Terça-feira, 23 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Diário de um correspondente

Por Samy Adghirni em 12/04/2016 na edição 898

selo_rev_jorn_espmMinha despedida do Irã, após quase três anos como correspondente da Folha de S.Paulo, ocorreu numa noite abafada de junho de 2014, num restaurante em Darakeh, bairro montanhoso ao norte de Teerã. O jantar com a turma havia sido organizado por Jason Rezaian, correspondente do Washington Post, meu amigo mais próximo naquele período. Ganhei presentes e nos divertimos até a hora do adeus. O último e emocionado abraço se deu na rua principal de Darakeh, de onde se enxerga, a cerca de 300 metros de distância, um muro de concreto que costeia a montanha. É a prisão de Evin, onde Jason seria jogado exatas duas semanas após minha partida.

Samy Adghirni / Foto UOL

Samy Adghirni / Foto UOL

Soube da detenção de Jason por email, enquanto eu aproveitava férias em São Paulo. Agentes à paisana haviam invadido o apartamento de Jason e Yeganeh, sua mulher, e levado os dois, deixando para trás móveis e pertences destroçados. Uma operação simultânea do outro lado de Teerã prendeu uma fotógrafa que havia sido colaboradora da Folha (ela preferiu não divulgar o nome) e seu marido, amigos queridos também presentes naquela despedida em Darakeh. O porteiro do prédio onde moravam tentou impedir a entrada dos agentes, mas foi confrontado pelos arapongas e morreu de parada cardíaca. A fotógrafa e seu marido foram libertados dias depois e Yeganeh, em outubro. Mas Jason ficaria encarcerado em Evin por 18 meses, cinco dos quais numa solitária.

Acusações de espionagem

Jason foi detido pelo que é, não por algo que tenha feito. Até autoridades iranianas admitiram que o caso passava longe de qualquer reportagem publicada no Washington Post. As vagas acusações de espionagem tampouco faziam sentido. Num país dominado pelos serviços de segurança, que acesso a informações sensíveis poderia ter um jornalista com cara e sotaque de gringo? Uma fonte na Guarda Revolucionária, a temida força de elite militar, me dizia que os verdadeiros espiões são pessoas infiltradas dentro do próprio governo.

Jason tinha um perfil atípico dentro da pequena comunidade de jornalistas estrangeiros. Era o único repórter dos Estados Unidos a possuir credencial de correspondente no Irã. Mas ele também tem passaporte iraniano, herdado do pai, um vendedor de tapetes persas que fez a vida na América, onde se casou e teve dois filhos. A dupla cidadania dava a Jason motivo de orgulho e, ao mesmo tempo, uma autoridade ímpar para dissecar e criticar os dois países em proporções simétricas.

Jason às vezes me parecia um típico americano de classe média, com seu gosto por hambúrguer e beisebol, suas histórias de farra adolescente e seus valores liberais em sintonia com sua Califórnia natal. Mas, na vez em que me levou à cidade sagrada de Mashhad, berço de sua família paterna, no extremo leste do Irã, fiquei espantado com sua desenvoltura nos meios mais devotos. Capital espiritual do Irã, Mashhad abriga o mausoléu de Reza, santo icônico do xiismo. É daí que vem o sobrenome Rezaian, um dos mais tradicionais na cidade. Num de seus textos mais antigos na internet, Jason faz um divertido relato de sua chegada a Mashhad, em 2001, acompanhado do pai. Era sua primeira visita ao Irã, onde ele só fincaria residência sete anos depois. Essa dupla condição de iraniano e americano, porém, também era o ponto fraco que acabou transformando Jason em refém das lutas fratricidas do regime.

Quando desembarquei em Teerã, Jason ainda não havia sido contratado pelo Washington Post. Ele vivia de frilas para revistas dos Estados Unidos e ganhava trocados extras como agente de viagem especializado em trazer turistas americanos. Quase só andava de ônibus e morava num apartamento com aluguel irrisório comparado ao padrão médio dos demais correspondentes. Ele já namorava a simpática Yeganeh, ou Yegi, que também se entusiasmava com jornalismo.

Dança das cadeiras

Com seu jeito bonachão e agregador, Jason era o epicentro da vida social dos correspondentes – raça que, em qualquer parte do mundo, tende a andar entre semelhantes. Ele gostava não só de receber, sempre com fartura de comes e bebes, como também de ajudar recém-chegados. Foi Jason quem arranjou minha primeira assistente-tradutora e me apresentou a algumas das melhores fontes. Compartilhávamos a mesma diarista. Jason me conseguiu inúmeras passagens de avião a preço camarada com seus contatos em agências de viagem. Quando minha namorada, paulistana, vinha me visitar, Jason e Yegi a recebiam com carinho e generosidade. Várias vezes, o casal nos levou consigo à casa de familiares e amigos.

