Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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ENTRE ASPAS >

Diretor do Datafolha
denuncia manipulação

Por Luiz Antonio Magalhães em 18/10/2006 na edição 334


Leia abaixo os textos de segunda-feira selecionados para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 16 de outubro de 2006


ELEIÇÕES 2006
Mauro Paulino


Ouro em pó


‘AS PRIMEIRAS pesquisas do segundo turno surpreenderam ao mostrar que a tendência do final de setembro foi revertida e que Lula retomou o favoritismo. Tiveram o objetivo central de captar os pontos de partida de cada candidato e possíveis impactos da própria eleição e do debate da TV Bandeirantes.


As informações reveladas em primeira mão por duas pesquisas do Datafolha, com ampla repercussão pelo ineditismo e significado dos números, causaram curiosidade e surpresa entre os eleitores e os que não têm acesso direto às cúpulas das campanhas e a banqueiros.


Estes já dispunham de números privados indicando as mesmas tendências tornadas públicas pelo Datafolha, que opta por fazer pesquisas eleitorais apenas para divulgação. Pesquisas são vitais para os partidos avaliarem os rumos da comunicação e, há algum tempo, no Brasil, são amplamente utilizadas com esse objetivo.


Nenhuma campanha sobrevive sem o termômetro dos levantamentos diários e dos grupos de discussão das qualitativas.


É um antigo filão explorado pelos institutos que atendem partidos. Já os bancos e as entidades empresariais passaram a contratar pesquisas e consultores com mais freqüência a partir de 2002, quando as variações das intenções de voto guardavam forte relação com os humores do mercado. Instalou-se então uma curiosa, porém lucrativa, prática dos investidores: atentos aos registros obrigatórios das pesquisas no TSE cinco dias antes da divulgação dos resultados, encomendavam levantamentos a outros institutos para tentar antecipar as tendências eleitorais e, por conseqüência, do mercado financeiro.


Ter indícios do que a pesquisa registrada revelaria cinco dias depois era, como se dizia, ouro em pó.


Quanto mais tempo de posse da informação e quanto mais indefinido o quadro, maior era o poder de manobras financeiras.


Nesta eleição, o favoritismo de Lula desfez a relação entre intenções de voto e as variações do mercado. Diminuiu o interesse dos investidores por pesquisas durante o primeiro turno. O escândalo do dossiê não só ajudou a prorrogar os resultados da eleição como reaqueceu esse mercado para os institutos que atendem instituições financeiras.


Como as pesquisas privadas ajudam também a definir as contribuições partidárias, ter números exclusivos nas mãos, neste mês, pode ser o detalhe fundamental de uma boa aposta no mercado financeiro e político.


É legítimo e necessário que institutos atendam todas as demandas, mas a especulação gerada por pesquisas a serem divulgadas deve ser desestimulada. Também por isso o Datafolha prefere divulgar seus resultados tão logo os apura. Uma boa medida para enfraquecer essa prática seria diminuir o prazo de registro das pesquisas no TSE de cinco para dois dias antes da divulgação.


MAURO PAULINO é diretor-geral do instituto Datafolha’


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Aniversariantes


‘No comercial da campanha de Geraldo Alckmin, os ‘30 dias’ do flagrante


O dia começou no blog de Josias de Souza, com o ‘post’ em que a ‘PF já admite que pode não elucidar o dossiegate’, no ‘aniversário de um mês’. O delegado que preside a investigação ‘é o primeiro a admitir, em privado, que convive com a incômoda hipótese de ter de concluir o inquérito sem responder de onde veio o dinheiro’. Outro afirma que ‘a parte financeira será árdua e de resultados incertos’. Segundo um terceiro, ‘estamos procurando agulha num palheiro’.


Já Geraldo Alckmin marcou o aniversário com um comercial reproduzindo a foto do dinheiro. E dizendo no blog de Ricardo Noblat que, ‘30 dias depois, o Lula não explica de onde saiu o dinheiro’. Tasso Jereissati, no ‘interior do Ceará’, falou em era Stálin e anunciou uma reunião com Jorge Bornhausen e Roberto Freire para tratar da ‘manipulação feita com a PF’.


‘Eu queria segundo turno porque agora se levou um cartão amarelo e a partida está mais equilibrada.’


Do cantor e compositor Caetano Veloso , ao espanhol ‘El País’, sábado, respondendo por que não votou em Lula no primeiro turno.


DE 60% PARA 70%


No site do ‘Wall Street Journal’, o correspondente Gerald Jeffris repercutiu o ‘triste desfile’ de pesquisas para o ‘desafiante’ Alckmin.


Destacou que o analista Paulo Leme, da Goldman Sachs, elevou as chances de reeleição do presidente de 60% para 70%. E também que, para os analistas da Bear Stearns, as pesquisas comprovam que ‘as pessoas não gostam dessa agressividade’.


CORRUPÇÃO NO PALCO


No site do ‘Financial Times’, o correspondente Jonathan Wheatley escreve sobre os dois fatos a observar na semana. O primeiro é a nova taxa de juros. Sobre o segundo, o debate de amanhã na Gazeta, escreve que deveria tratar de corte de gastos, mas prevê novo ‘embate de xingamentos’, com a ‘corrupção no centro do palco’. Lula não vai à Gazeta, na verdade, mas confirmou com o SBT, na quinta.


BRASIL E O CLUBE


No ‘WSJ’, Brasil e América Latina entre os países ‘sem programas ou armas suspeitos’


Diversos jornais dos EUA e Europa dedicaram longas análises, no fim de semana, para a repercussão do teste nuclear norte-coreano sobre o ‘clube nuclear’.


O ‘New York Times’ falou dos planos disseminados de enriquecimento de urânio como nova ‘onda preocupante’ -da Argentina à África do Sul. E sublinhou que ‘em maio o Brasil, apesar da grande pressão, inaugurou fábrica’, após ‘conseguir convencer que os fins são pacíficos’.


