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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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IMPRENSA EM QUESTãO > CASO WATSON

De cães e raivas

Por Alberto Dines em 20/10/2007 na edição 455

James Watson pediu desculpas. O geneticista americano, co-descobridor da estrutura do DNA, declarou numa entrevista ao Sunday Times que a inteligência dos africanos ‘não é igual à nossa’ [dele].


Imediatamente retratou-se diante da reação mundial, através de outro jornal britânico, o Independent, desta vez em artigo assinado. Explicou que não pretendia dizer que a África, enquanto continente, é geneticamente inferior, porém insistiu na tese de que questionar as bases genéticas da inteligência não é ceder ao racismo.


Seu interesse pela genética decorre do drama pessoal: o filho é esquizofrênico, queria entender a origem desta ‘diminuição da vida’. O assunto evidentemente não está encerrado, a genética está apenas engatinhando e cientistas, justamente porque são cientistas, não se contentam com opiniões, querem fatos e pesquisas, comprovadas e comprováveis.


Desconhece-se, por enquanto, o ânimo do cientista ao conceder a entrevista, mas a animosidade mundial foi intensa. O episódio transcende à genética, está mais perto da antropologia, da filosofia, da psicologia coletiva e dos estudiosos do fenômeno do linchamento.


Hidrofobia veiculada pelo homem


A celeuma instantânea serviu para identificar um surto mundial de fúria: a aldeia global está tomada por uma hidrofobia que, diferentemente da outra (transmitida por cães, gatos, lobos e morcegos), é veiculada apenas pelo homem.


Cônscio da sua racionalidade, o ser humano moderno age como um irracional. Há um delírio verbal no ar. As palavras, teoricamente destinadas a elevar e promover aproximações, converteram-se em instrumento da baixaria, armas de destruição. O conhecimento, ao invés de estimular a tolerância, está sendo usado apenas para acirrar as intransigências. Inclusive no campo da genética e da cosmologia.


Tempos de cólera, dias de ira: o fenômeno não é casual, místico, abstrato, tem raízes na realidade, está fincado numa tradição de rancor que remonta à antiguidade. Nem a filosofia nem a religião conseguiram descontaminar a diversidade e o dissenso, ao contrário, só acirraram a exaltação e a intolerância.


Os mais intoxicados são justamente os ‘iluminados’, os messiânicos, os parceiros dos deuses. A besta se solta justamente naqueles que se acreditam donos da verdade. Sabem que não o são, por isso usam o tacape, por isso recorrem ao canibalismo.


O mundo não está em guerra, mas a humanidade está em processo de degradação porque polarizou-se em torno das simplificações e aberrações. A politização barata e a partidarização têm sua quota de responsabilidade nesta hostilidade generalizada onde primatas como Bush e Chávez converteram-se em paradigmas absolutos.


Briga dá Ibope


Como mercenários contratados para matar, hoje estão disponíveis a preços módicos os homens-bomba a serviço do radicalismo e do desentendimento. Esquecida da sua função mediadora, a mídia resolveu explorar o grande circo sadomasoquista onde impera a desinteligência e falta de inteligência. Briga vende, aumenta a audiência, dá Ibope.


Os modernos cães de guarda, watchdogs, lembram os medievos dominicanos (Domini canis, cães do Senhor) que acabaram donos da Inquisição, a multissecular entidade religiosa encarregada de assassinar idéias com o pretexto de liquidar heresias.


Com pit-bulls babando ódio e sangue é impossível estabelecer um clima de diálogo ou, pelo menos, negociação. A perenização dos conflitos só interessa aos donos dos canis ou àqueles que abominam a convivência e apostam em rupturas.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/10/2007 Paula Abreu

