Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Cuba, outro país, outro comandante

Por Deonisio da Silva em 26/02/2008 na edição 474

A revista Veja, outrora referência no jornalismo nacional e internacional, desistiu de contratar quem sabe escrever?

Na edição mais recente (nº 2049, de 27/2/2008), lê-se:

‘Em 1953, levado a julgamento pelo crime de ter enviado seus primeiros seguidores para um ataque suicida a um quartel, o jovem advogado Fidel Castro Ruz assumiu a própria defesa e o fez de forma magnífica. Antecipando a retórica magnética, grandiosa, arrogante mas farsesca que o caracterizaria pelo resto da vida política, disse aos juízes: ‘A história me absolverá’.’

A matéria apóia-se em tiques habituais de certos setores da imprensa e da mídia que, quando tratam de bandidos, facínoras e notórios corruptos, são de uma indulgência exemplar. Com efeito, conhecidos personagens, emblemas do tráfico de drogas, da contravenção e de diversos crimes financeiros tornados públicos, jamais foram tão vituperados como têm sido alguns estadistas e até figuras que já pertencem à História.

Problemas sérios

Uma revista da dimensão de Veja não pode ficar no diz-que-diz-que. Onde estão a documentação e as evidências que apóiam ilações tão esdrúxulas?

Na companhia de outros escritores brasileiros, que estiveram em Cuba em janeiro e fevereiro de 1985, fui recebido por Fidel Castro. O encontro deu-se por força do grande prestígio que Frei Betto tem, não apenas com as autoridades, mas com todos os que leram seu livro Fidel e a Religião, bestseller no Brasil e em Cuba, já publicado também em outros países.

Na volta daquela primeira viagem, a convite do então diretor de redação da Playboy, Mário Escobar de Andrade, apontamos alguns problemas sérios com os quais a população convivia em Cuba, em matéria escrita a seis mãos para a edição da Playboy de abril de 1985. Os outros dois autores foram o jornalista Fernando de Barros e a atriz Lucélia Santos.

Algumas diferenças

Na época, calculei que o regime convivia com cerca de 500 mil dissidentes numa população de aproximadamente 10 milhões de habitantes.

Oswaldo França Júnior, que integrava a delegação brasileira de escritores, com o apoio de algumas anotações que lhe cedi, escreveu um livro sobre aquela viagem, que recomendo: Recordações de amar em Cuba.

Voltei a Cuba em 2005. Nas duas vezes, encontrei autoridades, mas também andei pelas ruas, conversei com jovens, velhos, crianças. Li, vi, ouvi, senti, escrevi. Não me considero alinhado a regime algum e escrevo o que me apraz, seja canela ou sassafrás.

Sei que leitores, divididos, apóiam ou rejeitam as matérias que escrevemos. É um direito deles. E é este direito que agora exerço ao ler a Veja. Mas com algumas diferenças e perguntas.

Os escritores José Saramago e Gabriel García Márquez, que receberam o Prêmio Nobel de Literatura, respeitadas as dimensões, naturalmente, têm de Cuba, da sociedade e de ícones da Revolução Cubana, como Fidel Castro e Che Guevara, um conceito muito semelhante ao revelado por vários escritores brasileiros.

Indicadores de 1º mundo

Fidel Castro pode e deve ser criticado por seus defeitos, que os tem. Mas não por suas qualidades de bom orador – ele se iguala a um Cícero, a um Demócrito, como reconhecem até norte-americanos, inclusive funcionários da CIA – e de governante preocupado com o bem-estar do povo.

Que outro presidente, ditador ou que designação tenham os governantes dos países emergentes ou pobres, pode receber o papa – como fez Fidel Castro, quando João Paulo II visitou Cuba – e saudá-lo assim: ‘Santidade, esta noite muitas crianças dormirão nas ruas, nenhuma delas é cubana’?

Esta é uma das marcas principais da ‘tenebrosa herança’ que Fidel Castro deixa: as crianças não estão na rua, estão na escola. E os indicadores de mortalidade infantil, saúde, educação e cultura continuam de primeiro mundo, apesar do embargo dos EUA, que parece eterno e Veja não critica.

******

Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) e A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século)

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