O ‘WSJ’, de sua parte, sublinhou que Brasil, Argentina e outros ‘abandonaram voluntariamente’ seus programas de armas nucleares, que vinham dos regimes ditatoriais. Mas ‘o quadro é complicado’ por toda a Ásia.


TV GOOGLE, NÃO


O ‘FT’ noticia que Eric Schmidt, presidente da Google, passou a semana em Nova York ‘para assegurar empresas de mídia tradicional’ que a compra do YouTube ‘não torna a Google concorrente no mercado de conteúdo’.


Por mídia tradicional, entenda-se TV. Ele visitou ‘Time Warner, Viacom, CBS e outras grandes de conteúdo’. E foi parar em Los Angeles, em reunião com Rupert Murdoch, da News Corp.


CONTRA O YOUTUBE


Por fim, Schmidt deu entrevista ao ‘FT’ para dizer:


– Queremos que esses parceiros ponham seu conteúdo neste sistema emergente… [Vídeo] é dos novos modos de mídia mais essenciais.


A Google não quer, em especial, eventuais processos. Mas o ‘Guardian’ ouviu Dick Parsons, presidente da Time Warner, e este anunciou que processará, sim, o YouTube -agora, a Google. Aceita, de todo modo, negociar.’


AFEGANISTÃO
Folha de S. Paulo


Jornalista italiano é seqüestrado


‘O grupo que seqüestrou o fotógrafo italiano Gabriele Torsello no sul do Afeganistão ligou para um hospital ontem para anunciar que ele está bem e que faria exigências em breve.


A polícia acusa o Taleban pelo seqüestro, mas o grupo já negou envolvimento no caso. Testemunhas afirmam que Torsello foi levado de um ônibus na quinta-feira por cinco homens armados. A ONU alertou para o fato de que o seqüestro aconteceu uma semana após a morte de dois repórteres alemães no norte do país. Ontem, no Afeganistão, seis pessoas foram mortas em diferentes ataques.’


TELEVISÃO
Daniel Castro


TV digital une rivais Globo, SBT e Record


‘Depois de dois anos fora, SBT e Record devem oficializar nesta semana seus retornos à Abert, tradicional associação das emissoras de TV e rádio brasileiras, que desde 2003 só representa a Globo entre as cinco cabeças-de-rede.


Para conseguir o SBT e a Record de volta, a Globo teve que permitir mudança nos estatutos da Abert. SBT e Record receberão, cada um, uma vaga no conselho superior, equilibrando a representatividade das três no órgão que toma decisões estratégicas. Hoje, Globo e afiliadas têm cinco vagas no conselho, contra duas de afiliadas do SBT, uma de afiliada da Record e uma da Rede Vida.


SBT e Record deixaram a Abert em 2003 acusando a entidade de só representar a Globo. Na época, a Abert encaminhou ao BNDES pedido de financiamento de dívidas de TVs, o que favoreceria a Globo.


A campanha pela adoção do sistema de TV digital japonês, no entanto, reaproximou as três redes. Agora, com uma Abert mais forte, a prioridade das redes é convencer o governo a abrir linha de financiamento do BNDES para a importação de equipamentos digitais, o que não é permitido, bem como a isenção de impostos. Outra prioridade é combater projetos de lei que interferem na TV, principalmente os restritivos de publicidade. As três redes também devem negociar juntas os direitos de transmissão da Copa de 2010.


ADESÃO 1A Rede TV! será a única rede comercial a liberar seu sinal para a nova operadora de TV paga via satélite que a Telefônica lançará no mês que vem, em resposta aos pacotes que combinam TV por assinatura com telefone fixo e banda larga oferecidos pela Net _agora mais forte, com a fusão com a Vivax, anunciada na última quinta.


ADESÃO 2A Rede TV! já acertou sua inclusão no ‘line up’ da operadora da Telefônica. Só falta assinar o contrato. As demais redes devem boicotar a empresa.


VELOCIDADEA Globo está vendendo a R$ 43,9 milhões cada uma das cinco cotas de patrocínio das transmissões da Fórmula 1 em 2007. Os atuais patrocinadores têm prioridade até dia 23.


CELEBRIDADEAutor de ‘Pé na Jaca’, próxima novela das sete da Globo, Carlos Lombardi radicalizou. Criou um personagem que, após fracassar no ‘Big Brother’ francês, entra para a Al Qaeda em busca da fama _nem que seja como homem-bomba.


ATÉ QUE ENFIMSerá a pouco conhecida Maytê Piragibe a protagonista de ‘Vidas Opostas’, novela das oito da Record. A emissora teve dificuldade para escalar o herói e a mocinha da trama.


DUPLA INFERNALAo pedir para sair de ‘Páginas da Vida’, Antonio Calloni levou junto, involuntariamente, o ator Buza Ferraz. Sem o personagem de Calloni para dividir conspirações contra o sogro, o Ivan de Ferraz praticamente morreu. Sumiu.’


MEMÓRIA / FERNANDO GASPARIAN
Almino Affonso


Fernando Gasparian, um símbolo


‘HÁ POUCOS dias, Fernando Gasparian ganhou nova dimensão da vida. Encantou-se, como diria Guimarães Rosa. Contudo, neste mundo que ainda nos cabe, nem tudo se esfuma quando a morte nos toca. Há os que ficam, como tantos de grandeza maior, revivendo pelo testemunho do afeto, pela legenda que os pósteros vão compondo.


Pois assim começa a ser a saga de Fernando Gasparian. Do amigo, generoso como raros, cada um de nós, seus companheiros de juventude, com certeza relembra o instante em que o conhecemos em pleno amanhecer das lutas estudantis.


Mas é o homem público que, àquela época, já se desenhava como traço marcante de sua personalidade que quero evocar, com o orgulho de quem com ele partilhou os mesmos ideais.


Foi primeiro no 4º Congresso Estadual de Estudantes, promovido pela UEE, em 1952, no salão da Universidade Mackenzie. Entre tantos temas, o que mais nos empolgava era a tese do monopólio estatal do petróleo, da qual, por fim, nasceu a Petrobras.