Na primavera de 2012, uma pequena dança das cadeiras agitou a nossa turma. O então correspondente do Washington Post, Thomas Erdbrink, um holandês brilhante e bem-humorado, foi contratado pelo New York Times, que saía de uma proibição de três anos sem poder reportar do Irã. E Jason assumiu a antiga vaga de Thomas, tornando-se o novo bureau chief do Post.

A mudança deixou Jason revigorado. Ele não só passava a receber um confortável salário como também ascendia às grandes ligas do jornalismo internacional. “Obama lê minhas matérias”, divertia-se. Meses depois, Jason e Yegi marcaram casamento, compraram carro e se mudaram para um amplo apartamento numa zona abastada. A satisfação do casal era reforçada pelo novo emprego de Yegi, que havia se tornado colaboradora de uma agência internacional de notícias financeiras. Essa maré de coisas boas alegrava a turma dos correspondentes. Todos sabíamos como haviam sido dolorosos os últimos anos para Jason e sua família, abalados por perdas que não cabe mencionar aqui.

Trabalhar em Teerã tinha seus encantos. Havia poucos correspondentes, o que nos dava a sensação de sermos uns happy few cobrindo uma das histórias mais importantes do noticiário mundial. Tirávamos o maior sarro dos eventuais jornalistas visitantes, enviados especiais que chegavam sem entender nada, publicavam bobagens ou exigiam, cheios de banca, entrevistas impossíveis (com o comandante da Guarda Revolucionária, por exemplo).

No verão de 2012, Jason, Thomas e eu integramos um grupo de jornalistas convidados pelo governo para visitar a cidade portuária de Bandar Abbas. Aproveitando uma brecha naquela programação modorrenta, fugimos para o porto e pagamos um pescador para que nos levasse mar adentro com sua lancha.

Flagrante de humilhação

Após quinze minutos cortando a toda velocidade as pacatas águas do Golfo Pérsico, nos deparamos com o que buscávamos: navios petroleiros, âncoras estendidas e motores desligados, transformados em tanques flutuantes para estocar a produção que o Irã não conseguia mais exportar por causa das sanções. Um flagrante ao vivo e a cores da humilhação imposta a Teerã pelas potências. A prática havia sido detectada por empresas de rastreamento de navios, mas nunca registrada pela imprensa. Nossas reportagens tiveram tremenda repercussão.

Salvo implicâncias pontuais, o grupo de correspondentes era unido e convivia em níveis de respeito que nunca vi em outro lugar. Cada um com sua sensibilidade, nos empenhávamos em retratar as múltiplas faces do Irã. Jason era mestre em reportagens que descreviam com precisão cirúrgica alguns problemas-tabu na sociedade iraniana, como a toxicomania feminina e a pobreza extrema. Sempre ponderado, ele também captava como ninguém as sutilezas na dinâmica entre americanos e iranianos. Jason se orgulhava com razão de ter sido um dos únicos jornalistas a prever a vitória de Rouhani na eleição presidencial de 2013.

Já Thomas, do Times, tinha faro único para pescar grandes histórias. Foi ele quem revelou ao mundo a evaporação de um dos maiores lagos do mundo, perto da fronteira com a Turquia, por causa de barragens construídas pelo governo iraniano. Thomas também é autor de um relato antológico sobre uma competição internacional de leitura do Corão. Outra figura de peso é a correspondente do Financial Times, Najmeh Bozorgmehr, iraniana da gema, imbatível na cobertura dos nebulosos negócios do governo.

Entre minhas reportagens, destacaria o relato de um enforcamento em praça pública, a longa narrativa mostrando as sutilezas da condição feminina no país e uma entrevista exclusiva com um dos homens mais procurados do mundo, um clérigo acusado pela Interpol de ter orquestrado os atentados antijudeus em Buenos Aires nos anos 1990. O serviço secreto argentino passou meses na minha cola tentando arrancar informações sobre o sujeito. Felizmente, a lei brasileira de sigilo das fontes me protegeu.

