Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Dez perguntas e um segredo

Por Wedencley Alves em 20/06/2005 na edição 334

1) Por que depois da fala de Roberto Jefferson, na Comissão de Ética da Câmara, a mídia mudou suas orientações? (Veja e o JB amenizaram seus ataques; Globo, Estadão e IstoÉ partiram para a ofensiva.)

2) Por que a imprensa insiste em noticiar como fato novo um mecanismo que é próprio de todos os partidos (o repasse ilegal de verbas em campanhas por partidos cabeça-de-chapa a outros menores), se todos os jornalistas que cobrem política sabem disso?

3) Por que a imprensa não amplia a cobertura sobre o fato de que a agência que tem participação do publicitário Marcos Valério ganhou crédito federal no governo anterior, e hoje é a detentora de importantes contas do atual governo estado de Minas Gerais?

4) Por que mereceu menos crédito a pesquisa do DataFolha, que fotografa a opinião pública após as denúncias de Roberto Jefferson, e priorizou-se a da CNI/Ibope, cujo trabalho de campo é anterior, e ainda assim deu-se pouca ênfase à avaliação de Carlos Augusto Montenegro, fundamental para compreender os números?

5) Por que a população não ficou sabendo que as investigações nas estatais foram desencadeadas pelo próprio governo, semanas antes das denúncias de propina?

6) Por que não se deu repercussão (fora o Globo) à revelação da Época de que o mensalão era prática do PTB e do PP, com pagamento de seus deputados diretamente das estatais que ocupavam sem passar por Delúbio Soares, tesoureiro do PT?

7) Por que não se diz que o PP e o PTB eram da base aliada de Fernando Henrique Cardoso, ou se pergunta se práticas como os mensalões advindos de estatais eram ou não comuns desde lá?

8) Por que ninguém pergunta há quanto tempo as empresas contratadas pelos Correios prestam serviço à estatal?

9) Por que ninguém perguntou à secretária de Marcos Valério quem foi o jornalista que, segundo ela, ofereceu dinheiro para que fizesse as revelações, depois desmentidas?

10) Por que a Época não esclareceu sua própria questão: se Genu ganhou a metade de sua fortuna no período desse governo, quando foi que ganhou a outra metade?

As questões acima não são tanto para se defender partido A ou B, mas para pensar como a mídia consegue, num fato rico como esse, operar discursiva e ideologicamente. É comum na filosofia dizer que as questões determinam as respostas, ou marcam o campo possível em que essas respostas vão ser dadas. Da mesma forma, a mídia, nesses tempos de pouca filosofia e muita técnica, tem a capacidade de pôr pautas em discussão (se deixássemos a teoria da agenda setting se pronunciar…), e ao mesmo tempo retirar de foco outras diretamente relacionadas (em parte como na tese da espiral do silêncio).

Ou seja, se os processos sócio-históricos estão num continuum (veja as perguntas 2, 3, 5, 7, 8, 10), possivelmente ela, a mídia jornalística, fará recortes, com suas questões, iluminando um momento e apagando outro diretamente relacionado.

Engodo herdado

Da mesma forma, a mídia é capaz de focar um particular quando a questão é de ordem geral (especialmente, questão 2); estabelecer mecanismos de transparência de sentido, retirando-se como voz ideológica da cobertura (questão 1); praticando apagamento de informações equivalentes ou mesmo assimétricas, mesmo que contrariem os ditos critérios de noticiabilidade (questão 4); selecionando vozes autorizadas ou desautorizando outras (questão 4, ainda).

Evidentemente, pesa sobre esse tipo de análise o fato de que também, de nossa parte, põem-se ‘outras questões’, e se cometem, da mesma forma, apagamentos e reversões (para sairmos de qualquer pretensão de verdade). Mas, de alguma forma, tudo seria muito mais claro para o leitor (e é a ele que em última instância deve-se respeitar) se as empresas jornalísticas tornassem mais claras suas posições.

Em resumo, o público, com consumidor e cidadão, deveria ter o direito de ser informado de que as pautas são formuladas a partir de certas posições dos atores no jogo político da história. Aspirar ao universal é menos uma contribuição que a mídia pode fazer à sociedade e mais um engodo herdado das teorias da informação, e preservado cuidadosamente como um segredo, que deve ser desfeito.

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Doutorando em Lingüística na Unicamp, mestre em Comunicação pela UFF

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