Com essa bandeira, foi eleito presidente da União Estadual dos Estudantes (São Paulo) e, de tal forma encarnou esse compromisso que, ao longo de sua vida, passou a ser talvez o signo marcante de sua visão política.


Tornou-se, desde então, um nacionalista militante, ardoroso, apaixonado. Ampliou seus horizontes. A questão da energia elétrica, que viera à tona com o projeto da Eletrobrás enviado ao Congresso pelo presidente Getúlio Vargas, num confronto aberto com o capital estrangeiro, ganhou seu entusiasmo e sua liderança no meio universitário. E, assim, gradualmente, os grandes temas nacionais foram se transformando no impulso gerador de sua formação política.


Nesse contexto, como tantos de nós, inscreveu-se no Partido Socialista Brasileiro, fundindo à problemática nacional a questão social. Foi assim desde a juventude. Anos depois, nessa mesma trilha, ao lado de Rubens Paiva e Marcus Pereira, assume o ‘Jornal de Debates’, por concessão do admirável Matos Pimenta, e o grande semanário ressurge em São Paulo como uma trincheira da causa nacionalista.


E quando o regime militar se impôs, a partir de 1964, funda o jornal ‘Opinião’, com jornalistas e intelectuais de claro compromisso democrático, assentando as bases da crítica sistemática ao obscurantismo político, numa hora em que as liberdades públicas estavam cerceadas. Sobra dizer que a audácia lhe custou a prisão, e ao jornal, sufocado pela censura, o fechamento.


Mas, a esse combatente, não lhe curvavam a fronte. Cria, como empresário, a editora Paz e Terra, a rigor, nova trincheira contra a ditadura.


As lideranças políticas (desde Ulysses Guimarães e Franco Montoro a Marcus Freire e Alencar Furtado), com a voz abafada pelas paredes do Congresso Nacional, sem espaço na imprensa, passaram a ter seus discursos editados em livros, numa contribuição inestimável à resistência democrática.


Com a editora Paz e Terra, Fernando Gasparian continuou dando a mesma batalha, ao longo de sua vida, publicando obras marcantes do pensamento político e científico brasileiro, em muitos casos em uma verdadeira missão apostolar. Basta ler o catálogo da editora e se verá que, mais do que o empresário, Fernando Gasparian foi o homem público que acolheu e multiplicou idéias e mensagens que hão de ficar.


Na Assembléia Constituinte, em 1988, Fernando Gasparian teve uma presença significativa e contribuiu, sobretudo no âmbito das questões econômicas, para dar grandeza à Constituição da República.


Para fazê-lo, não se preocupou se feria interesses ou se chocava com idéias predominantes. O que lhe importava era a consciência de estar servindo ao país -vale dizer, à pátria, como ele gostava de dizer.


Na verdade, muitas de suas lutas ainda estão a reclamar novos campeadores. Para enfrentá-las, neste torvelinho difícil da vida nacional, é oportuno que evoquemos as lições que Fernando Gasparian nos deixou, valendo-nos da força de sua personalidade, dele, que foi acima de tudo o símbolo de uma geração tão rica de aspirações.


ALMINO AFFONSO , 77, é advogado. Foi deputado federal pelo PSB-SP, ministro do Trabalho e da Previdência Social (governo João Goulart) e vice-governador do Estado de São Paulo (1983-85).’


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 16 de outubro de 2006


INTERNET
Pedro Doria


Monopólio por competência


‘O Google está em alta, principalmente após sua aquisição do YouTube. Renovando seu interesse pelos sites de busca, as páginas de negócios de jornais de todo o mundo – Brasil incluso – encheram-se de análises. Umas sugeriam novos pontos no caminho de encontro entre Hollywood e a internet; outras chamavam a atenção para o crescente mercado de publicidade na web.


Mas antes que se perca de vista o que tudo isto quer dizer, não custa relembrar a história de Thelma Arnold, 62 anos, contada aqui neste Link, em agosto.


Com o objetivo de oferecer material de análise para sociólogos ou analistas de tendências, a AOL publicou 20 milhões de buscas feitas por seus usuários num total de três meses. Cada busca era ligada a um usuário por um número, que garantiria seu anonimato.


Repórteres do New York Times pescaram ao léu a pessoa 4.417.749 para analisar o que buscava na web. Era alguém ansiosa para encontrar gente solteira com mais de 60 na Geórgia, EUA, locais adequados para viver na cidadezinha de Lilburn ou quem tinha o sobrenome Arnold. Cruzando suas buscas, com um catálogo telefônico digital em mãos, descobriram que 4.417.749 era a senhora Thelma. Ela confirmou e permitiu que o jornal a identificasse.


A AOL retirou do ar os tais 20 milhões de termos de busca, o que não adianta nada – há cópias várias pela web. O Google jura que jamais revelará o que buscam nele. Mas gente como o colunista, que tem conta no Orkut e email no Gmail, sempre é identificado pelo Google quando entra. Tem uma vantagem, que é as buscas vão ficando mais refinadas, atentas ao tipo de seleção que costumo fazer. Tenho resultados melhores quando estou logado como Pedro do que quando sigo anônimo.


O preço é que o Google armazena três meses de minhas buscas – das buscas de todos. O dia que alguém revelá-las – basta que mudem de idéia -, saberão meus segredos mais ocultos, talvez até aquilo que eu não diga sequer ao divã.


E agora o Google tem o YouTube, que é um pé melhor do que qualquer outro em vídeo na internet. Assim como está trabalhando duro para por online tantos livros quanto lhe seja possível. Que ninguém entenda mal: isso é bom. Diferentemente de empresas como a Microsoft, aflitiva e eternamente atrás do prejuízo, a trupe do Google é antenadíssima, percebe antes de muita gente para onde vai a web e, por isso, chega antes.


