Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

IMPRENSA EM QUESTãO > VIOLÊNCIA EM DEBATE

Desinteresse da imprensa é maior que o preconceito

Por Luciano Martins Costa em 06/03/2007 na edição 423

Os debates sobre a violência que parece recrudescer nas grandes cidades brasileiras neste início de ano – a se considerar o noticiário do período – trazem à luz certa característica da sociedade brasileira que deveria preocupar agentes públicos e formadores de opinião: o Brasil está perdendo vastas porções de território, com seus habitantes, para as instituições paralelas do crime organizado, da mesma forma como nos habituamos a considerar que havia ocorrido com a maioria das favelas do Rio de Janeiro (que o cinismo politicamente correto recomenda chamar de ‘comunidades’).

Comentando artigo postado neste Observatório, sob o título ‘Crime na senzala a casa-grande não vê‘, o vendedor Rogério Barreto Brasiliense, de Santos, destacava que a imprensa é porta-voz de uma parcela da população que vive dentro de uma bolha. ‘Por dever de ofício, visito diariamente empresas em bairros de periferia e noto uma pujança que não aparece nas páginas de jornais ou revistas de negócios’, dizia Rogério, notando também que, não sabendo lidar com a diversidade brasileira, a imprensa tende a tratar os fatos de fora dessa ‘bolha’ com viés preconceituoso.

‘O Brazil não conhece o Brasil’

A falta de interesse que a mídia demonstra em relação a esse mundo externo aos ambientes do seu ‘mercado’ induz à conclusão de que, mais do que preconceito, o que se depreende desse viés é que a ‘bolha’ mediada pelos meios tradicionais simplesmente ignora a parcela da sociedade que ela exclui – exceto quando, pela violência ou pelas manifestações de carência, essa sociedade marginalizada exibe suas misérias na tela da TV, nas páginas dos jornais ou à janela do carro.

Não se pode acusar a imprensa de ser responsável por esse abismo social, mas pode-se, sim, afirmar que ela tem oferecido pouca contribuição à necessária integração entre esses dois Brasis. Ao optar por uma visão que reduz a sociedade ao conceito de mercado, a imprensa também encolhe o porte moral do cidadão ao seu status de consumidor. Quanto menos ele é capaz de consumir, menor sua importância social.

Essa interpretação não está escrita nos manuais de redação, mas pode ser lida na prática geral da imprensa. Quantos mortos precisa ter uma tragédia (ou uma chacina) na periferia de uma metrópole brasileira para merecer uma chamada de primeira página? Da mesma forma que se utiliza o critério da distância proporcionalmente inversa ao valor da notícia, nos fatos internacionais – refletido, por exemplo, no fato de um descarrilamento de trem na Índia só ganhar destaque na mídia nacional quando o número de vítimas é muito elevado – estamos aplicando semelhante medição de impacto com relação aos acontecimentos daqueles Brasis periféricos, que não compram jornais e revistas.

Ou seja, para a ‘bolha’ na qual a imprensa se isolou, a parcela da sociedade que não consome os produtos que ela anuncia é quase estrangeira. A música que melhor representa esse país recortado ao meio não tem o ufanismo piegas da Aquarela do Brasil, de Ari Barroso, mas a constatação feita por Aldir Blanc e Maurício Tapajós em Querelas do Brasil, interpretada por Elis Regina: ‘O Brazil não conhece o Brasil; o Brazil nunca foi ao Brasil…’

Amnésia temporária

É possível, até, que essa alienação, quase desprezo, da grande imprensa brasileira por essa parcela de brasileiros que a ‘bolha’ arrasta como peso morto – e cujas demandas repudia explicitamente, a julgar pelas persistentes tentativas de desacreditar políticas sociais, não só as do atual governo, mas as de todas a épocas anteriores – tenha como origem apenas uma visão de mercado. Mas também é possível que essa recusa à aceitação do Brasil periférico tenha as mesmas causas que levavam os senhores da casa-grande a ignorar seus bastardos da senzala.

De qualquer modo, se partirmos do pressuposto de que a imprensa brasileira é, ainda hoje, instrumento de poder das parcelas mais favorecidas da população, ou se concluirmos que a imprensa apenas padece de amnésia temporária em relação a suas filiações sociais em função de estratégias de negócio, convém lembrar que numa sociedade como a nossa não há blindagem absoluta.

A onda de assaltos a bancos que ocorre em São Paulo nos últimos dias tem apresentado como uma das características comuns o fato de seguranças terem facilitado o trabalho dos criminosos. Se os bancos não conseguem reduzir minimamente a ação dos criminosos, pode-se imaginar a vulnerabilidade dos cidadãos comuns. O que acontecer com a sociedade brasileira nessa escalada de violências acabará afetando todos os seus cidadãos, não importando quantos seguranças o dinheiro possa pagar.

