Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Do fundo da alma

Por Leão Serva em 18/01/2005 na edição 312

O 6º Congresso Internacional de Jornalismo de Língua Portuguesa foi muito útil para mostrar que não é só no Brasil que a concentração de meios de comunicação ameaça a democracia e a cidadania. Também em Portugal o tema é considerado urgente, com as aquisições feitas nos últimos anos pela Portugal Telecom, considerada um polvo grande demais para a democracia portuguesa. Esse tema foi muito bem abordado na conferência do jornalista Fernão Lara Mesquita [remissão abaixo].

De meu lado, considerei o mais impactante da experiência do Congresso um episódio emocionante ocorrido no ‘último segundo’ do evento, já ao apagar das luzes do jantar de confraternização dos conferencistas, na noite de terça-feira (11/1).

Ao final do jantar, os jornalistas mais jovens, reunidos em uma mesa cheia de africanos mais o representante de Timor Leste, propuseram que se fizesse uma cantoria. Propunham que os brasileiros cantassem alguma coisa, mas nossa turma se intimidou. O pequeno António dos Santos de Matos (de Díli, Timor), que aprendeu português já na adolescência e que pela primeira vez na vida viajava a outro país de lusófono, levantou-se e começou a cantar um fado clássico, que falava das janelas de Lisboa.

Formou-se um silêncio sepulcral para ouvir aquela impossibilidade (em Timor, o português é língua do colonizador que foi embora em 1975; língua de padres, freiras e pessoas mais velhas; idioma que agora tenta se recuperar para fazer parte da identidade nacional, lutando contra o inglês dominante). Um jornalista português quase chorou.

Em seguida os africanos puxaram um samba, o inesquecível Trem das Onze. E não pensem os leitores que isso terá sido fruto de memórias de vivências no Brasil: a música brasileira é dominante nos países africanos de língua oficial portuguesa (os ‘PALOP’, como são chamados em Portugal). No final dos anos 1970, em Guiné Bissau, havia uma moda de cantar iê-iê-iê com sotaque brasileiro, tão grande era o sucesso da Jovem Guarda no país.

Naquele encerramento do Congresso, um gesto lúdico simbolizou a grandeza da experiência colonial e da resposta um quê antropofágica que os colonizados geraram de sua história. De como o português cruzou pela força os oceanos e, agora, é parte da cultura e integrante profundo da alma dos ex-colonizados – uma forma afetuosa e efetiva de comunicar e criar uma solidariedade lusófona, que é também pós-lusa.

(*) Jornalista, diretor do iG (www.ig.com.br) e criador do jornal online Último Segundo (http://ultimosegundo.ig.com.br/)



Entrevista / Fernão Lara Mesquita

O jornalista Fernão Lara Mesquita, diretor do Grupo O Estado de S.Paulo, participou do 6º Congresso Internacional de Jornalismo de Língua Portuguesa (Lisboa, 10 e 11/1/2005), onde apresentou a comunicação ‘A ameaça da imprensa ‘corporate’’.

***

Como avalia os resultados do Congresso? Qual a melhor surpresa e qual a maior frustração?

Fernão Lara Mesquita – Excelentes. A troca de informações e o cruzamento de culturas sempre foram o combustível da ampliação do conhecimento e do desenvolvimento. O Portugal do infante D. Henrique e de Sagres, que plantou as sementes de que acabamos surgindo nós, brasileiros, é a maior prova histórica disso. Foi ele o precursor do ‘globalismo’ e o inventor da receita que os norte-americanos usam até hoje. A melhor surpresa foi o excelente nível de algumas das intervenções ouvidas no Congresso. A maior frustração foi a confirmação da preferência dos lusitanos pela ‘palavrosidade’ em detrimento da tomada de decisões práticas.

Quais as diferenças mais notáveis entre o jornalismo praticado no Brasil e nos demais países lusófonos?

F.L.M. – Não acompanho suficientemente o jornalismo lusófono para fazer uma avaliação. Mesmo assim, notei grande progresso na imprensa portuguesa em relação ao período em que tive mais contato com ela, há cerca de 15 anos, quando ela me parecia literalmente jurássica. Hoje, pelo pouco que pude ver, ela aparentemente não se diferencia para pior, no nível técnico, da média do que se vê por aqui.

O que temos a ensinar e a aprender com eles?

F.L.M. – O Congresso era sobre a imprensa lusófona, é verdade. Mas senti nossos companheiros europeus e africanos alheios demais aos problemas globais que afetam maciça e decisivamente a imprensa e a prática do jornalismo como as definimos até hoje.

Pelo lado do que podemos aprender com eles, elejo, além da boa linguagem, ferramenta essencial do nosso métier, a sólida formação de base humanística exibida especialmente por alguns dos palestrantes europeus.

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