A questão da privacidade das buscas já andou por este espaço, como também a questão de se o Google não virá a ser o novo vilão monopolista da internet. Mas some-se as questões e outros tipos de conclusões podem ser tiradas – e elas reafirmam os medos.


Quem estava por aqui na web lá pelos idos de 1994, 95, suando no acesso irregular via PPP a 2.400 bps, lembra de quando o nome Yahoo! começou a pipocar e o conceito de site de buscas nasceu. Nos anos seguintes, parecia que de tempos em tempos alguém lançaria uma tecnologia de indexação mais eficiente da web. Mas quem lembra, hoje, de coisas como Lycos, como Altavista – e quem diria que, a seu tempo, estiveram entre os cantões mais acessados da internet?


Quando o Google veio, não parecia ser muito diferente: era melhor e mais preciso em seus resultados, verdade, mas seguia a lógica da rede. Ano sim, ano não, um novo site de buscas melhor substitui a novidade anterior. A internet congelou, no entanto, lá por 2000. Se por metade de sua história comercial houve uma briga de foices pelo topo das buscas, na segunda metade o Google segue inabalável.


Por que, não importa quanto dinheiro tenham, Microsoft ou TimeWarner AOL ou Yahoo! ou seja lá mais quem são incapazes de produzir algo melhor que o Google, só sua própria incompetência o explica. Mas o fato é que, passados uns sete anos de seu surgimento, e por conta de sua competência, ressalte-se, os sujeitos cada vez mais dominam esse espaço que chamamos de público, de World Wide Web. Quando o Blogger era a coisa quente, tiveram o Blogger; quando é a vez do YouTube, é deles.


A Web é preciosa demais para o mundo e o Google está ficando poderoso demais. Que mais concorrência é preciso já está evidente. Ao que parece, o crescimento do sistema é mostra de que, mesmo num regime de livre mercado – e na internet é assim -, às vezes a concorrência não aparece.


Com alguma sorte, o colunista se provará errado. Mas monopólio pela competência estabelecida não é menos nocivo.’


Ricardo Anderaos


Táxi atômico


‘Uma fila de táxis e uma fila de turistas carregando suas bagagens se encontravam na saída de uma estação de trem em Nara, no Japão. Como tudo neste país, tanto os automóveis quanto os pedestres se moviam com rigorosa precisão. Quando a fila avançava, um carro parava exatamente no lugar demarcado, abria automaticamente a porta e, quando necessário, também o porta-malas.


Em poucos segundos o passageiro acomodava sua bagagem e se instalava no banco traseiro. As portas se fechavam sozinhas e o táxi partia velozmente, dando a vez ao seguinte. Uma enérgica senhora vestindo uma roupinha de vigia e aparentando quase 70 anos comandava o balé como ares de maestro, com um apito e um cassetete fosforescente na mão. Ela se inclinava respeitosamente, sorrindo para cada novo passageiro que parava na beira da calçada. Mas quem atravessava os passos dessa dança era rigorosamente repreendido.


Era manhã de segunda-feira e eu acabava de chegar à cidade. Estava louco para largar minha bagagem no hotel e sair para conhecer os mais antigos templos budistas do Japão. Quando vi a enorme fila que me separava de um táxi desanimei. Mas, depois de observar a cena por alguns segundos, percebi que a coisa seria rápida. Não demorou cinco minutos para chegar a minha vez.


Joguei a mochila no banco depressa, com medo de levar bronca da velhinha, e estiquei o papel com o nome do hotel escrito para o motorista ler – única forma de comunicação num lugar onde pouquíssima gente fala o inglês. O homem me olhava e não dizia nada. Sacudi o papelzinho e repeti o nome do hotel, mas ele continuava me olhando petrificado. Nem a porta do carro ele havia fechado. Será que eu tinha feito alguma besteira?


Não demorou cinco segundos para a velhinha chegar ao meu lado chacoalhando seu cassetete e falando alto com o motorista. Os dois começaram um bate-boca incompreensível, até que o homem aumentou o volume do rádio. Ela se calou imediatamente e os dois ficaram ouvindo e soltando interjeições guturais.


O táxi que estava atrás buzinou. A velhinha o mandou ficar quieto. O que será que estavam falando de tão importante naquele rádio, afinal? Por um momento, o locutor japonês interrompeu sua narração e pude a ouvir a inconfundível voz anasalada do presidente norte-americano George W. Bush. Logo o locutor começou a traduzir para o japonês o que ele estava falando, mas foi o bastante para eu ouvir Bush mencionando o nome da Coréia do Norte em alto e bom som.


O tempo parou por quase um minuto naquela fila da estação de Nara. Tempo necessário para que o motorista de táxi e a guardinha da estação de trem assimilassem a notícia de que a Coréia do Norte acabara de explodir sua primeira bomba atômica. E olha que uns minutos de atraso, pelos padrões japoneses, não é pouca coisa não.


Pela reação dos dois imaginei o impacto que a notícia estava causando, naquele exato momento, por todo o Japão. Afinal de contas, a Coréia do Norte está a um tirinho de espingarda daqui. E as feridas de Hiroshima e Nagasaki estão longe de fechar.


Na terça e quarta-feira da semana passada, enquanto os membros do Conselho de Segurança da ONU não se colocavam de acordo sobre que medidas adotar, empresas japonesas começaram espontaneamente a boicotar navios norte-coreanos ancorados em portos de seu país. O governo do Japão não teve como deixar de seguir esse mesmo caminho. Apesar de a Coréia do Norte declarar que qualquer bloqueio em grande escala será interpretado como um ato de guerra, e deixar vazar declarações de ‘funcionários não-identificados’ sobre um eventual lançamento de mísseis com bombas atômicas em represália.


Ninguém sabe aonde vão nos levar os desdobramentos do teste atômico norte-coreano. Mas é indiscutível que esse acontecimento é o marco de uma nova era de insegurança para todo o planeta.


Na minha memória ele vai ficar para sempre resumido no olhar assustado daquele motorista e no silêncio da velhinha que vigia a fila dos táxis na estação de Nara, no Japão.’



