Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > LEITURAS DE O GLOBO

Dados manipulados sobre violência

Por Marcus Miranda em 16/02/2010 na edição 577

O jornal O Globo, em sua edição do dia 9/2, resolveu o problema dos homicídios no estado do Rio de Janeiro de uma forma muito criativa, porém nada original: simplesmente destacou como manchete principal os dados de 2009, assumidamente manipulados, do Instituto de Segurança Pública (ISP) do estado do Rio de Janeiro sobre este aspecto da violência.

Estaria tudo muito bem com as letras garrafais, acima da dobra, anunciando a menor taxa de homicídios da década, se não fosse um pequeno detalhe: os dados sobre a população do estado haviam sido manipulados pelo ISP. Com isto, conseguiram reduzir a quantidade de homicídios, por cem mil habitantes, no Rio de Janeiro, em 2009, com o acréscimo de 730 mil pessoas. Mas nem assim foi possível esconder a enorme violência existente, pois em números absolutos os homicídios tiveram um crescimento de 1,3% em 2009, comparativamente a 2008. Isto apresentado pela própria pesquisa do ISP.

Diante da vergonhosa manipulação e da denúncia de técnicos, O Globo publicou, em 10/2, uma matéria sem chamada na 1a página, nem mesmo no índice de matérias na página 2, tentando ajeitar o equívoco jornalístico. Mas a primeira matéria continha ainda, por conta do provincianismo e da tentativa de atingir o governador José Serra, uma fraude, pois ao comparar os números absolutos de dois estados com populações desiguais, passou para os leitores uma impressão errada quanto à real situação.

Apenas três cartas de leitores

O fato é que, enquanto o estado do Rio de Janeiro tem uma população ‘estimada’, pelo ISP, em cerca de 16,7 milhões, o estado de São Paulo, segundo a Fundação Seade, conta com quase 42 milhões de pessoas.

Desta forma, pelo critério de homicídios por cem mil habitantes, mesmo com os tais dados manipulados de 2009, o estado do Rio teve uma taxa de 34,6, enquanto o índice de São Paulo foi de 10,9 pessoas. É isto que dá misturar jornalismo com ser áulico e agradar ao governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Infelizmente, este tem sido um comportamento recorrente de O Globo em relação ao atual governo.

De forma acrítica, repercute fatos que poderão ocorrer ou não, no futuro, enquanto eventos concretos – de responsabilidade do governo – são reduzidos, quando não simplesmente omitidos. Como exemplo, a crise no Metrô, na Supervia e nas Barcas. A cobertura quase sempre minimiza a responsabilidade do governador Sérgio Cabral. Omitindo, inclusive, que ele participou ativamente, em 1998, na condição de presidente da Assembléia Legislativa do estado do Rio de Janeiro, da privatização destes meios de transporte de massa.

Como já é uma característica do jornal, no dia seguinte, na pequena coluna ‘Autocrítica’ – onde são apresentados erros formais das edições –, nem uma palavra sobre a manchete absurda. E o mais estranho: na seção de Cartas dos Leitores, apenas três foram publicadas sobre a matéria. Será que o tema e o conteúdo das matérias não mobilizaram mais leitores?

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