Mundo publicou bons textos dos correspondentes ou enviados especiais sobre a eleição russa, a campanha americana e a morte do dirigente das Farc.

A despeito de problemas pontuais, Ciência trouxe bom material sobre a iminente decisão do STF acerca de pesquisas com células-tronco de embriões humanos.

Furo

São impressionantes os relatos do ‘Globo’ sobre o uso do fundo partidário, composto de verbas públicas, para pagar bebidas de festa (PT) ou eventos (?) que não se realizaram (PTB).

Duzentinho

Li na íntegra o caderno especial, que circulou no domingo, ‘200 anos da viagem real’.

Muito bom.

Entre suas principais qualidades, está a abordagem acessível, em quase todos os textos, ao público não iniciado.

O tema tem interesse para muita gente, como se vê pelo sucesso do livro de Laurentino Gomes, ‘1808’.

Em vez das imagens sobre poluição, a primeira página poderia ter dado, em seu alto, vasta chamada para o caderno, que não teve exposição à altura.

Só prejuízo

Ficou boa a reportagem ‘Exploração de pedra semipreciosa causa doença pulmonar’.

No domingo, dividiu a pág. B9 com os números sobre o desempenho do mercado financeiro.

Um retrato dos contrastes do país.

Um senão: o texto fala que, ‘em média, o lucro do trabalhador é de R$ 600 ao mês’.

Por mais elástico que seja o conceito de lucro, não é disso que se trata, ao falar sobre a remuneração ou, vá lá, faturamento dos garimpeiros.

Marketing zero

A Folha deveria ter relembrado na sexta-feira suas revelações sobre o furto de equipamento da Petrobras, na contramão dos anúncios oficiais de que se tratava de espionagem.

Pelo que sabe até agora, houve furto comum.

O jornal resistiu à corrente, e seus leitores foram os mais bem informados sobre o episódio.

Cifrado

A nota ‘Forcinha’ (pág. A4 do domingo) não diz em que cidade ocorrerá a eleição.

Na mesma seção, a nota ‘Sindical’ fala em ‘sidekick’.

Um leitor indagou: o que significa?

O que é isso, companheiro?

Título do alto da pág. A16 do domingo: ‘Gabeira é o nome de PV, PSDB e PPS no Rio de Janeiro’.

Pode até ser, parece que caminha para isso, mas a boa reportagem contradiz o título.

Ela diz que Gabeira ‘pode’ ser lançado. Poder é uma coisa; ser, outra.

Alfredo Sirkis ‘estaria disposto’ a abrir mão da candidatura para cedê-la ao correligionário. Estaria não é está.

O deputado Gabeira ‘diz resistir à escolha’.

‘O PSDB tem três pré-candidatos e está longe de uma definição’. Mas o título já define: os tucanos apoiarão o candidato Gabeira, do PV.

Já o ‘PPS tem como pré-candidata a juíza Denise Frossard. A sigla tem resistência ao nome de Gabeira’. Não é o que afirma o título.

O texto sustenta que o apresentador de TV Wagner Montes tenta a candidatura pelo PDT.

No sábado, contudo, ele anunciou a desistência, como publicou ‘O Dia’ no domingo –e já previa, em seu dito ex-blog, o prefeito Cesar Maia.

Hoje a Folha diz que ‘revelou ontem’ a articulação pró-Gabeira (‘Líder, Wagner Montes desiste de concorrer a eleição no Rio’, pág. A9 de hoje).

Não revelou. A notícia não é nova, e ontem mesmo Merval Pereira tratou dela no ‘Globo’, na coluna ‘Gabeira vem aí’.

Na torcida

É legítimo a Folha defender o direito à pesquisa com células-tronco embrionárias.

Transparência: é também a minha posição.

O noticiário e as edições, porém, vêm mostrando um viés que se choca com o equilíbrio recomendado pelo projeto editorial do jornal.