Marili Ribeiro


Montadoras se rendem à internet


‘Não basta intensificar a comunicação na web. Coisa que a indústria automobilística já assumiu como essencial. Há três anos destinava, no máximo, 3% do total de sua verba em marketing para ações na internet.


Atualmente, as maiores companhias do setor admitem investir entre 10% e 15% da verba total nesse canal.


Ao triplicar os gastos na veiculação virtual, seja em seus sites seja em anúncios nos diferentes portais, as montadoras redobraram também a aposta na qualidade, fazendo ruir o mito de que propaganda na internet é baratinha.


Sem querer revelar os valores envolvidos na campanha que acaba de entrar no ar para o lançamento do Fiat Idea Adventure, João Ciaco, diretor de Marketing da Fiat, reconhece que a produção de um vídeo para a internet é tão planejada e cara quanto a que se faz para realização de um filme para a televisão.


Para esta última ação contratou a produtora do festejado cineasta Fernando Meirelles.


‘Se a criação para a internet não for feita com características de qualidade e entretenimento, não se consegue prender a atenção do consumidor’, diz Ciaco.


A busca de sofisticação no trato dado ao material publicitário produzido para a internet deve-se também à natural expansão da rede virtual, na avaliação do diretor de Marketing da General Motors, Samuel Russell.


OFERTA INTENSA


‘Antes, quando poucos acessavam a web, despejava-se ali o mesmo material feito para outros veículos de comunicação, sem a devida adaptação à linguagem do meio, o que, de certa forma, barateava o custo’, diz Russell. ‘Mas, diante da intensa oferta hoje disponível, o internauta só vai gastar seu tempo com o que realmente vale a pena de se ver.’


Mesmo para quem não acreditava no poder de influência de um clique junto ao consumidor no negócio automobilístico, a primeira experiência do gênero reverteu a expectativa.


‘Foi uma boa surpresa o investimento que fizemos na internet para estimular as vendas do Picasso Seleção’, conta a diretora de Marketing da Citroen, Nívea Morato. ‘A visitação do nosso site pulou de 110 mil acessos por mês para 230 mil.’


Os sites das montadoras assumiram papel relevante na hora da compra. Pesquisas da GM indicam que 52% dos compradores iniciaram o processo na internet. O site da empresa recebe visitação mensal de um milhão de pessoas.


CHEIRINHO DE CARRO NOVO


Na Fiat não é diferente, com 60% dos consumidores comparando condições técnicas dos modelos oferecidos e decidindo sobre quais acessórios que vão querer no próprio site. ‘Sobrou para o ponto-de-venda apenas promover o cheirinho de carro novo’, brinca Ciaco.


A qualificação cada vez maior na publicidade via web justifica os gastos crescentes. Caso da ousadia que entra em cartaz no próximo dia 21 no site da Fiat e convida o internauta a brincar de cineasta no hotsite da empresa, como parte da campanha de lançamento do Idea Adventure.


Amparada pelo tema ‘a vida é uma aventura’, há no site 16 propostas de frames de filmes para se montar uma história, todas elas criadas e roteirizadas pela AgênciaClick e produzidas e filmadas pela O2Filmes, com direção de Rodrigo Meirelles. O internauta recebe as instruções para montar um curta-metragem com cinco a seis minutos de duração.


O ineditismo da iniciativa se juntará a outra proposta que também tenta explorar a interatividade conseguida na internet, só que, desta vez, no cinema. ‘Trata-se uma ação que nunca foi feita antes no mundo’, enfatiza o diretor de criação da AgênciaClick, Ricardo Figueira.


‘É bastante complexo porque exige sincronização de sistemas nos cinemas e vamos aplicar a ação. As escolhas que definiram o filme publicitário que as pessoas vão ver antes da sessão de cinema serão decididas a partir das respostas a peguntas feitas no telão da sala de cinema e respondidas pelo celular. No final, a maioria define’, completa.


MAIS PROFISSIONAIS


Até o final deste mês, algumas salas de cinema em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, somente aquelas com recursos digitais , participarão da brincadeira.


‘A comunicação interativa integra ainda mais o atual estágio de relação dos consumidores com suas marcas’, considera Ciaco.


O custo de integrar tudo isso criativamente envolve um time cada vez maior de profissionais. Para viabilizar ‘filme interativo’ para o cinema e o hotsite, por exemplo, foram chamados cinco diferentes fornecedores , mais de 40 dias de trabalho e 50 horas de material produzido.


Tudo isso, para o espectador decidir como contar cinco minutos de uma mesma história.’


PIRATARIA
Editorial


Tudo favorece a pirataria


‘Os brasileiros sabem que pirataria é crime e que a compra de produtos pirateados, falsificados e contrabandeados causa desemprego, lesa direitos, diminui a receita de impostos e alimenta o crime organizado. Mas, apesar disso, o mercado desses produtos prospera e os compradores são cerca de 79 milhões de pessoas, segundo pesquisa da Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ) em parceria com o instituto Ipsos. Os técnicos poderão discutir se a estimativa, baseada em respostas colhidas em mil domicílios situados em 70 cidades de 9 regiões metropolitanas, é confiável. Mas isso não desqualifica as principais conclusões, alarmantes, apesar de nada surpreendentes, e reforça a convicção de que há muito que fazer, ainda, para atenuar o problema.


O primeiro dado é uma obviedade: 93% dos consumidores de produtos do comércio ilegal apontam a diferença de preço como principal motivação da compra. Parte da diferença de preço é explicável pela pesada tributação dos bens de consumo. Os produtos mais comprados – CDs, apontados por 86% dos entrevistados, e DVDs, indicados por 35% – são muito caros para grande parte dos brasileiros.


Os pobres e remediados podem comprar toca-discos e até aparelhos de DVD a prazo, nas lojas populares, pagando grande número de prestações. Os juros são altos, mas, apesar disso, as parcelas podem caber em seu apertado orçamento. O mais difícil é comprar os discos.


