Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > ANO NOVO, TUDO VELHO

Dilúvios, modo de cobrir

Por Alberto Dines em 05/01/2010 na edição 571

A TV Globo estava no ar havia nove meses sem conseguir liderar a audiência como prometera. Diante da catástrofe que se abateu sobre o Rio, Roberto Marinho deu o sinal verde: as câmeras foram para a rua, a emissora ficou no ar enquanto durou o dilúvio – três dias ininterruptos – cobriu a vida da população atarantada, o resgate das vítimas, coordenou a ajuda aos desabrigados. Quando acabou a tormenta, a Globo estava relançada. E consagrada.


A chuva torrencial começou em 11 de janeiro de 1966, a maior precipitação pluviométrica ocorrida na cidade desde 1883, quando começaram as medições. Só no primeiro dia morreram 117 pessoas vitimadas por deslizamentos de encostas e desabamentos. Um edifício nas Laranjeiras estatelou-se no chão (ali morreu um dos irmãos do jornalista Nelson Rodrigues). No interior do estado do Rio, romperam-se as represas da Light, interrompeu-se o fornecimento de energia e, em seguida, foi decretado um rigoroso racionamento.


Eleito em outubro do ano anterior, diante da resistência da linha dura militar o governador Negrão de Lima só conseguira tomar posse no início de dezembro de 1965, graças ao aval do presidente-general Humberto Castelo Branco. Nas primeiras horas da tragédia, o governo federal abriu uma linha de crédito de 2 bilhões de cruzeiros. Um verão para não esquecer.


Jornalismo é serviço público. A história da imprensa mundial tem inúmeras façanhas como a do batismo da TV Globo; no Brasil, mínguam – esta aconteceu 43 anos atrás, há mais de uma geração.


Era dos cataclismos


Os portais de notícias brasileiros perderam uma excelente oportunidade de exibir o potencial da internet. Na cobertura dos estragos causados pelas últimas chuvas, não souberam tirar partido do clima de recesso das redações de jornais – sobretudo na estressada Paulicéia – e contentaram-se em aproveitar as sobras da intensa movimentação das rádios. Já na sexta-feira (1/1) à tarde, doze horas antes dos jornais de sábado, poderiam ter mostrado os estragos na Ilha Grande, em Angra dos Reis e no outro lado da montanha, no vale do Paraíba (Cunha e São Luiz de Paraitinga).


Os portais noticiosos da internet assumem-se como os exterminadores da mídia impressa, mas não se dispõem a investir em jornalismo. Falam em ‘conteúdo exclusivo’, mas até agora não se viu um portal de notícias fretar um helicóptero para cobrir uma emergência ou destacar uma equipe para investigar uma denúncia. Não querem ser testados nem comparados.


As redes ‘sociais’ da web aparentemente funcionaram na localização de sobreviventes, identificação de vítimas, distribuição de imagens e a blogosfera – como sempre – encheu-se de indignação. Na melhor das hipóteses isto é comunicação, não é jornalismo.


Também não é jornalismo forçar lágrimas dos telespectadores com depoimentos chorosos. Estas lágrimas secam depressa. Estamos ingressando na era dos cataclismos, convém preparar-se para desafios mais difíceis.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/01/2010 wendel Anastacio

    Caro Sr. Dinis;
    Como minha memória não é como a da maioria dos brasileiros, solicito: nos conceda, POR FAVOR, seus brilhantes comentários sobre o episódio do ‘ ISTO É UMA VERGONHA’

  2. Comentou em 07/01/2010 Murilo Lucena

    Impressionante, Dines! O que há de veiculos utilizando-se da desgraça alheia para se alto promover. A questão inteira, é que tudo o que assistimos, lemos (impresso ou web), faz parte do jogo do ‘Quem comeu meu queijo?’. Não a menor dúvida, os veiculos querem e escolhem o caminho mais fácil para ‘informar’, provocar ‘comoção’ geral. Recordo-me, quando cobria entregas de cestas à desabrigados de enchentes, uma senhora abrigada em uma escola falar o seguinte: ‘…não há porque nos darem cestas, no fim da semana tudo acaba e nada nos trará o que perdemos’. Penso o mesmo dessas coberturas. Não adianta ilustrar a materia televisina, ou escrita, com o termo ‘humanização’, se esse princípio é extráido quase que a força por veiculos que não sabem a hora de parar. Cito a TV Record, nunca houve do meu ponto de vista, uma emissora para transformar a catástrofes em coisas piores, como a expressão viciada do Paulo H. Amorim ‘Tragédia’. Nessa corrida, pelo queijo, nos perguntamos: ‘Somos jornalistas, ou ratos?’

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