Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

IMPRENSA EM QUESTãO > VIDA & ARTES

Crítica sem sal e sem açúcar

Por Norma Couri em 05/09/2011 na edição 658

Enquanto os segundos cadernos ficam cada vez mais iguais, e nas revistas semanais o espaço cultural encolhe dia a dia, O Globo segue a trilha do Estadão e da Folha de S.Paulo e anuncia o suplemento “Ela Gourmet” – com a diferença de ser mensal, não semanal. O que acontece neste país onde de repente só se fala em comida, mas as pessoas ficam cada vez mais gordas e preocupadas com a gordura? Emissoras de rádio trazem reportagens diárias com enfadonhas descrições de pratos de restaurantes e, raríssimas vezes, para se usar da modéstia, é possível ler ou ouvir uma crítica ao preço exorbitante dessas iguarias. Quando a bruschetta num restaurante da Vila Madalena, em São Paulo, sai por 9 reais, o guardador da casa cobra 18 reais para vigiar seu carro.

O assalto fica mais evidente quando se viaja para fora – Estados Unidos, Europa, América Latina. Então se descobre como os restaurantes brasileiros esfolam. Para o cliente, não refresca saber que o fermento do pão é especial, que os impostos sobre os produtos aumentaram e que o vinho, apesar do dólar, do euro e do peso terem baixado, dobra ou triplica o valor do país de origem. Como é caro comer bem no Brasil e como é difícil protestar no Brasil. O correspondente de El País no Rio, Juan Arias, reclamou que só via brasileiros em passeata pelo orgulho hetero, gay ou pela maconha, nunca pela corrupção. Também, não se vê passeata pelo assalto ao bolso no lazer.

Na TV, rasgação de seda

Temos bons críticos, mas eles se multiplicaram e nenhum com um cargo tão influente como o de restaurantes do New York Times, ou a crítica da revista New York Gael Greene, que escrevia contra o barulho e a escuridão dos restaurantes, o que em São Paulo ou Rio é coisa quase corriqueira. Alguns ainda insistem em manter uma TV ligada. Gael levava uma lanterna na bolsa para ler o cardápio, a conta e ver o que estava comendo. Não tinha medo de dar uma estrela num restaurante que antes contava com três, mesmo que o dono fosse forçado a fechar as portas no dia seguinte. Nem de ser rigorosa se o objeto da crítica for o hit da moda. E ela sempre frequentava três vezes o restaurante antes de fazer a crítica.

O que se tornou banal é a crítica descritiva, mesmo quando o assunto é show de música, peça de teatro, filme ou livro, principalmente nas transmissões de rádio onde o colega, na falta do que dizer para atrair jovens (hoje, o público-alvo é jovem e emergente), lasca um “bacana”, um “legal” às vezes cinco vezes na mesma matéria. Virou moda descrever. Até nas locadoras de vídeo e DVD quando o atendente vê um cliente observando as estantes vem atrás descrevendo “nesse filme o filho pensa que é a mãe e mata as namoradas” (Psicose, de Hitchcock); ou “naquele a atriz é velha mas ainda pensa que é estrela de Hollywood” (Sunset Boulevard, de Billy Wilder).

O cliente não raro sai de fininho porque quer silêncio, escolher sem irradiação. Dá saudade de uma crítica de cinema por 23 anos no New York Times, como Pauline Kael, que ia sempre na contramão, forçava os leitores a pensar, arguir, discordar, embora colocasse dados personalíssimos nas suas críticas como “saí do cinema aos prantos” ou “se as pessoas não conseguem ‘sentir’ esse filme, vão sentir o quê?” Pauline implicava com Clint Eastwood, e Woody Allen dizia que ela tinha todos os ingredientes que um crítico precisava, “menos o ato de julgar”. George Lucas chamou “general Kael” um dos vilões de Willow – Terra da Magia. Mas foi a crítica mais famosa na área.

Há muito tempo não se vê na imprensa brasileira, numa estreia de teatro, show, filme, no lançamento de um livro ou na inauguração de um restaurante, duas críticas numa página, ou numa transmissão radiofônica ou televisiva, uma a favor, outra contra, de forma que o leitor, ouvinte ou espectador entenda que uma é a favor e outra contra e saiba exatamente por que, com a opção de discordar de uma ou de outra. Na televisão, então, é um rasgar constante de seda.

Mais páginas de cultura

No sábado (27/8), numa matéria crítica do suplemento de cultura “Babelia” do diário espanhol El País sobre o o polêmico escritor francês Michel Houellebecq, ganhador do prêmio Goncourt de 2010 (Un Monde Sans Maquillage), definitivamente a favor, ao pé da página Alberto Manguel sentava o pau com elegância em “Escribiendo sobre gustos“. Começava assim: “A paixão dos outros nos assombra. Ante o apaixonado elogio que se possa fazer a um autor que nos parece abominável…” E termina: “Buscamos algo mais do que a repetição da banalidade cotidiana, o eco final das bobagens sentimentais. Houellebecq disse que se recusava a ‘fazer literatura’. Talvez seja essa a razão pela qual ele e eu não nos entendemos.”

Se críticas assim são possíveis na literatura, teatro, cinema, também são saborosas as críticas à arte gastronômica sem que se tenha de escutar no meio do trânsito que o prato tem três perninhas de rãs banhadas em manteiga e outro tempero que não foi possível distinguir, que o restaurante fica na rua tal, bairro tal e tem valet. Tudo bem que os cariocas ganhem um caderno de gastronomia como os paulistas. Como dizia a crítica Ruth Reichl (“Gourmet”, The New York Times), a comida pode mudar a vida das pessoas. Mas por que não aumentar as páginas de cultura (a revista semanal Der Spiegel tem 30 páginas), a acidez dos críticos, que agora são tantos, e melhorar o gosto estético do leitor, do ouvinte do espectador?

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[Norma Couri é jornalista]

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