Outros produtos de consumo também atraentes, como relógios, óculos, tênis e brinquedos, são igualmente muito mais acessíveis nas bancas de produtos falsificados e contrabandeados. Como convencer as pessoas de que devem renunciar ao consumo desses bens, quando todas são bombardeadas continuamente por estímulos publicitários? Mas os consumidores não são apenas os pobres ou remediados. Quando se perguntou que produtos piratas não seriam comprados, 40% indicaram equipamentos eletrônicos, 37%, programas de computador, e 30%, acessórios para veículos. A resposta ‘cívica’ seria ‘nenhum’.


As manifestações dos entrevistados, nessa parte da pesquisa, são tão racionais, do ponto de vista do consumidor, quanto a preferência pelo preço mais baixo. Baixa qualidade foi o motivo apontado por 42% dos consumidores para a rejeição daqueles produtos. Para 14%, o problema era a falta de garantia. A intenção de evitar prejuízos para o comércio formal foi mencionada por apenas 5% dos entrevistados.


No entanto, as entrevistas mostraram que os consumidores têm consciência dos males causados pelo comércio ilegal. Prejuízos para o artista foram mencionados por 83%. Sonegação de impostos foi citada por um número igual. Vantagens para o crime organizado foram apontadas por 70%. Tudo isso compõe um exemplo notável de como a vantagem pessoal pode pesar mais, nas decisões de cada um, do que a percepção dos males sociais acarretados pelo crime.


Se os dados da pesquisa estiverem corretos, não se deve esperar muito das campanhas de conscientização. Será preciso dar muito mais peso ao trabalho de prevenção e de repressão da pirataria, da falsificação e do contrabando.


Mas nenhuma solução produzirá grande efeito, isoladamente. É preciso reconhecer que o problema está associado aos custos da produção e do consumo. O consumidor paga impostos muito pesados sobre os bens que saem das fábricas brasileiras. Mas, antes da compra final, esses produtos já são muito caros por causa dos custos excessivos da produção nacional: impostos, crédito escasso, deficiência de infra-estrutura e insegurança. O crime não está presente apenas no contrabando, na pirataria e na falsificação. O roubo de cargas encarece também a produção nacional: diretamente, pelo desvio de mercadorias; indiretamente, pelos gastos com segurança realizados pelas empresas. Bem pesados todos os fatores, a conclusão é inevitável: o sucesso do comércio ilegal, no Brasil, é apenas mais um efeito das muitas deficiências da economia nacional – a começar pelo excesso de impostos e pela escassez de investimentos públicos.’


TELECOMUNICAÇÕES
Renato Cruz


Portabilidade tem alcance limitado


‘A partir de 2008, será possível mudar de operadora de telefonia e manter o número. As regras para a portabilidade numérica foram colocadas em consulta pública pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). A medida deve aumentar a competição no setor de telecomunicações. Na telefonia fixa, no entanto, a mudança deve se concentrar nas famílias das classes A e B, com renda média acima de R$ 4.866 por mês, que representam 24% dos domicílios no Brasil, segundo estudo da consultoria Accenture.


Essa fatia corresponde aos 11 milhões de residências atendidas pela rede de TV a cabo, hoje a principal alternativa às operadoras na telefonia fixa. ‘Quase oitenta por cento da população não teriam para onde portar o número’, afirmou Ricardo Distler, sócio responsável por Estratégias em Comunicações da Accenture. ‘Para quem mora em Itaquera, será inútil.’


Apesar de serem 24% das residências, as classes A e B respondem por 56% do faturamento residencial das operadoras de telefonia fixa, que totalizava R$ 1,545 bilhão por mês em 2003 e 2004. A compra da Vivax pela Net, na semana passada, pode ser vista como parte da estratégia da Embratel de alcançar esse público. A rede das duas empresas de TV a cabo passam por 3,4 milhões de residências no Estado de São Paulo, área da Telefônica, e por 8,4 milhões em todo o País. A Embratel, que pertence ao bilionário mexicano Carlos Slim Helú, participa do controle da Net. A Telmex, empresa de Carlos Slim, é a maior concorrente da espanhola Telefónica na América Latina.


POSIÇÃO


Durante o evento Futurecom, que aconteceu no começo do mês em Florianópolis, o presidente da Net, Francisco Valim, defendeu a portabilidade numérica. ‘Precisamos aumentar a competição’, afirmou o executivo. A empresa tem muito a ganhar, pois começou a oferecer telefonia fixa este ano. A opinião sobre o tema depende muito da posição que cada empresa ocupa no mercado.


‘A portabilidade é positiva’, afirmou Mario Cesar Pereira de Araujo, presidente da TIM Brasil, segunda maior operadora celular do País. ‘A população quer e incentiva a competição’, disse João Cox, presidente da Claro, a terceira maior. Já Roberto Lima, presidente da Vivo, a maior celular, criticou a medida. ‘O ambiente já é extremamente concorrido’, argumentou o executivo. ‘Será uma pressão adicional nas margens das operadoras.’ A Vivo foi formada principalmente por empresas que faziam parte do Sistema Telebrás e tem, portanto, usuários mais antigos, que oferecem mais resistência à mudança de número.


Dominando cerca de 95% do mercado em suas respectivas regiões, as concessionárias de telefonia fixa são mais resistentes à portabilidade. ‘Já não acredito mais em portabilidade’, afirmou Luiz Eduardo Falco, presidente da Telemar. ‘Ela atende a um grupo pequeno de consumidores, que querem manter o número. O celular já tem 25% de churn (taxa de clientes que trocam de operadora). Com a portabilidade, deve aumentar um pouco o churn e depois se acomodar. O benefício é temporário e o custo eterno.’ O custo, no caso, seria a criação e manutenção de uma estrutura que concentrasse as informações sobre numeração e direcionasse as chamadas.