Trabalhar sem concorrência era um bálsamo. A já mencionada matéria sobre a condição feminina não teria o mesmo êxito se eu não tivesse lhe dedicado meses de serena apuração. O fuso horário era tão favorável que eu podia começar a escrever matéria à meia-noite de Teerã, depois de um jantar ou até de uma festa, e ainda faltariam horas para o fechamento da primeira edição na redação em São Paulo. Viajar dentro do país era tão barato que a Folha sempre bancou minhas propostas de reportagem fora de Teerã. Entre outras viagens, fui até as remotas montanhas estremecidas pelo terremoto de 2012 e contei como é o Deserto de Dasht-e Lut, o lugar mais quente do planeta.

Com salário em dólar, vive-se muito bem em Teerã, uma cidade caótica, mas segura e bem-cuidada. Os apartamentos são ótimos, o comércio tem quase tudo o que se consome no Ocidente e há fartura de bons restaurantes e galerias de arte. O dinheiro ainda dava para bancar ocasionais estadias de descanso na Turquia, em Dubai ou na Europa.

Correspondentes transitavam numa elite que incluía não só diplomatas e funcionários de multinacionais como também uma classe média alta de iranianos bem mais cosmopolita e sofisticada que a brasileira. Tive a sorte de papear com o cineasta Jafar Panahi (que circulava por Teerã, apesar de estar em prisão domiciliar), jantar com a atriz Leila Hatami (A Separação) e conviver com artistas excêntricos.

País adverso

Mas essas boas lembranças não diminuem a dura realidade: o Irã é um país profundamente adverso para o jornalismo. A começar pela internet, cuja velocidade o regime restringe para melhor controlá-la. A burocracia também é infernal. Calculo que 25% do meu tempo era desperdiçado em pedidos de renovação de credencial e visto ou de permissão para cobrir temas sensíveis (como os judeus persas). Entrevistas exclusivas eram raríssimas. Passei quase três anos pedindo conversas com o presidente ou ministros. O máximo que consegui foi um subsecretário da Cultura. Também ficávamos à mercê das oscilações geopolíticas. Durante a presidência Ahmadinejad, tempos áureos da relação Irã-América Latina, a correspondente colombiana, Catalina Gomez, e eu tínhamos tratamento especial. Obtivemos até permissão para conhecer o reator nuclear de Teerã. Mas, em 2013, Rouhani assumiu a Presidência com a promessa de melhorar laços com as potências ocidentais, e a América Latina voltou ao status de região periférica. Deixamos de ser convidados até para algumas coletivas.

Todos os correspondentes já tivemos a credencial suspensa, o que implica proibição de trabalhar. Jason teve a sua cassada depois de apenas meses com o Post. O governo nunca dava explicação. Eu passei três semanas sem credencial, presumivelmente por causa da matéria sobre os petroleiros no Golfo Pérsico.

Trabalhar no Irã também significava viver sob constante monitoramento. Um dia, um sujeito afável me abordou num café de Teerã e fez de tudo para puxar papo. Dizia ser empresário em Dubai e prometeu me levar para as festas secretas mais loucas de Teerã. Meio coagido, dei meu telefone, e ele me ligou sem parar até o fim da minha estadia. Havia outro esquisitão semelhante, um tradutor do Banco de Desenvolvimento Irã-Venezuela (!) que se aproximou de mim por amigos em comum (diplomatas que ele também espionava) e insistia em me convidar para jogar futebol. Boa parte dos repórteres iranianos credenciados para cobrir eventos oficiais eram, na verdade, agentes encarregados de bisbilhotar correspondentes. O regime também usa mulheres, a maioria modernas e poliglotas, para se aproximar dos estrangeiros. Esse ambiente de paranoia era sufocante e, às vezes, dava até palpitações. O coração quase me saía pela boca quando eu ia entrevistar ativistas de direitos humanos.

Fechando o cerco

Em 2013, o chefe adjunto do escritório de uma agência internacional teve de sair às pressas do país, deixando até louça suja na pia de casa, para não ser preso. A polícia havia forçado sua namorada, iraniana, a assinar acusação falsa de que ele a havia embebedado e estuprado. Os desdobramentos do caso afetaram outros jornalistas, alguns dos quais também tiveram de fugir.