No sábado, foi exemplar a seção Tendências/Debates, com opiniões antagônicas.

No domingo, porém, o jornal escreveu que ‘a quase totalidade dos brasileiros concorda com a afirmação de que o apoio ao uso de células-tronco embrionárias para tratamento e recuperação de pessoas com doenças graves é uma atitude em defesa da vida’ (pág. A24).

Se 5% discordam, eles representam milhões de pessoas. Não se pode falar, portanto, em ‘quase totalidade’.

Ainda mais porque a formulação da pergunta é claramente tendenciosa, em pesquisa do Ibope encomendada por entidade a favor do direito de usar células-tronco embrionárias no tratamento de doenças.

Hoje, o Painel do Leitor está desequilibrado, a favor da mesma orientação do jornal.

Na primeira página de hoje, só há chamada para um texto sobre o assunto, de colunista que abraça a opinião da Folha.

Matinê

É saborosa a reportagem dominical (pág. C6) ‘Garotas viram ‘belas da tarde’ para atrair engravatado na Sé’.

Manchete enfraquecida

Tinha tudo para ser uma manchete interessante a de domingo, ‘Poluição em SP piora pela 1ª vez desde 2002’.

A explicação estava na linha-fina da primeira página: ‘Total de vezes em que o ar ficou impróprio subiu 54% no ano passado’.

Muito bem: de onde vem a porcentagem? Que números resultam no pulo de 54%?

Essa é a informação central.

Ela não consta da reportagem de ontem (peço desculpas caso não a tenha notado).

Os números que resultam nos 54% aparecem somente hoje, no editorial ‘São Paulo sem ar’.

O jornal deveria tomar cuidado suplementar com as reportagens que rendem manchete, ainda mais se for a da principal edição da semana.

Deslumbramento

Trecho da reportagem de capa da Revista da Folha, ‘Mapa do luxo’: ‘[A empresária] é bem informada, dona de um gosto exigente e –como qualquer ser humano– também compra por impulso’.

De fato, há muito ser humano que compra por impulso, no Brasil são dezenas de milhões. Compram um saco de arroz para não morrer de fome.

Uma coisa é falar de consumo de luxo, tema legítimo e curioso.

Outra é pensar que esse mundinho é o mundo.

Alô, alô

É a cara de certo Brasil a transferência do serviço de atendimento telefônico dos Correios para a cidade que é base eleitoral do ministro das Comunicações, Hélio Costa.

Bom furo da Folha hoje.

Fumacê

Merecia primeira página, com destaque, a ótima reportagem ‘Souza Cruz espionou ativistas antifumo, sugere documento’ (pág. C4 de hoje).

Infelizmente, não houve chamada.

Erramos demorados

No sábado, publicou-se retificação de erro veiculado em 8 de janeiro –53 dias de espera.

Na mesma edição, foi corrigido erro de 4 de fevereiro –demora de 26 dias.

Erramos 1

Há problema no título ‘Estado dá proteção a 612 pessoas sob ameaça de morte’, na primeira página do sábado.

O número, pelo que conta a reportagem, é o de jovens sob proteção.

O Estado inclui no programa muito mais gente, somando os adultos.

Erramos 2

A reportagem ‘Entidade recebe R$ 1,3 mi após adesão a PDT’ (pág. A12 do sábado) alterna o emprego de real e dólar como moeda, ao se referir ao valor de 4,4 milhões.

Erramos 3

Saiu sem crédito a fotografia do novo terminal do aeroporto de Pequim (pág. D4 do sábado).

Erramos 4

No último ano, houve vários Erramos para corrigir a impropriedade de falar em ‘tantas vezes menor’ ou mais de 100% ‘menos’.

A reportagem ‘Sorriso amarelo’ (pág. E2 do domingo) se refere a um ‘orçamento quase quatro vezes mais barato’.

Tal proporção não existe.

Creio que o orçamento representava cerca de um quarto de outro.’

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