Distler, da Accenture, considera possível o cenário traçado por Falco, de um pico no porcentual de perda de clientes e uma volta aos níveis atuais. ‘Isso poderia acontecer se as operadoras, depois do início da portabilidade, melhorassem sua estratégia de retenção dos usuários, tratando-os com mais carinho.’ Ele não acredita em guerra de preços no Brasil.


EXPERIÊNCIA


A experiência mundial mostra que o sucesso da portabilidade depende muito do regulamento. ‘Ele tem que ser bem escrito, com meios efetivos para que o regulador garanta a sua execução’, afirmou o consultor. Os pioneiros da portabilidade numérica foram Hong Kong e Reino Unido. Eles permitiram a manutenção do número de telefone fixo na troca de operadora desde 1996 e do número móvel desde 1999. Os resultados, no entanto, foram bem diferentes.


Em Hong Kong, o total de números portados chegou a 90,1% do total da base de celulares em outubro de 2005. Isso não quer dizer que 90% dos clientes trocaram de operadoras, pois o porcentual inclui pessoas que mudaram várias vezes.


‘Em Hong Kong, foi uma revolução’, afirmou Distler. ‘Houve uma guerra de preços destrutiva, com redução de 70%.’ Nos fixos, o índice de números portados chegou a 47,6% da base de assinantes.


Um fator que influencia o sucesso da portabilidade é o tempo dado à operadora para atender ao pedido dos clientes. Em Hong Kong, é de um ou dois dias. No Reino Unido, de 15 a 25 dias úteis. Além disso, houve dois outros problemas no Reino Unido, onde a portabilidade ficou em 8,3% da base para os celulares e 1,9% para os fixos. Lá, a operadora que perde o cliente pode cobrar uma taxa de US$ 47 a US$ 125 para liberar o número. E o regulador não tem muitos instrumentos para obrigar a operadora a cumprir as regras.


Empresas buscam ligar número ao nome


Um número de telefone fácil de lembrar é o equivalente, no mundo das telecomunicações, a uma boa localização no mundo físico. As empresas brasileiras começam a adotar, cada vez mais, uma estratégia comum nos Estados Unidos: ligar seu número ao nome. ‘Nossa equipe de vendas já leva essa opção’, afirmou o vice-presidente da Embratel Empresas, Maurício Vergani. ‘A maioria que procura esta solução são multinacionais.’


Nas principais regiões metropolitanas, a American Express usa o número 4004-2639, que no teclado alfanumérico vira 4004-AMEX. O Citibank adota, para atendimento ao cliente em São Paulo e no Rio de Janeiro, 4004-2484. Ou 4004-CITI. A tendência se consolidou graças ao crescimento do celular, que chegou a 94 milhões de assinantes no País em agosto e conta com letras e números no teclado.


A Porto Seguro Seguros foi uma das pioneiras nessa tendência. ‘Faz uns três anos, e algumas pessoas ainda confundem’, afirmou Ismael Caetano, gerente de Marketing da empresa. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, o número é 3337-6786, ou 333-PORTO. A empresa comprou o número de outro assinante, com o apoio da Telefônica Empresas, em São Paulo.


‘Também compramos outras 20 linhas, com números próximos’, explicou Caetano. Assim, se o cliente errar, existe uma chance de cair na central da seguradora. ‘Não pagamos muito por elas. Principalmente para as pessoas que recebiam ligações de clientes nossos por engano.’ Alguns receberam R$ 600 pela linha. Outros, R$ 1,5 mil. Em outras cidades, o número é 4004-PORTO, fornecido pela Embratel. A central da Porto Seguro recebe cerca de 1 milhão de chamadas por mês. Entre 35% e 40% chegam pelo número 333-PORTO.’


TELEVISÃO
Beatriz Coelho Silva


A volta do campeão de audiência


‘A partir de hoje, os noveleiros embarcam para o passado recente. Vai começar a nova novela das 6 da Globo, remake de O Profeta, exibida nos anos 70 na TV Tupi. A história de Marcos, vidente que se aproveita do dom para subir na vida, é castigado e se redime, foi reescrita por Duca Rachid e Thelma Guedes, com supervisão de Walcyr Carrasco. Ele é um Midas do gênero desde Chica da Silva, dirigida por Walter Avancini, na Rede Manchete, em 1997. Juntos balançaram o horário nobre. Carrasco foi logo para a Globo, onde emplacou sucessos. Chocolate com Pimenta está em reprise à tarde e Alma Gêmea foi campeã dos fins de tarde até o início deste ano.


Numa tarde da semana passada, Carrasco, Duca e Thelma contaram ao Estado como será O Profeta e como se faz dramaturgia para milhões, misturando ingenuidade e maldade em tramas de época. ‘Quero desfazer o mito de que o público manda na novela’, disse ele. ‘O público reage e cabe a nós entender essas reações.’ Alunas aplicadas, Thelma e Duca mais ouviram que falaram. Eis um resumo da conversa:


De quem foi a idéia de refazer O Profeta e de levar a ação para os anos 50?


Walcyr – A idéia é do Roberto Talma e levamos a ação para os anos 50 porque a novela tem uma ingenuidade que se preservava nos anos 70. Hoje, nem tanto. Naquelas décadas, os conceitos de bom e mau eram definidos. A época também dá o tom das tramas espiritualistas que acontecerão. Outras, como o casal romântico e a mulher separada, se colocam melhor na época. Não que hoje não seja assim, mas as pessoas mascaram um pouco mais.


Na novela de época, o caráter dos personagens é mais definido?


Walcyr – Não é isso. Os conceitos de bem e mal eram mais caracterizados. As pessoas tinham certeza sobre o correto e o incorreto, mesmo que não agissem de acordo. Hoje as visões são flexíveis, dependem do grupo social a que se pertence. Nesta novela, ninguém é bom ou mau o tempo inteiro. Até porque lida com o espiritualismo, com a transformação do ser humano.


Por que o espiritualismo é recorrente em sua obra?


