Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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IMPRENSA EM QUESTãO >

De Collor a Lula

Por Paulo França em 22/08/2005 na edição 343

No domingo 15 de agosto, Dia dos Pais, o ex-presidente do Brasil Fernando Collor de Mello deu, pelo Fantástico, várias lições ao país e, especificamente, à imprensa. Num confuso processo de impedimento político, misturado à renúncia em cima da hora, o então arrogante Collor, de 40 anos, era o Judas nacional. Eu também ajudei a bater nele, de todas as formas que podia.

Perseguido pela imprensa, embora apoiado na campanha pelo sistema Globo, porque o opositor era o ‘radical’ Lula, Collor deu-se conta mais tarde de que caiu não por denúncias contra ele ou pelas ladroagens de PC Farias. Caiu porque, homem arrogante, nascido em berço de ouro, de fina educação, não conseguia se misturar à cambada do Congresso. Uma instituição formada, em sua maioria, por gente de baixíssimo nível educacional, grosseira, metida a intimidades com os de cima e muito chegada a uma boa grana fácil.

A imprensa, apesar de não ter conseguido evitar que fosse eleito, se desdobrou dia e noite insuflando o povo a derrubá-lo. Na verdade, só o conseguiu porque senadores e deputados federais também estavam ressentidos pela distância olímpica que Collor lhes impunha. Anos depois, foi inocentado por falta de provas.

E tanto o atual presidente do Brasil quanto a imprensa não aprenderam a lição. Lula também já havia confessado que não sente gosto no contato com parlamentares. E isso não é de hoje. Anos antes já os chamou de picaretas. Realmente, é enorme a ignorância dos parlamentares. É visível isso na CPI. Não sabem sequer articular uma frase inteira, objetiva, curta. Dizem palavras chulas, falam ao celular, conversam entre si enquanto um dos seus interroga (?) o depoente, mal sabem o que perguntar, repetem-se, dormem, roncam… Só querem mesmo os seus minutos de fama.

Gaspari e seu chicote

A ex-tesoureira de Valério e as mulheres deste e de Valdemar Costa Neto escancaram o que o povo brasileiro sente por este Congresso. Jogavam na cara deles que já haviam repetido tal resposta diversas vezes e que eles recebem malas, sim. É ruim para o Brasil o desprezo por sua instituição política máxima, mas como lidar com gente envolvida com crimes e criminosos diversos (alguns foram cassados por isso, outros renunciaram e depois voltaram, e muitos continuam protegidos por seus pares), sabidamente interesseira e outras qualificações mais?

Quem convive ou conviveu com políticos sabe o quanto eles são identificados com o crescimento da cidade, do estado, do país. O quanto são brasileiros patriotas. Collor e Lula também o sabem, mas não conseguem transitar entre eles. Interessante que Collor e Lula são diametralmente opostos no caráter, porém, quase gêmeos na personalidade. São líderes, para o bem ou para o mal, por isso foram maciçamente votados. São esquentados, como bons nordestinos, de nascimento ou de formação. E não têm jeito para agüentar churrascos, tapinhas na barriga, intimidades e outras coisas com congressistas.

E quem também não aprendeu a lição foi a imprensa. Mais uma vez insufla a população contra um presidente do Brasil. Manchetes que dizem uma coisa, acompanhadas de foto enorme na primeira página, com matérias internas dizendo coisas diferentes. Um exemplo: a capa do Jornal do Brasil de 2 de agosto (foi o primeiro a falar em mensalão, em 2004, mas parece que quase ninguém o lê mais). A manchete falava em renúncia como saída e a foto enorme de um Lula cabisbaixo. A manchete era de um fato velho, o da renúncia, no dia anterior, bastante repisado, de Valdemar Costa Neto. E o texto do JB não trazia uma linha sequer de novidade. Por que a gigantesca foto embaixo da manchete? Golpismo barato. Sobre isso Elio Gaspari estalou seu chicote na imprensa no mesmo domingo em que Collor ia ao ar na Globo.

Bate, bate, bate…

A revista Veja, que vem há dois meses dando capa somente contra o Governo, faz acusações, traz trechos imensos de conversas secretas (seus editores são paranormais!), omite informações públicas favoráveis ao ‘inimigo’ e não dá o constitucional direito de resposta aos acusados. Os que acompanham os bastidores da imprensa brasileira sabem de todos os detalhes. Nada demais para uma empresa de comunicação que fez doações à campanha de dois deputados federais do PSDB e a um do PFL. Isso pode ser legal, mas será moral? Será ético?

A ‘dama da TV brasileira’, Hebe Camargo, em seus dois programas no SBT deitou e rolou com uma cueca com a estrela do PT e um pepino. Ora, isso é papel de uma apresentadora do porte dela?! Chula e ridícula como a maioria dos congressistas. Sem contar que esta senhora é nada menos que a maior defensora pública de Paulo Maluf. Este, sim, emparedado pela Justiça brasileira. E não apenas pela mídia partidária.

Anos depois a Justiça inocentou Collor por falta de provas. Pode ser que ele tenha cometido os crimes que lhe atribuem, mas soube manter as provas à distância. Pode ser. Tal como diversos políticos. Pode ser. Lula vem sendo acusado de coisa muito menor, embora sem um tico de prova jurídica contra ele. Até agora, pelo menos.

E o que faz a imprensa partidária? Bate, bate, bate… Insufla o povo novamente. Alguns, como a CBN, entrevistam juristas, que alertam sobre a falta de provas às denúncias. Que é preciso investigar mais, reunir material juridicamente aceito nos tribunais. Avisam sobre o processo de ilegalidade que se instaurou no país, de políticos em conluio com a mídia partidária.

Massa de manobra

Denunciar, sim, mas, conforme os bons manuais do jornalismo, investigar profundamente antes. Dar o direito de resposta no mesmo espaço e no mesmo tamanho que a acusação. Isto é lei, não favor. E o direito de resposta deve ser verdadeiro, e não a malandragem de dizer que ‘nossa reportagem procurou fulano de tal e ele não respondeu às nossas ligações’. Muitas vezes fazem isso deixando recado na secretária eletrônica do celular do cara, quando sabem que as pessoas só a buscam de tempos em tempos. Ou o fazem perto de fechar a edição. Antijornalismo. Sujeira. Ilegalidade. Imoralidade.

A imprensa brasileira, que tanto gosta de elogiar os Estados Unidos, deveria seguir o exemplo do New York Times para fazer jornalismo responsável, sério, investigativo de verdade, e não apenas de manchetes falsas e fotos enormes, querendo induzir a erro o leitor somente de capas nas bancas.

A imprensa faz sua cama. Depois, vai chorar os leitores perdidos. Bem, será que está mesmo interessada em leitores como tal ou como massa de manobra para seus verdadeiros patrões?

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Jornalista

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