Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Da KGB para a imprensa britânica

Por Alan Cowell em 01/02/2009 na edição 522

Para os impregnados pelos enredos de John Le Carré envolvendo os confrontos entre Oriente e Ocidente, os ex-membros da KGB nunca conseguem se libertar totalmente da sua antiga organização de facínoras. Uma vez membro da KGB, para sempre membro da KGB, diz o ditado. Essa ideia certamente foi lembrada com frequência quando Alexander V. Litvinenko, ex-oficial da KGB em exílio autoimposto em Londres, foi envenenado com polônio e teve uma morte agonizante há pouco mais de dois anos. Muitas pistas vinculavam o caso a Moscou. Alguns chegaram a pensar que a Guerra Fria estivesse de volta, com os seus ecos de caos e trevas.


Agora surge um ex-oficial da KGB que aparece cercado por companhias muito diferentes, e os britânicos não sabem ao certo o que pensar a respeito do acordo firmado por ele recentemente para a compra do mais longevo jornal vespertino de Londres, o Evening Standard. Trata-se do jornal que instala peças publicitárias exuberantes nas bancas anunciando uma mistura de fofocas e cobertura política, trechos de notícias e matérias mais extensas – atraente para o trabalhador que toma o transporte público para casa e para o político em busca das primeiras repercussões de um discurso ou medida.


O que deseja Alexandr (Não Me Chame de Oligarca) Lebedev com a publicação? Nunca um conhecido ex-espião soviético tentou comprar um proeminente jornal inglês, muito menos uma publicação lida pela elite política.


Mas é possível que os londrinos enxerguem em Lebedev, de 49 anos, uma versão mais leve da KGB, diferente da organização que foi alvo de injúria e desconfiança em outros tempos. Seja como for, esta é a imagem de si que ele vem tentando projetar. Lebedev é um banqueiro de Moscou, proprietário de jornais e bilionário que aprecia os jeans de marca e os tênis sem cadarço, e que por acaso trabalhava secretamente para a KGB enquanto desempenhava a função de adido econômico da Embaixada Soviética em Londres durante a fase final da Guerra Fria.


Naquela época, ele comprava seu exemplar do Evening Standard nas bancas. Mas, ao retornar agora para comprar a publicação toda, ele estabelece para si e para o filho Evgeny, de 28 anos, uma posição importante no mundo britânico dos negócios e na sociedade inglesa.


A relativa proximidade de Londres em relação a Moscou, as suas lojas sofisticadas e o clima favorável em termos tributários e de investimento tornaram a capital britânica popular entre os russos. Mas, enquanto Lebedev reuniu sua fortuna como banqueiro durante os exuberantes anos da década de 1990 na Rússia, ele procurou se distanciar do arquétipo do oligarca que lucra bilhões a partir dos recursos naturais e das relações políticas. O termo oligarca, segundo o próprio Lebedev, significa ‘rico e malvado’.


Ele procura igualmente se distanciar da KGB. Mas nem todos os britânicos se consideram convencidos pelas garantias de Lebedev.


Suspeitas


‘Neste país há um longo histórico de preocupação com a propriedade dos jornais impressos’, disse Richard Ottaway, legislador do Partido Conservador. ‘Que a propriedade de um jornal britânico seja conferida a um antigo membro do serviço secreto de outro país é algo que leva o debate a outro patamar.’ Outros dizem o contrário: numa era globalizada, o dinheiro novo desafia conceitos antigos, como os de fronteiras e nacionalidades.


A KGB da época de Lebedev em Londres ‘era composta tanto pelos capangas e facínoras dos quais nos lembramos quanto pelos espiões e analistas de ampla formação dos quais nós convenientemente não nos lembramos’, escreveu no The Guardian o jornalista e especialista em Rússia David Hearst. ‘Agentes como Lebedev foram os primeiros a perceber que o sistema soviético estava falindo e, consequentemente, foram os primeiros a privatizar suas habilidades no inexperiente livre comércio russo.’


Mas será que isso é tudo? Lebedev é, afinal, membro da Duma, a câmara inferior do parlamento russo, e falou em estabelecer um novo partido junto com o ex-secretário geral soviético, Mikhail Gorbachev. A propriedade da imprensa na Grã-Bretanha é tradicionalmente um veículo de grande influência política: basta pensar no Daily Telegraph (que já foi de propriedade de Conrad Black) apoiando os conservadores ou na percepção comum a todos os políticos de que receber o apoio do Sun, de Rupert Murdoch, é garantia de vitória eleitoral.


Na Rússia, Lebedev e Gorbachev são proprietários de 49% do combativo jornal Novaya Gazeta, cujo corpo de correspondentes já incluiu Anna Politkovskaya, assassinada em Moscou em 2006 poucas semanas antes de Litvinenko ser envenenado em Londres.


O próprio Evening Standard já fez suas campanhas, opondo-se furiosamente ao ex-prefeito de Londres, Ken Livingstone, com vigor parecido ao que Lebedev demonstra ao combater o prefeito de Moscou.


Mas, levando-se em consideração o seu currículo de críticas à corrupção nos altos escalões do governo e às práticas econômicas do Kremlin, Lebedev dificilmente vai transformar o Evening Standard num cavalo de Troia moscovita.


No ano passado, por exemplo, um jornal russo de propriedade de Lebedev, o Moscow Korrespondent, alegou que o primeiro-ministro Vladimir Putin estaria saindo com Alina Kabayeva, ginasta rítmica de 24 anos. Quando a história foi oficialmente negada, Lebedev fechou o jornal – um destino que ele não planeja para o Evening Standard.


‘Minha responsabilidade agora é ajudar este jornal a sobreviver durante muitos anos’, ele declarou há duas semanas. ‘Não quero que depois seja dito que um ex-espião russo idiota chegou e comprou o jornal apenas para fazê-lo fechar as portas.’


Um dos aspectos mais curiosos a respeito da venda do jornal foi o preço pago por ele. Lebedev pagou apenas uma libra por uma participação de 75,1% no jornal, assumindo responsabilidade pela série de perdas que a publicação acumula em função da queda na receita proveniente da publicidade e da concorrência acirrada.


O preço foi alvo de piadas. Num site de redes de relacionamento, Alan Wolfson, poeta e artista londrino, disse estar ‘rindo do ex-espião da KGB que acaba de comprar o Evening Standard por uma libra. Ele não sabe que o jornal só vale 50 centavos?’


Lebedev contra-atacou com suas próprias piadas numa entrevista concedida em Moscou. ‘Estive monitorando toda a cobertura da imprensa britânica e reparei em algumas piadas de excelente senso de humor, do tipo, `Sou da KGB e quero todas as suas informações!´’, relatou o Times, de Londres. ‘Com tantas piadas, têm-se uma noção do típico humor britânico, que é maravilhoso.’


 


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