Quarta-feira, 27 de Maio de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº852

IMPRENSA EM QUESTãO > VEJA & ÉPOCA

Daime, ignorância e preconceito

Por Luciano Martins Costa em 22/03/2010 na edição 581

Duas das mais lidas revistas semanais de informação, Veja e Época, trazem em suas capas reportagens vinculando o assassinato do cartunista Glauco e seu filho Raoni ao uso da ayahuasca, a beberagem utilizada por indígenas e caboclos da Amazônia Ocidental e que faz parte dos rituais do Santo Daime e outras seitas originadas na região.


Mas há uma diferença fundamental entre os títulos nas capas das duas revistas e também entre suas reportagens internas.


Época abre com a pergunta: ‘O daime provocou o crime?’ – e observa que ‘a morte do cartunista Glauco reacende o debate sobre o uso da droga indígena ayahuasca em rituais religiosos’.


Veja parece não ter dúvidas: sob o título ‘O psicótico e o Daime’, questiona ‘até que ponto se justifica a tolerância com uma droga alucinógena usada em rituais de uma seita’.


Para a revista da Editora Abril, não há o que discutir: foi a ingestão da beberagem que levou o jovem Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, a matar o cartunista da Folha de S.Paulo e seu filho de 25 anos, a tiros de pistola.


Época destaca que Cadu vinha apresentando sinais de distúrbios psíquicos nos últimos três anos, aponta indícios de que a família não atuou com o rigor necessário para levá-lo a tratamento e pondera fortemente que ele era usuário de drogas pesadas.


Além disso, a revista do grupo Globo ouviu representantes do Santo Daime no Acre, onde o uso ritualístico da ayahuasca nunca produziu episódios de violência e não costuma ser vinculado a atos antissociais.


Para Veja, porém, trata-se de uma droga poderosa que precisa ser proscrita, ou no mínimo fiscalizada pelo governo.


Tema polêmico


Entre as duas reportagens, nota-se o cuidado maior de Época em também verificar a responsabilidade de uma das vítimas.


Glauco, o cartunista da Folha, se considerava e era considerado pelos adeptos de seu culto como uma espécie de guru do Santo Daime.


Um dos responsáveis pela expansão do uso da ayahuasca para fora de seu ambiente nativo, ele mantinha e dirigia uma comunidade religiosa na região metropolitana de São Paulo, onde ministrava a bebida a fiéis e visitantes.


Sua tolerância com relação à maconha era conhecida. Sua posição com relação às drogas pode ser observada em alguns de seus personagens, mas esse é tema proibido.


Afinal, no Brasil, não se pode fazer observações sobre atitudes, preferências ou comportamentos de artistas e jornalistas, sob pena de cair apedrejado sob a acusação de ataque à liberdade de expressão.


Diante do tema polêmico, pouco conhecido, como é a bebida usada por comunidades amazônicas, Época procura distribuir responsabilidades. Veja embarca no preconceito e condena aquilo que desconhece.

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/03/2010 Roberta Policarpo

    Alguns pontos importantes a serem salientados. O tempo máximo de duração do DMT, princípio ativo do daime, no seu corpo, é 4h. A última vez que Cadu usou daime foi no ano novo, ou seja, meses depois do crime. A única substância encontrada no seu organismo na análise do seu sangue foi THC, princípio da maconha. Vários trabalhos mostram que o uso prolongado da Canabis aumenta a incidência de esquizofrenia naquelas pessoas que são predispostas à doença. O surgimento de uma doença psiquiátrica depende de fatores genéticos e ambientais. No caso, Cadu tinha ambos. Agora o que não podemos é atribuir à esquizofrenia, ao uso de drogas nem à religião nem mesmo à soma desses fatores a responsabilidade por um crime. A responsabilidade por um crime é completamente idiossincrática. Nem mesmo todas as pessoas com transtorno de personalidade anti-social (nomenclatura nova para ‘psicopatas’) são assassinos.

  2. Comentou em 22/03/2010 Luciano Martins Costa

    Em setembro de 1985, fui enviado pela Folha de S.Paulo à Amazônia para fazer uma reportagem especial. Deveria infiltrar-me nas comunidades do Daime e fazer um relato jornalístico. O Conselho Federal de Entorpecentes havia proibido a produção e consumo da ayahuasca, mas era impossível executar a medida, porque na maioria dos casos ela era consumida em comunidades isoladas, e mesmo naquelas próximas às cidades o uso era tão arraigao à cultua que até autoridades, professores, policiais, médicos, participavam dos rituais. Consultei muitos estudos disponíveis, entrei em contato com o Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia, e com o etnobotânico inglês Ghillean Prance, um dos maiores especialistas do mundo em plantas amazônicas. Fui aceito e fiz a iniciação na União do Vegetal, em Porto Velho, Rondônia, e depois no Alto Santo, Rio Branco, Acre, e posteriormente fui recebido pelo ‘mestre’ Sebastião Motta, o líder do Cefluris, ao qual veio a pertencer postereriormente o cartunista Glauco. Com base na minha reportagem, que demonstrava a perfetia integração da bebida nos rituais praticados na região desde tempos imemoriais, e em outras evidências, o Conselho Federal de Entorpecentes liberou o uso da ayahuasca sob condições – apenas nos centros esotéricos ou de culto existentes e tradicionais. (continua)

  3. Comentou em 22/03/2010 Tiago Costa

    Vindo da Revista Veja não há surpresa alguma. Apenas mais uma das lástimaveis reportagens publicadas por esta.

  4. Comentou em 22/03/2010 Ana Carolina Pinto

    Fiquei satisfeita com este artigo. Sou jornalista recém-formada e ontem, junto com duas amigas também jornalistas, tratávamos exatamente da questão da matéria da Veja. O cúmulo do sensacionalismo, preconceito e ignorância. Salve o Observatório.

  5. Comentou em 22/03/2010 Felipe Valentim

    Parabens pelo texto. É trsite como as vezes, e muitas vezes, a midia se coloca como juiz dos fatos.

  6. Comentou em 22/03/2010 Nisia Rizzo

    Ao Paulo Ribeiro, indico que leia a resolução do Conad (Conselho Nacional Anti-drogas) que regulamenta o uso religioso do chá, foi para ela constituída uma comissáo científica sob os auspícios do governo federal, inclusive com representação de autoridades nessa comissão. Saiu no final de janeiro no DOU. Ou seja, o governo está ciente e orientando o uso religioso do chá, com restrições normativas quanto à propaganda e comercialização (ambas proibidas) e a necessidade de realizar entrevistas com os novos usuários para saber se usam algum tipo de droga (o que é incompatível com o chá) ou medicamento controlado, casos em que o chá não deve ser ministrado. No caso do Cadu, ou ele fazia uso do chá em associação com drogas ou ele sofria, como o próprio pai dele sustenta, de esquizofrenia herdada da mãe. Não se pode culpabilizar o chá nem a vítima, no caso Glauco, senão me parece aquele velho discurso que defende o opressor contra o oprimido, que não entendo como pode persisrtir nos dias de hoje.

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