Políticas efetivas

Os filhos da classe média vão ao sopé e às bordas da ‘comunidade’ comprar drogas. Os serviçais nas casas mais abastadas, na copa e nos banheiros das empresas, têm suas vidas fora da ‘bolha’, mas ganham seu pão no Brasil mediado. Submetidos ao poder das quadrilhas, são a parte mais vulnerável da sociedade e, no entanto, suas penas estão rotineiramente fora do círculo de preocupações preferenciais da mídia.

Há cerca de dois anos, algumas reuniões na sede da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio, tiveram que ser suspensas porque as funcionárias da copa avisaram que a ‘comunidade’ ia fazer uma manifestação contra a violência policial. A Fiocruz, em Manguinhos, fica cercada por favelas – a sede da mais importante instituição de pesquisa biomédica da América Latina é conhecida como ‘Faixa de Gaza’. A realidade violenta da vizinhança prejudica as pesquisas.

Embora seja – com exceção do rádio e da TV – uma instituição excludente e seletiva, a imprensa não pode ser acusada de ser responsável pela exclusão social que criou e mantém o abismo entre os dois Brasis. Mas a imprensa poderia ser um fator de integração social se seus mentores fizessem um esforço para entender e valorizar a diversidade social.

Quando as estatísticas sobre as mortes violentas de brasileiros jovens forem noticiadas em sua absoluta clareza e com referências lúcidas sobre o contexto em que esse jovens tentam sobreviver, e isso merecer campanhas da imprensa por políticas de segurança mais efetivas e realmente universais – e não apenas quando ocorre uma morte violenta no interior da ‘bolha’ –, a imprensa estará trabalhando para costurar esses dois Brasis no tecido de uma nação.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/03/2007 Marco Costa Costa

    Uma fatia considerável dos crimes cometidos pôr jovens de conduta inconveniente para conviver em sociedade, esconde no fundo de suas mentes um desgosto profundo contra às “autoridades” que comandam de forma atabalhoada e incompetente o destino de um povo marginalizado.
    Aqueles que detém os poderes, nestes anos todos mantém a juventude manietada na ignorância e abandonada nas periferias das grandes e médias cidades, principalmente no que tange a educação, bem como ao acesso aos apelos do processo de consumo do sistema quem pode mais, mais tem. Isto faz com que os jovens sofram na atual conjuntura, precisamos tirar um pouco do peso que os jovens pobres carregam pôr não poderem competir com os poucos jovens abastados. Para reverter esta situação, os governantes tem pôr obrigação de criar empregos, com salários dignos para os pais de famílias que estão no ostracismo da civilidade humana.
    O Estado tem que fazer a sua parte, construindo mais escolas e, de preferência de qualidade, mantendo o jovem pobre oito horas/dia em sala de aula, bem como escolas profissionalizantes para que esta molecada possa competir a altura no mercado de trabalho. Quanto aqueles guris infratores, obrigá-los a trabalhar e estudar nestas casas ditas de recuperação de menores.

  2. Comentou em 07/03/2007 Hércules da Silva Xavier

    Prezado: o texto do senhor está muito bem direcionado, cutucando com o dedo rijo a ferida que a imprensa – convenientemente? – prefere ignorar. O distinto só peca no que chama de cinismo politicamente incorreto .

    Isso eu discordo, pois veja bem: da época em que eu trabalhava como voluntário, em violento morro da cidade onde moro (que em outros carnavais fora maravilhosa), seus próprios moradores haviam incorporado não apenas a palavra mas também sem grande significado de comunhão , bens em comum . E se alguém falasse favela, era repreendido. Eles mesmos, quando falam favela, falam em tom de chacota e pilhéria.

    No mais, fica um grande abraço.

  3. Comentou em 07/03/2007 Hércules da Silva Xavier

    Prezado: o texto do senhor está muito bem direcionado, cutucando com o dedo rijo a ferida que a imprensa – convenientemente? – prefere ignorar. O distinto só peca no que chama de cinismo politicamente incorreto .

    Isso eu discordo, pois veja bem: da época em que eu trabalhava como voluntário, em violento morro da cidade onde moro (que em outros carnavais fora maravilhosa), seus próprios moradores haviam incorporado não apenas a palavra mas também sem grande significado de comunhão , bens em comum . E se alguém falasse favela, era repreendido. Eles mesmos, quando falam favela, falam em tom de chacota e pilhéria.

    No mais, fica um grande abraço.

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