Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

IMPRENSA EM QUESTãO > Jornalismo cultural

Dez dicas para iniciantes

Por Franthiesco Ballerini em 29/04/2017 na edição 941

Com muita frequência, recebo perguntas de alunos e jornalistas recém-formados sobre o que é mais importante para se tornar um jornalista cultural de referência no Brasil atualmente. É óbvio que não existe uma fórmula para o sucesso – nesta vida o acaso prega mais surpresas que o planejamento, eu mesmo achava que seria jornalista econômico até me convencer de que não sabia fazer conta. Mas dicas são sempre importantes para quem está entrando neste conturbado e sempre mutável mundo do jornalismo. Então aqui vão algumas.

1-Não leia tudo. Seja seletivo com sua leitura. Essa história de que ler até bula de remédio já vale o hábito é bobagem. Há uma avalanche diária de textos, livros, revistas, jornais, sem falar de textinhos e textões de redes sociais pedindo sua atenção. Não há tempo pra tudo isso. Para mim, jornalista cultural deve priorizar os clássicos – Machado de Assis, Dostoievsky, Edgar Allan Poe, Nelson Rodrigues, Charles Dickens, Jean-Paul Sartre, Kafka, sem ter medo de não entendê-los. A prática e o convívio com estes gênios certamente ajudará na sua formação vocabular e no seu raciocínio humanístico.

2-Selecione as bobagens para ler.
Feito o item 1, é fundamental ler bobagens, ou melhor, textos e autores que não se aplicam diretamente a sua formação. Aprendi a ter gosto por leitura, aos 12 anos, lendo a seção Oráculo da Superinteressante. Desde então, sou assinante da revista. Ignorar autores como Paulo Coelho é um grande erro. Não se pode criticar aquilo que não se leu. Paulo Coelho vende, muito. Descubra o porquê.

3-Tenha dois mil anos.
Esses dias eu mostrei duas fotos históricas a uma sala com cem alunos de comunicação: uma do Tancredo Neves ao lado dos médicos, outra de Vladmir Herzog “enforcado” no DOI-Codi. Só dois alunos sabiam do que se tratava. Jornalista cultural precisa ter pelo menos dois mil anos de idade. Conhecer História a fundo, ter uma verdadeira paixão por cavar os vários ângulos sobre fatos que mudaram a humanidade. Não se pode cogitar fazer uma matéria sobre um filme da Segunda Guerra Mundial sem ter conhecimentos medianos sobre o tema. Para fazer a história do hoje, é preciso conhecer aquela com “h” maiúsculo.

4-Respeite o CCC. A dica é válida para qualquer jornalista, mas principalmente para os culturais e esportivos, que trabalham, quase sempre, com textos mais leves, de produtos de entretenimento. Os textos precisam ter Clareza, Coesão e Coerência, precisam fluir no olhar do leitor. Textos enigmáticos irritam. Uma coisa é não saber o que significa “peremptoriamente”, pra isso há dicionário. Outra coisa é decifrar uma frase sem o menor sentido.

5-Dose sua parcialidade. Imparcialidade é um mito, nunca atingível por jornalistas. Há sempre o olhar de alguém diante de algo. Um recorte, um ângulo, fruto de uma determinada criação, de um contexto social etc. Mas isso não significa colocar o “eu” à frente de qualquer cobertura. Meus piores textos de cinema eram aqueles que falavam de diretores que eu idolatrava, como Stanley Kubrick e Lars Von Trier. Meus melhores textos eram justamente aqueles que me permitiam uma menor paixão pessoal, geralmente de musicais e faroestes.

6-Liberte-se e busque um estilo. O texto do jornalismo cultural deve respeitar o básico do jornalismo (o quê, quem, onde, quando, por que, como), mas isso não significa travá-lo no formato do lide básico de textos dos cadernos de cidade, política, economia. Estamos lidando com arte e entretenimento, os textos precisam ser tão ou mais saborosos que os produtos ali debruçados. Feito isso, com o tempo – e isso pode ser uma busca de anos – o jornalista cultural pode buscar um estilo de texto, uma “digital” única, que vai ligar ao seu nome. Não deixo de ler um texto sequer do grande mestre Inácio Araújo da Folha de S.Paulo porque sei que, nele, sempre haverá contextos interessantes da história do cinema, seja qual for o filme criticado.

7-Devore cultura. Jornalista cultural de cinema precisa devorar os clássicos de todas as épocas e países, frequentar festivais, sets de filmagem. Algo semelhante para o jornalista cultural teatral, ver peças das mais variadas, ir a festivais, consumir as teorias teatrais, clássicas e modernas, de musicais da Broadway a Zé Celso Martinez. O jornalista de artes visuais precisa ir pra rua, visitar todas as exposições, das grandes às pequenas galerias, conhecer a fundo a história da arte. No campo da música, não basta conhecer o artista, mas entender a parte técnica da música, melodias, acordes, instrumentos, porque a Bossa Nova revolucionou a música mundial etc. No campo da literatura, passar feriados e férias lendo clássicos sem deixar de buscar os novos expoentes literários, nacionais e regionais. E por aí vai…

8-Sem duplos preconceitos. Repórter ou crítico de cinema que acha que cobrir Minha Mãe é uma Peça 2 “pega mal” entre os colegas está fazendo uma grande bobagem. Idem para o crítico literário frente aos lançamentos de Nicholas Sparks. Produtos assim podem gerar textos saborosíssimos e até surpreender o mais erudito crítico cultural. Mas o “pré-conceito” também vem de outra frente: achar que o novo filme de Woody Allen é bom só porque é Woody Allen. Apegue-se apenas ao seu conhecimento, não a conceitos pré-concebidos.

9-Não se colonize. Não seja refém de uma cultura só porque ela é dominante no mercado. Não há nada mais cafona do que ser um jornalista-divulgador de Hollywood, por exemplo. Escrever sobre um belíssimo filme romeno ou iraniano pode ampliar mais seu olhar – e do seu leitor – do que insistir no décimo quinto filme da franquia que já não tem mais nada de novo a acrescentar.

10-Esqueça o glamour. Cobrir cultura é trabalhar sem precisar trabalhar? Depende. O começo é duríssimo. Os salários são medíocres, existe uma pressão de todos os lados para você escrever sobre qualquer área, a especialização leva anos e o reconhecimento também. É preciso foco, insistência, deixar de aceitar um salário quatro vezes maior na multinacional farmacêutica pra trabalhar 10 horas por dia – sábado e domingo – em prol do que se acredita. O resultado do esforço vale a pena, acredite.

Faltam ainda muitas dicas, mas o básico está aqui. Espero que ajude os futuros historiadores do nosso presente tão complexo e desafiador.

***
Franthiesco Ballerini é jornalista e autor do livro ‘Jornalismo Cultural no Século 21’qu

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