Walcyr – O autor só escreve bem o que tem dentro de si. Sou espiritualista e é natural abordar o assunto em minhas novelas. A Thelma e a Duca também são e nem fariam esta novela se não fossem. Quando as pessoas não acreditam no assunto que escrevem fica um horror porque tentam combatê-lo.


O que ficou do original de Ivani Ribeiro e o que é novo?


Walcyr – Guardamos a história básica, mas é difícil detalhar o que ficou e o que saiu.


Thelma – No curso de roteiro que fiz na Globo, a gente estuda muito e depois esquece os livros para usar só o que ficou. Lemos e resumimos todos os capítulos da Ivani. Na hora de escrever pedimos licença para fazer novela do nosso jeito. Mas ela está presente. Às vezes, criamos uma cena e, quando procuramos, está lá no original.


Walcyr, você trabalhou muito com Walter Avancini. Como ele te influenciou?


Walcyr – Ele foi um mestre, que me ensinou a dialogar comigo mesmo e trazer à tona minha ousadia criativa. Ele falava para não ter medo, que tudo era possível, que a gente devia ir fundo. Assim, fica-se mais criativo.


Tudo é permitido na dramaturgia ou devido aos recursos de produção?


Walcyr – Ambos. Ele dizia para não pensar muito, porque apostar no certo é uma boa forma de dar errado. Avancini mandava arriscar porque assim ia dar certo. Às vezes dá errado, mas não se pode ter medo de fazer um personagem virar da água para o vinho porque isso é dramaturgia.


Duca – Para fazer novela você não pode temer ir adiante, soltar a história, se entregar. Quem se contém não vai. Eu conheço gente que escreve muito bem mas tem medo. É preciso soltar a franga.


Walcyr – É uma questão também do estilo da novela. Se é romântico, pressupõe liberdades que o naturalismo não te dá. No romântico, as paixões são exacerbadas, as pessoas podem literalmente morrer de amor. Os poetas românticos, Castro Alves, eram assim e o folhetim nasceu naquela época. Busco o romantismo porque esta é minha natureza. Gosto da paixão forte, mas também do humor, que não é do estilo romântico.


E como vocês dosam romantismo, vilania, humor?


Walcyr – Intuição. Novela não é jornalismo, não segue uma pauta. Aliás, quero desfazer o mito de que o público manda na novela. Se houvesse, dentro da Globo, alguém que me dissesse o que o público quer porque a pesquisa indicou, eu me ajoelhava aos pés dessa pessoa. Nós autores ganhamos para resolver a trama. O público reage e cabe a nós entender essas reações. Em Alma Gêmea, as pessoas me abordavam na rua para castigar Cristina (vilã vivida por Flávia Alessandra). Falavam que, se eu não desse um jeito, não iam mais ver a novela. Eu não castigava e a audiência aumentava porque o personagem funcionava muito bem. O público tinha tanto ódio que esperava todo dia o castigo.


Mas novela não é obra aberta?


Walcyr – A novela é um trabalho aberto porque o autor reage à performance do ator, ao que as pessoas falam na rua, mas se ele se levar pela opinião explícita do público, deixa de ser autor. Nosso trabalho é criar em relação ao que ouvimos.


Thelma – Eu sou a primeira receptora do trabalho. Se estou gostando, se funciona para mim, confio que será bom. Quando se faz novela, é preciso acreditar que é a melhor coisa do mundo, é bárbaro. Mas é sempre um jogo, com variáveis que não controlamos.


Walcyr – Isso mesmo. Se o autor não se emociona com a cena que escreve, não emocionará ninguém. Se não rir, ninguém rirá. A pesquisa aponta tendências, te dá uma segurança, mas é o autor que deve saber o que fazer.


Duca – A novela, para mim, é um lago escuro. Você imagina o que está lá dentro, mas só sabe quando mergulha. Aí vai um pouco ali, um pouco aqui, vai mais adiante e tem uma hora em que você conhece tudo daquele lago e nada mais tranqüilo. E é isso, é preciso entrar devagar, explorar, descobrir relações, histórias, tramas… Neste momento, começamos a conhecer o lago.’


Renata Gallo


Promessa cumprida


‘Muitos prometeram, mas é a Record que sai na frente e estréia amanhã seu terceiro horário de novela. A partir de amanhã, a rede coloca no ar Alta Estação, que será seguida de outras duas produções nacionais: Bicho do Mato e Cidadão Brasileiro.


Não é novidade que a Record sonha em ser a Globo, mas foi há menos de dois anos, com a estréia de Escrava Isaura, que a empresa decidiu tirar o plano do papel e trabalhar a prática. Contratou funcionários da Globo – do front e dos bastidores -, investiu em equipamentos e até em cidade cenográfica.


Escrava Isaura foi um sucesso, obteve 15 pontos no Ibope. Prova de Amor, outro produto da casa, chegou a ter média de 21 pontos – e bateu o Jornal Nacional por alguns minutos. Agora, Bicho do Mato e Cidadão Brasileiro têm média de 10 pontos, mas o público já sabe que a Record também produz novela.


O ciclo foi formado. Em novembro, no lugar de Cidadão, entrará Vidas Opostas, de Marcílio Moraes. Em fevereiro, outra produção ocupará a vaga de Bicho do Mato. Em junho, Tiago Santiago, autor dos sucessos Escrava Isaura e Prova de Amor, estréia nova novela. A Globo que se cuide.


O Bandido da Luz Vermelha no Linha Direta


A história dele já virou filme, e agora será reconstituída no Linha Direta Justiça. A Globo começa a gravar esta semana no Rio o caso do Bandido da Luz Vermelha, que irá ao ar em dezembro. André Gonçalves e Alexia Deschamps participam do episódio que retratará a vida de João Acácio, um homem que levava uma vida dupla. Nas folgas de seus crimes, era um pacato morador de Santos, que gostava de imitar Roberto Carlos e conversar com a vizinhança. A fama de luz vermelha vinha do hábito de usar uma lanterna com bocal vermelho em seus assaltos.’


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