Meses antes da prisão de Jason, novos incidentes deixaram os correspondentes em alerta. Jason vinha sendo seguido ostensivamente. E, num episódio aterrador, Yegi e a já mencionada fotógrafa foram interceptadas por agentes à paisana ao sair de uma pauta nos arredores de Teerã, colocadas à força numa van e levadas para um galpão. Sem se identificar, os captores as interrogaram e as acusaram de narcotráfico. Antes de libertá-las, deram a entender que a fotógrafa, não Yegi, era o alvo do ataque. Ao que tudo indica, os agentes buscavam intimidá-la por causa de sua proximidade com Rouhani, de quem estava se tornando fotógrafa oficial, com lugar garantido no avião presidencial. Pode ser difícil de entender, mas o Estado iraniano é um sistema horizontal onde se enfrentam polos de poder com agendas conflitantes e sob olhar distante do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, que segue a máxima de “dividir para reinar”.

Na prática, setores ultraconservadores que controlam a Justiça e o aparato de segurança têm muito a perder, econômica e ideologicamente, com a abertura e o acordo nuclear conduzidos por Rouhani. Mas como não se atrevem a atacar diretamente o presidente da República, eleito por sufrágio universal direto com a bênção do líder supremo, optam por alvejar seus aliados ou causas, como a liberdade de imprensa. A facção que capturou a fotógrafa e Yegi, é a mesma por trás da prisão de Jason, presa especialmente fácil devido a sua tripla vulnerabilidade: jornalista, iraniano e americano. O caso sempre foi político. Primeiro, os ultraconservadores pareciam usar Jason para sabotar conversas nucleares. Assinado o histórico acordo, passaram a buscar outro mecanismo de chantagem. Quando sentiram que poderiam arrancar concessão dos Estados Unidos (no caso, libertação de iranianos detidos em prisões americanas), entregaram Jason, que comemorará em liberdade seu 40º aniversário. O caso era juridicamente tão inconsistente que a Justiça nem sequer se deu ao trabalho de dizer como ficaram as acusações depois que ele foi solto.

O ambiente para a mídia estrangeira no Irã pode ser pavoroso, mas poucas vezes envolve violência física, ao contrário de outras regiões de risco. O perigo mais óbvio está nas zonas de guerra, cada qual com desafios específicos, cujas variações podem ser observadas até num mesmo conflito. Na minha segunda vez na Líbia, o fotógrafo Apu Gomes e eu vivemos uma clássica guerra de front, com avanço e recuo de posições. Passávamos o tempo vendo corpos despedaçados. Mas na retaguarda, em Benghazi, nos sentíamos em relativa segurança. Na viagem seguinte ao país, para cobrir a queda de Trípoli, o perigo se tornou onipresente devido aos franco-atiradores camuflados pelo regime em toda parte. Essa cobertura também teve as condições de trabalho mais adversas. Ficamos cinco dias sem poder tomar banho e comendo biscoitos e latas de atum. Na Síria, não vi um cadáver sequer, mas passei o maior medo da minha carreira. Dormia e acordava ouvindo explosões que chegavam a estremecer meu quarto de hotel. A pior tensão foi quando o motorista se perdeu, ao anoitecer, nas ruas sem iluminação da favela de Daraya, linha de frente dos confrontos entre duas das forças combatentes mais sanguinárias do mundo: o Exército de Bashar Al-Assad e os jihadistas da Frente Al-Nusra.

“Lugar normal”

Em Bagdá, onde estive quatro vezes, reina um ambiente de quase normalidade, com comércio fervilhando, gente na rua e boa comida, mas o risco de carros-bomba é constante. Em todos esses lugares, as partes invariavelmente acusam o jornalista de simpatizar com o inimigo. Além disso, boa parte do trabalho consiste em resolver perrengues de internet e conseguir lugar para passar a noite. A burocracia é desesperadora – menos na Líbia, onde não havia Estado.

Quando fui transferido para Caracas, em setembro de 2014, amigos e familiares se alegraram por eu ir para o Caribe “depois da barra-pesada do Oriente Médio” e por finalmente viver num “lugar normal”. Sem nunca antes ter pisado na Venezuela, quase acreditei. Me deparei, porém, com um país desfigurado pelo desabastecimento e por níveis de violência surreais até para padrões brasileiros. A Venezuela é um inferno de filas, gente desesperada, linchamentos, sequestros e assassinatos. Vivo com a sensação de estar prestes a tomar um tiro. E rezo para não adoecer, pois não há remédios nem insumos médicos. Mas, apesar da arbitrariedade do chavismo, nunca me senti ameaçado na minha condição de correspondente estrangeiro nem tive receio de publicar reportagens de teor duríssimo contra o governo. 

Samy Adghirni é correspondente da Folha de S.Paulo na Venezuela. Já cobriu países como Irã, Líbia e Síria.

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