Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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IMPRENSA EM QUESTãO > ARAPONGAGEM EM CAIXA ALTA

Depois do jornalismo fiteiro, a reportagem dossiêira (argh!)

Por Alberto Dines em 13/05/2008 na edição 485

A expressão foi criada neste Observatório no final dos anos 90. Sinônimo de imprensa marrom, designa um procedimento escuso disfarçado em jornalismo de alto nível.


O jornalismo fiteiro consiste na transcrição pura e simples de grampos (legais ou ilegais), fitas (em áudio ou vídeo) e dossiês, entregues por ‘fontes secretas’ a um jornalista (ou intermediário) desde que haja o compromisso da imediata divulgação sem recorrer a qualquer suporte investigativo.


O dossiê mais escandaloso foi obra dos aloprados (assim classificados pelo presidente Lula), que falsificaram denúncias dos sanguessugas Vedoin contra lideranças do PSDB na véspera das eleições presidenciais de 2006. A intenção dos falsários era publicar o dossiê no semanário IstoÉ, cuja boa vontade já estava a$$egurada.


Independente do conteúdo do dossiê – o item menos importante da transação –, o que conta é a disponibilidade de um veículo de informação em publicar os dados sem questioná-los ou apurá-los.


O ilícito existe a partir da certeza (ou presunção) de que em Brasília sempre haverá jornalistas dispostos a publicar matérias marrons, quaisquer que sejam a sua procedência e objetivo. Se porventura as empresas jornalísticas usassem o seu inabalável esprit de corps para barrar tais procedimentos, tanto o jornalismo fiteiro como suas variantes não teriam prosperado.


Garantido o divulgador, pouco importa onde, como, quem o produziu, a quem interessa o vazamento e quem o vazou.


Nova fase, práticas antigas


O Dossiê dos Cartões (o nome definitivo ainda não foi determinado, vai depender da identificação dos culpados) é um caso clássico e marca o início de uma fase mais sofisticada: o veículo (no caso, Veja) o recebeu para que denunciasse os seus autores. Esta era a isca. E os autores contavam com a divulgação da papelada (ou base de dados) para comprovar que nos governos anteriores também ocorriam abusos com os cartões corporativos. Toma lá, dá cá – todos saíam ganhando.


A verdade é que a novela do Dossiê Visa (ou Mastercard, dá no mesmo) foi toscamente armada e por isso está praticamente destrinchada: já se sabe onde a peça foi montada (numa dependência da Casa Civil, próxima à secretária-executiva Erenice Guerra), quem a vazou (José Aparecido Nunes Pires, secretário de Controle Interno da mesma repartição) e quem a conduziu até as proximidades do veículo vazador (André Eduardo da Silva Fernandes, assessor do senador tucano Álvaro Dias).


Veja publicou a armação palaciana porque nossa mídia aceita qualquer lixo jornalístico, de qualquer origem – com raras exceções e estas exceções não se situam no segmento dos semanários de informação.


No dia em que autoridades e políticos forem informados de que suas fitas e dossiês já não têm livre trânsito nas redações brasilienses, o jornalismo fiteiro ou dossiêiro estará automaticamente extinto.


***


Aqueles que sabem o que é Estado Novo, proclamado em 10 de Novembro de 1937, e ainda se recordam do famigerado Plano Cohen são privilegiados: sabem que se trata do primeiro dossiê fajuto, chapa-branca, preparado para ser amplamente divulgado e, em seguida, acionar uma violenta reação militar. A ditadura do Estado Novo começou assim.

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/05/2008 Rogério Ferraz Alencar

    E a desfaçatez da Folha continua. Hoje, 16/05, o Metrô de São Paulo é acusado de ‘desvios’ de mais de 70 milhões. O Metrô, pois os tucanos, obviamente, não fariam isso. Aliás, os tucanos inexistem em São Paulo, pois quem se recusa a falar sobre as falcatruas não é José Serra, mas ‘o governo de São Paulo’. Max Suel, daqui a pouco, vai dizer que ‘o Metrô’ paulista ‘desviou’ dinheiro para dar ao PT, assim como ele garante que foi feito em Minas…

  2. Comentou em 16/05/2008 Miro Junior

    Caro Max Suel , SP-SP – Engº, é justamente com este seu tipo de indiginação seletiva que eu me rebelo. Traduzindo: aqui só se chuta quem interessa, caso contrário vai prá baixo do tapete.

  3. Comentou em 13/05/2008 Jedeão Carneiro

    O falso dossiê serve para o PIG abafar o Apagão Viário de São Paulo. Para o PIG São Paulo não tem Prefeito… São Paulo não tem Governador… Quem vai resolver o Caus Viário de São Paulo?

  4. Comentou em 13/05/2008 Rogério Ferraz Alencar

    Enquanto isso…Marconi Perillo, do PSDB, é denunciado por um sem número de crimes eleitorais. Yeda Crusius, do PSDB, é denunciada por crime eleitoral e desvio de dinheiro, no Rio Grandee do Sul. E Covas/Alckmin/ Serra, do PSDB, são denunciados por jornal inglês, por corrupção braba, em São Paulo. Mas o PIG nem quer saber disso. Passa voando pelo assunto. A Folha de hoje, 13/05, em matéria de MARIO CESAR CARVALHO, extrapolou na desfaçatez: conseguiu, num assunto que envolve tucanos, não citar nome de nenhum tucano, nem citar a sigla criminosa, PSDB. Aguma referência à sigla criminosa, apenas en passant, no subtítulo da matéria ‘Contratos da Alstom em SP vão ser investigados’. Eis a citação: ‘Promotoria apurará negócios de estatais do governo tucano com empresa francesa’. E só. Mas, no corpo da matéria, MARIO CESAR CARVALHO cita Paulo Maluf e o partido dele, Valdir Raupp e o partido dele, e, naturalmente, cita o PT, ao fazer referência a Adhemar Palocci, irmão do deputado petista Antônio Palocci.

  5. Comentou em 13/05/2008 Max Suel

    Não, VEJA não publicou a armação palaciana; VEJA publicou que havia uma armação palaciana para comprometer a oposição e o governo anterior. VEJA não publicou o dossiê (na primeira reportagem), o que fez VEJA foi impedir que houvesse seguimento a armação palaciana. Voltando ao princípio: Houve dossiê, feito na Casa Civil da Presidência da República, sob mando de alta autoridade, vazado por funcionário da Casa Civil ligado ao ex-Ministro José Dirceu, com intuito de constranger a oposição que exigia a CPI dos cartões.

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