    Bruno, interpretei a mensagem com base no que vc próprio havia escrito: ‘E a minha tese é a de que quem escreve aquilo é o próprio Reinaldo’. Mas, perfeito, foi uma figura de linguagem para expressar sua idéia de que só passam pelo crivo do blogueiro mensagens que não conflitam com o que ele pensa, do que, de certa forma, discordo. Evidente que ele tem seus critérios do que é publicado, mas eu já o vi dando espaço para idéias contrárias às suas, desde que não meras agressões.
    Quanto à comparação que vc estabelece entre um jornal da grande imprensa, como a Folha, e um blog, a mim parece totalmente imprópria. Diferente do caráter essencialmente jornalístico de publicações como a Folha, um blog é um espaço para comunicação de caráter intimista, personalista. São veículos de informações com características completamente diferentes.
    E, volto a repetir, a censura que Reinaldo Azevedo exerce no blog dele se dá de maneira aberta, assumida e honesta, diferente de outros blogueiros, que, de maneira dissimulada, se vendem como ‘democráticos’ e receptivos, abertos ao contraditório, mas vetam mensagens de forma covarde, ardilosa, estratégica e calculada, liberando conteúdo de uma mensagem do leitor, ao qual se dão o direito de criticar, e vetando a réplica que, fosse de fato estabelecida a condição de diálogo que a manifestaçaõ do blogueiro sugere, deveria ser igualmente publicada.

  2. Comentou em 23/10/2007 joão paulo albuquerque

    Só li o texto traduzido na folha. Watson pede desculpas pelo que disse, mas não retira, nem recua 1 mlm sequer das afirmações q o levaram a se desculpar. Muito elegante a resposta,mas não é 1 pedido de desculpas.

  3. Comentou em 22/10/2007 Luiz carlos Bernardo

    Diante de tanto celeuma, pelo menos o sr. James Watson se desculpou. Errar é humano, pedir perdão é gesto de nobreza ou de inteligência. Existem raças mais inteligentes ou superiores? Entendo que não, absolutamente. Tudo é questão de oportunidade, esforço, dedicação e recurso financeiro para se estudar e se aprimorar. Estes fatos são incontestáveis. Em resumo, Cícero já dizia: ‘Ai dos vencidos’. A interpretação fica por conta de cada um e de cada gosto. Quem sabe ler um pingo é letra.

  4. Comentou em 22/10/2007 Ronaldo Santana

    Qual teste utilizar? Aquele que mais ajude ao indivíduo tirar a melhor nota possível. E o profissional que faz a avaliação é preparado para checar tudo isto antes de aplicar um teste. Este é apenas um resumo, do resumo, do resumo dos cuidados e das discussões que se faz sobre o testes, que são muito úteis, mas precisam ser aplicados por pessoas competentes e treinadas para isto.Será que o grande cientista Watson tomou todos estes cuidados ao falar sobre QI tão genéricamente sobre um grupo de pessoas? Esperamos que sim. A ciência não deve ser tratada de forma pueril, sobre a desculpa da polêmica. Já serviu para comprovar ideologicamente preconceitos e esteriótipos contra negros, judeus, pobres e outros.
    (perdão pela mensagem longa)

  5. Comentou em 22/10/2007 Paula Abreu

    Caro Dines,

    Acredito que esse seu artigo involuntariamente opta pela simplificação. O comportamento de Watson não é peculiar a nossa sociedade contemporânea. O racismo que ele manifesta é muito comum principalmente na Europa e Estados Unidos, mas não é de hoje. Creio que está equivocada sua identificação do comportamento dele ou as, no meu entender, justas reações de indignação que desencadeou como peculiar ao mundo contemporâneo. Desta vez, sou obrigada a discordar de seu texto, que revela uma visão idealizada da humanidade, dando a entender que até as reações à manifestação de Watson são demonstração de intolerância, quando legitimemente surgiram para proteger a civilidade. Por fim, a atitude de Watson é para enganar incautos, uma vez que ele abusa de uma autoridade científica que não possui. Segundo relatos que acompanhei pelo noticiário, sua especialização científica é outra, não lhe dá respaldo para sustentar nenhuma afirmação de cunho racista. Em suma, ele apenas opinou como um leigo usando indevidamente a autoridade científica.

  6. Comentou em 22/10/2007 Márcio Pereira

    Se o cientista falou besteira e depois reconheceu, então encerra-se a polêmica. Parece que o Sr. Alberto Dines e sua moderação politicamente correta ‘radical’, aqui um paradoxo, evidente, ataca verbalmente não se sabe que alvos, utilizando a mesma tática daqueles que condena no texto.
    Ou será que todos devem ter a mesma conduta perante os fatos? Ás vezes o Sr. Dines demonstra ser o ‘joãozinho do passo certo’, e isso também é condenável, mas opinião é opinião.
    No meio do caos, o Sr. Dines pede que não façam muito barulho para poder tomar seu chá sossegado…

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